Resenha: Whoosh! – Deep Purple

Reprodução da capa do álbum Whoosh!, do Deep Purple. Trata-se de uma pessoa num traje parecido com o de um astronauta ou piloto de caça começando a se desintegrar, ante um fundo marcado por dunas prateadas e um céu roxo. o nome da banda aparece em branco, acima e ao centro.

Reprodução da capa do álbum (© earMUSIC; arte por Jekyll & Hyde)

“Whoosh” é uma palavra difícil de traduzir, até porque, é uma onomatopeia. Os britânicos usam a danada para designar coisas rápidas, como o movimento do vento através de uma janela aberta, ou mesmo uma pessoa fazendo algo em alta velocidade. Seria algo entre os nossos “vuuuu” e “vapt vupt”, talvez?

Enfim, a palavra intitula o vigésimo primeiro álbum do lendário quinteto inglês de hard rock progressivo Deep Purple, álbum esse que traz nos seus dois clipes uma figura humanoide em um traje espacial caminhando por lugares aleatórios da Terra. No final de um deles (“Throw My Bones”), a figura entra em franco processo de desintegração (Thanos, é você?), momento eternizado na capa (veja acima).

Em vídeo publicado no canal oficial da gravadora earMUSIC, bem como em entrevista ao NME, os membros explicam que os impressionantes mais de 50 anos que separam este disco da estreia deles passaram assim – vapt vupt. Ou num “whoosh”. E a ideia se aplica também à presença da humanidade na Terra: somos meros passageiros neste planeta que já existia bilhões de anos antes de surgirmos.

Cientes de que a recepção relativamente morna da crítica e dos fãs aos seus dois álbuns anteriores (Now What?! (2013) e Infinite (2017)) depõe mais contra os próprios receptores que contra os emissores, eles foram lá e nos deram mais um motivo para acreditar que 2020 não vai ser só mágoas.

A obra é composta de duas metades, vamos dizer assim. Uma delas é marcada por faixas mais “tradicionais” com aquele som abrasivo característico dos ingleses (falo especificamente de “Throw My Bones”, “Drop the Weapon”, “We’re All the Same in the Dark”, “No Need to Shout”, “The Long Way Round”, “The Power of the Moon”, “Man Alive”, “Dancing in My Sleep”).

É um grupo bem homogêneo de músicas, o que não significa que elas não tragam de vez em quando algum charme particular, como um piano gingado em “No Need to Shout”, o duelo inspirado de Steve Morse (guitarra) com Don Airey (teclados) em “The Long Way Round”, a aura misteriosa de “The Power of the Moon” e os toques eletrônicos de “Dancing in My Sleep”, que é uma faixa bônus.

A outra metade é um verdadeiro passeio musical. Por exemplo, “Nothing at All” tem uma leveza que a torna quase pop, quase balada, palavras que aplico com cuidado devido ao sentido pejorativo que ganharam ao longo das décadas na visão dos mais conservadores. É um pop progressivo como numa peça do Yes.

“Step By Step” se envolve numa aura misteriosa (como a de “The Power of the Moon”) sustentada pela diversidade organística do impecável Don Airey, que dá mais um show à parte.

“What the What” vem com uma forte atmosfera de rock and roll cinquentista. O quarteto de encerramento é marcado pela ponte instrumental “Remission Possible”, que leva ao segundo single (“Man Alive”); um segundo instrumental, desta vez uma regravação empolgante, porém bem aleatória de “And the Address” (faixa de abertura da estreia deles, Shades of Deep Purple); e a já mencionada faixa bônus “Dancing in My Sleep”.

Eu geralmente desprezo a ideia de “não ter mais nada a provar para ninguém”, que costuma aparecer em resenhas de artistas consagrados. Ninguém deveria ficar confortável a esse ponto. Mas no caso do Deep Purple, vou abrir uma exceção: eles precisam provar que não são extraterrestres porque não é brincadeira o que esses setentões fazem.

Avaliação = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “Throw My Bones”:

Resenha: Virus – Haken

capa do álbum 'Virus', de Haken. Trata-se do desenho de um vírus preto com o nome da banda e o nome do álbum centralizados e na parte de cima, ante um fundo amarelo mostarda

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music; arte por Blacklake)

Nossos cérebros mal haviam se recuperado do sacolejo a que foram submetidos em 2018 com Vector (clique aqui para conferir minha resenha a respeito), e o sexteto inglês de metal progressivo Haken já reaparece com sua continuação: Virus, que teria sido lançada até antes, não fosse uma série de adiamentos provavelmente causados pelas limitações que a pandemia de COVID-19 impôs ao mundo.

E falando na doença, antes de iniciar uma campanha no Twitter para “cancelar” a banda por usar um título desse num momento em que todos os países do mundo (exceto o Brasil, aparentemente) lutam justamente contra um vírus, é interessante saber que, não só estava a obra praticamente pronta antes da pandemia, mas ela versa sobre os mesmos temas sanitários de seu antecessor, tornando seu nome algo convincentemente inocente.

A ideia da “dobradinha” é desenvolver o conceito de “Cockroach King”, um dos destaques do clássico terceiro disco deles The Mountain (clique aqui para conferir minha resenha a respeito). Assim, Virus é uma evolução bem natural do seu antecessor, tanto nas letras quanto no instrumental. As faixas variam em termos de duração, mas a maioria é bem pesada e crua – tão crua que relegou o tecladista Diego Tejeida a um pano de fundo que não lhe é costumaz em boa parte do tempo.

As comparações com Vector serão inevitáveis, especialmente porque é a primeira vez que o sexteto realiza dois lançamentos claramente conectados um ao outro.

As quatro primeiras faixas… não tenho nem o que falar, só sentir. “Prosthetic” é uma paulada do começo ao fim, com direito a passagens aos 3:45 que remetem a “The Count of Tuscany”, do Dream Theater. As três seguintes (“Invasion”, “Carousel”, “The Strain”) mantêm a peteca lá no alto, incursionando em facetas mais pop e atmosféricas vez ou outra (por exemplo, o refrão de “Carousel”).

“Canary Yellow” é um trabalho bem sui generis, abandonando o peso em favor da melodia e da atmosfera envolvente. É a que recebeu o vídeo mais interessante, diga-se de passagem.

A música épica desta vez, “Messiah Complex”, foi dividida em cinco canções menores (“covardes!”, gritei mentalmente ao perceber que tinham “fatiado” a peça). Cada uma remete a um momento musical obviamente diferente dos demais.

A primeira parte (“Ivory Tower”) tem um apelo relativamente mais pop, com vocais bem melódicos. A sua sucessora, porém (“A Glutton for Punishment”), inverte o jogo e vem com as pauladas mais fortes do disco inteiro. A sequência “Marigold” equilibra esses dois universos. “The Sect” recupera linhas e riffs de “Cockroach King” e é o momento em que Diego finalmente ganha um espaço mais digno – ele conseguiu até me enganar com um solo de teclado cujo timbre é tão fiel a um saxofone que eu tive de procurar quem era o suposto instrumentista convidado, até descobrir que era o próprio Diego.

E tudo se encerra na subfaixa principal, “Ectobius Rex”. Com praticamente cinco minutos de duração, ela parece ser o lugar aonde as quatro outras queriam chegar, recuperando, de novo, temas de “Cockroach King” e o riff aparentemente inspirado em “The Count of Tuscany” que ouvimos em “Prosthetic”.

Sobre as inevitáveis comparações com Vector, só posso dizer que este trabalho é, sim, melhor que seu “irmão mais velho”, mas por uma margem bem apertada, e somente porque é mais diverso e mais longo.

E falando em duração, se o provável único defeito do quinto disco deles era ser curto demais, ele meio que acaba de perdê-lo agora que o sexto foi dado à luz; juntas, as obras estabelecem um diálogo musical sem ruídos na comunicação e somam mais de uma hora e meia do melhor do metal progressivo contemporâneo, feito pelo nome que caminha para assumir o lugar do Dream Theater como rei do gênero – se bobear, antes mesmo que o quinteto estadunidense encerre suas atividades.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo de “Prosthetic”:

Resenha: Ordinary Man – Ozzy Osbourne

Reprodução da capa do álbum (© Epic)

Foram dez anos de espera. O lendário vocalista Ozzy Osbourne encerrou os anos 2000 com o bom, mas nada espetacular Scream, e esperou o fim da década seguinte para nos entregar Ordinary Man, o lançamento de estúdio seguinte.

Neste meio tempo, juntou-se aos companheiros Tony Iommi e Geezer Butler para terminar a carreira da pedra fundamental do heavy metal, o Black Sabbath, de maneira absolutamente digna (termo que aqui significa “com um álbum excelente e uma turnê de despedida que parece realmente ter sido a última, diferente das turnês de despedida caça-níqueis que outras bandas vêm fazendo sem o menor pudor”).

E o que o madman atinge com seu décimo segundo lançamento de estúdio? Bem, do lado de cá, nada de mais. Quer dizer, o que esta lenda viva ainda tem para provar para fãs ou crítica?

Por outro lado, parece que, ao menos para si, ele tinha muito a mostrar. Ao mesmo tempo em que dizia para a esposa Sharon que precisava lançar um disco, dizia a si mesmo não ter forças para isso.

Felizmente, ele encontrou a tal força – no caso, na juventude. Aos 29 anos, Andrew Watt assina a produção do trabalho e é considerado por Ozzy como o responsável por arranjar a disposição que ele precisava para concretizar o projeto.

Além do óbvio (heavy metal dos bons), Ordinary Man traz um toque especial: pop. Puro e simples. Quer dizer, misturado ao metal. Não é exatamente uma novidade na discografia dele, mas vem aqui em doses acima do que seria considerado “aceitável” pelos bangers puro-sangue.

Mas não de maneira desmedida. A jornada musical começa forte com “Straight to Hell”, um heavy metal cru e direto (para os padrões aqui estabelecidos). Momentos como “Eat It” repetirão essa roupagem mais pé no chão, em oposição às quase-baladas “All My Life” e “Holy for Tonight”.

A terceira canção, que faz a ponte entre os dois grupos, acabou levando o nome de “Goodbye” (adeus), mas este nome faria todo sentido na peça que acabou sendo a faixa-título.

Histórica, ela traz o “Príncipe das Trevas” acompanhado de Elton John no piano e nos vocais, Slash e Duff McKagan (ambos do Guns N’ Roses) na guitarra e no baixo, respectivamente, e Chad Smith (Red Hot Chili Peppers) na bateria. Haja talento! O clipe e a letra vêm em tom melancólico de retrospectiva e despedida.

“Under the Graveyard”, primeira faixa divulgada, já chamou a atenção por sua roupagem alternativa, mas o que a torna ainda mais interessante é o clipe, que equilibra tons de arrependimento (por ter passado dos limites nas noitadas quando era jovem) e de agradecimento (por nunca ter sido abandonado pela companheira Sharon, com quem segue casado até hoje).

“It’s a Raid” é uma parceria com Post Malone, que finalmente pode se dizer o “rockstar” que dá nome à sua canção mais famosa. Com toques punk, o caldeirão musical envolve ainda o guitarrista Tom Morello.

Esta não é a primeira colaboração do madman com o rapper; no ano passado, eles já haviam atuado juntos em “Take What You Want”, música de Post que conta ainda com outro rapper, Travis Scott. A faixa figura no próprio Ordinary Man como lançamento bônus das edições em CD, cassete e digital. Os japoneses, como sempre, ganham um mimo: “Darkside Blues”, uma breve peça com ares de demo em que Ozzy canta e toca gaita sobre um riff acústico e uma batida simples.

E não poderia deixar de destacar “Today Is the End” e “Scary Little Green Men”, com suas letras-crônicas na melhor escola Raul Seixas.

O disco, como dito, tem um apelo pop óbvio na adoção de elementos modernos. Mas esses fatores não precisam ser “vilões”, como muitos acham. Ozzy nunca foi tão apegado assim a um som mais cru dos anos 1970. Muito pelo contrário, ele lentamente foi na contramão das bandas ditas “das antigas” que fazem o tal do “rock sem frescuras”.

Se este tiver sido o último álbum dele – os fatalistas acreditam que seja, devido à saúde do cantor e ao tom de despedida de “Ordinary Man” – então podemos concluir com segurança que ele fechou com chave de ouro sua frutífera carreira. Pode morrer como qualquer coisa, menos como o “homem qualquer” que dá título à obra.

Nota = 5/5.

Abaixo, o clipe de “Under the Graveyard”: