Resenha: Metal Galaxy – Babymetal

Reprodução da capa do álbum (© Babymetal)

Já absolutamente estabelecidas comercialmente e não mais podendo surfar na onda do ineditismo, a dupla de kawaii metal Babymetal marca o ano de 2019 com seu terceiro lançamento, Metal Galaxy.

A ideia do título (“Galáxia do Metal”, em tradução livre) é que as meninas estão embarcando em uma jornada pela galáxia do gênero, explorando suas diversas possibilidades.

É algo na linha do que já fizeram no lançamento anterior, Metal Resistance (clique aqui para ver minha resenha a respeito), mas desta vez explorando novas possibilidades, de forma a manter os fãs entretidos e surpreendidos – afinal, kawaii metal só choca quem esteve em coma nos últimos cinco ou seis anos.

As três primeiras faixas (“Future Metal”, “Da Da Dance”, “Elevator Girl”) passam sem impressionar nem surpreender, exceto pelo fato de que adotam uma roupagem eletrônica mais intensa que o disco anterior e mais próxima da estreia autointitulada delas (clique aqui para ver minha resenha a respeito).

A segunda, inclusive, foi muito antecipada por mim por conter uma participação do maior guitarrista vivo japonês (Tak Matsumoto, do B’z), mas sua presença passou praticamente despercebida (até porque, heavy metal nunca foi seu habitat natural).

Mas logo depois, chegam nossas primeiras (e gratíssimas) surpresas. A começar pela imprevisível incursão delas pela música indiana, “Shanti Shanti Shanti”. Sério, qual a chance de um grupo de heavy metal encabeçado por cantoras pop japonesas criar uma canção influenciada por instrumentalização indiana? Ah, como eu amo música…

Em seguida, uma espécie de evolução de “Meta Taro”, do Metal Resistence, que trazia fortes influências de Korpiklaani e metal pirata. “Oh! Majinai” é mais do que uma faixa influenciada pelos finlandeses. É praticamente um cover deles, mas sem uma música específica como “alvo”. E de quebra, temos ainda a participação de Joakim Brodén, dos também escandinavos Sabaton, provendo um necessário contraponto masculino e rasgado às vozes das meninas. Esta sim é uma participação que faz sentido.

“Brand New Day”, além de retomar o lado eletrônico delas, tem mais uma participação “estranha”. Aliás, duas. Tim Henson e Scott LePage, guitarristas do quarteto estadunidense de rock progressivo instrumental Polyphia, vêm deixar alguns sons aleatórios que não parecem impossíveis de serem feitos por outros guitarristas quaisquer.

“↑↓←→BBAB” (seja lá como se lê esse diabo desse título que parece baseado no famoso “código Konami”, uma sequência de comandos que destravam truques em vários jogos da marca japonesa) adota sons eletrônicos novamente, mas desta vez especificamente sons de 8-bit, no melhor estilo DragonForce. Ela é uma das faixas exclusivas da edição japonesa, que veio dividida em dois CDs.

Foi prometido que “Night Night Burn!” teria elementos de música latina. Acabaram sendo temperos bem discretos, porque o máximo que se ouve é uma percussão mais regional aqui e ali e um ou outro fraseado diferente nas guitarras. Mas valeu pela tentativa de explorar novos terrenos.

O disco dois já começa de forma bem mais empolgante, com um instrumental mais maduro e somente vocais de fundo ou guturais, sem grande participação das meninas. Elas voltam em “Distortion”, primeiro single a ser divulgado, juntamente à lendária Alissa White-Gluz (Arch Enemy), que deixa mais uma participação discreta na versão do álbum.

A participação especial mais assertiva de todas vem logo depois, quando o rapper (sim, rapper) tailandês F.Hero deixa uma contribuição na divertida “Pa Pa Ya!!”. Como pode um rapper ter a participação mais marcante numa obra de metal com vários nomes importantes do gênero?

Este segundo disco também tem mais uma faixa exclusiva japonesa, também inchada ao máximo com modismos eletrônicos: “BxMxC” (seja lá como se lê esse diabo desse título) [2].

Após a ótima “Kagerou”, entramos numa espécie de thread e o álbum se encerra com uma trilogia de peças interligadas por leves sons sombrios: “Starlight”, ótima e dona de um dos riffs mais empolgantes; “Shine”, que infelizmente não preencheu seus quase seis minutos com algo que justificasse este comprimento todo; e “Arkadia”, tão descaradamente influenciada por DragonForce que eu procurei os nomes Herman Li e Sam Totman no encarte.

Ah, é bom lembrar que este é o primeiro trabalho das Babymetal sem Yuimetal, dançarina e vocalista de apoio que deixou o então trio um ano atrás. Honestamente, em nenhum dos quase 60 minutos de música oferecidos aqui sente-se a falta da dita-cuja.

Metal Galaxy tem como mérito manter a essência do som das meninas (até mais que o Metal Resistance) ao mesmo tempo em que segue na exploração de novos terrenos, sendo talvez um dos ícones recentes do fato de que a música não conhece limites.

Nota = 5/5

Abaixo, o clipe de “Pa Pa Ya!!”:

Resenha: A Different Kind of Human (Step 2) – AURORA

Reprodução da capa do álbum (© Decca Records / Glassnote)

A espera até que não foi muito longa. Foi necessário o tempo de uma gestação humana para que a cantora norueguesa Aurora lançasse A Different Kind of Human (Step 2), a segunda etapa de seu álbum/EP Infections of a Different Kind – Step 1 (clique aqui para conferir minha resenha sobre o mesmo), e que já se encontrava pronto desde 2018.

A boa notícia é que o disco é uma evolução em todos os sentidos com relação a seu antecessor. O número de faixas pula de oito para 11. A duração passa da meia hora para pouco mais de 40 minutos. E, o que é realmente importante, a qualidade das composições também aumentou.

Melhorias à parte, existe uma conexão musical forte entre os dois produtos, o que reforça aquilo que eu havia dito na resenha anterior: trata-se de um lançamento em dois tempos. E o “futebol” apresentado neste segundo tempo garante uma goleada, ante a vitória segura, porém magra de seu antecessor.

Ainda muito eletrônico, A Different Kind of Human (Step 2) não deixa de soar orgânico de certa forma, inclusive porque a cantora aborda temas ambientais em algumas letras, sem falar nas próprias introspecções típicas de suas letras. Aurora consegue, como poucos, fazer um som moderno que soa natural. Ela é quase um Deep Forest com vocais e mais acessível.

“The River” e “The Seed”, por exemplo, falam da natureza em geral, enquanto que “Animal”, “Apple Tree” e “Hunger” discutem instintos humanos. Esta última tem notáveis influências de ritmos e vozes africanas; toques étnicos e tribais são uma marca da música desta norueguesa que não dá para não notar.

Já a faixa título, por exemplo, provê uma atmosfera mais fatalista, contando a história de uma nave alienígena que veio resgatar um ser humano especial – presumidamente, uma pessoa boa demais para estar nesta Terra nefasta.

A jornada deste indivíduo único aparentemente tem fim no encerramento convenientemente chamado de “Mothership” (nave mãe em inglês). Como um comentarista no YouTube bem disse, taí uma música que eu adoraria ouvir logo após morrer – imagine ter sua alma recebida do outro lado pela voz angelical de Aurora dizendo “agora você está em casa”?

Eu quase me atrevo a dizer que o álbum é conceitual, mas aí seria forçar a barra. E por fim, se é verdade que esta pérola nórdica ainda não consegue competir com divas pop mais encorpadas comercialmente, é fato incontestável que seu lançamento fica na linha de frente do chamado “pop alternativo” em 2019.

Nota = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “Animal”:

Resenha: Infections of a Different Kind – Step 1 – AURORA

capa do álbum 'Infections of a Different Kind - Step 1'; trata-se de uma foto da cantora em posição fetal, vista de frente e com as mãos entre os peitos e o pescoço, de olhos fechados, com listras laranjas pelo corpo e uma espécie de juba preta, contra um fundo marrom claro

Reprodução da capa do álbum (© Decca Records Recording / Universal Music Operations Limited)

Aderindo a uma moda recente da indústria musical, a popstar norueguesa AURORA, querida especialmente no Brasil (“aaaare you goooing to Scaaarborough faaair…”), lançou, de surpresa, seu segundo álbum, Infections of a Different Kind – Step 1.

Com apenas oito faixas e pouco mais de meia hora de música, o sucessor de All My Demons Greeting Me as a Friend está no limiar abaixo do qual já estaríamos falando de um EP. Contudo, sabe-se (como o próprio título já indica) que uma continuação virá – em 2019 ou 2020, espera-se. É basicamente um lançamento em dois tempos.

O disco já dá sua largada com seu ponto alto: “Queendom”, generosamente temperada com toques de Coldplay recente e outros nomes mais genéricos do pop e inspirada pelo feminismo e a luta contra a homofobia. Porém, confesso que fiquei bastante envergonhado ao descobrir, numa entrevista da cantora ao The Independent, que ela criou a canção após visitar o Brasil e outro lugares em que “o status político do amor entre pessoas do mesmo sexo estava muito ruim”. Braaasil-sil-sil-sil…

Voltando ao álbum, ele é bastante eletrônico, um tantinho a mais que seu antecessor. Isso é constatado logo após a abertura, com “Forgotten Love” e “Gentle Earthquakes”, que ficam devendo à obra como um todo – as duas chegam a soar como versões alternativas delas mesmas.

“All Is Soft Inside” e “It Happened Quiet”, por outro lado, fazem outro par, bem mais interessante, como se o disco renascesse em si mesmo. São trabalhos que resgatam um pouco de organicidade, sem deixar de soarem artificiais (palavra aplicada aqui sem intenções pejorativas). A primeira nos faz lembrar de Deep Forest, enquanto que a segunda evoca uma mistura de Enya e Kate Bush.

“Churchyard” faz uma ponte entre o lado orgânico e eletrônico de Infections of a Different Kind – Step 1, com uma performance vocal de AURORA acima da média já alta do álbum e um instrumental com ênfase na percussão e arranjos inicialmente minimalistas e progressivamente densos. E “Soft Universe”, como o nome sugere, é um dos momentos mais serenos, embora tenha atmosfera relativamente densa.

E enfim chegamos à faixa título, a música mais importante que a norueguesa já escreveu, conforme declaração da própria ao Live in Limbo. Se por um lado ela não supera a beleza de “Queendom” e “It Happened Quiet”, é nítida a entrega da cantora nesta canção em particular, confirmando a declaração feita na entrevista.

Dentro da falsa diversidade comercializada pela indústria pop atual, AURORA desfila em direção à autenticidade ao cantar seu mundo de maneira mais espontânea e menos inocente que sua estreia de dois anos atrás.

Nota = 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Queendom Come”: