Resenha: The Absence of Presence – Kansas

Reprodução da capa do álbum 'The Absence of Presence', do Kansas

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

Estamos numa verdadeira era de loucos. Parece até que está na moda acreditar no inacreditável. Temos gente que acredita em Terra plana, gente que acredita que vacina causa autismo, gente que acredita que o homem nunca pisou na Lua… e gente que acredita que o lendário septeto estadunidense de rock progressivo Kansas não está mais com nada.

O Kansas integra, juntamente a nomes como Deep Purple, UFO e Uriah Heep, aquele grupo de bandas que: nasceram entre os anos 1960-70; continuam ativas até hoje; passaram por mudanças significativas na formação; enfrentaram fases de qualidade duvidosa nos anos 80 (como quase todo mundo que sobreviveu até lá); e voltaram a lançar discos estupendos desde a virada do século.

Eles já mostraram que ainda tinham lenha pra queimar com o The Prelude Implicit, de 2016. Com The Absence of Presence, porém, eles deixam claro não apenas que a lenha ainda existe em abundância, mas também que ela pode até evoluir.

A tríade de faixas iniciais (“The Absence of Presence”, “Throwing Mountains”, “Jets Overhead”) vem de forma arrebatadora com riffs fortes (flertando abertamente com o heavy metal em alguns momentos, como o interlúdio instrumental da segunda), refrãos cativantes e um violino encantador.

David Ragsdale, responsável pelo instrumento por um total de 20 anos na banda, segue impressionando por fazê-lo soar tão relevante e proeminente numa formação que já inclui dois guitarristas e até um tecladista que poderia sintetizar qualquer coisa para dar um toque exótico.

E falando nisso, não custa lembrar: o Kansas tem mais integrantes que o número de letras de seu nome e não parece ter ninguém sobrando. O interlúdio instrumental “Propulsion 1” reitera essa máxima especialmente para a ala instrumental, como que preparando o vocalista Ronnie Platt para brilhar na balada “Memories Down the Line”, que ainda é a mais fraca do álbum apesar da dose de emoção que ele trouxe em seu canto, fora mais uma entrega primorosa de David.

Dois petardos (“Circus of Illusions” e “Animals on the Roof”) nos separam da outra e mais pesada balada do disco, “Never”, e o lançamento encontra seu fim em “The Song the River Sang” – uma peça admirável, mas não o suficiente para dizermos que fechou com chave de ouro.

Em entrevista ao Greatest Hits 98.1, Ronnie comentou a grande coesão da obra – com efeito, ela soa como um grande trabalho de rock progressivo com alguns interlúdios (no caso, as baladas). Arrisco-me a dizer que se você não gostou da primeira faixa, já pode parar aí mesmo.

Palmas para os principais compositores, o guitarrista Zak Rizvi, que estreou no disco anterior; e o novo tecladista Tom Brislin que tem passagens pelo Yes, The Sea Within e Meat Loaf e trouxe uma significativa lufada de novidade à música do septeto, que já não era nada fraca.

Juntos, a dupla e o restante da banda garantiram a produção de um destaque para este ano. E há quem diga que o Kansas não era mais bom… (risos).

Nota = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “Throwing Mountains”:

Resenha: One Spirit of a Thousand Faces – Dinnamarque

Reprodução da capa do álbum 'One Spirit of a Thousand Faces', do Dinnamarque

Reprodução da capa do álbum (© Dinnamarque)

Com quase duas décadas de estrada, o quarteto mineiro de heavy metal Dinnamarque (liderado pelo vocalista e baixista Rafael Dinnamarque) finalmente realizou sua aguardada estreia em estúdio neste ano de 2020.

One Spirit of a Thousand Faces é um lançamento que tardou, mas definitivamente não falhou, equilibrando-se serenamente entre a firmeza e crueza do heavy metal tradicional e a velocidade e sofisticação do power metal.

O lado mais tradicional vem, por exemplo, na abertura “Fight”, em “Revelation”, na pesada “Evil Celebrities”, na balada “Reason” e na encorpada “Changes”, fora a faixa título, que encerra a obra.

Já a agressividade e o peso vêm com mais força e velocidade em “The Death Dresses White”, “Krusty Eyes”, “Battlefields” e “Clash of Mind”.

Diversas, as letras passeiam entre dilemas e batalhas pessoais (“Fight”, “Revelations”, “Krusty Eyes”, “Reason”, “Changes”, “Clash of Mind”) e temas mais específicos, como o seriado Xena, a Princesa Guerreira (“Path of Warrior”), criminosos notórios (“The Death Dresses White”, “Evil Celebreties”), eventos históricos (“Battlefields”) e até vidas passadas e ressurreição (“One Spirit of a Thousand Faces”).

Apesar do início autoral tardio, o Dinnamarque mostrou-se um grupo promissor com esta obra que merece constar entre os destaques nacionais do ano. Além de Rafael, completam a formação os guitarristas Leo Lanny e Ronan Oliveira e o baterista Riccardo Inassi.

Nota = 4/5.

Abaixo, o lyric video de “Path of Warrior”:

* O CD One Spirit of a Thousand Faces foi enviado ao autor do blog via correio pela própria banda em nome de sua assessoria de imprensa, que também sugeriu a criação da resenha.

Resenha: Erodelia — Erodelia

Reprodução da capa do álbum (© Erodelia)

A melhor banda de rock de Santos (SP) desde Charlie Brown Jr. está finalmente fazendo sua estreia “de verdade”. Com seu primeiro álbum cheio, auto-intitulado, os rapazes confirmam seu lugar na elite do rock nacional recente, ao lado de nomes como Sioux 66 e Cartel da Cevada.

E tal como esses grupos supracitados, o Erodelia se equilibra entre o hard rock pesado e o heavy metal tradicional. Neste disco, eles sobem o tom, mostrando um peso sensivelmente superior aos trabalhos anteriores.

Não vou chover no molhado e tecer comentários detalhistas sobre cada faixa; quase todas comprovam o que eu disse. Até “O Que Te Faz Sonhar?!”, que começa acústica, logo recupera o peso das guitarras, que segue real apesar de ser uma balada.

E falando em balada, quem realmente precisa de uma pode se contentar com “Esperar por Você”, cuja última batida na bateria sempre me faz mentalmente reproduzir o piano introdutório de “Hold the Line”, do Toto (quem conhece este clássico sabe do que estou falando).

No mais, temos muitas composições fortes, riffs marcantes, letras com algum significado… e tudo isso junto forma este que merecerá constar entre os melhores lançamentos nacionais de 2020, apesar de que a lista deste ano provavelmente terá muitos desfalques por conta de adiamentos decorrentes da pandemia de coronavírus.

E falando no maldito, a parte mais legal do álbum não é estritamente musical: 50% do que ele render será revertido ao tratamento e prevenção da COVID-19! Se puder, compre, e se puder, fique em casa!

Nota = 5/5

Abaixo, o clipe de “Ditado Popular”: