Resenha: Worlds Apart – Allen/Olzon

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Music Slr)

Da mesma gravadora que deu à luz projetos como Allen/Lande, Kiske/Somerville e Lione/Conti (a resenha da estreia deste último você confere aqui), chega mais uma jogada comercial: Allen/Olzon.

Isso mesmo: a italiana Frontiers Records Slr juntou uma dupla bem improvável. De um lado, o estadunidense Russell Allen, mais conhecido pela atuação em sua banda principal, o Symphony X. Considerado um dos vocalistas mais versáteis do metal atual, ele já emprestou seus talentos ao Avantasia, Ayreon, Star One, Genius, Avalon, além de sua segunda casa, o Adrenaline Mob.

Do outro, temos a sueca Anette Olzon, de currículo mais modesto. Foi vocalista do gigante Nightwish por alguns anos, é verdade, mas depois disso teve uma carreira relativamente infrutífera, limitando-se a um ótimo álbum solo (resenhado por mim aqui) e um insosso projeto com o guitarrista Jani Liimatainen (ex-Sonata Arctica), o The Dark Element (com dois lançamentos até agora, resenhados aqui e aqui). Ela até revelou recentemente trabalhar em tempo integral como enfermeira, indicando que realmente a música (o business?) não tem dado o retorno financeiro que o talento dela merece.

O produto do qual falamos aqui era para ser na verdade o quinto (sim, o quinto) disco do Allen/Lande (que une o já mencionado Russell com o vocalista norueguês Jørn Lande), mas este último percebeu a presepada formulaica que estavam lhe preparando e pulou fora. “Em seu lugar”, chamaram Anette Olzon, e assim nasceu o Allen/Olzon, uma espécie de sucessor espiritual do projeto anterior.

Pois bem, a combinação dos dois foi “moderada” pelo produtor Magnus Karlsson, o coringa que a Frontiers quase sempre chama para esses discos de duetos. Ele escreveu tudo e ainda tocou todos os instrumentos, exceto pela bateria, que ficou nas mãos de Anders Köllerfors. O resultado superou as expectativas – eu, pelo menos, esperava um trabalho bem comercialesco, na vibe do The Dark Element.

Worlds Apart, estreia do time, não deixa de sê-lo, mas há um esforço real aqui em não ser tão artificial. Abrimos com “Never Die”, que seria boa o suficiente não fosse um detalhe: Russell canta sozinho nela. Qual o sentido de se trabalhar em dupla se as metades entram separadas?

A faixa título vem logo em seguida, e seu nome (“A mundos de distância” em tradução livre) diz muito sobre o projeto em si, à luz do que foi dito alguns parágrafos acima.

Russel segue voando solo na ótima “Lost Soul” e na esquecível “Who You Really Are”. Já Anette ganha espaço exclusivo nas tocantes “I’ll Never Leave You”, “One More Chance” e “Cold Inside”, esta última a melhor de suas aventuras solo.

Os dois aparecem juntos nas insossas “What If I Live”, “My Enemy” e “Who’s Gonna Stop Me Now”; mas conquistam de vez na ótima “No Sign of Life”.

Um fator extra-musical que chamou a atenção foi, ironicamente, a falta de atenção dada ao lançamento por parte da imprensa e dos próprios músicos. Sua rala presença na mídia se deu na forma de comunicados enviados pela Frontiers, basicamente, e não houve grande entusiasmo por parte da dupla nas redes sociais na hora de divulgá-lo.

Fica a impressão, inclusive, de que os dois sequer chegaram a se encontrar nas gravações. Se bobear, nem comunicação direta houve entre as partes. Tudo parece extremamente encomendado.

Levando em conta estas últimas considerações – a natureza formulaica das músicas e a divulgação tímida – “burocrático” é o adjetivo mais apropriado para Worlds Apart, que até supera as baixas expectativas, mas não atinge o nível dos dois cantores. Na boa discografia de Russell e Anette, este lançamento se perde facilmente.

Nota = 3/5.

Abaixo, o clipe de “Worlds Apart”:

Resenha: Engenho Que Fabrica Opinião – Black Bell Tone

Reprodução da capa do álbum (© Black Bell Tone)

O Rio Grande do Sul não cansa de nos brindar com ótimos nomes novos do rock nacional. Hoje, falaremos do Black Bell Tone, quarteto porto-alegrense que, com apenas dois anos de vida, já se meteu na empreitada de lançar um álbum de estreia com qualidade profissional.

Engenho Que Fabrica Opinião, título da obra, é um sinal claro o suficiente de que o disco abordará de forma crítica temas diversos. Depois de abrir já com uma de suas melhores, “Gravitacional”, ele segue para o single “Amor, Ordem e Progresso”, que questiona o lema da nossa bandeira de maneira bem fundamentada.

É que as palavras presentes na nossa flâmula vêm do lema positivista “Amor por princípio, Ordem por base e Progresso por fim”, do autor francês Auguste Comte. Mas a primeira parte foi suprimida. O resultado, sugere a letra e o clipe, é que, em tempos de polarização política, esquecemos de respeitar o outro e focamos em destruir seus argumentos (quando existem).

O álbum todo não deixa de ser um questionamento e uma provocação a reflexões em geral. Músicas para se ouvir no mar (“Navegando e Cantando”), personificações do brasileiro médio (“Opinião Pública”) e questões de relacionamento (“Violeta Violenta”, “Terra e Pá de Aço”) permeiam sua lista de faixas.

A banda até se arrisca em (bom) inglês na indie/alternativa “Monogame”, na autêntica “All You Said Was Never True”, na hard rock “Wolfpacks Bay” e no leve encerramento “It’s All Right to Sense Again”.

E é muito gratificante ver que os rapazes souberam criar uma instrumentação digna de carregar tais letras. Destaco principalmente o trabalho dos guitarristas Taba Kuntz (que também canta) e Nando Pontin. Na maioria das faixas, as guitarras efetivamente conversam, em vez de simplesmente se acompanharem num uníssono cru. Completam a formação Lucas Pontin (baixista) e Fernando Paulista (baterista).

Seja na já mencionada abertura, que invade nossos ouvidos com riffs tensos, ou na belíssima Navegando e Cantando, ou mesmo na estilosa “Opinião Pública”, o quarteto tem muitos ases em suas mangas e merece constar nas listas de melhores lançamentos nacionais do ano.

Nota = 5/5

Abaixo, o clipe de “Amor, Ordem e Progresso”:

* A resenha foi escrita após sugestão da banda.

Resenha: Tripa Seca – Tripa Seca

Reprodução da capa do álbum (© Super Discos)

O que acontece quando você reúne uma trupe de músicos experientes e oriundos das mais diversas vertentes? Se você gosta de música, sabe que a resposta é inexistente por sua imprevisibilidade. Pode sair uma joia ou um chorume.

Nesta resenha, falamos de uma joia. Joia esta que carrega o não tão refinado nome de Tripa Seca – estreia do projeto homônimo. “Projeto” porque os rapazes não querem se ver como banda. E o Tripa Seca soa mesmo mais como um encontro especial, em vez de uma banda no sentido mercadológico da palavra.

Sabe quando você revê os colegas de escola e percebe que os caminhos que cada um escolheu são muito distantes uns dos outros, mas você ainda aprecia cada minuto que passa ao lado deles? É mais ou menos esse o paralelo que posso estabelecer com a sonoridade deste quarteto formado por Renato Martins (vocais, guitarra), André Paixão (vocais, guitarra, teclados), Melvin Ribeiro (baixo) e Marcelo Callado (bateria, percussão) – todos músicos calejados do cenário underground carioca.

A primeira coisa que ouvimos (na abertura “Mil”) é uma garota aparentemente alcoolizada proferindo o nome do grupo como se fosse a coisa mais sensacional do mundo. Esse “sample“, por assim dizer, dita a tônica irreverente do disco.

Mas os acordes e a letra que se seguem – não só nesta primeira faixa, mas também na segunda, “Cicatrizes”, mostram que o álbum também sabe ser maduro. Indie, alternativo, pop e new wave chocam-se da mesma forma que colidiram nos anos 1980 no repertório do rock nacional.

E a banda também consegue ser musicalmente brasileira até dizer chega. E isso já nos fica claro na terceira, “Vai Que Eu Vou”, na qual ritmos caribenhos e nortistas dançam colados. “Never” tira proveito do trocadilho entre as palavras “neve” e “never” (nunca, em inglês). É bonitinha, mas confesso não ter paciência para ouvir a piada sendo repetida ao longo de cinco minutos de música lenta.

Inclusive, é nesta hora que o disco começa a intercalar velocidades. De lentas, temos a eletrônica e psicodélica “Universo Paralelo”, a melancólica “A Paisagem” e o progressivo encerramento “My Saturation”. E do outro lado: “Bipolar”, companheira musical de “Mil” e “Cicatriz”; e as urgentes “Na Palavra” e “Vai Com Deus”, com influências punk.

É em “Bipolar”, gostaria de ressaltar, que percebi o quanto a voz de Renato é parecida com a de Tato, do Falamansa, impressão esta que pode ter sido reforçada pelo acordeão de Fernando Bastos, presença notória nesta peça.

No grande encontro musical promovido pela Tripa Seca – falta só isso *gesto de ‘pouquinho’ com as mãos* para eu chamá-los acidentalmente de Trupe Seca – , quem ganha é todo mundo: os músicos, que nitidamente se divertiram produzindo a obra aos poucos, desde 2015; e os fãs, que ganham uma das melhores estreias nacionais de 2019.

Nota = 5/5.

Abaixo, o clipe de “Vai Que Eu Vou”:

* A resenha foi escrita após sugestão da assessoria de imprensa da banda.