Need for Speed II: trilha sonora obrigatória para fãs de heavy metal

capa do jogo 'need for speed 2', com o logo do jobo embaixo e uma vista frontal à direita de uma ferrari f50 vermelha

Reprodução da capa do jogo, com destaque para a icônica Ferrari F50, que figurava entre as opções de carros (© EA Games)

Este é um texto que deveria ter sido publicado em 2017, quando o jogo mencionado no título completou 20 anos de lançamento, mas por motivos que nem me lembro mais, ele acabou sendo deixado de lado como rascunho. Esta quarentena que força as pessoas – as dotadas de bom-senso, ao menos – a ficarem em casa o máximo de tempo possível configura uma oportunidade única para tirá-lo do esquecimento e finalizá-lo, mesmo que num ano que marca o não-tão-especial aniversário de 23 anos da obra.

Need for Speed II é o segundo título de uma das franquias mais bem sucedidas do universo dos games. Ele vem daquela época em que esses jogos, ainda que limitados graficamente se comparados aos mais recentes, eram despretensiosos e diretos ao assunto: escolha um carro, escolha uma pista, escolha um modo de competição e “taca-lhe pau, Marcos!” Não tinha aquele festival de firulas para enfeitar o carro como se fosse uma Barbie.

Mas vamos ao que interessa: música! Ah, a trilha sonora deste jogo era uma coisa de louco… Podíamos correr em sete pistas, sendo um autódromo na Noruega (“Proving Grounds”); uma passeio entre Sidney e os desertos do interior da Austrália (“Outback”); uma rota cênica ao longo do litoral grego (“Mediterraneo”); uma voltinha pela Alemanha e Dinamarca (“North Country”); outro festival de vistas marítimas, desta vez na costa oeste do Canadá (“Pacific Spirit”); uma perigosa aventura pelas montanhas do Nepal (“Mystic Peaks”); e uma pista bônus em Hollywood (“Monolithic Studios”).

Cada uma tinha duas músicas-tema possíveis e reproduzidas alternadamente conforme a partida. Uma era sempre focada em rock/metal e a outra mais eletrônica, mas ambas adornadas com elementos referentes ao local da respectiva pista. Às vezes a faixa eletrônica apresentava alguns toques de metal e vice-versa. “Mediterraneo” era uma exceção, pois ambas eram bem heavy metal.

O mais interessante é que cada pedaço das músicas era composto para combinar com determinados trechos das pistas. Assim, conforme o jogador passava de um trecho para o outro, a música também avançava para que se encaixasse devidamente ao ambiente em volta do carro.

Bateu a curiosidade? Então aperte os cintos e bora lá!

“Halling Ass” ou “Halling It”, da pista Proving Grounds — Robert Ridihalgh
Um heavy metal mais cru e objetivo que as outras músicas do jogo. Tal proposta se encaixa perfeitamente nesta pista, que consiste num circuito meio oval insosso e simples. Era praticamente um tutorial!

“Corroboree”, da pista Outback — Jeff Dyck
Bem mais encorpada e ao mesmo tempo mais leve que a anterior, esta faixa meio urbana, meio desértica reúne alguns toques eletrônicos, country e stoner para combinar com o contraste Sidney/Outback desta pista australiana. Dá quase para se imaginar passeando em meio aos cangurus!

“Hell Bent for Lederhosen”, da pista North Country — Alistair Hirst
Sem dúvidas um dos destaques da trilha, e pessoalmente a que considero melhor. Um exemplo de como fazer folk metal instrumental e, principalmente, de que nem só de flautas se faz o gênero. Esta aqui dá mais espaço para acordeões e violões e ainda faz as próprias guitarras incorporarem progressões harmônicas meio nórdicas, meio alpinas. E não tenho nem o que falar dessas linhas de baixo…

“Siwash Rock”, da pista Pacific Spirit — Saki Kaskas
A mais pesada do jogo, uma batalha de guitarras – aos 0:48, chegamos a ter quatro tocando simultaneamente coisas diferentes (#chupaIronMaiden). Executada pelo finado músico greco-canadense Saki Kaskas, ela vem temperada com toques indígenas aqui e ali, fazendo jus à pista, que se passa na costa oeste do segundo país do músico – não por um acaso, “siwash” é uma variação da palavra francesa “sauvage” (selvagem) no jargão chinook, um idioma nativo norte-americano em vias de extinção. Palmas também para o baterista, seja ele quem for, porque não é mole não, como diria Herbert Vianna.

“Fasolaha” / “Feta Cheese”, da pista Meditarraneo — Jeff Dyck & Saki Kaskas / Saki Kaskas
A dupla pesada que embala as corridas ao longo da costa grega, ambas batizadas com nomes de pratos típicos do local, trazem uma gostosa mistura de guitarras com cordas que deduzo serem provenientes de um bouzouki. Como não há faixa majoritariamente eletrônica para esta pista, podemos receber sem preconceitos uma dosagem de sons mais artificiais em ambas as peças.


“Nashat”, da pista Mystic Peaks — Jeff Dyck & Saki Kaskas
A mais longa das faixas abordadas neste post, e também a única que traz alguma forma de vocais, ainda que curtos e tímidos. Misteriosa, rebuscada e elegante, a peça se sustenta numa delicada percussão asiática e passeia entre o metal e o folclórico, adotando ainda uma boa dosagem eletrônica dum jeito que arrancaria aplausos do Deep Forest.

“Gore”, da pista Monolithic Studios — Jeff Dyck & Saki Kaskas
Depois de resgatar o riff do trailer de abertura do jogo, esta maravilhosa música explora alguns elementos sinfônicos e eletrônicos inspirados em trilhas sonoras genéricas de Hollywood enquanto riffs pesados vão carregando-a com muita dignidade do começo ao fim.

Resenha: One Spirit of a Thousand Faces – Dinnamarque

Reprodução da capa do álbum 'One Spirit of a Thousand Faces', do Dinnamarque

Reprodução da capa do álbum (© Dinnamarque)

Com quase duas décadas de estrada, o quarteto mineiro de heavy metal Dinnamarque (liderado pelo vocalista e baixista Rafael Dinnamarque) finalmente realizou sua aguardada estreia em estúdio neste ano de 2020.

One Spirit of a Thousand Faces é um lançamento que tardou, mas definitivamente não falhou, equilibrando-se serenamente entre a firmeza e crueza do heavy metal tradicional e a velocidade e sofisticação do power metal.

O lado mais tradicional vem, por exemplo, na abertura “Fight”, em “Revelation”, na pesada “Evil Celebrities”, na balada “Reason” e na encorpada “Changes”, fora a faixa título, que encerra a obra.

Já a agressividade e o peso vêm com mais força e velocidade em “The Death Dresses White”, “Krusty Eyes”, “Battlefields” e “Clash of Mind”.

Diversas, as letras passeiam entre dilemas e batalhas pessoais (“Fight”, “Revelations”, “Krusty Eyes”, “Reason”, “Changes”, “Clash of Mind”) e temas mais específicos, como o seriado Xena, a Princesa Guerreira (“Path of Warrior”), criminosos notórios (“The Death Dresses White”, “Evil Celebreties”), eventos históricos (“Battlefields”) e até vidas passadas e ressurreição (“One Spirit of a Thousand Faces”).

Apesar do início autoral tardio, o Dinnamarque mostrou-se um grupo promissor com esta obra que merece constar entre os destaques nacionais do ano. Além de Rafael, completam a formação os guitarristas Leo Lanny e Ronan Oliveira e o baterista Riccardo Inassi.

Nota = 4/5.

Abaixo, o lyric video de “Path of Warrior”:

* O CD One Spirit of a Thousand Faces foi enviado ao autor do blog via correio pela própria banda em nome de sua assessoria de imprensa, que também sugeriu a criação da resenha.

Resenha: Light of Revelations – Guilherme Costa

Reprodução da capa do álbum (© Guilherme Costa)

Após acumular experiência lecionando e tocando na cena local de Belo Horizonte (MG), além do lançamento do EP The King’s Last Speech (2017), o guitarrista Guilherme Costa viu em 2019 a oportunidade de realizar sua estreia solo, com um disco cheio denominado Light of Revelations.

A ideia do álbum era refletir os diversos estados de espírito que vivenciamos ao longo da vida, ou até ao longo de um único dia, se você for ansioso e intenso como este que vos escreve.

E assim, o trabalho traz composições diversas, em sua maioria instrumentais, refletindo essas atmosferas distintas. As três peças com vocais são a abertura “Fight Against Myself”, um heavy/grunge relativamente lento; a balada hard rock “Rising Star”, inspirada pelo pobre cãozinho cruelmente morto em frente a uma unidade da rede de supermercados Carrefour em Osasco (SP); e a faixa-título, um ponto alto com muita influência de Yngwie Malmsteem, metal neoclássico em geral e power metal.

Quem empresta sua voz nas três é o experiente Gus Monsanto, que assina também a impecável produção da obra. Em “Rising Star”, temos ainda a participação de Jefferson Gonçalves, para formar um dueto.

Mas a maior parte do CD são instrumentais mesmo, mantendo a lógica da alternância de climas. No time das pesadas, temos “Bloody Wars”, inspirada por videogames dos anos 1990 e que brinca na tênue linha que separa o hard rock do heavy metal; “The Sound of Hope”, um hard rock básico; e “Homeland”, outro destaque absoluto, no qual o metal colide com as sanfonas e as flautas do baião.

O lado mais calmo vem na forma do jazz fusion “Inside My Mind”, a mais sofisticada do álbum (talvez empatada com “Homeland”); e a acústica “An Invitation to the Soul”.

Como faixas-bônus, Light of Revelations traz o material completo do EP The King’s Last Speech, que no fim acaba sendo o resumo perfeito do próprio disco: “The Beginning of a Journey”, representando o lado calmo; a faixa-título, do time das pesadas; e “Come and Play”, “irmã” de “The Sound of Hope”.

Com esta produção, o Brasil ganha mais um guitarrista promissor, que deixou claro não apenas ter muito potencial, mas também um bom gosto indiscutível no que diz respeito a composições e arranjos, fruto de suas inconfundíveis – e magníficas – influências.

Nota = 4/5.

Abaixo, o lyric video de “Fight Against Myself”:

* O CD Light of Revelations foi enviado ao autor do blog via correio pela assessoria de imprensa do guitarrista e a resenha foi escrita por sugestão da mesma.