Resenha: Na Estrada, Antes da Curva – Diego Mascate

Reprodução da capa do álbum (© Diego Mascate)

Para lançar seu segundo disco solo, o cantor e compositor goiano Diego de Moraes se travestiu de sua alcunha Diego Mascate e marcou 2019 com Na Estrada, Antes da Curva, a segunda parte de sua trilogia iniciada em 2014 com A. C..

Dividida em duas metades, uma rock (acompanhada pela banda de apoio batizada com o sugestivo nome… “Banda de Apoio”) e outra folk (Bringing It All Back Home, é você?) sustentada por Diego sozinho, a obra contrapõe suas duas facetas da música, que envolvem a pegada rock e crua e aquele “quê” mais folk e pé (descalço) no chão.

Abrimos com o meio samba, meio rock “Escroto Visionário”, com letras ácidas e sarcásticas sobre o panorama sociopolítico nacional. A acidez é reproduzida na alternativa “Fraldas Descartáveis” e na punk “Punk Rico”.

Uma dupla completa a primeira metade do trabalho. Uma das faixas é o indie “Iludido”, apoteoticamente aberto com um trecho do Hino da Independência do Brasil e encerrado com o riff de “Seventh Nation Army”, dos The White Stripes (em referência ao início da carreira de Diego, quando tocava violão acompanhado pela irmã na bateria).

A outra é o rock interiorano “Confusão”, cuja pegada country faz o elo perfeito com a segunda metade, toda folk e acústica.

E ela já abre com a novamente sarcástica e de humor negro “Já Pensei”, seguida da progressivamente nua e crua “Um Não Vive Sem o Outro”, a crítica da pós-verdade “Mentira” e o “Sambinha Redentor” (estilisticamente autoexplicativo).

Mas o charme desta segunda metade é o encerramento “Vida e Morte de Diego de Moraes”: uma biografia musicada com toques de Bob Dylan, Raul Seixas, Xangai, João Bosco e outros, onde tudo fica muito bem explicadinho, inclusive a origem da alcunha “Diego Mascate”.

Na Estrada, Antes da Curva confirma Diego como nome que vale a pena na cena underground brasileira – a rural e ao mesmo tempo a urbana. O que será que a conclusão da trilogia nos reservará?

Nota = 4/5.

Abaixo, o lyric video de “Fraldas Descartáveis”:

Resenha: Tripa Seca – Tripa Seca

Reprodução da capa do álbum (© Super Discos)

O que acontece quando você reúne uma trupe de músicos experientes e oriundos das mais diversas vertentes? Se você gosta de música, sabe que a resposta é inexistente por sua imprevisibilidade. Pode sair uma joia ou um chorume.

Nesta resenha, falamos de uma joia. Joia esta que carrega o não tão refinado nome de Tripa Seca – estreia do projeto homônimo. “Projeto” porque os rapazes não querem se ver como banda. E o Tripa Seca soa mesmo mais como um encontro especial, em vez de uma banda no sentido mercadológico da palavra.

Sabe quando você revê os colegas de escola e percebe que os caminhos que cada um escolheu são muito distantes uns dos outros, mas você ainda aprecia cada minuto que passa ao lado deles? É mais ou menos esse o paralelo que posso estabelecer com a sonoridade deste quarteto formado por Renato Martins (vocais, guitarra), André Paixão (vocais, guitarra, teclados), Melvin Ribeiro (baixo) e Marcelo Callado (bateria, percussão) – todos músicos calejados do cenário underground carioca.

A primeira coisa que ouvimos (na abertura “Mil”) é uma garota aparentemente alcoolizada proferindo o nome do grupo como se fosse a coisa mais sensacional do mundo. Esse “sample“, por assim dizer, dita a tônica irreverente do disco.

Mas os acordes e a letra que se seguem – não só nesta primeira faixa, mas também na segunda, “Cicatrizes”, mostram que o álbum também sabe ser maduro. Indie, alternativo, pop e new wave chocam-se da mesma forma que colidiram nos anos 1980 no repertório do rock nacional.

E a banda também consegue ser musicalmente brasileira até dizer chega. E isso já nos fica claro na terceira, “Vai Que Eu Vou”, na qual ritmos caribenhos e nortistas dançam colados. “Never” tira proveito do trocadilho entre as palavras “neve” e “never” (nunca, em inglês). É bonitinha, mas confesso não ter paciência para ouvir a piada sendo repetida ao longo de cinco minutos de música lenta.

Inclusive, é nesta hora que o disco começa a intercalar velocidades. De lentas, temos a eletrônica e psicodélica “Universo Paralelo”, a melancólica “A Paisagem” e o progressivo encerramento “My Saturation”. E do outro lado: “Bipolar”, companheira musical de “Mil” e “Cicatriz”; e as urgentes “Na Palavra” e “Vai Com Deus”, com influências punk.

É em “Bipolar”, gostaria de ressaltar, que percebi o quanto a voz de Renato é parecida com a de Tato, do Falamansa, impressão esta que pode ter sido reforçada pelo acordeão de Fernando Bastos, presença notória nesta peça.

No grande encontro musical promovido pela Tripa Seca – falta só isso *gesto de ‘pouquinho’ com as mãos* para eu chamá-los acidentalmente de Trupe Seca – , quem ganha é todo mundo: os músicos, que nitidamente se divertiram produzindo a obra aos poucos, desde 2015; e os fãs, que ganham uma das melhores estreias nacionais de 2019.

Nota = 5/5.

Abaixo, o clipe de “Vai Que Eu Vou”:

* A resenha foi escrita após sugestão da assessoria de imprensa da banda.

Resenha: Electra – Alice Caymmi

Reprodução da capa do álbum (© Joia Moderna)

Alice Caymmi é uma artista para fãs fortes. Quando você acha que ela está numa fase, ela vem e mostra que já está em outra. Começou a carreira de estúdio com MPB (Alice Caymmi), migrou para uma mistura do gênero com rock (Rainha dos Raios), entregou-se ao pop e a modernismos (Alice, resenhado neste blog) e agora… (respirando fundo) bem, agora temos Electra.

O que dizer deste disco batizado em homenagem ao mito grego? Eu já começo esta resenha falando de forma bastante intimista e informal com o leitor porque, francamente, achei difícil separar a opinião de fã da análise jornalística neste trabalho aqui.

Isso porque o álbum é inteiro carregado por um único instrumento – por um acaso, o meu favorito, o que eu escolhi tocar: o piano. Sim, Electra não apresenta em momento nenhum qualquer outro som instrumental que não seja o do piano, sempre tocado pelo gabaritado Itamar Assiere – exceto por alguns sons ambientes ao final de “Aperta Outro”.

A decisão deixa praticamente toda a responsabilidade da produção nas mãos – ou melhor, na voz – da artista. Não deveria ser considerado exatamente um desafio para alguém que já tem uma discografia encorpada, mas não deixa de ser verdade que é dela e dos dedos de Itamar a missão de conquistar o ouvinte.

O risco do álbum reside exatamente aqui. Para quem gosta de uma boa voz, não resiste a um piano bem dedilhado e aprecia música brasileira, Electra é um prato cheio. Mas… é tão simples assim agradar as pessoas? E os fãs que no lançamento anterior foram à loucura com um hit pop com participação de Pabllo Vittar, estão dispostos a acompanhar um show orgânico e relativamente cru? Isso não muito depois de um EP (Dizem Que Sou Louca) que não dava ainda sinais da mudança sonora.

A crítica já se rendeu e os fãs não estão exatamente arremessando tomates, mas a guinada sonora não deixa de ser um tanto impalatável para o ouvido destreinado – palavra que aqui pode significar “preguiçoso”, “preconceituoso” ou simplesmente “inexperiente”.

A seleção de faixas privilegia terrenos inéditos para ela. Em “Medo”, por exemplo, ela arrisca até um sotaque lusitano para se aproximar de Amália Rodrigues, intérprete mais famosa desta letra de Reinaldo Ferreira, repetindo o procedimento em “Fracassos”, desta vez por Fagner, mas agora com trechos em espanhol.

De resto, vamos de samba (“De Qualquer Maneira”) a soul (“Pelo Amor de Deus”), passando por homenagens a Maysa (“Diplomacia”) e à própria família da cantora (“Aperta Outro”), escrita pelo pai Danilo.

O resultado, como sempre costuma ser na discografia dela, é uma obra segura e sólida, madura dentro de sua própria proposta e dotada de qualidade acima da média. De questionamentos, fica só aquele já levantado anteriormente: estão os fãs prontos para mais essa nova faceta de Alice?

Nota = 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Diplomacia”: