Resenha: Memórias do Fogo – El Efecto

Reprodução da capa do álbum (© Sagitta Records)

Desde 2012, quando o El Efecto lançou o ótimo Pedras e Sonhos, o Brasil vem passando por turbulências políticas e sociais como há muito não se via. Para uma das bandas mais politizadas do rock nacional recente (e uma banda que, diferente da grande maioria das outras desse tipo, não se furta a dar nome aos bois em suas críticas (vide “Cabrais”)), surpreende que Memórias do Fogo, lançado este mês e disponível para download no site do grupo, seja tão sóbrio e atemporal.

Em vez de músicas sobre o golpe de 2016, os protestos de 2013 ou o tenebroso cenário político que se desenha para outubro deste ano, temos faixas que poderiam ter sido escritas 10, 20 anos atrás. Temas como racismo, capitalismo e a ditadura militar preenchem do começo ao fim o disco que marca a estreia dos guitarristas e vocalistas Tomás Tróia e Cristine Ariel, sendo esta última a primeira integrante feminina do agora sexteto.

E por que um conjunto de apenas sete canções está sendo chamado de disco, e não de EP? Porque o El Efecto criou sete universos, cada qual bastante particular em si mesmo e dono de uma mensagem forte, tanto na letra quanto no instrumental. É uma mistura da criatividade do Pink Floyd com a variedade da música brasileira, como se isso fosse possível. As guitarras pesadas se alternam com batucadas sinistras de um jeito que levaria Caetano Veloso a ser linchado, e não apenas vaiado no TUCA em 1968. Podemos então dedicar um parágrafo a cada faixa.

A abertura “Café”, se é que podemos chamar de “abertura” um trabalho de mais de oito minutos, já é um bom exemplo do que falamos no parágrafo anterior, com suas mudanças abruptas de andamento, camadas de sopros e variações de intensidades, com destaque para os acordes de cavaquinho ao final, que parecem imitar o movimento de um cafeicultor peneirando grãos.

“O Drama da Humana Manada” mergulha mais fundo nessa mistura de sons, alternando riffagens heavy metal com passagens de samba e outros ritmos nacionais a ponto de deixar talvez até o Angra admirado. Ela faz uma (necessária) crítica à glorificação desenfreada do trabalho e à falácia do “quem luta, alcança”. Céus, eu poderia fazer um post inteiro só sobre isso.

“O Monge e o Executivo” é uma daquelas faixas épicas que o grupo carioca costuma fazer, desta vez narrando a jornada dum personagem não muito raro no folclore corporativo: o executivo “zen”, que busca a paz interior enquanto lucra com a exploração dos outros. Convenientemente, a banda opta aqui por um instrumental essencialmente sereno, com frases típicas orientais para ambientação, ao mesmo tempo em que recorre ao rap da convidada Helen Nzinga para tecer suas críticas sociais de forma mais direta.

“Trovoada” é, talvez, uma das mais marcantes do disco. Seguindo com a mistura de ritmos, revela-se uma das mais progressivas, com direito a andamentos intrincados e tudo. Na letra, temas como o racismo e a escravidão brotam nesse terreno musicalmente fértil.

Além dessas quatro “épicas”, temos três curtas: “Carlos e Tereza”, uma mistura de carimbó, samba e rock em homenagem aos irmãos Marighella, expoentes da luta contra a ditadura militar; “Chama Negra”, que destoa um tanto do resto do disco, por ser toda acústica e relativamente simples, embora tal fato possivelmente se explique na força de sua letra, expressa na penetrante voz da convidada Rachel Barros; e o enceramento “Incêndios”, que acelera as coisas com aromas de punk, rockabilly e, de novo, rock progressivo.

Não chega a ser uma novidade o El Efecto criar canções tão ricas em suas individualidades, mas Memórias do Fogo leva isso a um patamar novo. E isso se deve em grande parte ao sem-número de músicos de apoio que ajudaram a engrandecer a densidade musical do disco.

Temos aqui, senhoras e senhores, um forte candidato a constar nas listas de melhores do ano, embora 2018 talvez não chegue a terminar, como diria Zuenir Ventura a respeito de 1968.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo de “O Drama da Humana Manada”:

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Resenha: Alice – Alice Caymmi

Reprodução da capa do álbum (© Flecha de Prata Edições Musicais/Universal Music International)

Depois de dois álbuns marcados por MPB, pop e rock, a cantora carioca Alice Caymmi, mais uma talentosa descendente do grande Dorival, rende-se ao pop e ao eletrônico em seu segundo lançamento homônimo – embora apenas pelo primeiro nome. Em 90% dos casos, eu rechaçaria um artista por realizar tal mudança em seu som, mas para a sorte da resenhada, não estamos falando aqui de qualquer artista.

Este disco bem breve, com menos de meia hora de música, revela brilho próprio em faixa. A abertura “Spiritual”, como o nome sugere, traz um clima mais orgânico, uma roupagem acústica, que perdurará até a faixa seguinte, “A Estação”, na qual o piano segue o ritmo ditado por uma bateria eletrônica – é a ponte para a realidade pop desta obra.

“What’s My Name (Oduduá)”, que poderia ter sido a abertura devido a seu “quê” de cartão de visitas, abraça com mais força a nova fase, mas é em “Vin” que testemunhamos a consagração da nova era da cantora: temos aqui elementos de pop, música eletrônica, um leve aroma funk, uso de autotune e até scat singing que mais parece um exercício fonoaudiológico.

A primeira participação aparece em “Inimigos”, na pessoa do rapper Rincon Sapiência, que ajudou a deixar mais interessante este hip-hop eletrônico. E aí vem “Inocente”, o primeiro single, escrito em parceria com Ana Carolina, e uma boa escolha para carro-chefe do trabalho. Pode não ser uma das melhores, mas acaba sendo uma das que mais bem sintetiza a proposta musical de Alice.

A tríade que marca a reta final do álbum é também seu ponto alto. A música refinada reencontra seu espaço na melancólica balada pianística “Agora”, reminiscente de Rainha dos Raios, e na qual até o vozeirão de Alice ganha uma oportunidade para nos tocar com notas mais altas. Em “Sozinha”, a cantora chuta o balde mais uma vez e usa cordas em pizzicato para abrir mais um pop, que aqui servirá de veículo para uma letra auto-afirmativa. E nem a presença do intragável Pabllo Vittar consegue estragar a simpática “Eu Te Avisei”.

Se no primeiro disco Alice foi quase toda autoral e no segundo ela foi quase toda intérprete, neste ela mescla faixas 100% suas, coassinadas por terceiros ou totalmente alheias. Isso talvez contribuiu para a diversidade da música, ainda que apenas em nove peças.

E agora, a questão mais importante: por que não torcer o nariz para o novo direcionamento da cantora? Bem, em primeiro lugar… existe o conceito de “verdadeira Alice”? “Alice das antigas”? Não! Os trabalhos de estúdio que ela lançou (ainda são só três, é verdade) são bem diferentes uns dos outros. E quem já foi a um show dela sabe que mesmo entre um álbum e uma turnê as canções já sofrem grandes transformações.

Alice Caymmi é artista inquieta, que não parece gostar de zonas de conforto nem de fórmulas, o que nos dá segurança para afirmar que o quarto disco dificilmente será uma continuação deste. E mesmo que Alice seja recheado por muitos dos elementos que têm estragado a música brasileira, ele ainda ganha muitos pontos pela maneira profissional com que tudo foi conduzido e, principalmente, pela forte presença musical da própria artista.

Nota = 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Inocente”:

Resenha: CATTO – Filipe Catto

Reprodução da capa do álbum (© Biscoito Fino)

Depois do fraco Tomada, de 2015, o gaúcho radicado em São Paulo Filipe Catto, medalhão LGBT brasileiro contemporâneo, brinda a reta final de 2017 com um trabalho melhor que seu antecessor e com mais personalidade que sua já ótima estreia Fôlego, de 2011.

Com uma produção bem modernosa, mas calcada em jogadas das antigas, CATTO surpreende em muitas faixas. Tudo começa já na melancólica abertura “Como um Raio”, gravada originalmente por Rômulo Fróes, na qual Filipe põe sua delicada voz sobre uma tocante camada de cordas. O prelúdio emenda na ótima “Lua Deserta”, com uma inesperada roupagem Pink Floyd na ala instrumental – algumas frases parecem até dialogar com o cativante riff eletrônico de “Breathe”.

A partir daí, temos uma certa fórmula instrumental que se reproduzirá ao longo das oito faixas restantes, sendo três regravações e cinco inéditas. Todas as músicas de CATTO são, em maior ou menor grau, profundas e densas e envolvem basicamente a voz de Filipe sobre algum arranjo que torna cada peça uma obra particular, um universo em si mesma.

No time das regravações, temos uma homenagem ao rock lusitano em “Canção de Engate”, de Antônio Variações, que ganha uma roupagem bem bacana e madura quase tão boa quanto sua versão original; “Faz Parar”, adequadamente interpretada com o arranjo mais minimalista do disco, quase um sussurro se comparado ao resto do álbum; e “Arco de Luz”, que transforma o samba de Martinho da Vila e Marina Lima num rock moderno.

E há também as inéditas, ora coassinadas por Filipe, ora assinadas por terceiros. “Só Por Ti”, parceria com Zélia Duncan, que participa da faixa também com sua voz, tem na ilustre presença da cantora fluminense a possível explicação para sua magia particular.

“Um Nota Um” e “É Sempre o Mesmo Lugar” são quase inteiras calcadas em elementos eletrônicos bem modernos, mas a primeira termina em batucada, evidenciando coragem para fugir do lugar-comum. Já na reta final, temos “Torrente”, dona de um ritmo e uma jogada bem R&B, permitindo-nos imaginar como seria uma abertura de um filme de 007 com ela; e o encerramento “Eu Não Quero Mais”, que fecha o álbum com um honesto e espontâneo “eu quero mais é que você se foda” e merece mais que um lyric video, uma vez que serve como perfeito cartão de visitas para o disco.

É verdade que os arranjos das faixas podem parecer repetitivos logo de cara, mas uma audição mais cuidadosa revela as nuances que tornam cada música um trabalho de mérito próprio. Como Alice Caymmi fez em Rainha dos Raios (outra joia brasileira desta década), de 2014, Filipe fez de cada composição uma entidade autossuficiente ao mesmo tempo em que fez de CATTO uma série coesa de canções.

Nota = 4/5. Recarregado, Filipe Catto se firma como potência emergente da nova MPB, embora este seja um rótulo um tanto genérico e talvez até tortuoso para o som deste gaúcho, que já fincou sua bandeira nos territórios do samba, do indie, do rock e da música eletrônica.

Abaixo, o vídeo de “Lua Deserta”: