Resenha: Fragma – Amanda Magalhães

Reprodução da capa do álbum 'Fragma', de Amanda Magalhães; trata-se de uma foto do busto da artista com vários objetos espalhados em volta, ante um fundo bege. O nome da obra e da rtista aparecem centralizados ao meio, acima da foto.

Reprodução da capa do álbum (© Boia Fria Produções)

A pandemia de COVID-19 não impediu a cantora, pianista, produtora e atriz Amanda Magalhães de lançar seu disco de estreia, aguardado desde 2018 e batizado de Fragma. O período conturbado que estamos enfrentando teria amedrontado muitos, mas ela foi lá, com a cara e a coragem.

Coragem, ousadia e afins são as primeiras características que me vêm à cabeça quando lembro da musicista, antes mesmo de qualquer qualidade mais voltada para a música.

Tal como uma Alice Caymmi, ela carrega o peso de um sobrenome forte – o pai e o avô (respectivamente, William e Oberdan Magalhães) integraram a consagrada Banda Black Rio. Esta sua estreia, lançada em meio a essas circunstâncias loucas, foi quase totalmente autoproduzida e 100% autoral, numa era em que mulheres ganharam espaço no “front” da música, mas ainda são raras nas funções técnicas. Por fim, coloque nesse caldeirão o fato da obra dialogar com os relacionamentos amorosos passados de Amanda – haja coragem para se desnudar assim, logo de cara, para a vastidão do mar de ouvidos desconhecidos que darão play no trabalho.

Para um álbum relativamente curto – meia hora de música distribuída em nove faixas -, Fragma consegue explorar uma quantidade admirável de facetas da artista, o que talvez justifique seu título, que faz referência à palavra “fragmentação”.

A breve abertura “A Direção” é toda eletrônica, mas o auge da artificialidade já é atingido aí, pois nas oito faixas restantes, o fluxo é mais orgânico, a começar pela R&B “Talismã”, com a participação providencial de Liniker. A letra e o instrumental simples são compensados por uma entrega vocal que penetra fundo nos ouvidos.

Um dos grandes destaques (a começar pelo vídeo intenso) está bem no meio: “Saiba”, declaração de amor com qualidade puxada para cima pela participação do incontestável Seu Jorge.

Outro grande destaque, que por não ter recebido vídeo talvez seja decretado ao esquecimento conforme o repertório dela ganhar mais corpo, é “Ninguém Vê”, com uma letra que parece revelar um dos lados afetivos mais interessantes da cantora ao mesmo tempo em que recebe um arranjo criativo e impecável.

“O Amor Te Dá”, escolha acertada de single, combina a leveza de uma canção romântica com a animação de uma música ritmada, com um clipe condizentemente retratando uma festa de rua.

Fechando o disco, seu último “destaque escondido”: “Esperando a Lua” , com um arranjo minimalista e acordes no piano que remetem a Coldplay.

Completam a lista de faixas “Deixa Assim Por Ora”, que retorna o pop, mas ainda com vozes naturais; “Deixar Levar”, o maior flerte com jazz do álbum; e “Quando a Chuva Acabar”, cuja ginga é notavelmente temperada com samba.

A heterogeneidade das músicas faz Fragma adquirir aquele jeitão de “compilação de singles”, típico do pop e da MPB atuais. Sendo o primeiro lançamento sempre um “cartão de visitas”, a carioca usou a oportunidade para mostrar todos os terrenos que ela pode explorar com segurança, podendo manter a diversidade ou focar em algo específico.

Eu particularmente acredito que Amanda terá, na carreira musical, uma trajetória parecida com a de sua personagem Natália em 3%: uma presença inicialmente discreta que vai, num crescendo, ganhando força e relevância até ser presença incontestável em meio aos protagonistas.

Avaliação: 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Saiba”:

Vinicius de Moraes: dez atitudes que provam que o Poetinha tinha alma rock ‘n’ roll

foto em preto e branco de Vinicius de Moraes tocando violãoNesta quinta-feira, 9 de julho, estamos exatos 40 anos à frente do dia em que Vinicius de Moraes nos deixou. Qualquer pessoa que esteja lendo este texto sabe de quem estou falando, pudera, foi um dos músicos e poetas brasileiros mais importantes do século XX.

Associado à Bossa Nova e à MPB em geral, Vinicius tem parcerias memoráveis com nomes do naipe de Tom Jobim, Toquinho, Dorival Caymmi e Baden Powell. Mas a alma do “Poetinha”, como ficou conhecido, era mesmo rock ‘n’ roll e eu vou provar neste post, que foi escrito com base principalmente em informações retiradas de dois livros sobre o mestre: Vinicius Portenho: As Inesquecíveis Temporadas de Vinicius de Moraes na Argentina e no Uruguai, de Liana Wenner (2012); e sua breve biografia escrita por Geraldo Carneiro (1984). Ambos constam na bibliografia do blog. Já conferiu? 😉

1: Ele era boêmio. Muito boêmio
Vinicius era tão conhecido pela obra artística quanto pela boemia. Abusou do álcool como se não houvesse amanhã – quase que literalmente, uma vez que perdeu a vida relativamente cedo, porém consciente de que poderia tê-la prolongado. Suas bebedeiras deixavam muitas lendas do rock setentista no chinelo.

A boemia quase virou negócio no último ano de sua vida, quando criou um bar (convenientemente chamado de “Cirrose”) juntamente aos sócios argentinos Héctor Peyrú e Martín Molinari (Vinicius apresentou-se inúmeras vezes na Argentina e no Uruguai e criou laços com ambos os países vizinhos). O local foi projetado por Paulo Jobim (filho de Tom) e sua esposa, Elaine Jobim.

Infelizmente, a empreitada não foi muito para frente: Vinicius morreu nove meses após a inauguração da casa e os sócios estrangeiros simplesmente sumiram, deixando as dívidas do local para a família de Moraes.

2: Era tão boêmio que os militares o demitiram por isso, e não por motivos políticos
A boemia de Vinicius era tão desregrada que, quando a ditadura militar brasileira baixou o temível Ato Institucional Nº5 (AI 5), a demissão – ou “aposentadoria compulsória” – do poeta foi quase imediata. Após mais de 20 anos de serviços diplomáticos, Vinicius era forçado a deixar o Itamaraty. E os oficiais do governo não se preocuparam com firulas: o memorando dizia, simplesmente: “demita-se esse vagabundo”. Não foram citados possíveis posicionamentos políticos de Vinicius em momento algum. E como se não bastasse, os militares até enalteceram a sua obra.

Existe uma discussão entre pesquisadores sobre Vinicius ter sido demitido pela bebedeira ou pela falta de assiduidade. Mas fato é que, pelo menos oficialmente, não se tratou de perseguição política. Haja moral e bons costumes…

3: E falando nos militares… ele não apoiou a ditadura
O uso desmedido de álcool e cigarro podem ter comprometido sua saúde, mas não parecem ter afetado seus neurônios; assim, ele era contra a ditadura, como grande parte da classe artística, o que obviamente inclui o rock. Contudo, diferente de colegas como Chico Buarque, seu ativismo era mais discreto. O pau comia solto, mas ele seguia cantando sobre amor, levando-o a questionar o sentido de sua própria obra em meio àquele caos. Nunca fez nada que motivasse um exílio, embora tenha considerado esta possibilidade – ele se apresentava em Portugal no momento em que o AI-5 era baixado.

Vinicius foi indiretamente atingido pelo regime em 1976, quando seu amigo, o pianista Tenório Cerqueira Jr., foi sequestrado pelos militares da Argentina em Buenos Aires para nunca mais ser visto. Sabe-se que ele morreu em poder dos agentes, talvez só argentinos, talvez argentinos e brasileiros.

Um ataque mais direto, porém menos doloroso veio antes, em 1974, quando os censores lhe impuseram uma suspensão de 30 dias longe dos palcos por conta da música “Valsa do Bordel”, que ele ousou cantar antes da aprovação das autoridades “competentes”. Ao fazê-lo, atacou “a moral da nação”, segundo os militares, que também apontaram uso de “humor vulgar” em apresentações em Belém e Brasília.

Vinicius obviamente se defendeu, dizendo que os versos em questão eram uma homenagem a Pablo Neruda, poeta chileno morto no ano anterior, e um gesto de repúdio a 1973 como um todo, por ter levado ainda outros dois grandes Pablos: Casals (violoncelista) e Picasso (pintor), ambos da Espanha.

4: Ele odiava o sol
Vinicius odiava o sol – pura e simplesmente. Era um homem da Lua. Como todo bom metalhead, era uma criatura das trevas. Bwahaha. Brincadeiras à parte, ele era um verdadeiro animal de hábitos noturnos. É à noite que a boemia atinge seu ápice, então faz todo sentido.

5: E falando na noite… era nela que ele gostava de gravar

Sendo um homem noturno, é natural que Vinicius preferisse realizar suas sessões de gravações de álbuns à noite. Por exemplo, em uma de suas temporadas em Buenos Aires, surgiu a oportunidade de registrar uma das apresentações em disco. Como a acústica da casa de eventos não era das melhores, o show teve de ser simulado em estúdio. Para imitar uma plateia, o produtor Alfredo I. Radoszynski chamou cerca de 30 pessoas, que se fingiram de público. A brincadeira durou duas noites e as gravações só se encerravam na manhã seguinte, às 8h. Assim foi criado o bem-sucedido Vinicius de Moraes Grabado en Buenos Aires con Maria Creuza y Toquinho: com “sangue, suor e sêmen”.

6: “Sangue, suor e sêmen” era com o que ele escrevia poesia
Quando já era consagrado, Vinicius manifestava desinteresse pela geração mais nova de poetas brasileiros porque não escreviam com “sangue, suor e sêmen”. Para ele, poesia feita com base em coisas fantasiosas e inatingíveis era menos nobre que aquela feita para as coisas da vida: amigos, mulheres, prazeres e afins. Ou ao menos as coisas que ele vivia. A poesia de Vinicius nada mais era que o seu cotidiano (d)escrito em versos.

Nas próprias palavras do carioca, ele se desiludiu com a incapacidade de seus colegas “para fecundá-la, para manchá-la de sangue, suor e sêmen, para banhá-la de lágrimas de amor, para cobri-la da saliva grossa de beijos apaixonados”.

Convite à reflexão: dos seus artistas de rock/metal favoritos, quais falam de assuntos fantasiosos? Quais trazem elementos do dia-a-dia para suas letras?

7: Sabia que ia morrer e seguiu vivendo intensamente
Numa atitude que deixaria Lemmy com inveja, Vinicius ignorava solenemente recomendações médicas e exames que alertavam para a óbvia deterioração de sua saúde.

Um momento emblemático disso foi o jantar que teve com seu médico num restaurante em Montevidéu. À mesa, entregou ao doutor os resultados de uma bateria de exames. Quando seu pedido, uma farta paella, chegou, Vinicius olhou para ela, olhou para o doutor visivelmente consternado com o que os exames lhe diziam, e procedeu ao desjejum sem freios, poupando sua companhia de desperdiçar saliva com sermões. Nas palavras do próprio médico, estava se suicidando.

8: Teve muitas, muitas mulheres
Vinicius era um galanteador nato e isso se traduziu no impressionante número de nove casamentos ao longo da vida. Hoje, alguns de seus poemas são considerados machistas (“Formosa” e “Minha Namorada”, por exemplo), mas na época ele era pegador até dizer chega. Não naquele estilo glam metal em que você come mais mulheres do que refeições por dia, mas se tinha algo que ele compreendia bem mais do que a média dos homens, era o coração feminino.

9: Até cocô era objeto de estima para ele
Quando Vinicius dava a descarga, nem sempre era um momento fácil. Às vezes, quando a peça era de seu agrado, ele sentia sua perda conforme ela ia embora para o esquecimento do esgoto. Ele chegou até a estabelecer uma tipologia do cocô, dando nomes aos diversos formatos que os excrementos humanos assumem.

10: Seus shows eram prosa pura

Numa atitude talvez nem tão rock ‘n’ roll, Vinicius acostumou-se a se apresentar ao vivo em meio a longos discursos ao público, proferindo extensas reflexões sobre os temas das músicas que cantava. Num show típico de rock/metal, isso provavelmente renderia uma chuva de objetos arremessados contra os músicos, mas o clima intimista que era característico aos shows do Poetinha eram terreno mui propício para essa quase-verborragia. Sem falar, claro, que meia hora de Vinicius falando ainda entretém mais que cinco minutos de boa parte da música nacional atual.

Ao som de: Deveria ser Vinicius, mas na verdade era Gamma Ray.

Resenha: MXT – Machete Bomb

Reprodução da capa do álbum (© Machete Bomb; arte por Jorge Torres Galvão)

A exemplo do que fez o ex-titã Paulo Miklos em 2017, quando lançou um disco solo terapêutico para ajudá-lo a lidar com a morte dos pais e da esposa, o cavaquinista Madu, líder da intrigante banda paranaense de samba-rock Machete Bomb, preparou um projeto especial para ajudá-lo a superar a morte da esposa.

A repercussão tímida na imprensa até agora não me permitiu garimpar informações suficientes para concluir com segurança se os demais membros do grupo participaram ou não deste projeto mas, de qualquer forma, ajuda não faltou: dezenas de nomes relevantes da cena contemporânea brasileira atenderam aos chamados de Madu para uma série de parcerias que foram sendo lançadas desde 2019. E são dezenas mesmo.

Tuyo, Odair José, Bnegão, Dedé Paraíso (Demônios da Garoa), Amanda Pacífico (Mulamba), Cacau de Sá (Mulamba), Egypcio (ex-Tihuana), Caio MacBeserra (Project46), Tomás Rosati (El Efecto), Janine Mathias, Mateo Piracés-Ugarte (Francisco, el Hombre), Xandão Meneses (O Rappa), Marcelo Lobato (O Rappa), Nave (beatmaker), Rodrigo Lemos (Lemoskine), Pete MC, Pecaos, Dow Raiz, Thestrow, Rodrigo Samsara e Alienação Afrofuturista estão entre os nomes que deixaram suas marcas no disco.

O resultado da compilação dessas parcerias é MXT, às vezes chamado de MXT comvida. São 26 faixas, sendo uma abertura, um encerramento, 12 músicas principais e 12 vinhetas respectivas com áudios dos convidados agradecendo pela oportunidade e comentando as canções das quais participaram, o que nos permite um mergulho profundo na história por trás de cada peça.

Tirando a abertura com ares épicos batizada exatamente com este nome (“Abertura”), temos uma profusão da típica mistura de samba, rap e rock que sempre moldou o som do Machete Bomb. É isso que permeará a obra do começo ao fim, com o rock tomando mais espaço nas faixas mais agressivas como “Pedra na Vidraça” e “Pixo Reto” e o samba reinando nas mais poéticas e delicadas.

E houve, sim, espaço para inovar um pouco. Em “Seu Valor”, por exemplo, temos um flerte bem aberto com o rock sinfônico, fora a já mencionada introdução. Já em “A Ordem É Samba”, temos uma curiosa participação do acordeão do forró. E sem falar nas flautas e na roupagem levemente soturna de “Central”.

As letras vão do introspectivo (“Nunca Mais”, “Seu Valor”, “Te Liberta”) às críticas sociopolíticas (“Pedra na Vidraça”, “Que Loucura”), como que tentando equilibrar o aspecto extremamente pessoal do lançamento (vide o primeiro parágrafo) e a natureza politizada e pouco conformada da banda.

Com a qualidade ímpar de quem fez uma mistura inacreditavelmente pouco explorada no Brasil e a atitude corajosa de quem decidiu seguir encarando a vida apesar das montanhas que ela colocou no caminho, o Machete Bomb marca 2020 com um trabalho que certamente será figurinha carimbada nas listas de melhores do ano que sairão daqui a alguns meses.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo de “Pedra na Vidraça”: