Dia Mundial do Rock: 15 encerramentos de tirar o fôlego

Neste ano, o Dia Mundial do Rock coincidiu com a final da Copa. Por este motivo, o Sinfonia de Ideias não publicou nada a respeito no último domingo: o negócio era celebrar o tetra da Alemanha, curtir uns 15 minutos de sadismo com a derrota da Argentina e palpitar sobre o futuro do futebol brasileiro. Poucos lembraram do rock. O post deveria ter sido publicado na segunda-feira, portanto, mas só deu para finalizar hoje, por motivos de força maior. Sem mais desculpas e antes tarde do que nunca, aqui vamos nós:

Inspirado por uma ideia que me surgiu há alguns meses, e aproveitando que encerramos o evento mais importante do ano, resolvi pinçar algumas músicas da minha biblioteca que contivessem encerramentos que me deixam até arrepiado de tão bons. Fiz uma lista com algumas dezenas, excluí várias e fechei uma compilação com 15, já que dez seria muito pouco. São faixas variadas de rock, heavy metal e derivados, algumas conhecidas, outras nem tanto. Boa audição!

PS: Isto NÃO É uma lista de “15 melhores”. As faixas abaixo são meras sugestões, listadas na ordem alfabética dos artistas. Evidentemente, muita coisa boa ficou de fora, e nada impede você de adicionar bons exemplos nos comentários. 😉

“Endeavour” – Andre Matos
Uma lenda do metal brasileiro e ainda por cima graduado em música. Andre Matos abre a lista com a última faixa da edição regular de seu álbum de estreia, Time to Be Free. Co-assinada pelo tecladista Fabio Ribeiro, “Endeavour” começa como um belo trabalho de power metal veloz e aromas de Stratovarius. Já a partir dos 3:30, mais ou menos, ela toma uma direção levemente diferente, ainda rápida, para então fechar num belo encerramento que mistura toques sinfônicos, um solo inspirado e gritos arrepiantes do ex-vocalista do Angra e do Shaman.

“Farewell” – Apocalyptica
O violoncelo é um instrumento de som bastante emocionante – ele praticamente fala. Leva o público do conforto às lágrimas. Aproveitando-se das qualidades desse nobre instrumento, quatro amigos violoncelistas decidiram fundar em 1993 o Apocalyptica, até hoje um dos grupos mais notórios da Finlândia. Destaca-se por não conter vocalistas (exceto convidados ocasionais), baixistas ou guitarristas, somente violoncelistas e, a partir de 2003, um baterista. No último minuto desta faixa advinda do álbum homônimo do grupo, uma música que é melancólica do começo ao fim entra numa reta final arrepiante, comandada por uma melodia tocante e relativamente simples.

“Farewell” – Avantasia
Pura coincidência, mas outra faixa intitulada “Farewell” foi selecionada para esta lista. Marcando a única participação de Sharon den Adel (Within Temptation) no primeiro dos dois álbuns The Metal Opera, “Farewell” traz ainda Tobias Sammet (Edguy), líder, baixista e principal vocalista do Avantasia, projeto que deu vida a esta música; e Michael Kiske (ex-Helloween, Unisonic), um dos nomes-chave do power metal e presença constante nos álbuns do Avantasia. É ele o responsável por tornar o encerramento desta balada um momento arrepiante a partir dos 5:28, com dois versos cantados repetidamente em cruzamento com o refrão de Tobias.

“I Want You (She’s So Heavy)” – The Beatles
Não é bem uma música emocionante, mas está aqui como reconhecimento a uma das maiores bandas que já existiram. Tudo bem que esta faixa não é típica dos Beatles – é longa e de vocabulário enxuto. Mas é emblemática, considerada por alguns até como uma forma embrionária do heavy metal. O acorde tocado em arpejos que se repete por três minutos ao final vai ganhando corpo até o fim e faz deste encerramento um dos melhores da carreira deles, ainda que a música termine de forma estranhamento abrupta.

“The Ghost of Tom Joad” – Bruce Springsteen (com Tom Morello)
Pra não dizer que não há faixas ao vivo aqui, trago a primeira parceria de Bruce Springsteen com Tom Morello (Rage Against the Machine), uma combinação de muita química musical (e ideológica, posto que os dois são porta-vozes da esquerda estadunidense) que culminou na gravação do álbum mais recente do The Boss, High Hopes (resenhado neste blog). Neste que é basicamente um álbum de autorregravações, Tom participa de metade das faixas, incluindo esta. Foi lançada pela primeira vez como faixa-título e de abertura do décimo primeiro disco do guitarrista/vocalista de Nova Jérsei. O solo de encerramento que Tom fez em estúdio é praticamente o mesmo que fazia ao vivo: pessoal, marcante e cheio de efeitos, como pode ser conferido abaixo.

“White Shadows” – Coldplay
Fazer músicas arrepiantes é a especialidade do Coldplay, e não importa o quanto os chatos tr00 4life tentem diminuir a banda, o quarteto britânico é um nome que será sempre obrigatoriamente abordado por quem estuda a cultura ocidental da primeira década deste século. “Politik” quase entrou no lugar desta, mas como seu encerramento é mais longo e marca praticamente um segundo momento da música, optei por “White Shadows”, que traz a participação de Brian Eno nos sintetizadores e um encerramento mais “repentino”, que, aos 4:20, dá fim digníssimo para uma das melhores faixas do terceiro álbum do grupo, X&Y.

“Justice for Saint Mary” – Diablo Swing Orchestra
O Diablo Swing Orchestra é uma das mais gratas surpresas do metal neste início de século. Talvez os primeiros a se atreverem a misturar heavy metal com jazz e swing, o grupo vem conquistando os fãs do chamado avant-guarde metal. Nesta faixa, a última de seu mais recente disco Pandora’s Piñata, um belo instrumental com cordas e metais fecha este trabalho guiado por melodias e letras tensas com chave de ouro – ainda que eu, particularmente, teria deixado de fora os efeitos sonoros que chegam depois.

“The Ministry of Lost Souls” – Dream Theater
Uma bela história em forma de canção pede um belo trabalho musical – o que, no caso destas lendas do metal progressivo, não é pedir muito. Escrita por John Petrucci, a faixa nos transporta para a história de uma mulher que é salva do afogamento por um herói anônimo que acaba morrendo no resgate, o que a deixa cheia de remorsos até conseguir reencontrar seu salvador. O solo de guitarra a partir dos 12:44 é, sinceramente, um dos trabalhos musicais mais belos que já ouvi na vida.

“Hotel California” – Eagles
E falando em solos de encerramento na guitarra, destaco aqui um dos mais emblemáticos de todos os tempos: “Hotel California”, presença constante nas listas de melhores solos da história do rock. E não é para menos: este brilhante duelo de Don Felder com Joe Walsh, acompanhados no violão de doze cordas de Glenn Frey e no baixo de Randy Meisner, é um verdadeiro acontecimento do rock setentista.

“Let It Grow” – Eric Clapton
E vamos para mais um solo de guitarra utilizado para fechar músicas (lembrando que a lista está na ordem alfabética dos artistas). Aqui, o mestre do blues Eric Clapton dá uma aula de arpejos, ainda que alguns digam que a melodia principal do solo tenha sido chupada da introdução de “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin.

“Visions” – Haken
Talvez o carro chefe de uma nova leva de bandas de metal progressivo, o Haken vem arrancando elogios da crítica especializada e já conquistaram até os supracitados Dream Theater com suas letras melódicas e instrumentais impecáveis. A música mais longa da carreira do sexteto britânico é “Visions”, faixa de encerramento de seu segundo álbum (de mesmo nome). Após mais de vinte minutos do mais bem executado metal progressivo enfeitado com toques sinfônicos e eletrônicos, a banda dá lugar a um belo “epílogo musical” de cordas.

“The Saints” – Helloween
Fundadores do power metal e com três décadas de estrada, o Helloween não é bem uma banda acostumada a belas melodias: seu negócio é agressividade nos riffs, no ritmo e no vocal – apesar de já terem se acostumado a uma balada aqui e outra ali. Talvez por isso o breve encerramento de “The Saints” seja uma grata surpresa: ninguém esperaria que uma banda tão 666 resolvesse acabar uma música com um solo de cordas, sintetizado pelo tecladista contratado Matthias Ulmer.

“Beauty of the Beast” – Nightwish
Quase que outra música de nome parecidíssimo veio aqui no lugar desta: “Beauty and the Beast”, do disco de estreia Angels Fall First. Por que a opção por esta, então? Porque “Beauty of the Beast” é mais longa e mais bem produzida, o que valoriza o som do grupo que, nesta época, apresentava sua formação mais popular (Marco Hietala, presente aqui, ainda não tocava com a banda no primeiro disco). O poderoso encerramento combina todos os membros da banda: Jukka, Emppu e Marco aliados em um ritmo e um riff que lembra uma marcha militar; Tuomas e seu brilhante trabalho sinfônico ao fundo; e Tarja com belos “ohs” da vida.

“Mulher de Fases” – Raimundos
E pra ninguém dizer que a lista não tem representantes brasileiros que cantam em português, aí está um dos maiores nomes do nosso punk. “Poxa, mas tinha tanta música brasileira com encerramentos mais bacanas!” Sim, mas como deixei claro lá em cima, a lista não é uma Top 15. Enfim, aos fatos: na mesma linha de “The Saints”, temos aqui outra faixa pesada encerrada com cordas, e de maneira inesperada – cordas não são bem os instrumentos que você espera ouvir ao adquirir um álbum de punk. Mas elas estão aí, marcando presença na música inteira, e ganhando destaque ao final, dando um toque paradisíaco a um dos maiores hits do quarteto.

“The Eye of Ra” – Star One

O que aconteceria se Russell Allen (Symphony X, Adrenaline Mob), Damian Wilson (Threshold), Floor Jansesn (ex-After Forever, ReVamp, Nightwish) e Dan Swanö (Nightingale) cantassem na mesma música? Ou no mesmo álbum? O gênio holandês Arjen Anthony Lucasen já respondeu a esta pergunta por diversas vezes ao longo dos dois álbuns de seu projeto Star One, que faz músicas de “space metal” com letras inspiradas em filmes de ficção científica. A letra da faixa abaixo, “The Eye of Ra”, dialoga com o clássico Stargate, de 1994. E o encerramento fica por conta dos quatro gigantes cantando os mesmos versos, primeiro acompanhados pelos instrumentos, e lentamente deixados quase que a cappella.

Resenha: Dir en grey mostra com “Dum Spiro Spero” que está melhor do que nunca

Breve histórico: Dir en grey é um dos grupos japoneses de rock/metal mais bem sucedidos fora do Japão, tendo feito turnês nos EUA, na Europa e na América do Sul. Desde 1997, quando começaram, mantêm a mesma formação: Kyo nos vocais, Kaoru e Die nas guitarras, Shinya na bateria e Toshiya no baixo. No início, eram um grupo Visual Kei, mas hoje se vestem de maneira menos chamativa. Seu som também sofreu mudanças: foi ficando claramente mais pesado com o tempo. Já fizeram álbuns tão diversos e sua música é tão peculiar que classificá-los como algo menos genérico do que rock/metal é uma tarefa virtualmente impossível.

Reprodução da capa do álbum (© Firewall Div.)

Para o ouvido destreinado, o Dir en grey contemporâneo pode parecer apenas uma banda de metal extremo que faz músicas cheias de gritos e riffs pesadíssimos de guitarra. Contudo, um pouco de atenção ao ouvir o som do grupo logo desconstrói esta imagem falha. O Dir en grey é sim uma banda pesada, Kyo de fato grita bastante, mas mesmo assim, a primeira palavra que vem à cabeça ao se ouvir os dois últimos álbuns deles (este e o Uroboros) é “maturidade”. O antepenúltimo álbum, The Marrow of a Bone, também era pesado, mas nem tão maduro quando seus sucessores. E o que vem a ser um som “maduro”? É só ouvir Dum Spiro Spero (“Enquanto respiro, eu espero” em latim) para descobrir, embora seja preciso conhecer a discografia da banda para absorver e compreender a evolução musical pela qual eles passaram.

Seguindo a fórmula do álbum anterior, o disco abre com uma faixa instrumental (se não considerarmos as exclamações ouvidas ao fundo) e curta, “Kyoukotsu No Nari”, seguida pela misteriosa “The Blossoming Beelzebub”. Lenta, sombria e marcada por toques de órgão e gritos agoniados de Kyo, é um prelúdio do que está por vir. O single “Different Sense” vem em terceiro, e é uma amostra da combinação vocais limpos + gritos agudos que Kyo vem utilizando para caracterizar o som da banda.

“”Yokusou Ni Dreambox” Aruiwa Seijuku No Rinen To Tsumetai Ame” e “Juuyoku” combinam todos os elementos das faixas anteriores com mais velocidade. É aí que Dum Spiro Spero começa a mostrar mais energia. “Shitataru Mourou” e o single “Lotus” desaceleraram um pouco o ritmo e preparam o terreno para “Diabolos”, a mais longa do álbum, e certamente uma das melhores, tão boa que pode até competir com a também longa “Vinushka”, do Uroboros.

“Akatsuki” é um respiro separando “Diabolos” da rápida “Decayed Crow”, marcada por sons peculiares, meio eletrônicos, das guitarras de Kaoru e Die. E quando tudo indica que o álbum será todo gritos e riffs agressivos, eis que aparece “Vanitas”, que pode ser considerada uma balada perto das outras faixas. Kyo canta com uma emoção que chega a arrepiar. Para fechar a obra, “Ruten No Tou”, que não traz nada de muito especial, mas termina com eficiência um dos melhores discos que a banda já fez.

Há ainda duas faixas bônus: uma regravação de “Rasetsukoku”, lançada em 2000 no álbum Macabre; e uma versão sinfônica de “Amon”, que adiciona elementos orquestrais à faixa. Ambas valem muito a pena serem ouvidas.

Nota = 9,0. Se alguém tinha dúvidas quanto ao Dir en grey conseguir ou não fazer algo próximo do Uroboros, a resposta está aí, e é definitivamente sim, eles podem. Cada um dos membros se superou: Kyo está cantando (e berrando) mais do que nunca. Kaoru, Die e Toshiya estão mais criativos do que nunca. Shinya está mais técnico do que nunca. A banda está melhor do que nunca. É preciso ouvir algumas faixas mais de uma vez para absorver toda a musicalidade trazida pelo quinteto.

Abaixo, a faixa “Decayed Crow”, uma das melhores do álbum: