Resenha: One More Light – Linkin Park

Reprodução da capa do álbum (© Warner Bros.)

Hoje vamos falar de um disco que era muito aguardado por todos. Mas não por mera curiosidade: após a divulgação de algumas faixas decepcionantes, o direcionamento do Linkin Park começou a ser questionado. Infelizmente, nossos piores temores se confirmaram: One More Light, sétimo lançamento de estúdio do sexteto californiano, é puro pop – e dos ruins. Absolutamente nada de heavy metal e praticamente nada de rock.

Diferente do que muitos dizem, o Linkin Park nunca tinha deixado de ser bom. Hybrid Theory e Meteora são, realmente, os clássicos da banda, mas isso não desmerece os lançamentos posteriores. A incorporação do rap, do pop e do eletrônico no rock e no heavy metal não é essa blasfêmia toda que alguns chatos pintam – eu admito tranquilamente que me apaixonei pelo electronicore em 2013 e não o larguei desde então.

Outra coisa que preciso salientar: mudanças, mesmo radicais, podem dar certo, e sempre cito Dir en grey e Anathema com dois exemplos perfeitos disso. Nem quando essa mudança vai na direção do pop o resultado é necessariamente ruim. E agora cito Coldplay como exemplo. Aliás, perto deste disco, o Coldplay atual soa como hard rock.

Mas então, por que é um álbum tão ruim? Além do fato de simplesmente não soar como Linkin Park, o que temos é um trabalho de pop fácil, genérico e preguiçoso. Quase todas as canções constroem um clima de dar sono. Dez segundos de qualquer Summer Eletrohits da vida têm mais energia que os 35 minutos de One More Light.

Chega a ser risível os demais membros ainda constarem como integrantes da banda. O guitarrista Brad Delson pode falar o que quiser, mas, mesmo tendo ajudado a escrever várias das faixas, sua participação instrumental foi tão impactante quanto uma folha caindo no mar. Rob Bourdon e Dave Farrell, por suas vezes, se veem numa situação igualmente constrangedora: ou admitem que foram substituídos por uma bateria e um baixo programados por computador, ou admitem que esta é a participação mais pífia que já tiveram no grupo.

O malabarismo argumentativo dos fãniquitos para defender o indefensável merece um parágrafo à parte. A desonestidade intelectual é de causar inveja aos defensores do Lula e do golpe de 2016. Dizem que a banda foi ousada ao mudar, como se qualquer mudança por si só compensasse. Dizem que o disco não é ruim só porque é pop, como se sequer estivéssemos falando de um exemplo de bom pop.

E profiro esta última frase com extrema segurança, não só por não ser um tr00 666 from hell chato que só ouve o que tiver guitarras distorcidas, mas também porque, na mesma época em que resenho este lançamento, exploro a discografia da jovem cantora norueguesa AURORA e reforço minha impressão de que o pop de qualidade existe e vai muito bem, obrigado.

Por outro lado, não vou engrossar o coro de quem acredita que o sexteto simplesmente se vendeu. Será mesmo que a renda do grupo não era satisfatória a ponto de justificar essa guinada? Tampouco farei comparações estapafúrdias com Backstreet Boys, *NSYNC, Five ou Westlife – por respeito às boybands.

Se o Linkin Park está feliz trilhando este caminho, que sigam em frente. Mas lidem com as críticas, que já estão se acumulando, como podemos ver no Metacritic. O vocalista Chester Bennington já reclamou em mais de uma entrevista de fãs saudosos de um Hybrid Theory. Não, Chester, eu não espero um novo Hybrid Theory. Mas também não aceitarei passivamente música preguiçosa. Não fiz isso nem com minha banda favorita (Titãs, na época do intragável Sacos Plásticos), por que faria com o LP?

Nota = 0. Como fã, eu até procurei algo de bom aqui, mas não achei. A faixa título despertou meu interesse por sua bela letra (e a versão ao vivo em homenagem a Chris Cornell é de fazer suar pelos olhos), mas afunda no lamaçal que foi esse trabalho que faz o Sinfonia de Ideias, pela primeira vez em seus 6,5 anos ininterruptos de existência, atribuir uma nota zero.

Abaixo, o vídeo de “Good Goodbye”:

* Um rascunho desta resenha foi acidentalmente publicado em 24 de abril, motivo pelo qual alguns assinantes do blog receberam uma versão incompleta do texto na data supracitada. O Sinfonia de Ideias pede desculpas pelo inconveniente.

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Resenha: Something Worth Saving – Gavin DeGraw

Reprodução da capa do álbum (© RCA)

Reprodução da capa do álbum (© RCA)

Gavin DeGraw: taí um cara que sempre fez música bacana e relativamente leve e despretensiosa. Talvez por isso, nós compramos seus discos esperando apenas música que nos toque de alguma forma. Contudo, se na minha resenha de seu trabalho anterior, Make a Move (leia aqui), eu o elogiava pela evolução, nesta farei justamente o contrário. Porque nem toda evolução vai na direção certa, não é mesmo?

Não que eu esteja me imputando o direito de dizer a um artista consagrado qual a direção “certa” a seguir. Mas também não serei fã-niquito: Com uma roupagem excessivamente pop, Something Worth Saving é o mais fraco álbum de Gavin DeGraw até o momento. Ironicamente, seu título, que em português significa “Algo Digno de Ser Salvo”, parece uma descrição das boas faixas deste disco.

Sim, elas existem! Mas os sinais de “popização” já começam na abertura e single “She Sets the City on Fire”. “You Make My Heart Sing Louder” até faz você questionar esta resenha. Mas a realidade nos chama de volta de “Kite Like Girl” em diante. Quase me lembro dos momentos mais constrangedores do Bon Jovi… O lançamento está longe de ser um desastre, mas Gavin fica devendo para sua própria discografia pregressa.

Eu me empolguei com (e indico) “Harder to Believe”, “How Lucky Can a Man Get”, “New Love”, “Annalee” e a faixa título, que serve de encerramento. O resto é por conta e risco de cada um.

A mudança relativamente brusca de direcionamento musical pode pegar fãs acostumados com cinco álbuns razoavelmente coesos de surpresa – para o bem ou para o mal. Este aqui traz um pop fácil e um piano por vezes relegado a um papel diminuto – e é aí que reside a fraqueza desta obra. Culpo em parte o exército de produtores que foram chamados para atuar no álbum. A cozinha gerou faixas boas? Sim! Mas o resultado final é uma salada de influências desconexas…

Nota = 2/5. Talvez um resíduo industrial resultando de um artista em constante evolução, Something Worth Saving é o último álbum que eu indicaria a alguém que quer conhecer melhor este simpático pianista-vocalista. Sigo confiante de que seus próximos trabalhos serão bons, como costumavam ser.

Abaixo, o vídeo de “She Sets the City on Fire”:

Resenha: Metal Resistance – Babymetal

Breve histórico: sem dúvidas, um dos grupos mais improváveis que você vai conhecer em sua vida. Misturando power/death metal com música pop japonesa, mais especificamente a música dos típicos idol groups nipônicos, o Babymetal junta um trio de cantoras e dançarinas adolescentes com uma excelente banda de apoio.

Reprodução da capa do álbum (© Amuse Inc.)

Reprodução da capa do álbum (© Amuse Inc.)

O estrondoso sucesso comercial e de crítica do álbum de estreia autointitulado das Babymetal (resenhado neste blog), bem como o das subsequentes turnês, o que se soma ainda à aceitação que elas tiveram entre muitos headbangers e até entre grandes representantes do gênero cravaram o nome delas definitivamente na história do heavy metal.

Mas as meninas, que provavelmente estão fazendo o dono da agência delas sorrir de orelha a orelha, ainda haveriam de passar por uma prova mais: a da continuação. Seria um segundo lançamento capaz de manter o nível do primeiro? Ou ele patinaria numa tentativa de reproduzir uma fórmula já usada anteriormente? Nem uma coisa nem outra. Metal Resistance não está no mesmo nível de Babymetal, ele simplesmente está acima. Ele tampouco tenta copiar seu antecessor. As fórmulas se mantiveram, mas o disco claramente abraça novas influências sem medo de ser feliz.

A abertura “Road of Resistance” já “chega chegando” com a participação de dois músicos experientes na arte de driblar o choro dos tr00 666 from hell: Herman Li e Sam Totman, os guitarristas do sexteto britânico de power metal extremo DragonForce, cuja música quase-caricata é alvo de críticas dos maidendependentes. A mistura de duas das bandas mais inusitadas da atualidade deu mais certo do que poderia ser previsto.

A sequência “Karate” parece um recado pros haters. Tem uma clara influência metalcore – e o álbum vai além, explorando a variante electronicore de forma brilhante em “From Dusk Til Dawn”, com influências que nos remetem até aos momentos mais chatos do Coldplay, só que justamente sem a chatice.

“Awadama Fever” e “Yava!” recuperam o lado mais pop da banda, com riffs menos agressivos. A primeira parece até uma continuação de “Gimme Choko!!”, do trabalho anterior. “Amore” poderia servir de abertura para um anime qualquer, não fosse a instrumentação fritada à la DragonForce.

A surpreendente “Meta Taro” parece saída de um disco qualquer do Korpiklaani, com seus riffs galopantes, atmosfera viking e a bem-vinda inclusão de um acordeão na instrumentação. E aí (depois da já comentada “From Dusk Til Dawn”), vem “GJ!”, surpreendendo novamente com riffs metalcore/progressivos reminiscentes de Asking Alexandria, Circus Maximus e Leprous. O “mi-mi-mi-mi” proferido aos 26 segundos parece até uma indireta aos haters brasileiros.

“Sis. Anger” é uma das mais agressivas lançadas por elas, com riffs rápidos de thrash e blast beats bem nervosas intercaladas com passagens mais lentas e poderosas. Tudo isso logo antes de “No Rain, No Rainbow”, aquela baladinha básica para desacelerar um pouco o ritmo. Este tipo de música, quando feita por artistas japoneses, ganha um charme em particular, que só quem escuta B’z, GLAY e L’arc~en~ciel entende.

Fechando o álbum com chave de ouro, as surpreendentes “Tales of the Destinies” e “The One”. Progressivas e técnicas, a primeira mistura essas bandas novas da cena progressiva (Haken, Leprous, Withem, Prospekt, etc.); enquanto que a segunda parece saída do Images and Words, do quinteto estadunidense de metal progressivo Dream Theater. Um trabalho impecável na guitarra quase nos faz consultar o encarte à procura de John Petrucci na lista de convidados.

Por um lado, abandonar um pouco o lado pop tornou a música da banda mais acessível à comunidade do metal, mas ao mesmo tempo quase deu fim naquilo que as tornou tão distintas. Quase. Metal Resistance não tem mais aquele elemento de choque do Babymetal, ainda que tenha suas surpresas. Ele é mais um álbum de evolução, para mostrar que as meninas eram bem mais do que uma jogada de marketing (embora ainda o sejam). Elas amadureceram e abraçaram novas influências, diversificando seu som.

Nota = 9. Se o seu amigo hater não começar a gostar delas ouvindo este lançamento, não começará nunca mais. E digo mais: as Babymetal mostraram definitivamente que são um projeto “sério”, capaz de se comportar como uma banda “de verdade”, que evolui e busca a própria superação, apesar de todo o aspecto publicitário envolvido.

Abaixo, o vídeo de “Karate”: