Resenha: Auri – Auri

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Enquanto o sexteto finlandês de metal sinfônico Nightwish lança sua compilação Decades e trabalha na subsequente turnê, o líder e tecladista da banda, Tuomas Holopainen, decidiu se aventurar com sua esposa, Johanna Kurkela, num projeto paralelo de folk acústico e levemente sinfônico.

E foi assim que Tuomas criou seu próprio Blackmore’s Night, chamado Auri, com a diferença que o grupo tem ainda um terceiro elemento – no caso, Troy Donockley, colega de Tuomas no Nightwish. É praticamente um spin-off da equipe envolvida na criação de Music Inspired By The Life and Times of Scrooge (resenhado neste blog), disco solo do tecladista.

E não chega a ser descabido comparar o Auri com o Blackmore’s Night. As diferenças mais marcantes residem no timbre de voz das vocalistas (com Candice Night apresentando um tom levemente mais grave), e no instrumental. Ritchie Blackmore, guitarrista, transforma o violão e outros instrumentos de cordas em protagonistas no som, enquanto que o trio verá o piano de Tuomas, o violoncelo de Johana e as flautas de Troy construindo a parte não-vocal do disco de estreia deles, autointitulado.

O álbum é um tanto contemplativo, no sentido de que o som muitas vezes se manifestará de forma a envolver-nos em uma atmosfera relaxante. Algumas mal possuem letras propriamente ditas, como “The Name of the Wind” e “Savant”.

Mas há espaço para trabalhos um pouco mais convencionais, como a abertura “The Space Between”, “Aphrodite Rising”, a rítmica “See” e o single “Night 13”, belamente interpretado por Nicholas Minns em vídeo que você pode conferir ao final da resenha.

Os belos vocais de Johanna ajudam a construir aquela atmosfera supracitada, ganhando corpo em “Desert Flower”, um dueto com Troy, que vem se mostrando uma interessante alternativa a Marco Hietala no Nightwish. Nas outras faixas, ele e Tuomas limitam-se, vez ou outra, a fazer um contraponto masculino à cantora.

Tuomas, que controla quase tudo em sua banda principal, será ouvido aqui muito mais como compositor do que como executante. Há vários momentos do álbum que remetem a seu disco solo e a músicas típicas do Nightwish, mas os pianos e teclados dele têm papel limitado se comparado às cordas, aos sopros e à voz de sua esposa. E ainda bem que foi assim: o som do Auri é exatamente o que deveria ser.

Talvez o fã sedento por guitarras sinta falta do fator metal, mas o trio nunca prometeu algo do gênero. E, nem por isso, o projeto perde valor – afinal, ainda está para nascer algo ruim que tenha passado pelas mãos de Tuomas.

Nota = 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Night 13”:

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Resenha: Residente – Residente

Reprodução da capa do álbum (© Fusion Media Group)

Se com o Calle 13 o cantor porto-riquenho Residente nos leva a viagens sonoras pela América Latina com seu meio-irmão Visitante, em sua aventura solo ele decidiu atravessar os oceanos e explorar sons do resto do mundo. Em 13 faixas, o músico nascido como René Perez Joglar vai à Sibéria, à África, à China, ao Cáucaso e a Paris, muitas vezes misturando elementos de outros lugares.

A escolha das etapas desta longa viagem não foi aleatória: Residente realizou um teste de DNA para descobrir as origens de seu código genético e surpreendeu-se ao constatar os locais de suas raízes. Motivado, viajou para todos esses lugares e gravou com músicos locais, desconhecidos em sua maioria.

O resultado da “salada” dialoga diretamente com o clipe de “Somos Anormales” (veja abaixo), primeiro single do trabalho, e cuja mensagem é clara: somos diferentes, mas viemos do mesmo lugar. Os meios utilizados para propagar tal recado podem chocar tanto os mais conservadores (vide o supracitado vídeo) quanto os progressistas de sofá que “estudam” sociologia por meio de posts no Facebook e provavelmente reagiriam com um “ui, apropriassaum cuturau”, mas o que temos é um discaço incontestável.

A tese geral de Residente é didaticamente comentada na abertura “Intro ADN / DNA”, onde o premiadíssimo ator e compositor Lin-Manuel Miranda narra como ele e Residente descobriram serem primos distantes e depois manda um rap com reflexões sobre a genética. Em seguida, chegamos ao primeiro single “Somos Anormales”. A letra tem aquela levada bem humorada típica do porto-riquenho, mas é um caso em que o vídeo fala muito mais que as palavras. Se você não for da turma do “mds uma vajina nunca vi iço”, confira você mesmo ao final da resenha. Musicalmente, é um trabalho dos mais interessantes, misturando um ritmo tribal com a impressionante performance dos cantores difônicos da Ásia Central, capazes de manipular suas vozes de um jeito que deixaria Bobby McFerrin com inveja. A terceira faixa, “Interludio Entre Montañas Siberianas”, dá dois minutos e meio para esses artistas exibirem um pouco mais suas habilidades.

O segundo single, “Desencuentro”, é a faixa menos empolgante do álbum, mesmo com a participação da cantora francesa SoKo, o que é compensado com um belo e divertido clipe – ambos (canção e clipe) têm um final inexplicavelmente abrupto.

A visita à China nos rende duas faixas: uma bela canção chamada “Una Leyenda China”, com um instrumental certeiro que nos transporta imediatamente para o país da Grande Muralha; e outra mais bela ainda, “Apocaliptico”, combinando serenos vocais chineses, os sinistros órgãos da Temple Church de Londres e do Palácio da Música Catalã de Barcelona, e os fortes versos de Residente, no melhor estilo “Respira el Momento” e “Calma Pueblo”.

Antes de “Apocaliptico”, temos um tema parecido em “Guerra”, outro ponto alto do disco com vocais dramáticos e instrumental tenso. Trata-se de um trabalho que causa ainda mais admiração quando você descobre que ele foi gravado em meio a bombas no Azerbaijão e envolveu pessoas dos dois lados do conflito da Ossétia.

Da África, ganhamos “Interludio Haruna Fati”, prelúdio quase a cappella para “Dagombas en Tamale”, em que uma tribo dagomba de Gana acompanha o rap de Residente com uma cativante batucada; “Milo”, homenagem a seu filho também gravada em Gana e introduzida por cordas que nos remetem a “Baile de los Pobres”; e “La Sombra”, funk étnico com aroma de blues criado em Burkina Faso com o icônico guitarrista tuaregue Bombino, cujo trabalho nas seis cordas nos leva a mais um ponto alto do álbum e me deixa curioso para saber o que sairia de uma parceria dele com Carlos Santana.

Encerrando o disco, temos “El Futuro Es Nuestro”, divertida peça de funk/reggaeton cujas letras são uma tentativa cômica de prever um futuro em que baratas serão alimentos e a lua não existirá mais como consequência de uma detonação terrorista; e “Hijos del Cañaveral”, bonita canção sobre o local onde a viagem genética de Residente termina e a viagem de sua vida começa: sua pátria mãe, Porto Rico. A irmã do cantor, que agora atende pelo nome de ILE, participa nos vocais de apoio.

Quanto mais você ouve Residente, mais você quer ouvi-lo de novo. É incrível como apenas 13 faixas de duração normal bastaram para Residente captar e condensar tantas coisas pouco palatáveis para um artista mediano – coisa que ele, sem sombra de dúvidas, está longe de ser.

Nota = 5/5. Se eu fosse escrever tudo o que senti ouvindo Residente, 11 parágrafos não dariam nem para metade do texto. Por isso, convido o leitor a ouvir a experiência que é este projeto – que envolve também um documentário e um livro – e tirar suas próprias conclusões. Você pode até não ficar tão impressionado quanto eu, mas duvido que não se sinta tocado de alguma forma.

Abaixo, o vídeo de “Somos Anormales”:

Resenha: The Diary – The Gentle Storm

Breve histórico: The Gentle Storm é um projeto fundado em 2014 pelo multi-instrumentista Arjen Anthony Lucassen (Ayreon, Star One, Guilt Machine, Ambeon, Stream of Passion) e a cantora Anneke van Giersbergen (The Gathering), ambos holandeses. Com uma proposta diferenciada no universo de Arjen, o lançamento de estreia da dupla, The Diary, consiste em um álbum duplo, com cada metade contendo exatamente a mesma lista de faixas, mas em versões diferentes. O primeiro álbum, o álbum “gentle” (“suave”), traz as faixas em versões acústicas e folk. Já o outro álbum, o “storm” (“tempestade”), traz as mesmas faixas em uma roupagem do mais pesado metal.

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

A ideia de trabalhar uma mesma faixa em versões contrastantes não é, claro, a descoberta da pólvora. Quem jogou Banjo Kazooie deve se lembrar da fase Click Clock Wood, que tinha quatro ambientes (cada um dedicado a uma estação do ano) e uma mesma música cujo clima variava de acordo com a época escolhida. A própria Gruntilda’s Lair, caverna que dá acesso às fases do jogo, apresentava um mesmo tema que variava quando o jogador se aproximava da entrada de alguma fase.

Enfim, o conceito trazido por Arjen e Anneke aqui, mesmo que não seja inédito, é bem-vindo e ganha pontos pela tentativa de adotar uma dinâmica nova. Há duas maneiras de se apreciar este álbum: ouvindo as faixas na ordem em que são apresentadas (o que significa ouvir o CD “Gentle” inteiro, e depois o “Storm”), ou então ouvir as faixas em sequência, mas alternando suas duas versões (versão “gentle” e “storm” da primeira faixa, versão “gentle” e “storm” da segunda, e por aí vai).

Ouvi-lo da primeira forma pode virar uma experiência tediosa no álbum “Gentle”, que vai ficando sonolento na segunda metade, especialmente se você está acostumado com os álbuns predominantemente pesados de Arjen. Já a segunda forma permite entender melhor o contraste entre cada versão.

A primeira preocupação em um projeto de Arjen com um só vocalista (posto que ele geralmente contrata vários) é se a voz dará conta do recado. Neste caso, é uma pergunta desnecessária, primeiramente porque Anneke tem uma voz belíssima, que entra direto na alma. E também porque as melodias são pegajosas e engrandecidas pelo uso de backing vocals da própria Anneke, e você pode se pegar cantarolando uma música que acabou de conhecer.

Embora elementos orquestrais não sejam novidade na música de Arjen Anthony Lucassen, é neste álbum que ele chega mais perto do que se poderia chamar de metal sinfônico, com direito a coral e tudo. Nada próximo de um Nightwish, claro, mas ainda assim os poucos instrumentistas eruditos quase valeram por uma orquestra inteira.

Menos diversificado que aquilo que Arjen costuma produzir, The Diary ainda consegue ter muitos pontos altos. A versão tempestade de “Shores of India” é talvez a melhor do disco. Sua versão “gentle” também não deixa nada a desejar, com sua introdução conquistando o posto de momento mais exótico do álbum e provavelmente de toda a carreira de Arjen. O encerramento “Epilogue: The Final Entry” repete o contagiante regrão de “The Moment”, em ambas as versões. A versão “gentle” de “Brightest Light” começa com uma cativante linha de contrabaixo, transformada em um épico riff de guitarra na versão “Storm”. A parte mais divertida da audição do álbum é justamente comparar as versões, e ficar se perguntando qual foi composta primeiro, se aquele riff foi pensado como folk e depois “metalizado” ou vice-versa.

Nota = 8. Por mais que Arjen seja um músico do tipo “tudo que toca, vira ouro”, não se pode negar que lançar um álbum com uma formação relativamente enxuta pode ter custado a grandiosidade que se viu, por exemplo, em The Theory of Everything, do Ayreon (resenhado neste blog). Mas, ei, quando foi que ele prometeu o álbum dos álbuns? A voz de Anneke é deliciosa de se ouvir, e os riffs de Arjen, já bem característicos, não falharão em empolgar os velhos fãs. E o abuso sem precedentes de elementos exóticos é muito bem-vindo. O que mais se pode pedir de um disco de estreia de dois músicos consagrados?

Abaixo, os lyric vídeos de “Endless Sea”, em suas duas versões: