Resenha: Malina – Leprous

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

Embora comumente associado ao metal progressivo, o quinteto norueguês Leprous desde sempre fugiu ao manual do gênero, priorizando faixas curtas ou médias sem obsessão por longas passagens instrumentais, solos fritados e riffagem complexa. O termos “experimental”, “avant-guarde” e “alternativo” vêm a calhar na falta de um rótulo mais fácil.

E em seu quinto álbum de estúdio, Malina, o grupo atinge o ápice da fuga do progressivo típico. Não é um problema por si só, mas o disco joga o mesmo jogo perigoso de seu antecessor The Congregation (resenhado neste blog), ou seja, precisa de muitas audições para conquistar de fato o ouvinte, especialmente se for alguém que acaba de descobrir os rapazes.

Não que isso o torne ruim. Estamos falando do Leprous, que não é pouca bosta. Mas várias faixas de Malina demoram a mostrar a que vieram. Outras precisam de várias audições mesmo para ficarem encantadoras. Nada de anormal para uma banda de som de lenta digestão, mas são poucos destaques verdadeiros aqui.

O fã não tem nada a temer: se gosta do que o grupo faz desde seu nascimento, vai gostar deste quinto lançamento e sentir-se-á em casa com faixas como “Stuck”, “Illuminate” e “The Weight of Disaster”. Já o não-fã, talvez prefira pegar momentos mais inspirados da discografia dos escandinavos para conhecer sua obra: Tall Poppy Syndrome, Coal e o já mencionado The Congregation.

E para ambos, recomendo os destaques “Illuminate”, que combina com maestria um ritmo difícil com um instrumental quase minimalista; e “The Last Milestone”, onde a tocante voz de Einar Solberg se vira apenas com as melancólicas cordas de Raphael Weinroth-Browne. Destaque também para o trabalho geral do baterista Baard Kolstad, que toca freneticamente sem soar excessivo.

Nota = 3/5. Fortalecendo a tendência a ser um grupo “ame-o ou deixe-o”, Malina requer absorção lenta e isso privará os mais impacientes de boas faixas. No mais, o fã pode cair de cabeça.

Abaixo, o vídeo de “Illuminate”:

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Resenha: A Gente Mora no Agora – Paulo Miklos

Reprodução da capa do álbum (© Deckdisc/Natura Music)

O primeiro disco após a saída dos Titãs é tão importante para o cantor Paulo Miklos que ele o considera seu primeiro álbum solo de fato, embora tenha lançado outros dois enquanto membro do grupo paulistano (Paulo Miklos em 1994 e Vou Ser Feliz e Já Volto em 2003). E a responsabilidade é grande mesmo, especialmente porque os dois outros vocalistas que saíram da banda (Arnaldo Antunes e Nando Reis) desenvolveram sólidas carreiras individuais. Poderíamos usar até Ciro Pessoa como exemplo, embora sua passagem pela banda tenha sido brevíssima.

O álbum, que recebeu o título de A Gente Mora no Agora, pede três palavras-chave: “parcerias”, “brasilidade” e “superação”. Nos dois primeiros casos, a explicação é óbvia: todas as 13 faixas são escritas ou coescritas por uma seleção de músicos das mais diversas gerações e vertentes, da jovem Mallu Magalhães ao septuagenário Erasmo Carlos; dos rappers Emicida e Lurdez da Luz aos também ex-Titãs Arnaldo Antunes e Nando Reis.

Buscar contribuições de gêneros tão distintos não poderia resultar em algo diferente de um lançamento de música brasileira moderna e diversificada. Mas, graças ao senso apurado de Marcus Preto, Pupillo e Apollo Nove (diretor artístico e produtores, respectivamente), o que poderia ter saído como uma coletânea caótica de peças musicalmente dessintonizadas acabou virando um álbum coeso, uma montanha russa que alça voos altos e dá mergulhos profundos sem perder o referencial.

Já a palavra “superação” vem para descrever o clima geral do trabalho. Tantas tragédias pessoais – Paulo perdeu os pais e a esposa no espaço de dois anos – somadas ao tenebroso cenário político nacional – o qual ele nunca se furtou a comentar – poderiam ter rendido uma música bem sombria. Mas é exatamente o contrário.

“A começar pela capa, eu digo que é um disco solar”, declarou Paulo ao jornal baiano A Tarde. Com efeito, A Gente Mora no Agora não se deixa abater pelo lado ruim da vida. Como o título sugere, vive-se o presente. O passado é uma fonte de referência e aprendizado, não um depósito de mágoas. O futuro é uma página em branco para ser preenchida com o que a vida tiver a oferecer, não para enchermos de ansiedades. Esta é a mensagem que o cantor parece querer transmitir.

A faixa de abertura e primeiro single divulgado, “A Lei Desse Troço”, faz companhia a “Todo Grande Amor”, “Estou Pronto” e “Eu Vou” como os cartões de visita que melhor resumem a obra.

O lado sambista do cantor (que, convém lembrar, interpretou o lendário Adoniran Barbosa num curta) aflora em “Vigia”, “Não Posso Mais” e na novosbaianística “Samba Bomba”, coassinada por Tim Bernardes, d’O Terno.

Rock, em última análise, não deu sinal de vida aqui. Mas peças como a cativante “Risco Azul” (que leva a coassinatura de Pupillo e Céu) e a divertida “País Elétrico”, crítica social com o “jeitão” erasmítico de seu coautor, trazem uma pegada rock que, se não nos permite rotulá-las como tal, ao menos nos lembram que Paulo fez seu nome por meio do gênero.

Outros destaques são “Afeto Manifesto”, escrita em parceria com a rapper Lurdez da Luz, que entregou uma letra inteligente e tão sincera que você até esquece que não é ela quem está cantando; e “Deixar de Ser Alguém”, surpreendente frevo coescrito por seu ex-colega de Titãs Arnaldo Antunes.

A radiofônica “Vou te Encontrar” (não por um acaso, escrita por Nando Reis, um dos maiores arrecadadores do ECAD) e “Princípio Ativo” são os momentos mais sonolentos do disco, a despeito de terem conquistado corações por aí.

Do time convidado para ser a base do som, destaca-se o tecladista Maurício Fleury, cujos acordes cirúrgicos colocam as notas certas nos momentos certos na melhor escola Tom Jobim de arranjos pianísticos.

Passadas algumas audições, percebe-se que Paulo conseguiu, talvez até involuntariamente, um feito: pegar a historinha do carpem diem, do “viva o agora”, enfim, todo esse papo batido de como devemos aproveitar a vida enquanto podemos e fazer uma verdadeira reciclagem para ressignificar a ideia.

Nota = 4/5. É perfeitamente compreensível o motivo de Paulo considerar este como o primeiro solo: os dois lançamentos anteriores soam amadores perto deste gostoso trabalho. A diferença entre Infernal e A Letra A (respectivamente, último e primeiro discos de Nando Reis antes e após sua saída dos Titãs) não é tão grande, por exemplo. Honesto, vivo, seguro, alegre… são vários os adjetivos que podemos atribuir a A Gente Mora no Agora. Mas podemos ficar com o “solar” sugerido pelo próprio artista.

Abaixo, a faixa “A Lei Desse Troço”:

Resenha: Unlikely – Far from Alaska

Reprodução da capa do álbum (© Elemess)

É uma introdução clichê, mas… não dá pra não começar este texto dizendo que “muita coisa aconteceu” desde o último álbum do Far from Alaska, o ótimo modeHuman (resenhado neste blog). O quinteto potiguar baseado em São Paulo tocou em festivais grandes, fez parcerias com outras potências emergentes do rock nacional, foi elogiado por músicos e jornalistas estrangeiros e multiplicou sua população de fãs numa velocidade chinesa, sacramentando o que eu já previra ao encerrar a resenha de sua estreia.

A banda não tinha atmosfera melhor para começar a bolar seu segundo trabalho de estúdio. Por meio de uma campanha de financiamento coletivo, viajaram aos EUA e sentaram com a gabaritada Sylvia Massy (System of a Down, Red Hot Chili Peppers, Johnny Cash, Tool, entre outros) para preparar Unlikely, cujo título dialoga com o fato de serem um grupo de rock de Natal conhecida até lá fora.

O álbum começa com tudo (ou com o “pé na porta”, como eles tão bem descreveram) com o single “Cobra”, que manda sem anestesia e com meros 15 segundos de aviso prévio o refrão e o riff mais agressivos do disco. Nada na discografia deles merece mais o adjetivo “visceral”.

Mas Unlikely não é só pancada seca. Logo depois da abertura, “Bear” já chega com riffs robustos como o animal que lhe dá nome e bem mais elementos eletrônicos. Até a última faixa, esses elementos serão incorporados em maior ou menor grau – notoriamente em “Monkey” e “Coruja”. E “Elephant”, apesar do animal que lhe dá nome, pode ser considerada a balada do disco, talvez?

Em “Pig”, temos um trabalho de Cris Botarelli na lap steel guitar que a torna uma espécie de irmã de “Politiks”, do modeHuman. Mas o que mais chama atenção é como os primeiros versos parecem uma mistura de “All I Really Want”, da Alanis Morissette, com “Just Like That”, do Squidd – canção que só conhece quem jogou 1080º Avalanche para Game Cube. O sempre bem-vindo lap steel reaparecerá na excelente “Armadillo”, que evoca um clima tão desértico quanto o cenário do clipe de “Dino vs. Dino”, do lançamento anterior.

O bom humor que sempre foi característico do quinteto se manifesta em Unlikely bem mais do que em modeHuman. Exemplos são faixas como “Pizza” e sua letra absolutamente despretensiosa; a meta-canção “Rhino”, que pega o gritado e emotivo refrão de “I Will Always Love You” e o transforma em algo tenso combinado a riffs marchantes que nos fazem visualizar o animal do título se aproximando; e a divertida mensagem subliminar ao final de “Slug”. Some isso ao trabalho visual todo transado e colorido e entenda por que esta obra é realmente a cara deles.

Aliás, é isso que o grupo tem defendido em entrevistas. Que Unlikely é mais “solto” que modeHuman. Pelos motivos mencionados acima, ele é muito mais condizente com a imagem que o Far from Alaska passa ao vivo e em suas redes sociais. As piadinhas, as fotos de divulgação descontraídas, a linguagem jovial, nada disso combinava com a seriedade do debut deles – em que pese ser um discão, e em que pese eu desejar que eles um dia voltem a fazer algo mais complexo e “cabeça”.

Por fim, vale ressaltar que o álbum não tem todo esse equilíbrio entre pop e rock que tem sido alardeado aos quatro ventos. É rock do começo ao fim, ditado pelas guitarras cruas de Rafael Brasil, a explosão rítmica de Edu Filgueira e Lauro Kirsch e os vocais firmes de Emmily Barreto. Os teclados de Cris (que passaram por curiosos experimentalismos nas mãos de Sylvia, com os cabos passando por salsichas, lâmpadas e furadeiras) são um charme indispensável, é verdade, mas qualquer toque de pop é apenas isso – um toque. Um tempero. Sem o qual a banda não seria o que é.

Nota = 5/5. Criatividade na composição, perícia na produção e na execução, coragem para continuar ousando… Tudo isso ajuda a fazer de Unlikely um dos melhores lançamentos nacionais do ano. E agora podemos até usar o manjado adjetivo “honesto” para classificá-lo, por se tratar da obra que transmite devidamente em música o que eles manifestam visualmente.

Abaixo, o vídeo de “Cobra”: