Resenha: Sola Gratia – Neal Morse

Reprodução da capa do álbum 'Sola Gratia', de Neal Morse. Trata-se da imagem de um homem encapuzado com um bastão na mão direita e um lampião na direita e observando uma forma no chão, à noite. O nome do músico aparece acima, ao centro, e o nome do disco vem logo abaixo, levemente à direita

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

“Sem tempo para pandemia, irmão!” esse parece ser o mantra de certos músicos, entre eles o vocalista, tecladista e violonista estadunidense Neal Morse, que anunciou um novo disco solo e, antes que você pudesse terminar de pronunciar “coronavirus”, lançou o dito-cujo: Sola Gratia, uma continuação do Sola Escriptura, de 2007, que marca seu retorno à InsideOut Music.

Vale lembrar que, em menos de dois anos, ele já lançou (se não me falha a memória) quatro álbuns: um solo, um “semi-solo” com a The Neal Morse Band e dois com o Flying Colors, sendo um ao vivo. E não nos esqueçamos que talvez ainda neste ano saia mais um, com o Transatlantic. E sabe o que há em comum entre quase todos eles? Pensou certo: o onipresente baterista Mike Portnoy.

Este aqui traz na formação, além da dupla já citada: Eric Gillette (guitarra), Randy George (baixo) e Bill Hubauer (teclados). A exata formação da The Neal Morse Band, percebeu? Então por que diabos é considerado um trabalho solo?

Bem, talvez por preciosismo, o estadunidense não queria que algo escrito e arranjado quase totalmente por ele sozinho e ainda por cima com cada músico gravando suas partes em seus próprios cantos (#FicaemCasa) fosse considerado um lançamento em grupo.

No som, isso acabou, devo admitir, fazendo diferença. Ele é sensivelmente menos pesado que a média da The Neal Morse Band e com participações mais discretas de Eric e Bill, que limitam-se a reforçar e vez ou outra adornar uma base que já veio pronta.

Mantendo o clichê de iniciar seus álbuns com uma breve peça acústica seguida de uma “Overture”, o multi-instrumentista vai do agressivo ao sereno para contar a história do apóstolo Paulo.

O conjunto de faixas traz aquele som bem característico da sua música, e tendo ele uma participação mais forte que nos discos da The Neal Morse Band, os seus traços ficam ainda mais acentuados. Falo, evidentemente, do forte uso de violões, das linhas do seu inconfundível timbre de teclado e da cadência pop-prog que ele desenvolveu ao longo das décadas.

Como destaques, eu pinçaria primeiramente “In the Name of the Lord”, com uma energia reminiscente de “Welcome to the World” e “The Man in the Iron Cage” (lançadas com a banda) e evocando versos da longa “The Door”, do Sola Escriptura.

Também destacaria “Building a Wall”, outra faixa “agressiva”, mas que incorpora elementos gospel na forma de um coral de bom gosto; “Sola Intermezzo”, que traz uma inusitada… cuíca! E a mais longa, “Seemingly Sincere”, cujo dinamismo justifica a duração de quase dez minutos. No clipe desta última, postado ao final deste texto, o tecladista surpreende ao mostrar que tocou os arpeggios da primeira parte da música “na unha”, e não com um arpeggiator.

Embora não empolgue tanto quanto a estupenda dupla The Similitude of a Dream e The Great Adventure da The Neal Morse Band (clique aqui e aqui para conferir minhas resenhas respectivas), o que pode ser reflexo do fato do ciclo anúncio-gravação-lançamento ter se dado numa escala de tempo relativamente diminuta até para um músico prolífico como ele, Sola Gratia não faz feio perante a discografia deste mestre que nos mostra a cada trabalho novo que música cristã não precisa ser chata nem apelativa.

Avaliação = 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Seemingly Sincere”:

Resenha: Whoosh! – Deep Purple

Reprodução da capa do álbum Whoosh!, do Deep Purple. Trata-se de uma pessoa num traje parecido com o de um astronauta ou piloto de caça começando a se desintegrar, ante um fundo marcado por dunas prateadas e um céu roxo. o nome da banda aparece em branco, acima e ao centro.

Reprodução da capa do álbum (© earMUSIC; arte por Jekyll & Hyde)

“Whoosh” é uma palavra difícil de traduzir, até porque, é uma onomatopeia. Os britânicos usam a danada para designar coisas rápidas, como o movimento do vento através de uma janela aberta, ou mesmo uma pessoa fazendo algo em alta velocidade. Seria algo entre os nossos “vuuuu” e “vapt vupt”, talvez?

Enfim, a palavra intitula o vigésimo primeiro álbum do lendário quinteto inglês de hard rock progressivo Deep Purple, álbum esse que traz nos seus dois clipes uma figura humanoide em um traje espacial caminhando por lugares aleatórios da Terra. No final de um deles (“Throw My Bones”), a figura entra em franco processo de desintegração (Thanos, é você?), momento eternizado na capa (veja acima).

Em vídeo publicado no canal oficial da gravadora earMUSIC, bem como em entrevista ao NME, os membros explicam que os impressionantes mais de 50 anos que separam este disco da estreia deles passaram assim – vapt vupt. Ou num “whoosh”. E a ideia se aplica também à presença da humanidade na Terra: somos meros passageiros neste planeta que já existia bilhões de anos antes de surgirmos.

Cientes de que a recepção relativamente morna da crítica e dos fãs aos seus dois álbuns anteriores (Now What?! (2013) e Infinite (2017)) depõe mais contra os próprios receptores que contra os emissores, eles foram lá e nos deram mais um motivo para acreditar que 2020 não vai ser só mágoas.

A obra é composta de duas metades, vamos dizer assim. Uma delas é marcada por faixas mais “tradicionais” com aquele som abrasivo característico dos ingleses (falo especificamente de “Throw My Bones”, “Drop the Weapon”, “We’re All the Same in the Dark”, “No Need to Shout”, “The Long Way Round”, “The Power of the Moon”, “Man Alive”, “Dancing in My Sleep”).

É um grupo bem homogêneo de músicas, o que não significa que elas não tragam de vez em quando algum charme particular, como um piano gingado em “No Need to Shout”, o duelo inspirado de Steve Morse (guitarra) com Don Airey (teclados) em “The Long Way Round”, a aura misteriosa de “The Power of the Moon” e os toques eletrônicos de “Dancing in My Sleep”, que é uma faixa bônus.

A outra metade é um verdadeiro passeio musical. Por exemplo, “Nothing at All” tem uma leveza que a torna quase pop, quase balada, palavras que aplico com cuidado devido ao sentido pejorativo que ganharam ao longo das décadas na visão dos mais conservadores. É um pop progressivo como numa peça do Yes.

“Step By Step” se envolve numa aura misteriosa (como a de “The Power of the Moon”) sustentada pela diversidade organística do impecável Don Airey, que dá mais um show à parte.

“What the What” vem com uma forte atmosfera de rock and roll cinquentista. O quarteto de encerramento é marcado pela ponte instrumental “Remission Possible”, que leva ao segundo single (“Man Alive”); um segundo instrumental, desta vez uma regravação empolgante, porém bem aleatória de “And the Address” (faixa de abertura da estreia deles, Shades of Deep Purple); e a já mencionada faixa bônus “Dancing in My Sleep”.

Eu geralmente desprezo a ideia de “não ter mais nada a provar para ninguém”, que costuma aparecer em resenhas de artistas consagrados. Ninguém deveria ficar confortável a esse ponto. Mas no caso do Deep Purple, vou abrir uma exceção: eles precisam provar que não são extraterrestres porque não é brincadeira o que esses setentões fazem.

Avaliação = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “Throw My Bones”:

Resenha: The Absence of Presence – Kansas

Reprodução da capa do álbum 'The Absence of Presence', do Kansas

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

Estamos numa verdadeira era de loucos. Parece até que está na moda acreditar no inacreditável. Temos gente que acredita em Terra plana, gente que acredita que vacina causa autismo, gente que acredita que o homem nunca pisou na Lua… e gente que acredita que o lendário septeto estadunidense de rock progressivo Kansas não está mais com nada.

O Kansas integra, juntamente a nomes como Deep Purple, UFO e Uriah Heep, aquele grupo de bandas que: nasceram entre os anos 1960-70; continuam ativas até hoje; passaram por mudanças significativas na formação; enfrentaram fases de qualidade duvidosa nos anos 80 (como quase todo mundo que sobreviveu até lá); e voltaram a lançar discos estupendos desde a virada do século.

Eles já mostraram que ainda tinham lenha pra queimar com o The Prelude Implicit, de 2016. Com The Absence of Presence, porém, eles deixam claro não apenas que a lenha ainda existe em abundância, mas também que ela pode até evoluir.

A tríade de faixas iniciais (“The Absence of Presence”, “Throwing Mountains”, “Jets Overhead”) vem de forma arrebatadora com riffs fortes (flertando abertamente com o heavy metal em alguns momentos, como o interlúdio instrumental da segunda), refrãos cativantes e um violino encantador.

David Ragsdale, responsável pelo instrumento por um total de 20 anos na banda, segue impressionando por fazê-lo soar tão relevante e proeminente numa formação que já inclui dois guitarristas e até um tecladista que poderia sintetizar qualquer coisa para dar um toque exótico.

E falando nisso, não custa lembrar: o Kansas tem mais integrantes que o número de letras de seu nome e não parece ter ninguém sobrando. O interlúdio instrumental “Propulsion 1” reitera essa máxima especialmente para a ala instrumental, como que preparando o vocalista Ronnie Platt para brilhar na balada “Memories Down the Line”, que ainda é a mais fraca do álbum apesar da dose de emoção que ele trouxe em seu canto, fora mais uma entrega primorosa de David.

Dois petardos (“Circus of Illusions” e “Animals on the Roof”) nos separam da outra e mais pesada balada do disco, “Never”, e o lançamento encontra seu fim em “The Song the River Sang” – uma peça admirável, mas não o suficiente para dizermos que fechou com chave de ouro.

Em entrevista ao Greatest Hits 98.1, Ronnie comentou a grande coesão da obra – com efeito, ela soa como um grande trabalho de rock progressivo com alguns interlúdios (no caso, as baladas). Arrisco-me a dizer que se você não gostou da primeira faixa, já pode parar aí mesmo.

Palmas para os principais compositores, o guitarrista Zak Rizvi, que estreou no disco anterior; e o novo tecladista Tom Brislin que tem passagens pelo Yes, The Sea Within e Meat Loaf e trouxe uma significativa lufada de novidade à música do septeto, que já não era nada fraca.

Juntos, a dupla e o restante da banda garantiram a produção de um destaque para este ano. E há quem diga que o Kansas não era mais bom… (risos).

Nota = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “Throwing Mountains”: