Resenha: Mustan Sydämen Rovio – Marko Hietala

Reprodução da capa do álbum (© Savonian Rooster)

Foi como “hard progressivo” que Marco Hietala, mais conhecido como vocalista e baixista das bandas finlandesas Nightwish e Tarot, definiu o som de Mustan Sydämen Rovio, seu primeiro álbum solo em pouco mais de 50 anos de vida, e para o qual ele adota a variação ‘Marko’ de seu primeiro nome.

O termo “hard progressivo” normalmente nos remete a nomes arrojados como Rush e Sons of Apollo, mas o som que o barbudo finlandês (que deu um pulo recente no Brasil para se casar) imprime em sua estreia a solo é, na verdade, algo um pouco mais abrangente que uma mera mistura de hard rock com progressivo.

Existem cordas suficientes para considerarmos que o trabalho engloba também os gêneros folk e sinfônico. Ao mesmo tempo, a levada das guitarras em certos momentos nos faz pensar em algo tão básico quanto heavy metal tradicional.

Como costuma acontecer em lançamentos solo de quem já carrega nas costas a experiência de décadas em nomes diversos, Mustan Sydämen Rovio não é exatamente direto. Ele propõe novas direções a todo momento, ainda que sem sair de um determinado universo musical.

Por exemplo, a abertura “Kiviä” nos leva a crer que estamos diante de uma espécie de cruzamento de Korpiklaani com Nightwish. Mas a sequência “Isäni Ääni” já direciona o som para algo mais melancólico.

“Tähti, Hiekka ja Varjo”, que abre com riffs eletrônicos que deixariam o Stratovarius moderno com um sorriso no rosto, logo deságua num metal moderno com toques de power e do próprio Nightwish. O peso evolui em “Kuolleiden Jumalten Poika”, com um instrumental relativamente cru, uma entrega vocal acima da média do álbum e potencial para ser single.

“Laulu Sinulle”, a mais longa da vez, destoa bastante de suas companheiras ao adotar uma roupagem alternativa e altamente sintética, que lentamente se transforma no momento mais progressivo do disco – mas nem de longe o mais interessante.

Melhor é sua sucessora “Minä Olen Tie”, que também evolui aos poucos, mas para algo mais empolgante, incluindo riffs fortes e um solo fritado que à primeira ouvida parece se esforçar para se encaixar na proposta mais pé no chão do lançamento, mas no fim acaba dando certo.

Na verdade, a segunda metade da obra é a sua melhor parte. “Juoksen Rautateitä” e “Totuus Vapauttaa” são sem dúvidas o ponto alto em termos instrumentais por serem dinâmicas e altamente empolgantes, com trabalhos no órgão por parte de Vili Ollila que fariam Rick van der Linden sorrir em seu túmulo, não tivesse ele sido cremado. O time do disco envolve ainda o baterista Anssi Nykänen e o guitarrista Tuomas Wäinölä.

“Unelmoin Öisin” desacelera o ritmo das coisas sem deixar a peteca cair, preparando o terreno para o encerramento acústico “Totuus Vapauttaa”, carregado de emoção e recheado de cordas.

Marko Hietala faz em Mustan Sydämen Rovio uma sólida estreia solo, com muitos motivos para torcermos por uma continuação, ainda que saibamos que ela pode levar um bom tempo – principalmente porque os ensaios do novo álbum do Nightwish já começaram, conforme post recente do líder Tuomas Holopainen.

Nota = 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Isäni Ääni”:

Resenha: Auri – Auri

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Enquanto o sexteto finlandês de metal sinfônico Nightwish lança sua compilação Decades e trabalha na subsequente turnê, o líder e tecladista da banda, Tuomas Holopainen, decidiu se aventurar com sua esposa, Johanna Kurkela, num projeto paralelo de folk acústico e levemente sinfônico.

E foi assim que Tuomas criou seu próprio Blackmore’s Night, chamado Auri, com a diferença que o grupo tem ainda um terceiro elemento – no caso, Troy Donockley, colega de Tuomas no Nightwish. É praticamente um spin-off da equipe envolvida na criação de Music Inspired By The Life and Times of Scrooge (resenhado neste blog), disco solo do tecladista.

E não chega a ser descabido comparar o Auri com o Blackmore’s Night. As diferenças mais marcantes residem no timbre de voz das vocalistas (com Candice Night apresentando um tom levemente mais grave), e no instrumental. Ritchie Blackmore, guitarrista, transforma o violão e outros instrumentos de cordas em protagonistas no som, enquanto que o trio verá o piano de Tuomas, o violoncelo de Johana e as flautas de Troy construindo a parte não-vocal do disco de estreia deles, autointitulado.

O álbum é um tanto contemplativo, no sentido de que o som muitas vezes se manifestará de forma a envolver-nos em uma atmosfera relaxante. Algumas mal possuem letras propriamente ditas, como “The Name of the Wind” e “Savant”.

Mas há espaço para trabalhos um pouco mais convencionais, como a abertura “The Space Between”, “Aphrodite Rising”, a rítmica “See” e o single “Night 13”, belamente interpretado por Nicholas Minns em vídeo que você pode conferir ao final da resenha.

Os belos vocais de Johanna ajudam a construir aquela atmosfera supracitada, ganhando corpo em “Desert Flower”, um dueto com Troy, que vem se mostrando uma interessante alternativa a Marco Hietala no Nightwish. Nas outras faixas, ele e Tuomas limitam-se, vez ou outra, a fazer um contraponto masculino à cantora.

Tuomas, que controla quase tudo em sua banda principal, será ouvido aqui muito mais como compositor do que como executante. Há vários momentos do álbum que remetem a seu disco solo e a músicas típicas do Nightwish, mas os pianos e teclados dele têm papel limitado se comparado às cordas, aos sopros e à voz de sua esposa. E ainda bem que foi assim: o som do Auri é exatamente o que deveria ser.

Talvez o fã sedento por guitarras sinta falta do fator metal, mas o trio nunca prometeu algo do gênero. E, nem por isso, o projeto perde valor – afinal, ainda está para nascer algo ruim que tenha passado pelas mãos de Tuomas.

Nota = 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Night 13”:

Resenha: Residente – Residente

Reprodução da capa do álbum (© Fusion Media Group)

Se com o Calle 13 o cantor porto-riquenho Residente nos leva a viagens sonoras pela América Latina com seu meio-irmão Visitante, em sua aventura solo ele decidiu atravessar os oceanos e explorar sons do resto do mundo. Em 13 faixas, o músico nascido como René Perez Joglar vai à Sibéria, à África, à China, ao Cáucaso e a Paris, muitas vezes misturando elementos de outros lugares.

A escolha das etapas desta longa viagem não foi aleatória: Residente realizou um teste de DNA para descobrir as origens de seu código genético e surpreendeu-se ao constatar os locais de suas raízes. Motivado, viajou para todos esses lugares e gravou com músicos locais, desconhecidos em sua maioria.

O resultado da “salada” dialoga diretamente com o clipe de “Somos Anormales” (veja abaixo), primeiro single do trabalho, e cuja mensagem é clara: somos diferentes, mas viemos do mesmo lugar. Os meios utilizados para propagar tal recado podem chocar tanto os mais conservadores (vide o supracitado vídeo) quanto os progressistas de sofá que “estudam” sociologia por meio de posts no Facebook e provavelmente reagiriam com um “ui, apropriassaum cuturau”, mas o que temos é um discaço incontestável.

A tese geral de Residente é didaticamente comentada na abertura “Intro ADN / DNA”, onde o premiadíssimo ator e compositor Lin-Manuel Miranda narra como ele e Residente descobriram serem primos distantes e depois manda um rap com reflexões sobre a genética. Em seguida, chegamos ao primeiro single “Somos Anormales”. A letra tem aquela levada bem humorada típica do porto-riquenho, mas é um caso em que o vídeo fala muito mais que as palavras. Se você não for da turma do “mds uma vajina nunca vi iço”, confira você mesmo ao final da resenha. Musicalmente, é um trabalho dos mais interessantes, misturando um ritmo tribal com a impressionante performance dos cantores difônicos da Ásia Central, capazes de manipular suas vozes de um jeito que deixaria Bobby McFerrin com inveja. A terceira faixa, “Interludio Entre Montañas Siberianas”, dá dois minutos e meio para esses artistas exibirem um pouco mais suas habilidades.

O segundo single, “Desencuentro”, é a faixa menos empolgante do álbum, mesmo com a participação da cantora francesa SoKo, o que é compensado com um belo e divertido clipe – ambos (canção e clipe) têm um final inexplicavelmente abrupto.

A visita à China nos rende duas faixas: uma bela canção chamada “Una Leyenda China”, com um instrumental certeiro que nos transporta imediatamente para o país da Grande Muralha; e outra mais bela ainda, “Apocaliptico”, combinando serenos vocais chineses, os sinistros órgãos da Temple Church de Londres e do Palácio da Música Catalã de Barcelona, e os fortes versos de Residente, no melhor estilo “Respira el Momento” e “Calma Pueblo”.

Antes de “Apocaliptico”, temos um tema parecido em “Guerra”, outro ponto alto do disco com vocais dramáticos e instrumental tenso. Trata-se de um trabalho que causa ainda mais admiração quando você descobre que ele foi gravado em meio a bombas no Azerbaijão e envolveu pessoas dos dois lados do conflito da Ossétia.

Da África, ganhamos “Interludio Haruna Fati”, prelúdio quase a cappella para “Dagombas en Tamale”, em que uma tribo dagomba de Gana acompanha o rap de Residente com uma cativante batucada; “Milo”, homenagem a seu filho também gravada em Gana e introduzida por cordas que nos remetem a “Baile de los Pobres”; e “La Sombra”, funk étnico com aroma de blues criado em Burkina Faso com o icônico guitarrista tuaregue Bombino, cujo trabalho nas seis cordas nos leva a mais um ponto alto do álbum e me deixa curioso para saber o que sairia de uma parceria dele com Carlos Santana.

Encerrando o disco, temos “El Futuro Es Nuestro”, divertida peça de funk/reggaeton cujas letras são uma tentativa cômica de prever um futuro em que baratas serão alimentos e a lua não existirá mais como consequência de uma detonação terrorista; e “Hijos del Cañaveral”, bonita canção sobre o local onde a viagem genética de Residente termina e a viagem de sua vida começa: sua pátria mãe, Porto Rico. A irmã do cantor, que agora atende pelo nome de ILE, participa nos vocais de apoio.

Quanto mais você ouve Residente, mais você quer ouvi-lo de novo. É incrível como apenas 13 faixas de duração normal bastaram para Residente captar e condensar tantas coisas pouco palatáveis para um artista mediano – coisa que ele, sem sombra de dúvidas, está longe de ser.

Nota = 5/5. Se eu fosse escrever tudo o que senti ouvindo Residente, 11 parágrafos não dariam nem para metade do texto. Por isso, convido o leitor a ouvir a experiência que é este projeto – que envolve também um documentário e um livro – e tirar suas próprias conclusões. Você pode até não ficar tão impressionado quanto eu, mas duvido que não se sinta tocado de alguma forma.

Abaixo, o vídeo de “Somos Anormales”: