Resenha: Nova Sekai – Nova Sekai

Reprodução da capa do álbum 'Nova Sekai', da banda de mesmo nome. Trata-se da foto de um rochedo em um local desértico ante um céu noturno roxo-claro, com um fino anel de luz em volta de seu topo

Reprodução da capa do álbum (© William Gibson)

Esta provavelmente vai ser a resenha mais “às cegas” que já escrevi em dez anos de blog. Porque o objeto desta análise – Nova Sekai, de uma banda homônima japonesa – é algo muito, mas muito obscuro.

Explico: foi na Amazon.com, e muito por acaso, que tomei conhecimento deste disco cujo chamativo para mim foi a bela capa, que me remeteu ao cenário final do clássico Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), de Steven Spielberg.

Só que tirando a presença nas plataformas digitais, é um grupo-fantasma. Tudo que se encontra sobre ele é o nome, a capa e as faixas da obra. Não dá pra saber quem toca os instrumentos, nem quantas pessoas estão envolvidas. Só posso dizer uma coisa: adoraria que “saíssem do anonimato”. Porque com certeza estamos falando de algo acima da média no que diz respeito ao metal progressivo instrumental.

A música do Nova Sekai, que tem ainda suaves aromas de stoner e thrash, dá certo muito devido à ciência que cada integrante tem quanto a sua função em cada uma das cinco peças. Quando é para prover uma boa base, eles provêm uma boa base. Quando é para solar com maestria, eles solam com maestria. Isso fica bem claro na relativamente breve abertura “~B I L L Y T I M E~”, bem como em sua sequência “Here Were Dragons”.

Parece uma descrição boba do som deles, mas é que nem sempre essa divisão de papeis parece óbvia para aqueles que acabam tornando a música uma batalha de “egos”. Aqui, tudo está muito bem azeitado e “fluindo como óleo”, como diria Mozart. Posso deduzir que o trabalho não envolveu gente em início de carreira.

De todos as pessoas tocando (seja quantas forem), a que mais me chamou a atenção foi a que empunha as baquetas, algo raro. O jeito que ela (ab)usa (d)os pratos, sei lá, é diferente.

A pessoa responsável pelas teclas também já tem lugar reservado no meu coração. Além de se destacar ao longo do álbum todo, ela ganha um solo inteiro em “Retro Runner”, uma peça 8-bit que empolgará até o mais tr00 666 from hell dos provavelmente pouquíssimos que sequer chegarão a ouvir este disco.

Correspondendo a praticamente 1/3 do lançamento, a quinta e última canção, “Raised By Giants”, não justifica seus doze minutos e meio, sendo um clássico exemplo de música esticada, e não longa. Riffs são repetidos à exaustão, com participação diminuta do/a tecladista.

Mas este pequeno detalhe – comentário irônico para uma peça épica, não? – não muda o bom resultado da obra, que oferece mais ou menos o que seu título promete misturando latim com japonês – um “novo mundo”.

Avaliação: 5/5

Abaixo, a faixa “~B I L L Y T I M E~”:

Resenha: Celaris – In Hiding

Reprodução da capa do álbum 'In Hiding', de Celari. Trata-se da ilustração de um campo com colinas e um céu cheio de nuvens azuis e roxeadas, com um rapaz no canto inferior direito parado e olhando para a esquerda. O nome da banda aparece no centro, entre o meio e o topo, e o nome do álbum vem abaixo do rapaz, mais à direita ainda.

Reprodução da capa do álbum (© Celaris)

Diretamente da Carolina do Norte, na costa leste estadunidense, chega mais uma banda para engrossar o caldo de nomes do metal progressivo que vêm surgindo aos montes.

Apostando no estilo “djent” e tendo como diferencial uma mulher (Rachel Pappalardo) em uma das guitarras, o quinteto Celaris estreia em outubro seu primeiro álbum-quase-EP, In Hiding. Completam a formação Chris Hesla (vocais), Jon Pearson (guitarra), Dan Mungal (baixo) e Josh Rush (bateria).

Se a abertura “A Manfold in Paradise” mostra que eles pretendem apostar em vocais guturais bem metalcore e passagens melódicas típicas de grupos como Between the Burried and Me, Periphery e TesseracT, “Reprieve, Release” chega com mais ênfase no peso e “Regenerate” abusa da serenidade para construir um ápice que nunca chega – mas a situação é resolvida pela intensa “The Torus Separation”.

“Hemostasis” é outro instrumental, desta vez mais curto e configurando uma ponte de verdade, agora para a pesada e também ótima “Hastur”. E a breve jornada se encerra na notável “Escharotic”.

O elemento mais marcante da música do Celaris é a alternância constante entre vocais melódicos acompanhados de dedilhados quase eletrônicos e guturais ritmados por riffs djent martelantes.

O álbum tem potencial para constar nas famosas listas de melhores lançamentos prog do ano, mas não vejo o quinteto como uma banda “pronta”. Você nota nos arranjos uma certa inocência e uma busca por uma identidade que ainda não chegou. Mas o segundo trabalho deles – seja para quando for – tem alta possibilidade de dar o próximo passo natural, que é a evolução, o amadurecimento.

Avaliação: 4/5

Abaixo, a faixa “A Manifold in Parallel”:

Resenha: Fragma – Amanda Magalhães

Reprodução da capa do álbum 'Fragma', de Amanda Magalhães; trata-se de uma foto do busto da artista com vários objetos espalhados em volta, ante um fundo bege. O nome da obra e da rtista aparecem centralizados ao meio, acima da foto.

Reprodução da capa do álbum (© Boia Fria Produções)

A pandemia de COVID-19 não impediu a cantora, pianista, produtora e atriz Amanda Magalhães de lançar seu disco de estreia, aguardado desde 2018 e batizado de Fragma. O período conturbado que estamos enfrentando teria amedrontado muitos, mas ela foi lá, com a cara e a coragem.

Coragem, ousadia e afins são as primeiras características que me vêm à cabeça quando lembro da musicista, antes mesmo de qualquer qualidade mais voltada para a música.

Tal como uma Alice Caymmi, ela carrega o peso de um sobrenome forte – o pai e o avô (respectivamente, William e Oberdan Magalhães) integraram a consagrada Banda Black Rio. Esta sua estreia, lançada em meio a essas circunstâncias loucas, foi quase totalmente autoproduzida e 100% autoral, numa era em que mulheres ganharam espaço no “front” da música, mas ainda são raras nas funções técnicas. Por fim, coloque nesse caldeirão o fato da obra dialogar com os relacionamentos amorosos passados de Amanda – haja coragem para se desnudar assim, logo de cara, para a vastidão do mar de ouvidos desconhecidos que darão play no trabalho.

Para um álbum relativamente curto – meia hora de música distribuída em nove faixas -, Fragma consegue explorar uma quantidade admirável de facetas da artista, o que talvez justifique seu título, que faz referência à palavra “fragmentação”.

A breve abertura “A Direção” é toda eletrônica, mas o auge da artificialidade já é atingido aí, pois nas oito faixas restantes, o fluxo é mais orgânico, a começar pela R&B “Talismã”, com a participação providencial de Liniker. A letra e o instrumental simples são compensados por uma entrega vocal que penetra fundo nos ouvidos.

Um dos grandes destaques (a começar pelo vídeo intenso) está bem no meio: “Saiba”, declaração de amor com qualidade puxada para cima pela participação do incontestável Seu Jorge.

Outro grande destaque, que por não ter recebido vídeo talvez seja decretado ao esquecimento conforme o repertório dela ganhar mais corpo, é “Ninguém Vê”, com uma letra que parece revelar um dos lados afetivos mais interessantes da cantora ao mesmo tempo em que recebe um arranjo criativo e impecável.

“O Amor Te Dá”, escolha acertada de single, combina a leveza de uma canção romântica com a animação de uma música ritmada, com um clipe condizentemente retratando uma festa de rua.

Fechando o disco, seu último “destaque escondido”: “Esperando a Lua” , com um arranjo minimalista e acordes no piano que remetem a Coldplay.

Completam a lista de faixas “Deixa Assim Por Ora”, que retorna o pop, mas ainda com vozes naturais; “Deixar Levar”, o maior flerte com jazz do álbum; e “Quando a Chuva Acabar”, cuja ginga é notavelmente temperada com samba.

A heterogeneidade das músicas faz Fragma adquirir aquele jeitão de “compilação de singles”, típico do pop e da MPB atuais. Sendo o primeiro lançamento sempre um “cartão de visitas”, a carioca usou a oportunidade para mostrar todos os terrenos que ela pode explorar com segurança, podendo manter a diversidade ou focar em algo específico.

Eu particularmente acredito que Amanda terá, na carreira musical, uma trajetória parecida com a de sua personagem Natália em 3%: uma presença inicialmente discreta que vai, num crescendo, ganhando força e relevância até ser presença incontestável em meio aos protagonistas.

Avaliação: 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Saiba”: