Resenha: The Similitude of a Dream – The Neal Morse Band

Reprodução da capa do álbum (© Radiant Records)

Reprodução da capa do álbum (© Radiant Records)

Esta resenha é escrita com um mês de atraso e na mesma semana que um dos maiores nomes do rock progressivo nos deixa: Greg Lake (King Crimson; Emerson, Lake and Palmer). Mas a morte dele não me fez apenas lamentar que perdemos mais uma lenda. Fez-me pensar quanta coisa boa as pessoas deixam de curtir por quererem sempre uma cópia do passado.

Uma dessas coisas é The Similitude of a Dream, décimo nono álbum do vocalista, tecladista e guitarrista estadunidense Neal Morse, e o segundo lançado sob o nome The Neal Morse Band – um grupo que junta ele, o lendário baterista Mike Portnoy, o antigo parceiro e baixista Randy George e dois músicos relativamente desconhecidos, mas bastante rodados e habilidosos – o tecladista Bill Hubauer e o guitarrista Eric Gillette.

Este disco, conceitual e baseado no livro The Pilgrim’s Progress (John Bunyan), mostra uma evidente evolução em relação ao álbum anterior, The Grand Experiment. Por mais que o lançamento do ano passado já tenha sido feito sob um sistema de banda “de verdade”, e não apenas com os membros se adequando às composições de Neal, ele ainda soava como uma obra solo de Neal Morse.

Em The Similitude of a Dream, contudo, a formação soa muito mais entrosada, com uma forte química entre os membros, concedendo-a um ar mais de “Neal Morse e amigos” – sim, a marca Neal Morse ainda é onipresente, ou a banda não levaria seu nome. E depois que você assiste ao making of do álbum, tudo fica mais claro. Dá para ver com clareza a fluência musical que eles demonstraram em estúdio, a maneira como todos estavam bem à vontade sozinhos com seus instrumentos ou gravando em grupo.

O documentário retratou a concepção do álbum de forma tão honesta que até um desentendimento entre Portnoy e Morse foi tornado público – o baterista era contra fazer um disco duplo porque o Dream Theater, sua ex-banda, já havia lançado um trabalho conceitual duplo no começo do ano (The Astonishing) e ele temia comparações. Um medo um tanto tolo – são duas obras musicalmente bem diferentes, lançadas por grupos que não estão exatamente perdendo a virgindade nessa coisa de disco duplo.

Enfim, falemos da música do álbum em si: The Similitude of a Dream justifica sua calorosa recepção pela crítica. Não o colocaria no pedestal de lançamento do ano como alguns estão fazendo, mas é obviamente um discaço, e todo aquele entrosamento enaltecido parágrafos acima resultou em mais de 20 faixas, totalizando quase duas horas de rock.

Elas variam de breves peças leves e acústicas como a abertura “Long Day” e “The Dream” a trabalhos de média duração com riffs mais pesados e instrumentação mais complexa como “City of Destruction”, “Draw the Line” e “So Far Gone”. Outras faixas trazem seus charmes próprios: o solo de saxofone de Bruce Babad em “Shortcut for Salvation”; os toques country em “Freedom Song”; o solo de baixo em “I’m Runnin”… Sem falar nos instrumentais “Overture”, “The Slough” e “The Battle”.

Mesmo que você não se identifique com todas, certamente encontrará ao menos algum momento de prazer auditivo neste disco. E a banda faz isso tudo sem perder foco e coesão. Você consegue visualizá-los o tempo todo da maneira que foram retratados no making of: livres, leves e soltos.

Graças a Dio, Mike Portnoy foi vencido pelos outros quatro membros e o álbum rendeu os dois discos que sempre foi destinado a render. E como eu não resenhei The Grand Experiment, aproveito para registrar comentários sobre os dois membros novos da banda:

O tecladista Bill Hubauer acaba um pouco ofuscado por Neal Morse, cujo instrumento principal é o próprio teclado, embora nos clipes deste álbum ela seja mais visto empunhando guitarras ou violões. Mas o trabalho apresentado até aqui dirime qualquer dúvida quanto ao seu talento. Soube criar harmonias e melodias que se encaixaram bem em todas as canções.

O jovem guitarrista Eric Gillette teve relativamente mais destaque. No começo do ano passado, antes mesmo do The Grand Experiment, Portnoy comentou o quanto Eric Gillette se parecia com seu “antigo parceiro de crime” – era uma óbvia referência a John Petrucci, seu ex-colega de Dream Theater. A referência se revelou precisa. A influência que o barbudo exerce sobre Eric é grande – às vezes, grande demais. Em alguns momentos o que se houve é uma tentativa de imitar os dedilhados de Petrucci. O solo de “Breath of Angels”, por exemplo, parece uma junção dos solos de “The Best of Times” e “The Ministry of Lost Souls”, ambas do Dream Theater. Por outro lado, recai sobre ele grande parte da responsabilidade da qualidade do disco: especialmente por executar bem todos os riffs e por saber casar o som de sua guitarra com os teclados, que sempre desempenham papel fundamental na música de Neal Morse.

Nota = 5/5. Um exemplo de rock progressivo bem feito, um exemplo de trabalho duplo e conceitual. Uma aula de instrumentação e composição. Podemos até discutir se este é o “álbum progressivo do ano”. Mas não podemos discutir sua beleza, nem sua qualidade.

Abaixo, o vídeo de “The Man in the Iron Cage”:

Resenha: Second Nature – Flying Colors

Breve histórico: Juntando quatro nomes consagrados do rock e um vocalista/guitarrista relativamente desconhecido mas que fez jus à oportunidade concedida, Flying Colors é um dos supergrupos fundados por Mike Portnoy após sua saída do Dream Theater em 2010. O som do quinteto apresenta uma mistura de influências de rock progressivo, hard rock, pop rock e alguns aromas de heavy metal.

Reprodução da capa do álbum (© Mascot Label Group)

Reprodução da capa do álbum (© Mascot Label Group)

Após arrancar elogios da crítica especializada com seu disco de estreia, autointitulado (e resenhado neste blog), o Flying Colors conseguiu, aos trancos e barrancos, lançar seu segundo álbum, Second Nature. Aos trancos e barrancos porque as sessões de gravação foram intercaladas com as agitadas agendas dos integrantes. Alguns ensaios chegaram a ser realizados por videoconferência. Se fosse uma banda amadora, o resultado poderia ser um disco visivelmente feito nas coxas. Mas como se tratam de cinco profissionais, sendo quatro com vasta experiência, o resultado foi positivo.

Mike Portnoy, Neal Morse, Steve Morse (sem parentesco), Dave LaRue e Casey McPherson são os componentes deste supergrupo que desde o início já havia colocado a crítica aos seus pés. O que eles têm a nos dizer com Second Nature? Em primeiro lugar, eles acabam com qualquer dúvida sobre a capacidade dos envolvidos em apresentar um trabalho melhor que o anterior.

Não que o som tenha sofrido uma grande mudança, mas o amadurecimento é evidente. Se em Flying Colors a banda explorava suas incontáveis influências faixa a faixa, já gozando de uma química musical dificilmente estabelecida tão rápido, em Second Nature ela parece ter achado um denominador comum. Não uma estrutura a ser reproduzida em todas as faixas, mas um ponto referencial em volta do qual as músicas serão desenvolvidas.

Cada riff do álbum tem um tempero especial. O folk da abertura de “One Love Forever”, o momento Bruce Springsteen na segunda metade de “Cosmic Fusion”, as lembranças de The Winery Dogs em “Bombs Away”, e por aí vai.

Um disco daqueles que já nasce candidato a top 10 de 2014, que agradará aos fãs da maioria das vertentes do bom e velho rock e que faz jus ao poderio dos envolvidos.

Nota = 9,0. No primeiro trabalho, a banda tinha tempo, mas não tinha ainda uma identidade certa. Neste segundo disco, eles tinham identidade, mas não tiveram tempo. Imagine o que será do terceiro trabalho se os dois fatores casarem.

Abaixo, o video de “Mask Machine”:

Resenha: Into the Maelstrom – Bigelf

Breve histórico: Ainda relativamente desconhecido, o Bigelf é uma revelação do rock psicodélico/progressivo. Misturando Pink Floyd, Beatles da era Sgt. Peppers e um pouco disso e daquilo, o Bigelf (que é praticamente um projeto solo do vocalista, tecladista e guitarrista Damon Fox) anda chamando a atenção de ouvidos sensíveis a um som das antigas.

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

Após romper com o baterista Steve Frothingham e o guitarrista Ace Mark, que tocaram nos últimos dois álbuns do Bigelf, o líder Damon Fox (vocais, teclados, guitarra) deixou a banda um pouco de lado. Foi convencido a retomá-la por ninguém menos que Mike Portnoy, renomado baterista com quem ele manteve contato desde sua conturbada saída do Dream Theater. O resultado da amizade foi a participação do próprio Mike no álbum. O baixista Duffy Snowhill, membro já antigo, e o guitarrista Luis Maldonado completam a formação.

O álbum aposta predominantemente em faixas tipicamente Bigelfianas como a introdução “Incredible Time Machine”, “The Professor & The Madman” e “Vertigod”, fazendo dele um disco pouco surpreendente considerando os 5,5 anos de espaçamento entre ele e o trabalho anterior. O que não é necessariamente ruim para uma banda de um som único que é reconhecido no primeiro ou segundo acorde.

De qualquer maneira, o álbum de fato traz alguns momentos de evolução musical, como em “Hypersleep”, com um riff que se equilibra entre o hard, o grunge e o blues, sem perder os toques psicodélicos. Ou “Alien Frequency”, com um baixo tão proeminente que até parece que Mike Portnoy trouxe umas influências de sua atual banda The Winery Dogs. Ou “High”, a segunda mais longa, com riffs bem progressivos e um excelente trabalho do baterista, fazendo desta um dos pontos altos do disco e um chamariz para fãs do metal progressivo, um território fértil para o Bigelf – não por um acaso, a banda é parte da lista de participantes do cruzeiro Progressive Nation at Sea.

Outras faixas dignas de nota são “Theater of Dreams”, na qual o meu sensor de Beatles explodiu; “Mr. Harry McQuhae”, com um inspirado solo de encerramento; a já citada “Vertigod”, com um interessante trabalho multi-vocal ao final; e “Edge of Oblivion”, onde os vocais mais uma vez se destacam e, desta vez, por incrível que pareça, lembram o Gorillaz.

Nota = 8,0. Os quase seis anos de distância entre Cheat the Galows e Into the Maelstrom não significaram grandes mudanças no som do Bigelf, o que é bom – em time que está ganhando, não é bom mexer mesmo. Mas não custa apontar que quatro álbuns em duas décadas é um ritmo demasiadamente lento, e o Bigelf (leia-se Damon Fox) poderia investir mais tempo e tornar-se mais regular e presente.

Abaixo, o lyric video de “Control Freak”: