Resenha: MMXIX – Sioux 66

Reprodução da capa do álbum (© Sioux 66/Sony Music Entertainment Brasil)

Um dos nomes mais gratificantes do rock nacional recente está de volta com um dos álbuns mais gratificantes do rock nacional em 2019, lançado antes mesmo que baixasse a poeira da apresentação deles no Rock in Rio deste ano.

Sioux 66, quinteto paulistano que brinca naquela tênue linha que separa o hard rock pesado do heavy metal tradicional, vem com um trabalho curto e direto com o sugestivo nome MMXIX (2019 em algarismos romanos).

E bota curto nisso: são apenas oito faixas, totalizando menos de 40 minutos de música. Talvez o único defeito relevante da obra como um todo seja este, ser breve demais.

Mas é uma decisão que faz sentido frente ao que parece ser uma nova proposta musical da banda. O som deles está mais pesado e acelerado que no CD anterior (Caos, de 2016; clique aqui para conferir minha resenha a respeito), e ser direto era crucial para garantir que as mensagens urgentes do disco fossem entregues com eficiência.

Mensagens estas que vemos principalmente em momentos mais ácidos como “Respostas”, “O Corre”, “Virtual/Realidade” e mesmo o cover de “Diversão”, dos Titãs, com participação do baixista e vocalista deles, Branco Mello, nos vocais de apoio. Branco é pai do guitarrista Bento Mello e divide sua atuação nesta música com os também vocalistas Gabriel Martins (Mattilha) e Cyz Mendes.

Outras faixas, como a abertura “Paralisia” (se a breve introdução instrumental “Laico” não for considerada) e o encerramento “Aqui Estou”, são mais introspectivas e pessoais. E faltou falar só de uma: a diferentona “Jaz”, toda acústica e com uma levada tribal.

Não posso deixar de constar que MMXIX marca a estreia – e isso ajuda a explicar a evolução no som – de Yohan Kisser como substituto de Mika Jaxx na outra guitarra. Agora, as doze cordas do quinteto estão nas mãos de dois herdeiros do rock nacional clássico.

Explico: além de Bento, Yohan, como você já deve ter desconfiado, também é filho de outra lenda do rock/metal nacional: Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura (coincidentemente ou não, Andreas fez uma participação especial em “Uma Só Vez”, canção presente na estreia deles, Diante do Inferno (2013)).

Mas seria de uma canalhice imensa atribuir o sucesso e a qualidade deles a essas descendências. Eles têm mérito próprio de sobra, de modo que esses “paizões” apenas somam a algo que já era grande por si só.

MMXIX coloca o Sioux 66 no pódio do rock nacional de 2019 – especialmente por ser cantado em português – e, por que não, pode ser colocado em condição de igualdade com outros ótimos lançamentos recentes do gênero na gringa. Falo de Boneshaker, do Airbourne, e Damnation, do Aerodyne (clique aqui e aqui, respectivamente, para conferir minhas resenhas a respeito deles).

Nota = 5/5

Abaixo, o clipe de “Aqui Estamos”:

Resenha: Damnation – Aerodyne

capa do álbum damnation, de Aerodyne

Reprodução da capa do álbum (© Rock of Angels Records)

A estreia do quinteto sueco de rock ‘n’ roll Aerodyne em 2017 foi um tanto discreta, sem o mesmo espaço na mídia que um Reckless Love ou um Airbourne. Eu mesmo, se não me engano, descobri os ditos-cujos apenas por acaso, ao notar um clipe deles na lista de sugestões do YouTube. Assim, muita gente ainda não sabe que o país escandinavo deu à luz (mais um) nome interessantíssimo do rock recente.

Mas com Damnation, seu segundo trabalho de estúdio, eles fizeram algo que poucos grupos recentes que se equilibram na tênue linha que separa o hard rock do heavy metal tradicional conseguem: lançaram um álbum simplesmente espetacular.

Absolutamente tudo funciona no disco, da primeira à última nota. A tal primeira nota está em “Hellsiah”, um prólogo – bandas do gênero não lançam mão deste recurso com tanta frequência quanto nomes do metal progressivo ou power, por exemplo.

Esta introdução nos aquece para uma sequência arrebatadora. Da segunda faixa (“Out for Blood”) até a oitava (“Kill or Be Killed”), temos basicamente uma metralhadora de riffs matadores em músicas bastante aceleradas. As exceções são “March Davai” (que recebeu um clipe) e a faixa-título, mais lentas.

O álbum se encerra com duas peças magníficas. Primeiro, “The Nihilist”, em que o quinteto desacelera, mas compensa com riffs tão apoteóticos em uma canção tão grandiosa que não hesitei em elegê-la o ponto alto da obra, mesmo que seu andamento seja estranho à média do disco.

E por fim, “Love, Eternal”, um trabalho relativamente épico (são mais de seis minutos e meio de porrada nas cordas), com riffs cavalgados no melhor estilo Iron Maiden.

Se tudo funciona, então estão todos de parabéns. Johan Bergman e Daniel Almqvist pela usina de riffs que eles se mostraram ser em suas guitarras. Thomas Berggren por manter seu baixo audível mesmo sob todo o peso das doze cordas de seus colegas. Christoffer Almqvist por entregar performances rítmicas condizentes com a atmosfera agressiva das músicas. E Marcus Heinonen, que pode até não ter a voz mais marcante do século, mas faz dela um instrumento eficiente para expressar as mensagens da banda.

Nota = 5/5

Abaixo, o clipe de “Kick it Down”:

Resenha: Reflexicon – Reflexicon

Reprodução da capa do álbum

Quando vi esta nova banda numa lista de lançamentos recentes rotulada como “metal progressivo”, não tardei em correr atrás de ouvir seu álbum de estreia autointitulado. Mas logo nos primeiros acordes, percebi que houvera um engano na categorização da música deles. Só que há surpresas que vêm para o bem…

O Reflexicon não faz nada assim, digamos, surpreendente ou extraordinário, mas misturam de maneira pouco vista elementos de muitos gêneros não tão distantes uns dos outros, ficando ali naquelas tênues linhas que separam grunge, hard rock e stoner. E sim, temos alguns toques progressivos.

Mas o rótulo de “metal progressivo” não deixa de ser estranho. É fato que esses estadunidenses de Chicago fazem canções dinâmicas e com durações não-ortodoxas. Mas se for assim, vamos ter que atribuir o rótulo “progressivo” a nomes tão diversos quanto Legião Urbana, Aerosmith, Nando Reis e Iron Maiden.

O único momento próximo disso seria a faixa de encerramento “Nightmare”, com pouco mais de nove minutos e um número razoável de variações para justificar um comprimento desses. Quero dizer, a música em questão chegou a este tamanho de maneira lógica; em nenhum momento pareceu-me que a banda estava se obrigando a fazer algo longo.

A força do quinteto está especialmente em sua ala instrumental. São riffs abrasivos nas seis cordas de Jerry Buczko e Paul Kratky, uma bateria pulsante nas baquetas de John Ashe e um baixo proeminente nos dedos de Bill Dixon.

O vocal que não deixa os companheiros na mão é a voz arranhada de Fred Morg. Ele faz parecer que Sammy Hagar virou o vocalista do Sons of Apollo ou do Nickelback – dois exemplos de grupos que soam diferentes mas cujos fãs podem encontrar algo para gostar aqui.

Esta cozinha visceral e a voz acima de qualquer suspeita que compõem o som do Reflexicon são basicamente o motivo pelo qual eu indicaria esta banda a qualquer pessoa interessada em alguma novidade do rock moderno.

Nota = 4/5

Abaixo, o lyric video de “Grasp at the Sky”: