Resenha: Pitfalls – Leprous

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

A banda mais “diferentona” (e depressiva) do metal progressivo escolheu 2019 para dar aquele passo que todos os sinais apontavam que eles dariam. Por sinais, refiro-me ao direcionamento musical de seus lançamentos mais recentes, The Congregation e Malina (clique aqui e aqui, respectivamente, para conferir minhas resenhas a respeito deles).

Estes álbuns eram de lenta digestão e dificilmente conquistavam de imediato. Com Pitfalls, seu sexto disco de estúdio, eles conseguem a improvável proeza de se afastarem ainda mais do metal progressivo que os consagrou (é “ruptura” que fala, né?) ao mesmo tempo em que criam canções com as quais o público em geral identificar-se-á com mais facilidade.

A obra foi escrita majoritariamente pelo vocalista e tecladista Einar Solberg num período em que ele enfrentava depressão e ansiedade. E isso fica muito evidente nas letras das músicas (se é que os títulos das mesmas já não entregam o ouro).

Se metal progressivo é algo pelo qual você (ainda) está sedento, ficará satisfeito com a abertura “Below”, que preserva alguns aspectos do gênero, mas sem perder as fortíssimas doses de melosidade e emoção que marcam o som deles. Outras canções que poderiam fazer companhia para ela são “At the Bottom”, “Foreigner” e a épica “The Sky is Red”.

Esta última permite à banda explorar em mais de dez minutos suas diversas facetas. Com isso, quero dizer que temos momentos serenos e crus intercalados com passagens mais técnicas e densas. Não posso deixar de notar, contudo, que seus minutos finais consistem apenas na repetição crescente de uma mesma frase, ainda que abrilhantados com a participação de um coral de Belgrado. É a famosa faixa que foi esticada para parecer maior do que realmente é. Mas não deixa de ser um dos pontos altos.

Agora, se você quer conhecer a essência da atual fase do Leprous, foque em trabalhos como “I Lose Hope”, em que guitarras, baixo, cordas e sintetizadores dividem pacificamente o fundo musical com os vocais de Einar.

“Observe the Train” e “By My Throne” levam isso a um patamar acima (ou abaixo?). Palmas para quem consegue ouvi-las sem bocejar. “Alleviate” teoricamente entraria nesse bojo, mas ela tem uma construção emocional tão forte e admirável que acaba se mostrando um dos destaques absolutos. “Distant Bells” reproduz lógica parecida.

Como faixas bônus temos a simpática “Golden Prayers”, revelada em junho de 2018, e o sonolento cover de “Angel”, do grupo inglês de hip hop Massive Attack. Outra peça requentada, datando do início deste ano.

Para enriquecer o som geral do disco, o Leprous contou uma vez mais com o violoncelista Raphael Weinroth-Browne e também com a novidade Chris Baum, violinista do Bent Knee – seus instrumentos são essenciais na construção da “depressividade” que ouvimos aqui.

Dos integrantes oficiais, destaco, uma vez mais, o baterista Baard Kolstad, por mostrar que distanciar-se do metal progressivo não é desculpa para se entregar aos confortos das linhas simples e previsíveis. Einar, por sua vez, é tão fundamental para o funcionamento da proposta musical da banda que falar de sua voz extremamente melódica em separado chega a ser encheção de linguiça.

Reitero que Pitfalls é o rompimento final do quinteto norueguês com as palavras “metal” e, até certo ponto, “progressivo”. Eles estão solidificados como algo que desafia a categorização. “Alternativo”, “experimental” e “avant-guarde” são rótulos bastante apropriados e que ao mesmo tempo não ajudam em nada, pois são todos vagos e comumente utilizados na ausência de termos melhores.

Se o direcionamento é bom ou ruim? No caso analisado aqui, difícil responder com convicção. Estão adotando roupagens que alienarão os fãs mais conservadores – e eu não os julgo por torcerem o nariz para o disco – mas fazem isso de forma tão destemida e profissional que não é necessário muito esforço para gostar do lançamento pelo menos enquanto trabalho artístico.

Fãs reconheceram em comentários nas redes sociais do Leprous que eles, normalmente associados ao universo do heavy metal, vêm se mostrando mais competentes que nomes pop na tarefa de criar… música pop. Eu tendo a concordar totalmente. E você?

Nota = 4/5.

Abaixo, o clipe de “Below”:

Resenha: A Different Kind of Human (Step 2) – AURORA

Reprodução da capa do álbum (© Decca Records / Glassnote)

A espera até que não foi muito longa. Foi necessário o tempo de uma gestação humana para que a cantora norueguesa Aurora lançasse A Different Kind of Human (Step 2), a segunda etapa de seu álbum/EP Infections of a Different Kind – Step 1 (clique aqui para conferir minha resenha sobre o mesmo), e que já se encontrava pronto desde 2018.

A boa notícia é que o disco é uma evolução em todos os sentidos com relação a seu antecessor. O número de faixas pula de oito para 11. A duração passa da meia hora para pouco mais de 40 minutos. E, o que é realmente importante, a qualidade das composições também aumentou.

Melhorias à parte, existe uma conexão musical forte entre os dois produtos, o que reforça aquilo que eu havia dito na resenha anterior: trata-se de um lançamento em dois tempos. E o “futebol” apresentado neste segundo tempo garante uma goleada, ante a vitória segura, porém magra de seu antecessor.

Ainda muito eletrônico, A Different Kind of Human (Step 2) não deixa de soar orgânico de certa forma, inclusive porque a cantora aborda temas ambientais em algumas letras, sem falar nas próprias introspecções típicas de suas letras. Aurora consegue, como poucos, fazer um som moderno que soa natural. Ela é quase um Deep Forest com vocais e mais acessível.

“The River” e “The Seed”, por exemplo, falam da natureza em geral, enquanto que “Animal”, “Apple Tree” e “Hunger” discutem instintos humanos. Esta última tem notáveis influências de ritmos e vozes africanas; toques étnicos e tribais são uma marca da música desta norueguesa que não dá para não notar.

Já a faixa título, por exemplo, provê uma atmosfera mais fatalista, contando a história de uma nave alienígena que veio resgatar um ser humano especial – presumidamente, uma pessoa boa demais para estar nesta Terra nefasta.

A jornada deste indivíduo único aparentemente tem fim no encerramento convenientemente chamado de “Mothership” (nave mãe em inglês). Como um comentarista no YouTube bem disse, taí uma música que eu adoraria ouvir logo após morrer – imagine ter sua alma recebida do outro lado pela voz angelical de Aurora dizendo “agora você está em casa”?

Eu quase me atrevo a dizer que o álbum é conceitual, mas aí seria forçar a barra. E por fim, se é verdade que esta pérola nórdica ainda não consegue competir com divas pop mais encorpadas comercialmente, é fato incontestável que seu lançamento fica na linha de frente do chamado “pop alternativo” em 2019.

Nota = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “Animal”:

Resenha: Northward – Northward

capa do álbum 'Northward', da banda de mesmo nome. Trata-se de uma foto de Floor Jansen e Jørn Viggo Lofstad vistos de lado e frente a frente, gritando um com o outro, com uma floresta nórdica ao fundo e o nome da banda e do disco abaixo, em vermelho. A foto toda tem um efeito em escala de cinza

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Quando soube que Floor Jansen, vocalista do Nightwish e tradicionalmente ligada ao metal sinfônico, juntar-se-ia com Jørn Viggo Lofstad, guitarrista do Pagan’s Mind (banda de power metal progressivo), para formar uma dupla de hard rock, a primeira coisa que pensei foi: “o que colocaram na bebida desses dois?”.

Mas um dos grandes prazeres que a vida reserva para nós, amantes da música, é ter a cara quebrada por surpresas positivas. É o caso do Northward, projeto resultante da união desses dois músicos nórdicos.

O som, obviamente, é bem diferente daquilo que estamos acostumados a ouvir das bandas dos dois. A estreia autointitulada do duo é um álbum de hard rock, mas um hard rock bem moderno e pesado, distante de um rock clássico pra se ouvir na estrada.

No geral, Northward descreve uma trajetória ascendente, ou seja, vai melhorando conforme as faixas avançam. Não no sentido de que cada uma delas é necessariamente melhor que a anterior e pior que a posterior, mas digamos que os melhores momentos vão se concentrando na segunda metade do disco.

O som geral é bastante coeso, ou seja, desde a abertura “While Love Died”, vamos sendo golpeados com riffs fortes nas guitarras de Jørn e os vocais sempre divinos de Floor. Jørn é quem arrisca mais, acrescentando licks e riffs diferenciados à base agressiva das músicas, enquanto que Floor mantém um estilo vocal mais estável (palavra que aqui significa “forte e direto”), lançando-se vez ou outra em terrenos mais doces.

Apesar disso, várias faixas trazem seus charmes particulares: o interlúdio acústico em “Get What You Give”, o dueto de Floor com sua irmã Irene em “Driting Islands”, o compasso setenário em “Paragon”, o arranjo acústico (e destoante do restante da obra) de “Bridle Passion”; e o longo encerramento “Northwards”, um ponto alto para Floor, que ganha mais uma oportunidade de mostrar seu lado mais doce.

Uma audição de Northward nos faz concluir duas coisas: a primeira, incontestável, é que a banda deu certo, absolutamente. A segunda é que o entrosamento dos músicos não parece ter atingido ainda seu auge. A dupla, juntamente ao baixista Morty Black, os bateristas Jango Nilsen e Stian Kristoffersen e o tecladista Ronny Tegner, ainda tem espaço para crescer musicalmente.

Nota = 4/5

Abaixo, o vídeo de “While Love Died”: