Resenha: Zero Gravity: Rebirth and Evolution – Turilli/Lione Rhapsody

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

A sandice em torno do nome “Rhapsody”, lenda italiana do power metal sinfônico, está mais absurda que aquela vez em que duas diferentes versões do Queensrÿche lançaram dois discos no mesmo ano (2013). Após deixar o grupo principal em 2011, o guitarrista Luca Turilli formou sua própria versão de Rhapsody. Depois, ele a encerrou para formar uma terceira versão (!) só com ex-membros do próprio Rhapsody of Fire (??). Enquanto isso, o que sobrou da banda original tocou a vida e já fez sua estreia em estúdio neste mesmo ano de 2019.

Se você, meu leitor assíduo, achou o início deste texto familiar, provavelmente é porque estou abrindo-o mais ou menos da mesma forma que abri a resenha de The Eighth Mountain (confira-a aqui), o primeiro álbum do Rhapsody of Fire com sua formação atual. Aliás, eu poderia fazer um post inteiro comparando a situação deles ao paradoxo do navio de Teseu, sobre o qual escrevi para a saudosa revista Mundo Estranho, mas vamos focar na música da estreia desta versão do Rhapsody – devidamente intitulada Turilli/Lione Rhapsody, por ser liderada também pelo consagrado vocalista Fabio Lione.

É com Zero Gravity: Rebirth and Evolution que esta formação (que, lembrando, envolve ainda Dominique Leurquin (guitarras), Patrice Guers (baixo) e Alex Holzwarth (bateria), também remanescentes da era clássica da banda) faz seu primeiro aceno para o mundo, após uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo. Se o lançamento dos dois trabalhos fosse uma partida de futebol, eu poderia descrevê-la como uma goleada ou um passeio. Porque isto aqui é muito melhor do que The Eighth Mountain – que já não foi ruim, vale ressaltar.

E a superioridade não é simplesmente pela qualidade da produção, pela química entre os integrantes e pelo talento individual dos mesmos – para as quais aliás eu nem vou dedicar muitas palavras para não chover no molhado.

Ela se dá também pela criatividade nas composições. Isso mesmo: um grupo que se tornou conhecido por criar um dos sons mais clichês do power metal aproveitou o último ano desta década para desfazer a imagem de repetitivos. Com Zero Gravity: Rebirth and Evolution, eles se mostram dispostos a modernizar o som e torná-lo menos óbvio, tal como o DragonForce e o Sonata Arctica vêm fazendo recentemente.

Por exemplo, a abertura “Phoenix Rising” tem alguns toques étnicos inesperados em seu interlúdio. A faixa título faz o mesmo, desta vez com elementos árabes. “D.N.A. (Demon and Angel)”, por sua vez, incorpora alguns temperos eletrônicos que deixariam Jens Johansson (do Stratovarius) com um sorriso no rosto. Aqui, a convidada Elize Ryd (Amaranthe) faz um bonito contraste com Fabio.

Outro convidado que empresta sua voz é Mark Basile, do DGM. Em “I Am”, ele nos encanta com seu timbre que parece uma média entre Bob Catley e Demis Roussos. O solo de “Fast Radio Burst” também surpreende ao trocar o ritmo frenético típico destes momentos em músicas de power metal por um um andamento mais contido e cativante.

O disco é bem sucedido também em outro aspecto: a harmonização do lado metal com os toques modernos. “Decoding the Multiverse” serve de exemplo: temos nela linhas ao piano e cordas (típicas daquelas músicas mais comerciais e que ganham clipes) dividindo espaço com riffs graves e pesados na guitarra.

Zero Gravity: Rebirth and Evolution tem espaço até para ópera: “Amata Immortale” e “Oceano” são ambas cantadas inteiramente em italiano, sem guitarras e alternando diferentes tipos de voz. A segunda é uma faixa bônus exclusiva das versões digipak e vinil duplo e conta ainda com Sascha Paeth no baixo, Arne Wiegand nas guitarras, bandolim e piano e Joost van den Broek nos teclados. E se ópera por si só não funciona muito para você, tome “Arcanum (Da Vinci’s Enigma)”, que a mistura com metal.

É muito cedo para dizer quem levou a melhor na divisão do Rhapsody, mas sem dúvidas Turilli e Lione já começaram a “disputa” com ampla vantagem sobre Alex Strapoli, tecladista e líder da versão original do grupo. Alguns talvez se incomodem com minha tentativa de estabelecer algum tipo de rixa entre ambos, mas quando duas versões de um mesmo nome escolhem o mesmo ano para estrear, a natureza competitiva dos lançamentos fica óbvia até demais.

Nota: 5/5

Abaixo, o vídeo de “Zero Gravity”:

Resenha: The Eighth Mountain – Rhapsody of Fire

Reprodução da capa do álbum 'the eighth mountain', do rhapsody of fire. A imagem mostra uma figura com armadura e capa, vista de costas e pela direita, olhando para uma montanha à noite com um cajado em mãos

Reprodução da capa do álbum (© AFM Records)

A palhaçada em torno do nome “Rhapsody” conseguiu superar a sandice que foi o Queensrÿche lançar dois discos com duas formações diferentes em 2013. Após deixar o grupo principal em 2011, o guitarrista Luca Turilli formou sua própria versão de Rhapsody. Depois, ele a encerrou para formar uma terceira versão (!) só com ex-membros do próprio Rhapsody of Fire (??) e que deve fazer sua estreia em estúdio ainda este ano.

Enquanto isso, o Rhapsody of Fire “original”, que retém atualmente apenas o tecladista Alex Staropoli, foi substituindo os integrantes com ilustres desconhecidos, primeiro em Into the Legend (2016), que já trazia Roby De Micheli na guitarra e Alessandro Sala no baixo, e agora neste The Eighth Mountain, que nos apresenta o vocalista Giacomo Voli e o baterista Manu Lotter.

O som geral do trabalho não é nada exatamente surpreendente para o quinteto italiano de power metal sinfônico. Temos faixas poderosas e aceleradas (“Master of Peace”, “Rain of Fury”, “Clash of Times”, “The Legend Goes On”); elementos folk (“Warrior Heart”), uma tocante balada quase toda acústica (“The Wind, the Rain and the Moon”) e peças épicas (“March Against the Tyrant” e “Tale of a Hero’s Fate”, esta última esticada por uma narração póstuma de Christopher Lee que explica a história da nova saga e encerra o álbum em vez de abri-lo).

A voz de Giacomo demora a descer, não por ser ruim, mas porque são quase duas décadas ouvindo aquele enjoado, porém insubstituível timbre de Lione. Mas a questão maior aqui é que, com sua alma dilacerada, o Rhapsody of Fire parece reduzido à condição de uma banda de power metal sinfônico comum.

Se fosse a estreia de um grupo novo (e quase é!), eu estaria escrevendo esta resenha com os pés enquanto uso as mãos para aplaudir, mas estamos falando de um essencial e experiente nome do power metal (e talvez o maior responsável pelos leigos acharem que o gênero se resume a dragões, princesas, castelos e espadas, devo adicionar).

De qualquer forma, nem o mais exigente dos fãs deixará de se divertir com as melhores faixas de The Eighth Mountain e nós precisaremos de mais uma ou duas produções para crucificarmos ou aplaudirmos com segurança a nova era do Rhapsody of Fire.

Nota: 4/5

Abaixo, o vídeo de “Rain of Fury”:

Resenha: Origine – The Black Crystal Sword Saga Part 2 – Ancient Bards

Reprodução da capa do álbum Origine - The Black Crystal Sword Saga Part 2. A imagem consiste em uma mulher vere com roupas azuis prestes a cravar uma espada numa criatura demoníaca ante uma paisagem gelada e montanhosa

Reprodução da capa do álbum (© Limb Music)

Foi por meio de uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo que o sexteto italiano de power metal sinfônico Ancient Bards chegou ao seu quarto disco de estúdio, Origine – The Black Crystal Sword Saga Part 2, o primeiro com o guitarrista Simone Bertozzi, que passou quatro anos sendo membro de apoio do grupo antes de ser efetivado.

A banda prometeu que este seria o maior álbum já feito por eles. Com efeito, ele empolga em quase todos os momentos e faz valer cada centavo que os fãs confiaram no site Indiegogo (a campanha arrecadou 169% da meta). Agora, se ele supera todos os três ótimos trabalhos de estúdio anteriores dessa rapaziada italiana, já são outros 500…

Enfim, Origine (chamá-lo-ei apenas assim daqui em diante) começa com uma introdução clichê (termo que aqui significa “narração orquestrada”) autointitulada (apenas “Origine” mesmo) que prepara o terreno para “Impious Dystopia”, uma faixa enérgica, acelerada, dinâmica, em suma, um excelente cartão de visitas.

No “meião” do álbum, temos “Fantasy’s Wings” e “Aureum Legacy”, que desaceleram um pouco as coisas (sem detrimento da qualidade) até chegarmos a “Light”, uma balada verdadeiramente tocante e totalmente desprovida daquele ar burocrático que canções similares carregam; “Oscurità”, que retoma o ritmo com altas orquestrações e coros; e “Titanism”, que mantém a peteca lá em cima, com mais foco no metal.

Abrindo a reta final, a progressão, repetitividade e grandiosidade de “The Hollow” chegam concedendo a ela uma fortíssima pegada de introdução. A música poderia ter sido colocada no lugar de “Origine” tranquilamente, exceto pela questão das letras, é claro. No fim, acaba soando como um longo interlúdio que liga nada a lugar nenhum.

Depois de “Home of the Rejects”, faixa morna, porém dona de um notável refrão, chegamos à épica “The Great Divide”, com seus quase 15 minutos muito bem preenchidos por tudo o que o Ancient Bards tem a oferecer de melhor, incluindo um interlúdio sereno e pouco denso com destaque ainda maior para os vocais femininos.

As alas mais trogloditas da comunidade metal são insensíveis à beleza de um metal épico e misturado a orquestrações e por isso rejeitam esta e outras bandas consideradas “nerds” demais. Só que isso as priva não apenas de um quinteto instrumental de competência acima de qualquer suspeita, mas também da belíssima voz de Sara Squadrani, que rouba a cena numa performance de arrepiar.

Como disse ao abrir esta resenha, eu não me apressaria em dizer que este realmente é o melhor álbum do Ancient Bards. Mas que é um puta dum disco, com certeza é. Mal terminamos o mês de janeiro e já acho difícil pensar numa lista de melhores do power metal/metal sinfônico de 2019 sem a presença de Origine

Nota = 5/5

Abaixo, o clipe de “Impious Dystopia”: