Resenha: Armageddon – Equilibrium

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Após a saída de dois membros fundadores (o guitarrista Andreas Völkl e a baixista Sandra Van Eldik), o quinteto alemão de folk/black metal sinfônico Equilibrium não tardou a lançar seu quinto álbum, Armageddon. Ainda mantendo as marcas registradas do grupo (instrumentos exóticos, guturais e “epicidade”), o trabalho traz uma saudável novidade: letras que tratam de temas relevantes e muito realistas para uma banda que até outro dia falava de Thor & cia.

A citação de Albert Einstein no início da abertura “Sehnsucht” dita a tônica do álbum. Seria um instrumental, não fosse a fala. O trabalho toma mais corpo nas três seguintes. Sem desmerecê-las, mas Armageddon só começa a surpreender mesmo a partir de “Born to Be Epic”, uma música que soa boba de início, mas você logo percebe que ela é como um hino para a banda. Vale notar também que ela será apenas a primeira de algumas faixas em inglês, uma nova postura adotada pelo grupo para tornar ao menos parte de seu repertório mais universalmente compreensível.

Em “Zum Horizont”, temos um poderosíssimo início. Juntamente a “Rise Again”, promove um resgate das raízes do quinteto. Não por um acaso, esta última foi concebida logo após o lançamento do segundo álbum deles, Sagas (2009), mas não tinha visto a luz do Sol até agora. Ela traz a participação especial (e muito feliz) de um músico de rua equatoriano que a banda conheceu em Munique. Faixas indicadas para quem quer mesmo é velocidade e agressividade.

“Helden” é outra grata surpresa do álbum. Uma homenagem aos videogames, traz alguns sons eletrônicos no melhor estilo DragonForce e uma introdução vocal que lembra muito a voz de Till Lindemann, do Rammstein.

“Koyaaniskatsi” segue os moldes da abertura: trata de tema sério e a voz só vem na forma de gravações de narrações retiradas do audiolivro Wenn der Wald Spricht (Quando a Floresta Fala). A faixa tem como objetivo conscientizar as pessoas sobre o uso de animais na indústria. Em entrevista para o canal oficial da Nuclear Blast no YouTube, o guitarrista, produtor e compositor René Berthiaume deixou claro que a banda não pretende fingir que não contribui para esta realidade, e que a intenção é somente fazer as pessoas refletirem.

Encerra o álbum a maravilhosa “Eternal Destination”, que, segundo René, traz críticas à humanidade pelo estado em que deixou o planeta, o meio ambiente e a si mesma, ao mesmo tempo em que expressa a esperança de tempos melhores. Melhor do que ela, só o clipe feito para a própria (veja abaixo). Ambos (música e vídeo) têm a participação de Charly, filha do vocalista Robert Dahn, que narra alguns versos, finalizando a mensagem com um incômodo “você precisa da sua Terra, mas a Terra não precisa de você”. O resultado audiovisual é simplesmente um dos trabalhos mais fortes do metal recente, e um dos mais ousados, numa era em que as bandas só investem em lyric videos ou clipes monótonos em galpões e afins.

Ao adotar discursos mais “sérios”, a banda quase pôs em risco sua comunidade de fãs, mas soube dosar bem a hora de manter os pés no chão e a hora de fantasiar. Os alemães se saíram muito bem se colocando como porta-vozes de mensagens apocalípticas, ecológicas e sociais, inaugurando talvez uma nova fase para eles.

Nota: 4/5. Com algumas faixas memoráveis e outras mais mornas, Armageddon é um ótimo passo do Equilibrium em direção a um som mais rico, com letras mais diversificadas e, principalmente, mais acessíveis – tanto pela temática quanto pelo idioma. Quem sabe assim eles comecem ao menos a se apresentar fora da Europa e ganhem um mundo que ainda pouco conhece este excelente quinteto.

Abaixo, o vídeo de “Eternal Destination”:

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Resenha: The Diary – The Gentle Storm

Breve histórico: The Gentle Storm é um projeto fundado em 2014 pelo multi-instrumentista Arjen Anthony Lucassen (Ayreon, Star One, Guilt Machine, Ambeon, Stream of Passion) e a cantora Anneke van Giersbergen (The Gathering), ambos holandeses. Com uma proposta diferenciada no universo de Arjen, o lançamento de estreia da dupla, The Diary, consiste em um álbum duplo, com cada metade contendo exatamente a mesma lista de faixas, mas em versões diferentes. O primeiro álbum, o álbum “gentle” (“suave”), traz as faixas em versões acústicas e folk. Já o outro álbum, o “storm” (“tempestade”), traz as mesmas faixas em uma roupagem do mais pesado metal.

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

A ideia de trabalhar uma mesma faixa em versões contrastantes não é, claro, a descoberta da pólvora. Quem jogou Banjo Kazooie deve se lembrar da fase Click Clock Wood, que tinha quatro ambientes (cada um dedicado a uma estação do ano) e uma mesma música cujo clima variava de acordo com a época escolhida. A própria Gruntilda’s Lair, caverna que dá acesso às fases do jogo, apresentava um mesmo tema que variava quando o jogador se aproximava da entrada de alguma fase.

Enfim, o conceito trazido por Arjen e Anneke aqui, mesmo que não seja inédito, é bem-vindo e ganha pontos pela tentativa de adotar uma dinâmica nova. Há duas maneiras de se apreciar este álbum: ouvindo as faixas na ordem em que são apresentadas (o que significa ouvir o CD “Gentle” inteiro, e depois o “Storm”), ou então ouvir as faixas em sequência, mas alternando suas duas versões (versão “gentle” e “storm” da primeira faixa, versão “gentle” e “storm” da segunda, e por aí vai).

Ouvi-lo da primeira forma pode virar uma experiência tediosa no álbum “Gentle”, que vai ficando sonolento na segunda metade, especialmente se você está acostumado com os álbuns predominantemente pesados de Arjen. Já a segunda forma permite entender melhor o contraste entre cada versão.

A primeira preocupação em um projeto de Arjen com um só vocalista (posto que ele geralmente contrata vários) é se a voz dará conta do recado. Neste caso, é uma pergunta desnecessária, primeiramente porque Anneke tem uma voz belíssima, que entra direto na alma. E também porque as melodias são pegajosas e engrandecidas pelo uso de backing vocals da própria Anneke, e você pode se pegar cantarolando uma música que acabou de conhecer.

Embora elementos orquestrais não sejam novidade na música de Arjen Anthony Lucassen, é neste álbum que ele chega mais perto do que se poderia chamar de metal sinfônico, com direito a coral e tudo. Nada próximo de um Nightwish, claro, mas ainda assim os poucos instrumentistas eruditos quase valeram por uma orquestra inteira.

Menos diversificado que aquilo que Arjen costuma produzir, The Diary ainda consegue ter muitos pontos altos. A versão tempestade de “Shores of India” é talvez a melhor do disco. Sua versão “gentle” também não deixa nada a desejar, com sua introdução conquistando o posto de momento mais exótico do álbum e provavelmente de toda a carreira de Arjen. O encerramento “Epilogue: The Final Entry” repete o contagiante regrão de “The Moment”, em ambas as versões. A versão “gentle” de “Brightest Light” começa com uma cativante linha de contrabaixo, transformada em um épico riff de guitarra na versão “Storm”. A parte mais divertida da audição do álbum é justamente comparar as versões, e ficar se perguntando qual foi composta primeiro, se aquele riff foi pensado como folk e depois “metalizado” ou vice-versa.

Nota = 8. Por mais que Arjen seja um músico do tipo “tudo que toca, vira ouro”, não se pode negar que lançar um álbum com uma formação relativamente enxuta pode ter custado a grandiosidade que se viu, por exemplo, em The Theory of Everything, do Ayreon (resenhado neste blog). Mas, ei, quando foi que ele prometeu o álbum dos álbuns? A voz de Anneke é deliciosa de se ouvir, e os riffs de Arjen, já bem característicos, não falharão em empolgar os velhos fãs. E o abuso sem precedentes de elementos exóticos é muito bem-vindo. O que mais se pode pedir de um disco de estreia de dois músicos consagrados?

Abaixo, os lyric vídeos de “Endless Sea”, em suas duas versões:

Resenha: Erdentempel – Equilibrium

Breve histórico: os alemães do Equilibrium vêm lentamente se tornando uma banda cada vez mais admirada por sua musicalidade única dentro do folk metal. Também classificados como epic folk metal, blackened folk metal e até viking metal, fato é que eles combinam como ninguém riffs de power/black/symphonic metal com sons autênticos de música típica nórdica.

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

A despeito do incontestável sucesso do Rammstein pelo mundo, não são todas as bandas alemãs de heavy metal e derivados que se atrevem a cantar em sua língua materna. Mas o Equilibrium nunca ligou muito para isso e já está deixando de ser um mero “nome promissor” da cena do folk metal para virar membro da linha de frente do estilo.

E é com Erdentempel, seu quarto álbum, que a banda coroa este processo. É verdade que ele vem em meio a um momento conturbado: no final de março, com o produto já pronto e recém-anunciado, os irmãos e membros fundadores Andreas Völkl (guitarra) e Sandra Van Eldik (baixo) resolveram deixar o grupo. A manobra pegou os outros integrantes de surpresa, mas eles seguiram firmes na divulgação do então vindouro trabalho. Uma pena os irmãos saírem justamente no momento em que o Equilibrium lança seu melhor álbum até hoje.

O trabalho começa muito bem com a introdução instrumental e sinfônica (convenientemente batizada de “Ankunft”, ou “chegada” em português), que não emenda na segunda faixa “Was Lange Währt” mas já dá o clima do disco. Sem grandes surpresas, vem a terceira faixa “Waldschrein”, já lançada anteriormente em um EP de mesmo nome de 2013. Aqui, ela recebe uma versão regravada, com um som mais polido e menos cru. O disco começa a apresentar aquilo que será sua marca registrada: flautas folk e ritmos cativantes alternados com épicas passagens sinfônicas.

Isto inclui “Wellengang” e “Stein Meiner Ahne”, com momentos que até lembram Nightwish; “Wirtshaus Gaudi”, onde as letras tipicamente épicas dão lugar a um trabalho alegre no ritmo, no clipe (veja abaixo) e no título (algo como “diversão de taverna”); “The Unknown Episode” primeiro trabalho deles em inglês (a sétima faixa “Heavy Chill” tem letras em alemão, apesar do nome); e a épica faixa bônus e de encerramento “Aufbruch”, a segunda mais longa já escrita pela banda. A detentora do título, coincidência ou não, também era um instrumental épico e servia como encerramento: “Mana”, do segundo disco Sagas.

Não é bem uma novidade ver o Equilibrium adotando elementos sinfônicos. Mas tudo aqui soa mais grandioso que nos três discos anteriores. Um álbum que empolga do começo ao fim, com espaço para todos os climas. Os riffs convidativos a uma sessão de headbanging (de autoria dos guitarristas René Berthiaume/Andreas e da baixista Sandra), os pedais duplos velozes (por Tuval Refaeli), os guturais rasgados de Robert Dahne e, é claro, as flautas e orquestras contribuem para tornar este trabalho um sério candidato à lista de melhores de 2014.

Nota: 8,5. Nada como uma banda que mistura black, folk e symphonic metal sem necessariamente cair em lugares comuns e, consequentemente, sem enjoar o fã. Ao mesmo tempo em que a atmosfera recria cenas fantasiosas e medievais, algo que nem todo headbanger está disposto a levar a sério, a instrumentalização profissional mostra que o Equilibrium sabe brincar em serviço. Bom para os fãs.

Abaixo, o vídeo de “Wirtshaus Gaudi”: