Resenha: Hvman. :||: Natvre. – Nightwish

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Depois que o sexteto finlandês de metal sinfônico Nightwish lançou o ótimo Endless Forms Most Beautiful (clique aqui para conferir minha resenha a respeito), um álbum que lidava com temas como biologia, evolução e natureza, deduzi que o próximo passo poderia ser abordar temas de fora da Terra – exploração espacial, vida extraterrestre, astrofísica, nosso lugar no universo, etc.

Mas tolo fui eu de me julgar capaz de prever o tecladista, líder e principal compositor do grupo, Tuomas Holopainen – um dos poucos músicos vivos que eu me atrevo a classificar como gênio. Com Hvman. :||: Natvre. (Human Nature para os íntimos), ele expandiu temas do disco anterior ao mesmo em que aborda temáticas mais humanas.

A formação é exatamente a mesma de antes, com a diferença de que agora o baterista Kai Hahto empunha as baquetas de forma oficial – Jukka Nevalainen anunciou no ano passado que estava fora da banda definitivamente, ao menos enquanto músico.

A primeira coisa que devo falar sobre Hvman. :||: Natvre. é que ele fez o mínimo que se esperava dele: corrigiu os problemas do Endless Forms Most Beautiful. Para quem não se lembra, embora ótimo, ele foi marcado pela subutilização da então nova vocalista Floor Jansen, que passou longe de mostrar todo o seu potencial, e o mesmo ocorreu com o também novo integrante oficial (mas antigo colaborador) Troy Donockley, que continuou dando as caras só esporadicamente com seus vocais e instrumentos exóticos.

Neste lançamento eles finalmente liberam seus talentos sem amarras. No caso de Troy, deve-se mencionar ainda que Tuomas conseguiu aumentar sua dosagem sem que o sexteto virasse folk.

Mas parece que o ajuste teve um sacrifício: Marco Hietala, o baixista e também vocalista, quase não dá as caras – digo, as vozes. Fica restrito a vocais de apoio e ganha espaço digno em apenas uma faixa: “Endlessness”. Há algum sentido em desperdiçar um talento desses?

Falando especificamente das músicas, abrimos muito bem com “Music”. O clima tribal que marca o pontapé inicial desemboca num trabalho típico e pesado – esta pegada tribal, agressiva, primitiva será não só resgatada, mas também aprofundada quase no final do CD 1, na empolgante e percussiva… “Tribal”.

“Shoemaker” é outro destaque, não só pelo peso, mas por trazer um dos pontos altos de Floor, que ataca até com vocais operáticos – não por um acaso, ela teve de tentar vários takes até atingir o nível desejado, conforme explicou em vídeo no YouTube. E falando em peso, quem gosta deste aspecto do som do Nightwish vai se deliciar com “Pan”.

“Harvest”, o segundo single, também figura entre os pontos altos, sendo a faixa mais folk e a única em que a voz de Troy aparece em mais evidência, uma vez que no resto do álbum ele se limita a oferecer um belo contraponto a Floor. “How’s the Heart” também traz uma boa dosagem celta e mais uma performance de gala da holandesa.

A primeira parte se encerra magnificamente com “Endlessness”, um trabalho que reúne peso, emoção e toda a musicalidade característica do Nightwish. Faltou falar só da segunda faixa, “Noise”, que é bem menos comercial do que se poderia esperar do primeiro single de um álbum, mas ainda assim não fica entre as melhores.

O CD 2 consiste em oito faixas que, juntas, formam uma peça extensa de 31 minutos. E é aí que reside a grande decepção de Hvman. :||: Natvre.. Esta segunda metade, que recebeu o nome “All the Works of Nature Which Adorn the World”, é totalmente orquestral e instrumental (se não levarmos em conta as narrações e vocalises), fazendo dos integrantes coadjuvantes em sua própria música.

É um trabalho lindo? Não tenho a menor dúvida, chega a arrepiar em alguns momentos. Ele deu certo? Se fosse a trilha sonora de um filme ou mais uma aventura solo de Tuomas, com certeza. Mas não é. Fica a sensação de que ela foi toda criada tendo algumas imagens em mente. Imagens estas que só chegaram para o encerramento “Ad Astra” – que foi lançado como terceiro single.

Este segundo disco inteiro, atrevo-me a dizer, é descartável. Não no sentido de que seja ruim, mas no sentido de que ele não veio para somar, veio para fazer volume, o que é bem diferente. Por corresponder a praticamente 40% da obra, acaba impedindo que sua média seja alta.

Um álbum excelente que não atende as expectativas. Este é Hvman. :||: Natvre.. Parece absurda a ideia, não? Bom, o Nightwish é uma das melhores bandas do mundo (não só no metal, mas na música em geral), então eles teriam que se esforçar muito para fazer algo ruim. Daí o “excelente”. Por outro lado, justamente por serem tão bons, esperava-se algo mais, especialmente de “All the Works of Nature Which Adorn the World”, que não bate nem na trave se comparada a outras faixas épicas deles como “The Greatest Show on Earth”, “The Poet and the Pendulum” e “Ghost Love Score”.

Sem falar, claro, na relegação de Marco e Troy a segundo plano enquanto cantores. Gerenciar três vocalistas não é tarefa fácil, mas a matemática por sua vez não é tão complicada. No CD 1, são nove faixas: sete para Floor, uma para Troy e uma para Marco. Algo está errado nessa balança aí…

Nota = 4/5.

Abaixo, o lyric video de “Music”

Resenha: Mustan Sydämen Rovio – Marko Hietala

Reprodução da capa do álbum (© Savonian Rooster)

Foi como “hard progressivo” que Marco Hietala, mais conhecido como vocalista e baixista das bandas finlandesas Nightwish e Tarot, definiu o som de Mustan Sydämen Rovio, seu primeiro álbum solo em pouco mais de 50 anos de vida, e para o qual ele adota a variação ‘Marko’ de seu primeiro nome.

O termo “hard progressivo” normalmente nos remete a nomes arrojados como Rush e Sons of Apollo, mas o som que o barbudo finlandês (que deu um pulo recente no Brasil para se casar) imprime em sua estreia a solo é, na verdade, algo um pouco mais abrangente que uma mera mistura de hard rock com progressivo.

Existem cordas suficientes para considerarmos que o trabalho engloba também os gêneros folk e sinfônico. Ao mesmo tempo, a levada das guitarras em certos momentos nos faz pensar em algo tão básico quanto heavy metal tradicional.

Como costuma acontecer em lançamentos solo de quem já carrega nas costas a experiência de décadas em nomes diversos, Mustan Sydämen Rovio não é exatamente direto. Ele propõe novas direções a todo momento, ainda que sem sair de um determinado universo musical.

Por exemplo, a abertura “Kiviä” nos leva a crer que estamos diante de uma espécie de cruzamento de Korpiklaani com Nightwish. Mas a sequência “Isäni Ääni” já direciona o som para algo mais melancólico.

“Tähti, Hiekka ja Varjo”, que abre com riffs eletrônicos que deixariam o Stratovarius moderno com um sorriso no rosto, logo deságua num metal moderno com toques de power e do próprio Nightwish. O peso evolui em “Kuolleiden Jumalten Poika”, com um instrumental relativamente cru, uma entrega vocal acima da média do álbum e potencial para ser single.

“Laulu Sinulle”, a mais longa da vez, destoa bastante de suas companheiras ao adotar uma roupagem alternativa e altamente sintética, que lentamente se transforma no momento mais progressivo do disco – mas nem de longe o mais interessante.

Melhor é sua sucessora “Minä Olen Tie”, que também evolui aos poucos, mas para algo mais empolgante, incluindo riffs fortes e um solo fritado que à primeira ouvida parece se esforçar para se encaixar na proposta mais pé no chão do lançamento, mas no fim acaba dando certo.

Na verdade, a segunda metade da obra é a sua melhor parte. “Juoksen Rautateitä” e “Totuus Vapauttaa” são sem dúvidas o ponto alto em termos instrumentais por serem dinâmicas e altamente empolgantes, com trabalhos no órgão por parte de Vili Ollila que fariam Rick van der Linden sorrir em seu túmulo, não tivesse ele sido cremado. O time do disco envolve ainda o baterista Anssi Nykänen e o guitarrista Tuomas Wäinölä.

“Unelmoin Öisin” desacelera o ritmo das coisas sem deixar a peteca cair, preparando o terreno para o encerramento acústico “Totuus Vapauttaa”, carregado de emoção e recheado de cordas.

Marko Hietala faz em Mustan Sydämen Rovio uma sólida estreia solo, com muitos motivos para torcermos por uma continuação, ainda que saibamos que ela pode levar um bom tempo – principalmente porque os ensaios do novo álbum do Nightwish já começaram, conforme post recente do líder Tuomas Holopainen.

Nota = 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Isäni Ääni”:

Resenha: Auri – Auri

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Enquanto o sexteto finlandês de metal sinfônico Nightwish lança sua compilação Decades e trabalha na subsequente turnê, o líder e tecladista da banda, Tuomas Holopainen, decidiu se aventurar com sua esposa, Johanna Kurkela, num projeto paralelo de folk acústico e levemente sinfônico.

E foi assim que Tuomas criou seu próprio Blackmore’s Night, chamado Auri, com a diferença que o grupo tem ainda um terceiro elemento – no caso, Troy Donockley, colega de Tuomas no Nightwish. É praticamente um spin-off da equipe envolvida na criação de Music Inspired By The Life and Times of Scrooge (resenhado neste blog), disco solo do tecladista.

E não chega a ser descabido comparar o Auri com o Blackmore’s Night. As diferenças mais marcantes residem no timbre de voz das vocalistas (com Candice Night apresentando um tom levemente mais grave), e no instrumental. Ritchie Blackmore, guitarrista, transforma o violão e outros instrumentos de cordas em protagonistas no som, enquanto que o trio verá o piano de Tuomas, o violoncelo de Johana e as flautas de Troy construindo a parte não-vocal do disco de estreia deles, autointitulado.

O álbum é um tanto contemplativo, no sentido de que o som muitas vezes se manifestará de forma a envolver-nos em uma atmosfera relaxante. Algumas mal possuem letras propriamente ditas, como “The Name of the Wind” e “Savant”.

Mas há espaço para trabalhos um pouco mais convencionais, como a abertura “The Space Between”, “Aphrodite Rising”, a rítmica “See” e o single “Night 13”, belamente interpretado por Nicholas Minns em vídeo que você pode conferir ao final da resenha.

Os belos vocais de Johanna ajudam a construir aquela atmosfera supracitada, ganhando corpo em “Desert Flower”, um dueto com Troy, que vem se mostrando uma interessante alternativa a Marco Hietala no Nightwish. Nas outras faixas, ele e Tuomas limitam-se, vez ou outra, a fazer um contraponto masculino à cantora.

Tuomas, que controla quase tudo em sua banda principal, será ouvido aqui muito mais como compositor do que como executante. Há vários momentos do álbum que remetem a seu disco solo e a músicas típicas do Nightwish, mas os pianos e teclados dele têm papel limitado se comparado às cordas, aos sopros e à voz de sua esposa. E ainda bem que foi assim: o som do Auri é exatamente o que deveria ser.

Talvez o fã sedento por guitarras sinta falta do fator metal, mas o trio nunca prometeu algo do gênero. E, nem por isso, o projeto perde valor – afinal, ainda está para nascer algo ruim que tenha passado pelas mãos de Tuomas.

Nota = 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Night 13”: