Resenha: Stolen Byrds – Stolen Byrds

Breve histórico: Stolen Byrds é um quinteto paranaense de rock de Maringá que surgiu nesta década e vem fazendo considerável sucesso em seu estado natal com seu rock anglófono diverso e de qualidade acima da média nacional.

Reprodução da capa do álbum (© Stolen Byrds)

Reprodução da capa do álbum (© Stolen Byrds)

Após um bem recebido álbum de estreia, Gypsy Solution, os paranaenses do Stolen Byrds voltam a acenar para o mundo com 13 faixas de fino rock cantadas em inglês, passando definitivamente pelo teste da continuidade, também conhecido como “tinha mais de onde veio o primeiro”. A marca de Stolen Byrds é a ousadia e a diversidade de influências. Se o primeiro lançamento era mais focado em hard rock, este rompe barreiras e abraça mais elementos, incluindo stoner, grunge, alternativo e heavy metal.

Há música para todos os gostos. “Come Undone”, “Save Your Heart”, “Face the Light”, “Sons of Babylon” e “You Gotta Believe” integram o grupo mais predominante, com uma mistura dos elementos supracitados. “Artemis” e “Beggin’ for You” ainda trazem uns temperos country, com direito a um longo solo de gaita por João Fortes na segunda. E o que dizer de “Move On”? Parece ter sido escrita por alguém numa garagem de classe média no subúrbio de Seattle no início dos anos 1990 em conexão sense8ística com um motoqueiro numa estrada do sudoeste estadunidense nos anos 1970.

“Shiva” é um trabalho primeiramente acústico, e depois marcado por um longo solo de guitarra, numa roupagem leve e madura digna de um Eagles. Outra canção com essa instrumentação mais leve é “Requiem”, que sequer traz percussão.

A reta final do álbum é marcada por faixas mais peculiares, a começar pela campeã neste quesito: “Travelling to the Sun”, a maior do disco. Começa progressiva, desemboca no grunge e sua segunda metade é marcada por um longo solo de saxofone à la Steve Mackay (por Claudio Caldeira) e um discurso do orador, escritor e humanista indiano Jiddu Krishnamurti, proferido em 1970 na Universidade Estadual de San Diego, nos EUA.

Em seguida, vêm as já citadas “Requiem” e “You Gotta Believe” e então “Rain Time”, uma balada grunge com destaque para a performance do vocalista Edwardes Neto. E fechando de vez a lista de faixas, “Make Until the Day”, um trabalho de tom mais alegre e esperançoso com vocais de apoio meio gospel ao fundo, providos por Patrícia Borges e Fernanda Persona.

Alguns poderiam considerar a mudança na sonoridade como “radical”, mas os Stolen Byrds escolheram a hora certa para mudar. Antes mudar agora do que mais tarde, quando o som está cimentado e a comunidade de fãs já está com os ouvidos afiados para certo tipo de música. Se é que podemos falar em “mudança”, é claro. Pode ser que os maringaenses simplesmente tenham objetivado abrir seu leque de influências e mostrar tudo com o que podem experimentar antes de possivelmente decidirem por um direcionamento final.

Nota = 8. Rock sério, maduro, profissional e com a qualidade acima da média. Só o fato de terem um vocalista verdadeiramente bom e com um inglês não-macarrônico já os coloca à frente de muitas bandas novas brasileiras, mas é claro que isso não é tudo. Têm o mais importante, que é talento para compor e executar.

Abaixo, o álbum completo no canal oficial da banda:

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Resenha: Em Dias Assim – Impéria

Breve histórico: formado em 1996, o quarteto de rock Impéria se conheceu ainda na época da escola e passou por diversas trocas de membros até assumir a atual formação. Com influências variadas, integram o grande grupo de novas bandas de rock nacional tentando um lugar ao sol.

Reprodução da capa do álbum (© Impéria)

Reprodução da capa do álbum (© Impéria)

Em Dias Assim, álbum de estreia do quarteto lançado em 2011, tem produção assinada por Fernando Magalhães, guitarrista do Barão Vermelho. Isso, por si só, já deveria dizer muito sobre o trabalho – mas não espere nada extraordinário. O som do Impéria não é algo muito exato, mas pega nítidas influências de hard rock, rock alternativo, heavy metal, grunge e um pouco de punk só para dar um gostinho. Riffs pesados e arranhadas bem-vindas no violão dividem espaço com vocais melódicos e rasgados. Mas o resultado geral é algo que não empolga.

O Impéria peca por duas coisas: primeiramente, a previsibilidade. Quando ouvi o álbum pela primeira vez, peguei-me adivinhando (e acertando) as palavras que seriam usadas para concretizar algumas das rimas. As letras poderiam ser melhor trabalhadas, pois soam óbvias sem serem diretas. Os vocais de Marcio Deliberalli replicam o problema que marca a maioria das novas bandas novas do rock nacional: não são marcantes, e o vocalista parece inseguro com alguma coisa.

A banda como um todo, aliás, não soa muito segura. Isso fica ainda mais evidente no clipe abaixo, em que os membros pouco se movimentam e pouco interagem com o ambiente e com eles mesmos. Sequer olham para a câmera. O som de Em Dias Assim é todo “para baixo”, sem momentos de esplendor. Falta brilho.

Por outro lado, é louvável que a banda não tenha se rendido às baladinhas românticas e sem sal que as grandes gravadoras e emissoras adoram. Na verdade, os temas são menos fáceis e devem agradar a um público mais exigente. Como destaques, ficam a faixa título, “Dias de Paz” e “Trilhas Abertas”.

Nota = 6,5. É chato não ter como dar nota alta para uma banda iniciante do rock nacional, mas não é que estejamos tão carentes de bons grupos novos. É nítido que tem alguma coisa ali por debaixo do som recatado do quarteto, aguardando a oportunidade de ser liberado. O Impéria é exatamente como o país onde nasceu: um gigante adormecido.

Abaixo, o vídeo de “Eu Sou o que Eu Sou”:

* O CD Em Dias Assim foi enviado ao autor do blog via internet pela assessoria de imprensa da banda e a resenha foi escrita por sugestão da mesma.

Resenha: 2polos – 2polos

Breve histórico: Oriundos de Natal, Rio Grande do Norte (terra do Far From Alaska, uma das bandas novas mais relevantes do rock nacional), 2polos apresenta uma sonoridade próxima ao post-grunge e ao rock alternativo, preenchendo assim aquela lacuna de bandas brasileiras e com letras em português que façam algo com forte inspiração em Alter Bridge e afins.

Reprodução da capa do álbum (© 2polos)

Reprodução da capa do álbum (© 2polos)

Após um álbum de estreia sem muito impacto e um EP acústico, a banda cravou seu nome definitivamente no rock nacional recente com um álbum autointitulado de 2013, que lhes rendeu elogios da crítica e mais atenção da imprensa especializada.

E não é por menos. O começo de 2polos já impressiona pelo peso e pela atitude do instrumental, mas as letras melosas farão os roqueiros mais conservadores levantarem uma sobrancelha. Se não forem impacientes demais, terão a oportunidade de ver a banda assumir um tom mais “sério” a partir da terceira faixa, “A Máquina”. Juntamente a “Efeito Colateral”, “Reino da Ilusão” e “Humaníase”, forma um grupo de canções com teores bem mais interessantes e politizados. Fazem, assim, algo parecido com o que o Hempadura faria mais tarde, em 2014 (veja mais aqui).

Mas mesmo as faixas mais melosas não chegam a ser um problema por si só. É verdade que é um tiro no pé tentar fazer rock no Brasil falando de amor – você pode ganhar um CD da Globo, mas terá o eterno desprezo dos tr00 666 from hell. Mas o 2polos explora o tema de maneira um pouco mais original, ajudados pelo peso nada romântico de suas guitarras. E mesmo faixas levinhas, como o encerramento “Outono”, conseguem contrastar com o resto do CD de maneira coerente, sem simplesmente “jogar” uma balada bonitinha como é costume.

Os vocais agressivos e cantados ocasionalmente em ritmo de rap dividem com os riffs de guitarra o posto de destaque no trabalho. Se na voz temos resquícios de Fresno, Raimundos e até Planet Hemp, no instrumental ouvimos desde os três citados até Creed, Adrenaline Mob e outros grupos que primam pela agressividade no instrumental.

Nota = 8,5. Uma banda que ainda não conquistou a atenção merecida (como tantas outras, é verdade), mas que mantém o rock brasileiro vivo. É gratificante ver que ainda há focos de peso e atitude numa cena abarrotada de músicos fazendo baladinhas simpáticas a programas televisivos de calouros.

Abaixo, o vídeo de “A Máquina”:

* O CD 2polos foi enviado ao autor do blog via correio pela assessoria de imprensa da banda e a resenha foi escrita por sugestão da mesma.