Resenha: Heart, Mind and Soul – Hardline

Reprodução da capa do álbum "Heart, Mind and Soul", do Hardline. Trata-se de uma ilustração de duas montanhas piramidais com uma escada entre elas e em meio a uma planície. Nuvens douradas pelo sol são vistas ao fundo. O nome do grupo aparece no topo, de ponta a ponta, e o nome do disco vem no rodapé, também de ponta a ponta.

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

Em minha resenha sobre Life (clique aqui para conferi-la), sexto disco do quinteto estadunidense de hard rock Hardline, eu aplaudi o grupo por recuperar o peso do seu antigo som, que parecia perdido depois de quase 30 anos. Desta vez, infelizmente, sigo o caminho inverso ao da outra análise.

E faço isso porque Heart, Mind and Soul, o sétimo trabalho de estúdio, dá um passo para trás, termo que aqui significa “volta ao som mais leve e radiofônico que eles começaram a apresentar neste milênio”. Com isso, ganhamos um lançamento bem esquecível.

Não se deixe enganar pela poderosa abertura “Fuel to the Fire”, cuja única falha é sua posição, fazendo a obra começar já no seu ponto alto. Salvo algumas exceções, o que se tem é uma sequência de faixas com tanto fôlego quanto um asmático depois de uma maratona.

Essas músicas brincam na tênue linha que separa as baladas de rock do “rock leve”, sem se importar muito em qual lado se vai cair. Parece que o importante é valorizar o lado melódico da banda, que sempre existiu, não há dúvidas, mas nunca foi, sozinho, o responsável pela qualidade deles.

As exceções que eu mencionei mais acima? Fora a já mencionada abertura, temos a poderosa (ainda que desnecessariamente longa) balada “Heavenly”, as empolgantes “Waiting For Your Fall” e “The Curse” (pelas quais é fácil se sentir representado) e “80’s Moment”, que faz o que o título indica e flerta com o rock oitentista, embora acabe soando como o Hardline fazendo cover de si mesmo.

Se os anos 2010 foram, no geral, muito felizes para o quinteto, podemos dizer que começaram os 2020 com o pé esquerdo. A boa notícia é que, de um grupo com tanto talento envolvido, fica muito fácil superar essa fase ruim num futuro lançamento.

Avaliação: 2/5.

Abaixo, o clipe de “Fuel to the Fire”:

Resenha: The Enigma Birth – Avalon

Reprodução da capa do álbum The Enigma Birth, do Avalon. A ilustração mostra uma mulher com asas de anjo e uma espada nas mãos saindo de uma concha e algumas figuras humanoides com corpos mercurosos em volta. O nome do projeto aparece no topo e o do álbum no rodapé, ambos centralizados.

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

Contratos com gravadoras são tão sérios que eles até te fazem criar o quarto capítulo de uma trilogia, por mais bizarro que isto soe. A metal opera Avalon, que o guitarrista finlandês Timo Tolkki (ex-Stratovarius, Symfonia, Revolution Renaissance) criou a convite de Serafino Perugino, fundador da Frontiers Music Srl, encerra um ciclo de oito anos de lançamentos com The Enigma Birth, editado em junho pelo selo italiano.

Tal como no antecessor Return to Eden (veja aqui minha resenha a respeito), recebi a notícia deste quarto episódio com certo preconceito, pois achava que o terceiro disco da metal opera, muito bom, havia sido um ponto fora da curva. Não foi: este aqui seguiu um caminho igualmente frutífero (embora não com a mesma consistência), mostrando que o projeto estava começando a ficar mais bem azeitado.

A consistência foi comprometida aqui porque o trabalho perde o gás na metade e só recupera mais pro final. Em outra palavras, a metade “boa”, sozinha, tornou esta obra tão boa quanto a sua antecessora, não deixando a metade “ruim” prevalecer.

Uma possível explicação para esse contraste entre os dois conjuntos de faixas é o fato de que Timo só escreveu justamente metade delas; as outras ficaram a cargo de um time de compositores da própria gravadora, segundo declarações do músico ao canal Chaoszine. A pergunta que fica é: quem escreveu as “boas” e quem escreveu as “ruins”?

O “líder” do projeto não teve controle nem mesmo sobre a lista de convidados, escrevendo “às cegas” com relação aos vocais. Enquanto a banda de apoio é composta por vários ilustres semidesconhecidos da cena italiana (presumivelmente indicados pelo selo também), os vocalistas convidados agregam muito valor: James LaBrie (Dream Theater), Jake E. (ex-Amaranthe, Cyrha), Marina La Torraca (Phantom Elite, Exit Eden), Brittney Slayes (Unleash the Archers), o “Bruce Dickinson brasileiro” Raphael Mendes (Icon of Sin), Fabio Lione (ex-Labyrinth, ex-Vision Divine, ex-Rhapsody of Fire, Turilli / Lione Rhapsody, Angra, Eternal Idol), Caterina Nix (Chaos Magic) e o influencer norueguês PelleK.

A “metade boa” que mencionei está quase toda concentrada nas primeiras faixas, numa sequência matadora de pesados e rápidos petardos. Destaque para a veloz abertura autointitulada, com PelleK; a sinfônica levemente oriental “Memories” (com Caterina Nix e Brittney Slayes); a poderosa “Master of Hell”; e a surpreendentemente progressiva “Beautiful Lie”, que combinou com o convidado James LaBrie. Esta e “Memories” são duas que eu tenho certeza quase absoluta que não foram compostas por Timo: exceto pelos solos, nada nelas tem a cara dele.

E é a partir da sexta que chega a tal da perda do gás. Neste pacote de canções, temos as genéricas “Truth” (com Jake E) e “Time” (com Marina La Torraca) e a sonolenta balada “Another Day” (também com Marina). E, por melhor que tenha sido o trabalho da nossa voz tupiniquim em “Beauty and War”, ela não faz jus a “Master of Hell”.

Os destaques da reta final são capitaneados por Fabio Lione. Primeiro vem “Dreaming”, mesclando o melhor do metal sinfônico, progressivo e power; depois, encerrando o disco, temos a agressiva e encorpada “Without Fear”. Merece comentários também a outra balada, “The Fire and the Sinner”, com uma memorável performance de Brittney.

Supondo que o projeto se encerre aqui, com este quarto lançamento da trilogia (jamais conseguirei escrever estas palavras sem uma dosagem de estranheza), podemos dizer que ele terminou sua história de forma digna. A próxima empreitada do finlandês é um álbum solo independente, Union Magnetica; tendo ele controle muito maior sobre o processo criativo, podemos esperar algo presumivelmente mais interessante desta obra, mas isto ficará para outra resenha.

Avaliação: 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Master of Hell”:

Resenha: Helloween – Helloween

ilustração de um ser humanoide encapuzado jogando chaves perto de outra criatura humanoide parecida com um zumbi enquanto um anjo toca trombeta ao fundo. O logo da banda aparece no topo, à esquerda.

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records; arte por Eliran Kantor)

A maioria das análises de Helloween, décimo quinto álbum de estúdio do septeto alemão homônimo de power metal, tem enfatizado muito o fato dele marcar a volta do guitarrista/vocalista Kai Hansen e do vocalista Michael Kiske – que não implicaram, ainda bem, na saída de Sascha Gerstner e Andi Deris, respectivamente.

Essa reunião é, obviamente, algo notável e, por que não, histórico. Mas o que realmente torna este um candidato a disco do ano – título que obviamente não ganhará num mercado que valoriza a mesmice do thrash e do heavy metal tradicional – é a volta às raízes empreendida pelos sete músicos envolvidos, sem que isso tenha custado os tons mais modernos que a banda vinha adotando.

Esta volta já fica bem evidente antes mesmo de ouvirmos a primeira nota: a capa, desenhada a mão por Eliran Kantor, é das mais belas do catálogo dos alemães, evocando as artes iniciais deles. O encarte, igualmente sofisticado, veio com uma letra tão estilizada que tive dificuldades para ler certas informações. Mas, bem, eu não sou crítico de artes plásticas, sou?

Enfim, o retorno às antigas continua evidente quando damos play. No petardo de abertura, “Out of Glory” (Michael Weikath), o novo e o antigo se misturam de forma bem homogênea, criando uma peça que poderia ter saído de quase qualquer item da discografia deles. Neste grupo, caem também as ótimas “Rise Without Chains” (Andi Deris), “Robot King” (Michael Weikath) e mesmo “Down in the Dumps” (idem), embora o trabalho introdutório nas cordas já não seja tão oitentista assim.

Há um outro time de faixas que seguem numa direção mais “modernosa”: “Fear of the Fallen” (Andi Deris), com discretas cordas ao fundo, e a agressiva “Cyanide” (idem).

Essas incursões no século XXI nem sempre têm final feliz, contudo: “Best Time” (Sascha Gerstner, Andi Deris), por exemplo, é tão fraca e comercial que eu fiquei negativamente surpreso que tenham sido necessárias quatro mãos para criá-la (a única não individual do disco regular). Por outro lado, graças a Dio o grupo não a pinçou como single. A propósito, a própria banda admitiu em entrevista à Roadie Crew que a canção era comercial. Também faz parte deste conjunto “Indestructible” (Markus Grosskopf), quase tão fraca quanto “Best Time”, porém mais palatável.

E tem algumas que até fogem um pouco do “óbvio”, agradando aquela provavelmente diminuta ala que esperava algo novo. “Mass Pollution” (Andi Deris), por exemplo, tem um pezinho no hard rock oitentista, enquanto que sua sucessora “Angels” (Sascha Gerstner) vem carregada de uma atmosfera sombria que evoca o controverso The Dark Ride (2000).

E o que falar de “Skyfall”, precedida pelo interlúdio guitarrístico “Orbit” (ambas de Kai Hansen)? Absolutamente o ponto alto, reunindo os elementos de todas as suas antecessoras e tirando o melhor dos oito músicos envolvidos – sim, oito, pois o lendário Jens Johansson contribui com discretos teclados aqui, explicando por que o pano de fundo musical tem um “quê” de Stratovarius, especialmente na reta final.

Inteligentemente, ela foi escolhida para ser o single (ainda que numa versão encurtada) e para receber um vídeo histórico, cujo orçamento pode muito bem ter sido o maior da história do power metal.

Como faixas bônus, Helloween traz “Golden Times” (Sascha Gerstner), boa demais para ficar relegada a um disco 2; “Save My Hide” (Andi Deris), esta sim verdadeiramente dispensável; “Pumpkins United” (Kai Hansen, Andi Deris, Michael Weikath), a primeira música da nova formação que levou os fãs à loucura em 2017 e hoje parece apenas simpática perante o conjunto de canções em geral superiores apresentando no CD 1; e “We Are Real”, empolgante presente de Markus Grosskopf para os japoneses (sempre eles!)

Tudo isso, vale dizer, foi executado pelo baterista Daniel Löble no kit que o próprio Ingo Schwichtenberg – finado membro da formação clássica – usava 30 anos atrás. Somando isso a outros equipamentos vintage resgatados daqueles tempos, quer mais retorno às origens que isso?

Num caso não muito comum de fan service (e, neste caso, label service também) que deu certo, o Helloween fez história (crítica, comercial, seja qual for o ângulo) em 2021, se é que já não havia feito antes ao se apresentar no mundo toda com esta formação de septeto. Taí uma obra que eu estou curioso pra ver de que forma alguém poderia tecer uma crítica negativa.

Avaliação: 5/5.

Abaixo, o vídeo de “Skyfall”: