Resenha: Homônimo – Somba

Breve histórico: Mais um fruto da cozinha musical que é o estado de Minas Gerais, a banda Somba nasceu ao final dos anos 1990 com uma proposta que, até o momento, vem sendo bem aplicada: criar um som sem rótulos.

Reprodução da capa do álbum

Reprodução da capa do álbum

Dando continuidade a uma discografia de riqueza musical indiscutível, o Somba marcou o ano da Copa com seu terceiro disco Homônimo – afinal, por que autointitular um álbum quando você pode chamá-lo assim? Esta é apenas a primeira de uma série de tiradas que mantêm um padrão humorístico estabelecido desde o início. No campo instrumental, só resta aplaudir como o grupo continua transitando sem medo entre os mais diversos gêneros, com uma liberdade muito “alicecaymmiana”.

A abertura “Kem Soul”, com seu trocadilho anglolusófono, comprova a influência dos Beatles na música mineira, juntamente a “Real One”. O rock da terra da rainha também parece ter influenciado “The Ox”, com seu ritmo meio Pink Floyd; e “Light Your Fire”, uma mistura de Led Zeppelin com os estadunidenses do The Doors. Já “Carne Fraca” pega emprestado lances de rock nacional, e poderia facilmente ser item da discografia do 5PRAStANtAS.

“Vem Pro Meu Lado Negro, Nega!”, uma das melhores do trabalho, poderia facilmente ser parte da fictícia rádio de world music WorldWide FM, do jogo Grand Theft Auto V. Ela conquista de imediato com seu riff de metais sampleando a Marcha Imperial de Guerra nas Estrelas – o próprio título já dá a dica da referência.

“Rocambole” incorpora mais um gênero a esta cozinha: jazz, com toques de MPB. Dão tempero indispensável à faixa as vocalistas convidadas do Caffeine Trio. “Musichat” reforça a sagacidade do grupo com uma letra escrita em “internetês”, mesmo que isso não fique claro para quem só escuta – daí a importância de se apreciar o encarte.

O lado zoeira da banda chega ao apogeu em “4:20”. Sim, a faixa tem esse título. Sim, ela dura exatos quatro minutos e vinte segundos. Sim, ela consiste unicamente no som de algo queimando. Não, eu não preciso falar mais nada.

Homônimo se encerra com o punk rock cru e satírico de “Eu Queria Fazer Uma Música pra Vender, mas, PQP! Eu Não Consigo”. Completam a lista de faixas do álbum as leves “Trânsito” e “Correria” e a lenta balada “By Heart and Soul”.

O Somba é um grupo que nunca se levou muito a sério, o que não quer dizer que não trabalham com profissionalismo. É uma riqueza musical que, por sua diversidade, pode coletar fãs das mais diversas tribos, e isso faz deles um medalhão valioso na música mineira atual.

Nota = 9,0. Arrisco dizer que Homônimo merecia até ter ganho uma indicação ao Grammy Latino. Trata-se de um conjunto com um grande leque de influências, música dosada com humor leve e saudável e, é claro, a indispensável brasilidade. Quer mais alguma coisa?

Abaixo, uma performance ao vivo de “Kem Soul”:

* Atualização em 10 de maio de 2016: o CD Homônimo foi enviado ao autor do blog via correio pela assessoria de imprensa da banda e a resenha foi escrita por sugestão da mesma.

Resenha: Emmerson Nogueira – Emmerson Nogueira

Breve histórico: mais conhecido pelos inúmeros discos de regravações, Emmerson Nogueira é um violonista mineiro que construiu uma sólida base de fãs pelo Brasil todo com excelentes versões acústicas dos clássicos do rock internacional, acompanhado de sua banda que leva o esclarecedor nome Versão Acústica.

Reprodução da capa do álbum (© Sony Music)

Reprodução da capa do álbum (© Sony Music)

Não é sempre que um artista cover resolve arriscar trabalhos autorais, e o produto final pode ir do fraco ao surpreendente. Felizmente, no caso deste músico de São João Nepomuceno, o resultado foi positivo. Não é a primeira vez que Emmerson lança material próprio, vale lembrar. Em 2008 e 2009 ele incluiu as faixas “La Viola” e “Nucleus” nos álbuns Dreamer e Versão Acústica 4, respectivamente.

Neste que é seu oitavo (e autointitulado) trabalho de estúdio, Emmerson passeia por influências – não só musicais, mas também geográficas. Do ode a Minas Gerais em “A Nova Canção da Rosa” à homenagem a Portugal em “Herança Lusitana”, fica claro que o violão estava apontado em uma direção específica na hora de compor os acordes.

Impossível rotular de imediato este trabalho. Rock acústico não diz muito, MPB também soa genérico. Há pouco do rock clássico a que ele está acostumado, e muita brasilidade apesar dos poucos instrumentos. O site oficial do músico fala em “energia do rock progressivo” – mas não espere nada perto de Pink Floyd, Yes ou Rush. Se muito, lembra trabalhos acústicos como “Life’s a Long Song”, do Jethro Tull.

Emmerson Nogueira foi gravado num estúdio em meio às serras mineiras, o que explica o tempero regional do trabalho. E, mais importante, todos os instrumentos foram tocados pelo próprio Emmerson, o que faz desse um disco solo em todos os sentidos – ou quase, como explicado no parágrafo abaixo. Cercado pela mais exuberante natureza sudestina, o cantor se deixa levar pela inspiração que veio “da vida, da alma, dos amores perdidos e conquistados, do vento, do perfume da serra e de tudo que a vida nos reserva de surpresa todos os dias” e cria um disco recheado de sentimentalidades.

São canções sinceras esboçadas e guardadas pacientemente até o momento certo. E haja espera: algumas dessas peças foram compostas entre os anos 1970-80 por seu amigo Paulinho Cri (também violonista, falecido em 2012) em noites musicais com Emmerson, segundo o próprio. Já as outras foram compostas por ele mesmo nos anos 1990, na época em que participou de festivais mineiros. É praticamente uma coletânea de música antiga nunca antes lançada oficialmente.

Nota = 9. Um trabalho esforçado e muito bem-vindo na discografia do violonista. Que sirva de estímulo para outros músicos covers se arriscarem no imprevisível mundo autoral. Motorocker fez isso e deu certo. Trick or Treat fez isso e deu certo. Agora foi a vez de Emmerson se juntar ao time. Resta saber se isso foi um caso isolado ou se ele pretende puxar sua carreira para um lado mais próprio ou continuar regravando os clássicos.

Abaixo, o vídeo de “Feeling Blue” e “Na Cabeça Encantada”:

Resenha: “Sinais dos Tempos” mostra um Zé Ramalho simples, porém rico

Zé Ramalho é uma das maiores vozes da música brasileira contemporânea. E é também, embora alguns ignorem, um dos maiores nomes do nosso rock também. Apesar de ter flertado com o forró e o sertanejo, ele conseguiu, nos mesmos álbuns em que trouxe esses estilos desprezados pelos roqueiros, apresentar peças de rock and roll dignas de nota, MPB marcante e ritmos nordestinos que nos lembram o sertão de Vidas Secas.

Reprodução da capa do álbum (© Avôhai Music)

Só que o rock está praticamente ausente em Sinais dos Tempos, seu vigésimo terceiro disco de estúdio (incluindo aí os vários álbuns de covers que ele lançou ultimamente e o raro Paêbirú, apesar do próprio Zé desconsiderá-lo como um item de sua discografia). Mesmo assim, ele deve ser escutado com atenção, pois não é um álbum qualquer. Em primeiro lugar, porque o disco foi lançado sob sua recém-fundada gravadora própria, a Avôhai Music. Zé, que sempre foi avesso a interferências externas no seu trabalho, conquista aqui a independência total para mexer no seu trabalho, tão sonhada por muitos músicos.

Outro fato notável é que o disco recebeu cobertura relativamente grande da mídia nacional para um artista brasileiro sem muito apelo comercial, com direito a uma matéria de várias páginas na nobre revista Serafina, suplemento mensal da Folha de S.Paulo. Além disso, este álbum é praticamente conceitual: Fala do tempo. Zé Ramalho está entre o começo e o meio de sua sexta década de vida, e já sente os efeitos dos anos que se passaram (possivelmente agravados pelo seu passado marcado pelo consumo de cocaína e outras drogas) e a aproximação do fim. Pode parecer meio apocalíptico, mas o teor de Sinais dos Tempos é exatamente esse.

E isso começa a ficar claro com a abertura “Indo Com o Tempo”. Não é a melhor do álbum, mas a letra deixa claro o tema que será abordado nas onze faixas seguintes, que alternam entre músicas bastante lentas, como “Olhar Alquimista” e “O Que Ainda Vai Nascer”; e faixas mais “ramalhanas”, como Sinais, que traz de volta as letras profundas e a voz grave de Zé, além de um riff leve, porém marcante no violão, instrumento que dita a base da música em boa parte do disco quase totalmente desprovido de guitarras.

Além das faixas citadas acima, são destaques também: “Lembranças do Primeiro”, dona de um ritmo cativante guiado por um riff de piano que lembra de longe “Even You Brutus?”, do Red Hot Chili Peppers; “Um Pouco do Que Queira” e “Rio Paraíba”, onde o acordeão não nos deixa esquecer das raízes nordestinas do cantor; e “A Noite Branca”, praticamente uma regravação de “A Noite Preta”, presente no primeiro álbum solo de Zé, autointitulado.

Nota = 8,0. Sinais dos Tempos é um álbum muito simples musicalmente falando, se comparado com os últimos trabalhos de Zé Ramalho, mas o paraibano de Brejo do Cruz soube compensar isso com letras que dão muita consistência à obra e uma atmosfera musical serena e condizente com a temática do álbum. As palavras “lembrança”, “passado”, “tempo” e seus respectivos derivados são repetidas à exaustão no decorrer do disco, para deixar bem claro o “clima” que o envolve.

Abaixo, o vídeo de “Sinais”: