Resenha: Step into Light – Fastball

Reprodução da capa do álbum (© 33 1/3 Records)

No Brasil, o simpático trio estadunidense de rock Fastball é bem pouco conhecido, apesar de seus hits “The Way” e “Out of My Head” terem figurado em rádios na última virada de século. Foram até regravados pelos cariocas do LS Jack numa versão aportuguesada da primeira faixa supracitada, mas fato é que a banda goza de um lamentável anonimato por aqui.

Satisfeitos porém com o sucesso no Texas, seu estado natal, os rapazes retornam em 2017 oito anos depois de seu último álbum, o bom Little White Lies. Mais recentemente, em 2013, para “enganar o estômago”, tivemos o lançamento de My Favorite Year (resenhado neste blog), ótima estreia solo do vocalista, baixista, tecladista e guitarrista Tony Scalzo.

Step into Light talvez não agrade de imediato, mas bastam poucas ouvidas para (re)conquistar o fã. A abertura “We’re on Our Way” resgata um peso que não se ouvia desde a estreia do trio, o punk Make Your Mamma Proud, de 1996. Tal clima punk será ressuscitado novamente na nona faixa, “Secret Agent Love”. Mas não, não é um álbum que volta às raízes.

É mais uma atualização do som mesmo. “Best Friend”, o divertido single “I Will Never Let You Down” e a faixa título, com seu compasso ternário-baladístico, são exemplos disso. São, indiscutivelmente, Fastball. Só que um Fastball dos anos 2010. Mas não se preocupe, saudosista: as ótimas “Just Another Dream” e “Hung Up” resgatam aquele “quê” particularíssimo do grupo.

As influências às vezes gritam. O dedilhado blackbirdístico dos Beatles dá as caras em “Behind the Sun” enquanto que o trio parece incorporar o popular quinteto escocês indie Franz Ferdinand no instrumental “Tanzania”.

E há ainda um bom pedaço do álbum formado por faixas que destoam bastante do som típico dos tiozões, evidenciando uma busca por uma música mais variada. Neste grupo, entram “Love Comes in Waves”, single divulgado lá atrás, em 2013, e com um forte apelo indie; “Lilian Gish” e sua sofisticada roupagem alternativa; e a pianística “Frenchy and the Punk”.

Além da afiada química musical dos membros e do talento para escrever coisas bem bacanas, o Fastball tem como marca registrada a maravilhosa harmonização vocal de Tony com o guitarrista Miles Zuniga. Arrisco dizer que os texanos perderiam quase metade de seu charme se não houvesse esse trabalho com as vozes. E, graças a Dio, tudo isso está bem condensadinho aqui, nos pouco mais de 30 minutos de Step into Light.

Nota = 4/5. A mescla bem calculada de trabalhos típicos, trabalhos diferentes e trabalhos que incorporam o novo ao tradicional resultam num ótimo laçamento desta pequena grande banda texana, mantendo o bom nível de seus lançamentos anteriores.

Abaixo, o vídeo de “I Will Never Let You Down”:

Resenha: Jardim-Pomar – Nando Reis

Reprodução da capa do álbum (© Relicário)

Reprodução da capa do álbum (© Relicário)

Se um dia montassem uma lista de artistas brasileiros que se autossabotam, Nando Reis estaria no top 10. Depois que saiu dos Titãs em 2001, sua carreira solo ficou marcada por baladinhas românticas ou, se muito, parcerias com Cássia Eller. Mas, caramba, ele é TÃO mais que isso… Seria bom se os tr00 666 from hell ouvissem além das rádios antes de desqualificá-lo. E olha que muitas das tais baladinhas românticas são de tirar o chapéu.

A versatilidade do paulistano fica escancarada como nunca em Jardim-Pomar, seu oitavo trabalho de estúdio. As faixas passam por diversas influências e temáticas, sendo que tal variabilidade é resultado da ação de dois produtores diferentes trabalhando no mesmo disco: Jack Endino (que já havia colaborado com Nando em Sei (resenhado neste blog)) e Barrett Martin, ambos dos Estados Unidos. Embora Nando não tenha ainda especificado exatamente quem produziu quais músicas, ele já deu a dica em entrevista para O Globo: “Sendo Barrett um baterista, muitas vezes a chave está na batida”.

A tríade de abertura, “Infinito Oito”, “Deus Meio” e “Inimitável”, é um dos momentos mais marcantes do álbum, e essa marca tem nome: Jack Endino, que toca guitarra em todas e, podemos deduzir, produziu-as também. Instrumentalmente, são de qualidade acima da média na carreira solo do barbudo e é impossível não querer ouvir o resto do disco depois delas.

As sempre presentes declarações de amor começam a mostrar a cara em “4 de Março”, onde Nando homenageia sua esposa Vânia de maneira íntima e elegante. “Só Posso Dizer”, que recebeu aqui duas versões (uma gravada em São Paulo e outra em Seattle, mais lenta), foi o single escolhido para divulgar Jardim-Pomar. Não chega a ser ruim, mas tinha tanta opção melhor…

“Concórdia” a única não inédita, é apenas uma regravação de uma canção que ele mesmo fez e que saiu em Vivo Feliz (2003), de Elza Soares. Sonolenta, ela ganha seu charme nas cordas do Fassbinder String Quartet, que reaparecem na igualmente monótona “Água Viva”.

“Azul de Presunto” traz, de uma vez só, seus ex-colegas de Titãs Arnaldo Antunes, Branco Mello, Sérgio Britto e Paulo Miklos; seus filhos Theo, Sebastião e Zoe; e as consagradas e modernas vozes femininas de Luiza Possi, Pitty e Tulipa Ruiz. Este impressionante time foi chamado apenas para fazer vocais de apoio. A harmonia funcionou legal e ela é uma das melhores, mas chamar tudo isso de gente só pra fazer eco? Que desperdício…

A peteca levantada pela faixa cheia de vocalistas é mantida no alto por “Lobo Preso em Renda” e “Pra Onde Foi?”, com instrumentações adultas e aquelas letras sem refrão típicas do ruivo. Temos aqui o segundo (e último) grande momento do lançamento.

A reta final perde um pouco o gás e nos entrega a simpática “Como Somos” (parceria com o indefectível Samuel Rosa e única que não é 100% assinada por Nando); a já mencionada “Água Viva”; a surpreendente “Pra Musa”, que se inicia tão leve quanto sua antecessora e acaba com a roupagem rock que marcou o início e o meio do disco; e a segunda versão de “Só Posso Dizer”.

Apesar do sucesso e da vasta experiência, Nando ainda não recebeu todo o reconhecimento que merece. Isto ocorre talvez porque a ênfase em hits radiofônicos ofusca o trabalho musical primoroso que é desenvolvido em seus álbuns, e que só tem crescido ao longo desses 20 anos solo. Um dia, mais pessoas compreenderão que ele é um mestre na arte de fazer música boa.

Nota = 4/5. As grandes canções de Jardim-Pomar fazem você desconsiderar aquelas poucas mais chatas. Nando Reis atinge aqui um ponto alto de sua carreira, com instrumentação admirável e letras direto das profundezas de um ser humano com todas as suas angústias e alegrias.

Abaixo, a faixa “Infinito Oito”:

Resenha: This House Is Not for Sale – Bon Jovi

Reprodução da capa do álbum (© Island Records)

Reprodução da capa do álbum (© Island Records)

Nem a crítica nem os fãs se entendem quando o assunto é Bon Jovi. O quinteto já deu à luz 13 álbuns de estúdio (incluindo este) e você encontrará diferentes grupos defendendo que cada um deles foi o último grande lançamento do quinteto. Alguns diriam até que a banda nunca fez nada que preste!

O que é uma tremenda injustiça, claro. Não reconhecer a importância e a qualidade que eles já tiveram é de uma desonestidade intelectual quase criminosa. Mais desonesto do que isso, só a recusa em reconhecer o quão ruim anda o grupo.

This House Is Not for Sale, décimo terceiro álbum de estúdio dos cinquentões/sessentões, infelizmente confirma o que eu digo. Sem sombra de dúvidas, é um trabalho melhor que os fraquinhos What About Now e Burning Bridges (resenhados neste blog aqui e aqui). Mas ainda deve muito para o último bom disco da banda, The Circle (pronto, já descobrimos a qual facção de fãs do Bon Jovi eu pertenço).

Das pouquíssimas faixas que valem a pena nesta obra, destaco a faixa-título, inspirada pela fotografia que acabou virando a capa do disco; “Labor of Love”, onde Jon Bon Jovi parece estar incorporado pelo conterrâneo Bruce Springsteen; “The Devil’s in the Temple”, uma continuação dos recados à indústria musical que já eram dados em “Burning Bridges”; e “God Bless This Mess”, talvez a letra mais relacionável do álbum.

Aliás, o único legado do Bon Jovi que foi respeitado em This House Is Not For Sale é a diversidade de letras, com as quais todos podem se identificar. Mas confesso envergonhado que este parágrafo é na verdade uma tentativa desesperada de achar alguma coisa boa no álbum, apenas por ser fã da banda.

Quem tiver estômago pode correr atrás de diversas edições especiais, o que pode render até sete faixas bônus – todas igualmente ruins, com exceção da marcante “We Don’t Run”, que já havia sido lançada anteriormente.

Há duas mudanças importantes na formação do grupo neste álbum: pela primeira vez em mais de duas décadas de parceria, o baixista Hugh McDonald é citado como membro oficial. Além disso, e mais notoriamente, temos a entrada definitiva de Phil X no lugar de Richie Sambora. Que diferença isso fez com relação a What About Now? Quase nenhuma. Explico a seguir.

Em primeiro lugar, o verdadeiro guitarrista aqui, segundo declaração do baterista Tico Torres, é o produtor John Shanks, que criou e executou a maior parte dos trabalhos nas seis cordas. Phil X, por incrível que pareça, ficou relegado a um papel de coadjuvante. O outro motivo pelo qual fica difícil comparar ambos os guitarristas é, talvez, culpa de John também. O som do Bon Jovi foi tão pasteurizado nos últimos anos que qualquer guitarrista que posta vídeos no YouTube tocando por cima da música dos outros em seu quarto poderia trabalhar nestes últimos álbuns. Em outras palavras, a produção e os arranjos não deixam muito espaço para alguém mostrar sua cara.

Por essas e por outras, não foi com This House Is Not for Sale que a banda fez jus ao seu passado. E nem adianta vir com os números mágicos de vendas de cópias e entradas para shows para tentar me contradizer. A não ser que seu parâmetro de avaliação artística seja a histeria adolescente demonstrada pelo público nos shows dos caras.

Nota = 2/5. Quando eu analisei Burning Bridges, disse que o álbum nos deixava receosos sobre o futuro do Bon Jovi. Infelizmente, o medo se tornou realidade e eles continuam apenas uma sombra criativa do que um dia já foram. Mas eu sou Brasileiro e não desisto nunca: um dia, o Bon Jovi há de voltar.

Abaixo, o vídeo de “This House Is Not for Sale”: