Resenha: Isolation – The Browning

Breve histórico: The Browning é um quarteto estadunidense de electronicore e um dos expoentes do gênero. Optam por uma música mais agressiva para os padrões do gênero, tanto que os vocais limpos raramente são empregados. Ao mesmo tempo, fazem um uso de elementos eletrônicos bem próximo daquelas bandas de eurodance da virada do século.

Reprodução da capa do álbum (© Spinefarm Records)

Reprodução da capa do álbum (© Spinefarm Records)

Desde a sua formação, o The Browning passou por muitas mudanças, não só no que diz respeito a membros entrando e saindo, mas também a integrantes que trocam de função dentro da mesma formação. Chegamos a 2016 com a seguinte configuração: o sempre presente Jonny McBee nos vocais guturais, teclados, programação e afins; Cody Stewart na bateria; Brian Moore na guitarra, após um período no baixo; e Rick Lalicker nas quatro cordas. Ufa!

Mas as mudanças não comprometem o som da banda, ainda bem. O The Browning segue sendo um dos melhores grupos de seu nicho, e o terceiro disco Isolation apenas reforça isso. Se o We Came as Romans e o I See Stars (cujos álbuns mais recentes foram resenhados neste blog, aqui e aqui, respectivamente) começaram a seguir um caminho (talvez sem volta) para um enjoativo rock eletrônico, os rapazes do Kansas seguem firmes e fortes na até pouco tempo atrás impensável união do metal com a música eletrônica.

E se tem uma coisa que destaca o The Browning de seus colegas de gênero, é o uso que faz do aspecto eletrônico. A ala mais sintética da banda consegue marcar fortemente sua presença sem abusar, sem competir por espaço com a guitarra. São sons que parecem extraídos de um daqueles CDs de sucessos das baladas dos anos 1990.

A coesão do álbum é tamanha que não compensa comentar faixa por faixa. Destaco então as aberturas “Cynica” e “Pure Evil” e a sequência matadora “Hex”, “Phantom Dancer”, “Cryosleep” e “Disconnect”. Esta última ganhou um lyric video e tem a participação do controverso Frankie Palmeri, vocalista do Emmure – aquele que lançou uma linha de camisetas com estampas no mínimo inadequadas, como aquela que combinava uma imagem dos responsáveis pelo massacre de Columbine nos corredores da instituição com os dizeres “atire primeiro, pergunte por último”.

Nota = 8/10. Se um amigo seu pedir um CD para conhecer o electronicore, dê Isolation sem medo. São 12 faixas que aplicam o gênero conforme manda o manual, e ganha uns pontos bônus por vir num momento em que outras bandas ou acabaram ou estão se arriscando em caminhos suspeitos.

Abaixo, o lyric video de “Disconnect”:

Resenha: Treehouse – I See Stars

Breve histórico: I See Stars é um quarteto estadunidense de electronicore e um dos expoentes do gênero. Sua música é marcada por riffs pesados e guturais agressivos dividindo espaço com vocais melódicos e uma rica atmosfera eletrônica – como manda o manual do gênero.

I SEE STARS - TREEHOUSE

Reprodução da capa do álbum (© Sumerian Records)

Aos poucos, a nova realidade do I See Stars foi sendo revelada: Jimmy Gregerson e Zach Johnson estavam fora. O primeiro era um dos guitarristas, uma ausência não tão complicada de suprir. Mas o segundo era apenas o tecladista e vocalista gutural do então sexteto. Como resultado, Devin assumiu todos os vocais (guturais e limpos), enquanto que seu irmão Andrew deixou a bateria para se dedicar à área das teclas e programações. A percussão ficou nas mãos do convidado Luke Holland, do The Word Alive.

Muitos se perguntaram como seria o impacto disso na banda. É difícil dizer se é a mudança de membros a responsável, ou se eles já se direcionavam para isto mesmo na formação antiga, mas a verdade é que os estadunidenses parecem sinalizar um direcionamento para um som mais leve e artificial, seguindo um caminho perigosamente parecido com o do We Came as Romans (cujo último álbum, autointitulado, foi resenhado neste blog).

Se a faixa de abertura “Calm Snow” dita a tônica geral de Treehouse, sua sucessora “Break” quase engana com sua qualidade superior à média do álbum. Mas o restante das faixas revela que a banda quer mesmo é se distanciar do electronicore que ela própria ajudou a moldar. As ótimas “Running with Sissors” e “Mobbin’ Out” até darão uma ponta de esperança, mas vão da água para o vinho quando chega a puramente eletrônica (e nem por isso ruim) “Walking on Gravestones”.

A reta final do álbum, finalmente, faz jus à trajetória do grupo. “Light in the Cave”, “All In”, Portals”… Pode escolher, são todas faixas que valem a pena. O custo para chegar até elas, este sim, é elevado demais. Fãs menos pacientes provavelmente interromperam a audição na quarta ou quinta faixa.

É louvável que o I See Stars tente dar uma repaginada no seu som, e isto é natural, dada a nova formação – mas o flerte perigoso com a electronica nos deixa com um frio na espinha, pensando se no próximo lançamento eles não vão chutar o balde e virar mais uma banda do insuportável “indie pop”.

Nota = 6/10. O electronicore é um estilo perigoso por abrir espaço para elementos normalmente rechaçados pela comunidade headbanger, dando margem para insetos vociferarem que “ishtu num é metau”. Mas quando o eletrônico começa a dar sinais de que vai tomar o espaço das guitarras, fica difícil de defender vocês, amigos.

Abaixo, o vídeo de “Mobbin’ Out”:

Resenha: Metal Resistance – Babymetal

Breve histórico: sem dúvidas, um dos grupos mais improváveis que você vai conhecer em sua vida. Misturando power/death metal com música pop japonesa, mais especificamente a música dos típicos idol groups nipônicos, o Babymetal junta um trio de cantoras e dançarinas adolescentes com uma excelente banda de apoio.

Reprodução da capa do álbum (© Amuse Inc.)

Reprodução da capa do álbum (© Amuse Inc.)

O estrondoso sucesso comercial e de crítica do álbum de estreia autointitulado das Babymetal (resenhado neste blog), bem como o das subsequentes turnês, o que se soma ainda à aceitação que elas tiveram entre muitos headbangers e até entre grandes representantes do gênero cravaram o nome delas definitivamente na história do heavy metal.

Mas as meninas, que provavelmente estão fazendo o dono da agência delas sorrir de orelha a orelha, ainda haveriam de passar por uma prova mais: a da continuação. Seria um segundo lançamento capaz de manter o nível do primeiro? Ou ele patinaria numa tentativa de reproduzir uma fórmula já usada anteriormente? Nem uma coisa nem outra. Metal Resistance não está no mesmo nível de Babymetal, ele simplesmente está acima. Ele tampouco tenta copiar seu antecessor. As fórmulas se mantiveram, mas o disco claramente abraça novas influências sem medo de ser feliz.

A abertura “Road of Resistance” já “chega chegando” com a participação de dois músicos experientes na arte de driblar o choro dos tr00 666 from hell: Herman Li e Sam Totman, os guitarristas do sexteto britânico de power metal extremo DragonForce, cuja música quase-caricata é alvo de críticas dos maidendependentes. A mistura de duas das bandas mais inusitadas da atualidade deu mais certo do que poderia ser previsto.

A sequência “Karate” parece um recado pros haters. Tem uma clara influência metalcore – e o álbum vai além, explorando a variante electronicore de forma brilhante em “From Dusk Til Dawn”, com influências que nos remetem até aos momentos mais chatos do Coldplay, só que justamente sem a chatice.

“Awadama Fever” e “Yava!” recuperam o lado mais pop da banda, com riffs menos agressivos. A primeira parece até uma continuação de “Gimme Choko!!”, do trabalho anterior. “Amore” poderia servir de abertura para um anime qualquer, não fosse a instrumentação fritada à la DragonForce.

A surpreendente “Meta Taro” parece saída de um disco qualquer do Korpiklaani, com seus riffs galopantes, atmosfera viking e a bem-vinda inclusão de um acordeão na instrumentação. E aí (depois da já comentada “From Dusk Til Dawn”), vem “GJ!”, surpreendendo novamente com riffs metalcore/progressivos reminiscentes de Asking Alexandria, Circus Maximus e Leprous. O “mi-mi-mi-mi” proferido aos 26 segundos parece até uma indireta aos haters brasileiros.

“Sis. Anger” é uma das mais agressivas lançadas por elas, com riffs rápidos de thrash e blast beats bem nervosas intercaladas com passagens mais lentas e poderosas. Tudo isso logo antes de “No Rain, No Rainbow”, aquela baladinha básica para desacelerar um pouco o ritmo. Este tipo de música, quando feita por artistas japoneses, ganha um charme em particular, que só quem escuta B’z, GLAY e L’arc~en~ciel entende.

Fechando o álbum com chave de ouro, as surpreendentes “Tales of the Destinies” e “The One”. Progressivas e técnicas, a primeira mistura essas bandas novas da cena progressiva (Haken, Leprous, Withem, Prospekt, etc.); enquanto que a segunda parece saída do Images and Words, do quinteto estadunidense de metal progressivo Dream Theater. Um trabalho impecável na guitarra quase nos faz consultar o encarte à procura de John Petrucci na lista de convidados.

Por um lado, abandonar um pouco o lado pop tornou a música da banda mais acessível à comunidade do metal, mas ao mesmo tempo quase deu fim naquilo que as tornou tão distintas. Quase. Metal Resistance não tem mais aquele elemento de choque do Babymetal, ainda que tenha suas surpresas. Ele é mais um álbum de evolução, para mostrar que as meninas eram bem mais do que uma jogada de marketing (embora ainda o sejam). Elas amadureceram e abraçaram novas influências, diversificando seu som.

Nota = 9. Se o seu amigo hater não começar a gostar delas ouvindo este lançamento, não começará nunca mais. E digo mais: as Babymetal mostraram definitivamente que são um projeto “sério”, capaz de se comportar como uma banda “de verdade”, que evolui e busca a própria superação, apesar de todo o aspecto publicitário envolvido.

Abaixo, o vídeo de “Karate”: