Resenha: Damnation – Aerodyne

capa do álbum damnation, de Aerodyne

Reprodução da capa do álbum (© Rock of Angels Records)

A estreia do quinteto sueco de rock ‘n’ roll Aerodyne em 2017 foi um tanto discreta, sem o mesmo espaço na mídia que um Reckless Love ou um Airbourne. Eu mesmo, se não me engano, descobri os ditos-cujos apenas por acaso, ao notar um clipe deles na lista de sugestões do YouTube. Assim, muita gente ainda não sabe que o país escandinavo deu à luz (mais um) nome interessantíssimo do rock recente.

Mas com Damnation, seu segundo trabalho de estúdio, eles fizeram algo que poucos grupos recentes que se equilibram na tênue linha que separa o hard rock do heavy metal tradicional conseguem: lançaram um álbum simplesmente espetacular.

Absolutamente tudo funciona no disco, da primeira à última nota. A tal primeira nota está em “Hellsiah”, um prólogo – bandas do gênero não lançam mão deste recurso com tanta frequência quanto nomes do metal progressivo ou power, por exemplo.

Esta introdução nos aquece para uma sequência arrebatadora. Da segunda faixa (“Out for Blood”) até a oitava (“Kill or Be Killed”), temos basicamente uma metralhadora de riffs matadores em músicas bastante aceleradas. As exceções são “March Davai” (que recebeu um clipe) e a faixa-título, mais lentas.

O álbum se encerra com duas peças magníficas. Primeiro, “The Nihilist”, em que o quinteto desacelera, mas compensa com riffs tão apoteóticos em uma canção tão grandiosa que não hesitei em elegê-la o ponto alto da obra, mesmo que seu andamento seja estranho à média do disco.

E por fim, “Love, Eternal”, um trabalho relativamente épico (são mais de seis minutos e meio de porrada nas cordas), com riffs cavalgados no melhor estilo Iron Maiden.

Se tudo funciona, então estão todos de parabéns. Johan Bergman e Daniel Almqvist pela usina de riffs que eles se mostraram ser em suas guitarras. Thomas Berggren por manter seu baixo audível mesmo sob todo o peso das doze cordas de seus colegas. Christoffer Almqvist por entregar performances rítmicas condizentes com a atmosfera agressiva das músicas. E Marcus Heinonen, que pode até não ter a voz mais marcante do século, mas faz dela um instrumento eficiente para expressar as mensagens da banda.

Nota = 5/5

Abaixo, o clipe de “Kick it Down”:

Resenha: Dawn of the Dragonstar – Twilight Force

Reprodução da capa do álbum (© Black Lo dge Records)

Ao escrever esta resenha, eu tive a impressão de estar resenhando um trabalho do Rhapsody pela terceira vez este ano. Pudera, estamos falando do Twilight Force – uma banda sueca do power metal fantasioso/medieval mais clichê possível que vem sendo inexplicavelmente incensada pela imprensa especializada apesar de não oferecer nada de novo – muito embora sejam bons, não dá para negar.

Outro fator que contribui para a comparação é que o novo vocalista do sexteto, Alessandro Conti, ou “Allyon” (sim, eles chegam ao ponto de criarem pseudônimos épicos para eles mesmos), já se envolveu com o Rhapsody – no caso, na versão batizada de “Luca Turilli’s Rhapsody”, que rendeu dois álbuns e algumas turnês. Ele é conhecido também pelas contribuições à frente de sua principal banda, o Trick or Treat, além de uma recente colaboração com Fabio Lione (clique aqui para conferir minha resenha da estreia deles).

O vocalista anterior, Christian Eriksson, foi dispensado sob a afirmação de que “suas contribuições musicais e composicionais para o Twilight Force sempre foram inexistentes”. Não sei até que ponto Alessandro foi diferente do seu antecessor e, portanto, até onde ele tem dedo nisso que afirmarei a seguir, mas… Dawn of the Dragonstar é o melhor trabalho dos suecos até agora.

Por mais clichê que ele seja, não podemos chamá-lo de previsível – adjetivo que se aplica à grande maioria dos discos de power metal, independentemente da qualidade. A abertura autointitulada não corrobora de forma alguma essa afirmação, mas a sequência “Thundersword” já incorpora elementos orquestrais bastante cinematográficos, divergindo um tanto das roupagens mais medievais adotadas normalmente pelas bandas do gênero.

E como se não bastasse, ouvimos ainda uma rabeca e um banjo aleatórios em alguns momentos. São aromas inesperados que a tornam muito divertida, mas o fato destes instrumentos só aparecerem timidamente deixa o ouvinte sem entender o sentido deles.

“Long Live the King” volta aos padrões, mas é sucedida pela ótima “With the Light of a Thousand Suns”, com toques árabes e mediterrâneos em certos momentos. Uma das faixas bônus, diga-se de passagem, é uma versão orquestral dela.

“Winds of Wisdom”, “Queen of Eternity” “Valley of the Vale”, “Hydra” e “Night of Winterlight” fazem um meio de campo clichê até a chegada do encerramento épico “Blade of Immortal Steel”, com doze minutos e meio de power metal dinâmico, sinfônico e com alguns dos toques especiais que marcaram a primeira metade do disco.

Além da já mencionada versão orquestral de “With the Light of a Thousand Suns”, Dawn of the Dragonstar traz como faixas bônus também uma versão ao piano de “The Power of the Ancient Force” com a voz da cantora pop sueca Hanna Turi e as versões demo de “Enchanted Dragon of Wisdom” e “Forest of Destiny”; as três foram originalmente lançadas na estreia deles, Tales of Ancient Prophecies (2014).

No fim, os temperos diferentes que diminuem a previsibilidade do trabalho são apenas isso: temperos. O que ajuda a destacar a obra é, em primeiro lugar, a qualidade ímpar de sua execução e produção.

Tem papel importante também o fato da banda abraçar com todas as forças os clichês do gênero, a ponto de transformar os tradicionais vídeos de comentários faixa-a-faixa em uma cômica apresentação cheia de teatralidade e recheada de todos os adjetivos épicos possíveis. Eles levam a brincadeira tão a sério que fica difícil achá-los ruins. E este álbum, com certeza, não é.

Nota: 4/5

Abaixo, o vídeo de “Dawn of the Dragonstar”:

Resenha: The Sea Within – The Sea Within

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

Mais um supergrupo progressivo? Mais um supergrupo progressivo. Ainda por cima, um que foi sugerido pela gravadora, em vez de ser uma iniciativa espontânea dos integrantes. Mas antes de você revirar os olhos, permita-se ler algumas palavras sobre o The Sea Within. Ele certamente merece sua atenção, não apenas pela qualidade musical em si, mas pela relativa originalidade do som.

O estilo do grupo é, basicamente, rock progressivo mesmo. Mas há uma forte incorporação de art rock e música erudita, deixando o som deveras diferenciado, distante de lugares-comuns. E, apesar das intenções comerciais por trás de sua concepção, o resultado acabou sendo uma das melhores fusões já criadas do progressivo com o art, juntando a sofisticação e a destreza técnica do primeiro com a contemplatividade e leveza do segundo. Sem falar na evidente dedicação dos músicos envolvidos.

Ao longo das oito faixas da estreia autointitulada, além de quatro bônus da edição de luxo, a banda passeará entre momentos pesados, leves, rápidos e lentos. Somando isso às participações especiais de convidados, temos um disco que se torna ainda mais interessante pelas surpresas que traz a todo momento.

Talvez por isso não seja um álbum de fácil digestão. A única conclusão sobre ele que você pode tirar após apenas uma escutada é que não dá pra tirar qualquer conclusão sobre ele após apenas uma escutada.

A abertura relativamente tensa “Ashes of Dawn”, por exemplo, é menos longa do que parece e já traz um convidado: o saxofonista Rob Townsend, que já deixou sua marca em trabalhos do lendário guitarrista Steve Hackett e aparece aqui para um bem-vindo solo.

Por outro lado, “They Know My Name” e “The Void” desaceleram as coisas e entregam algo um pouco mais acessível do ponto de vista comercial, tirando mais proveito do piano e do violão. O solo de teclado em “The Void” é, inclusive, um bom exemplo da pegada mais tranquila do The Sea Within. Muitos tecladistas aproveitariam o momento pra dedilhar até sair sangue, mas Tom Brislin apenas navega suavemente por seu instrumento, no melhor estilo Mark Kelly e Tomas Bodin.

A ótima “An Eye for an Eye for an Eye” vem para mostrar mais uma faceta da banda: seu lado jazz, que se manifesta escancaradamente numa deliciosa passagem instrumental de cerca de dois minutos, na qual Tom improvisa ao piano enquanto o baterista Marco Minnemann e o baixista Jonas Reingold fazem uma modesta fritada ao fundo para acompanhá-lo.

Em “Goodbye”, chega a vez de outro convidado: Casey McPherson. Esta informação só é útil para quem não conhece nem Alpha Rev, nem Flying Colors, pois sua inconfundível e melódica voz é a primeira coisa que chama a atenção nesta faixa, ao mesmo tempo em que Roine Stolt apresenta riffs e licks com fortes influências de Carlos Santana.

Depois de um breve interlúdio instrumental, convenientemente intitulado “Sea Without”, chegamos à épica “Broken Cord”. Dinâmica, ela começa com jogadas de Beatles com Queen. Depois a música vai “progredindo” e já ganha contornos mais intrincados, com solos, duelos, relativas fritações, etc, mas voltando ocasionalmente a um estágio mais sereno. Casey reaparece para dar seu toque único, enquanto que Jon Anderson, do Yes, faz uma tímida contribuição que só um público muito atento chegará a notar.

O encerramento “The Hiding of the Truth” tem clima de alívio e traz a última participação de Casey. Além dele, quem também dá as caras aqui é o lendário tecladista Jordan Rudess, do Dream Theater, mas de um jeito bem diferente: em vez de solar como um extraterrestre no teclado ou no Haken Continuum, o estadunidense cria um pano de fundo musical com seu piano, uma faceta sua não tão conhecida, mas da qual o Dream Theater tira bastante proveito em “Fatal Tragedy” ou “On the Backs of Angels”, por exemplo.

E então o The Sea Within faz a mesma coisa que o Spock’s Beard fez em outro grande lançamento progressivo do ano, Noise Floor (resenhado neste blog): deixou quatro faixas de qualidade equivalente às principais relegadas à condição de faixas bônus.

Elas incluem a relativamente pesada “The Roaring Silence”; a simpática “Where Are You Going”, com toques de Beatles e um solo de cravo que praticamente parodia o solo de piano de George Martin que os Fab Four aceleraram artificialmente para encaixar no andamento de “In My Life”; a leve “Time”; e a emotiva “Denise”.

Não custa reforçar que se trata de um álbum de digestão difícil, principalmente para quem não é fã deste tipo de música. Por isso, ele merece não uma, mas várias chances. Ao mesmo tempo, não é preciso muito esforço para perceber que ele com certeza constará nas listas de melhores do ano do gênero progressivo.

Independentemente disso, The Sea Within é uma estreia sólida e firme de um grupo que curiosamente reluta em se considerar “super” e conquista nossos ouvidos ao produzir um som fora do comum por meio da incorporação de elementos art.

Nota = 4/5

Abaixo, o vídeo de “Ashes of Dawn”: