Resenha: Everyday Life – Coldplay

Reprodução da capa do álbum (© Parlophone)

Ao avaliar A Head Full of Dreams (2015), sétimo trabalho de estúdio do quarteto inglês Coldplay, eu disse que o caminho que eles haviam seguido musicalmente era sem volta. Mas parece que me enganei. É o que se conclui após ouvir Everyday Life, sucessor do disco supracitado e objeto desta resenha.

Dado à luz após uma campanha que envolveu cartazes em cidades pelo mundo todo e cartas batidas à maquina de escrever, o oitavo lançamento de estúdio deste que é um dos nomes mais populares do mundo é duplo e vem dividido em “Sunrise” e “Sunset” – respectivamente, nascer e pôr do sol.

E por que me enganei? Porque a banda mostrou total disposição para retornar a um som mais encorpado e maduro. Mesmo assim, eu reluto em chamá-lo de “volta às raízes”, como alguns vêm fazendo. Este trabalho tem incursões demais em terrenos novos ou mais ligados ao som recente deles para ser comparado apenas ao início da carreira dos caras.

Por exemplo, “Broken” é um gospel puro e simples e o encerramento do primeiro disco, “When I Need a Friend”, também tem um clima bem religioso, só que desta vez com mais destaque para as vozes que acompanham o vocalista Chris Martin. E temos ainda “WOTW / POTP”, com qualidade propositalmente abaixo do normal para indicar algo rústico e, por que não, improvisado.

“Daddy” poderia ter sido lançada no horroroso Ghost Stories (clique aqui para conferir minha resenha a respeito) por sua grande leveza, com a diferença de que é uma leveza do tipo bom, e não do tipo “fomos convidados a tocar na cerimônia de abertura da Copa do Mundo de Sono” como foi o caso do álbum supramencionado.

“Arabesque” é de uma finesse grande até para o padrão do grupo, mostrando-se efetivamente uma das músicas do ano, pela surpresa, pela riqueza, pelo bom gosto, enfim. Chama a atenção especificamente o ritmo marchante, o baixo pulsante e muito vivo e os providenciais metais, que vêm com um toque de Jerry Martin que nos remete à trilha sonora do jogo SimCity 4.

Já as ligações com o passado recente vêm, por exemplo, na serena e sintética “Church”, que contrasta com a belíssima e puramente acústica abertura “Sunrise”, levada só nas cordas.

Ou então em “Guns”, que lembra “Major Minus” de Mylo Xyloto (clique aqui para conferir minha resenha a respeito). Essa conexão com o passado contrasta com o ineditismo de conter mais palavrões por m² que toda a discografia pregressa deles.

Outras canções dignas de nota incluem a boba alegre “Cry Cry Cry” e o quase instrumental “Bani Adam” que desemboca no destaque já mencionado “Champion of the World”. Separando os discos, temos um interlúdio de sinos de igrejas que, por algum motivo, veio separado em seis faixas curtíssimas.

Repetindo uma tradição recente, Everyday Life tem diversas participações especiais, mas de músicos bem menos conhecidos que as figurinhas pop com quem o Codlplay estava flertando. Trata-se de um seleto grupo de profissionais de diversos locais do mundo (principalmente de países muçulmanos).

Já faz um tempo que ressalto o fato do Coldplay não ser mais rock. Essa máxima continua válida aqui, mas não digo isso mais de forma pejorativa como antes. Agora, eu digo isso pelo simples motivo de que eles atingiram algo superior a categorizações.

Se eu finalizei a resenha de A Head Full of Dreams dizendo que ele nos dava “uma luz no fim do túnel quanto ao futuro da banda”, posso finalizar esta dizendo que a tal luz não desapontou.

Nota = 5/5.

Abaixo, o lyric de “Arabesque”:

Resenha: Extreme Power Metal – DragonForce

Reprodução da capa do álbum (© earMUSIC)

Existem muitos nomes no rock e no heavy metal que fazem música “séria”, mas demonstram um comportamento absolutamente descontraído e descompromissado nas redes sociais, em entrevistas e mesmo nos shows. Nesta década, é isso que o quarteto inglês de power metal DragonForce virou: uma banda bem-humorada com discos relativamente sérios.

Mas em 2019, em seu oitavo lançamento de estúdio, o grupo decidiu despirocar de vez. Chutar o balde. Ligar o foda-se. E a mensagem já fica clara logo no título: Extreme Power Metal, o rótulo por vezes atribuído ao som deles, que basicamente consiste num power metal mais alucinado que o usual.

A característica mais importante do disco é ser uma perfeita união da maturidade que a banda demonstrava em seus três trabalhos anteriores (confira aqui, aqui e aqui minhas resenhas a respeito) com a irreverência de seus lançamentos iniciais, quando seu som chegava a ser caricato de tão artificial e forçado.

Esse casamento está por toda parte, inclusive na estética, profundamente influenciada por games dos anos 1980, como podemos ver na capa e nos clipes de “Highway to Oblivion” e “Heart Demolition”. Alguns membros são gamers assumidos e parte da produção do álbum foi transmitida ao vivo pelo guitarrista Herman Li em seu canal no Twitch, evidenciando o quanto a fusão midiática faz sentido para eles.

Mas há outras peças mais “sérias”. O pitoresco título “Cosmic Power of the Infinite Shred Machine” esconde um dos pontos altos do disco (inclusive por parte de Coen) e que é sucedido por “The Last Dragonborn” e “Heart Demolition”, outros destaques – a primeira por sua roupagem nipônica e a segunda por sua letra sóbria e determinada, que entra em choque com o cômico vídeo.

E espere só até ver o clipe de “Razorblade Meltdown”, em que versões animadas dos membros literalmente se matam por uma mulher em meio a um sem-número de referências a piadas internas da banda, a maioria das quais eu confesso não ter sido capaz de pegar.

A segunda metade da obra vai intercalando momentos não tão impressionantes quando os iniciais até chegar na dupla final, formada pela curiosa “Remembrance Day”, com inéditas gaitas de foles; o improvável cover de “My Heart Will Go On”, de Celine Dion; e a faixa bônus “Behind the Mirror of Death”, salpicada de Thrash por ter sido composta pelo baixista Frédéric Leclercq.

E falando no talentoso músico francês, Extreme Power Metal marca sua última contribuição para o DragonForce. Pouco antes do lançamento do disco, ele anunciou sua saída do então quinteto, e mais tarde explicou que havia sido convidado para integrar a lenda teutônica Kreator, que pode acomodar de maneira mais apropriada as suas fortes tendências Thrash.

E esta não é a única mudança na formação que ronda o álbum: em 2018, sem alarde e sem despedida oficial, o tecladista Vadim Pruzhanov também foi embora. Eu cantei a bola de que ele faria falta. Contudo, para minha grata surpresa, as teclas são muito competentemente comandadas de forma provisória por Coen Janssen, do Epica.

Ressalto, todavia, que os teclados têm importância grande demais neste grupo para ficarem relegados a um músico de apoio (embora ele tenha até ajudado a compor “The Last Dragonborn”). Então, que achem logo um substituto à altura de Vadim e voltem a ser o sexteto que precisam ser.

Extreme Power Metal, com sua fusão de bom humor e música sóbria, é o álbum definitivo do DragonForce, no sentido literal da palavra, ou seja, é o álbum que melhor define o que a banda é. E é também o lançamento que servirá de parâmetro para trabalhos futuros.

Nota = 5/5.

Abaixo, o clipe de “Heart Demolition”:

Resenha: The Cocoon – Richard Henshall

Reprodução da capa do álbum (© Hen Music)

Foram quatro anos de criação até que o guitarrista e tecladista inglês Richard Henshall, famoso por suas contribuições no Haken, To Mera, Nova Collective e Mike Portnoy’s The Shattered Fortress, deu à luz seu primeiro álbum solo, The Cocoon. Para completar a formação principal, ele conta com seus colegas de banda Conner Green (Haken) no baixo e Matthew Lynch (Nova Collective, Cynic) na bateria.

Este trio acima de qualquer suspeita ajuda o músico a fazer uma estreia sólida e segura, mesmo para quem já havia provado noutras ocasiões que merecia lugar de destaque na nova geração de guitarristas do heavy metal.

É verdade que menos de 50 minutos de música distribuídos em apenas sete faixas parecem um rendimento pífio para quatro anos de maturação. Mas podemos dizer que ser curto é o único defeito relevante do excelente The Cocoon.

A abertura “Pupa” é um ótimo cartão de visitas por resumir em dois minutos e meio a proposta musical do disco: instrumental técnico com direito a passagens serenas. Exceto que o álbum não é todo instrumental, e quem garante isso é o próprio Richard, que demonstra ser um vocalista à altura de sua própria música – e também dono de um timbre curiosamente parecido com o de seu colega de Haken, Ross Jennings, mas notadamente mais baixo.

Falando no sexteto de metal progressivo, não dá para não perceber uns toques de Haken no som de Richard. Pudera, ele é o guitarrista, segundo tecladista e, por muito tempo, principal compositor do grupo. A primeira música de fato, a faixa título, reafirma este parágrafo e o anterior por dez minutos – a mais longa da obra. Dentre seus destaques, temos o solo de saxofone de Adam Carrillo.

“Silken Chains”, com a participação do multi-instrumentista David Maxim Micic, valoriza mais o lado leve do guitarrista. É altamente técnica, mas com pouca distorção. “Limbo” leva isto para outro nível e se revela um trabalho com fortes toques de música ambiente – tanto que chega a ser monótona em comparação às suas companheiras.

“Lunar Room”, com Marco Sfogli, Ben Levin, Jessica Kion (os dois últimos do Bent Knee) e “Twisted Shadows” (com Jordan Rudess (Dream Theater) e o já mencionado Ross) repetem “Cocoon” e são os momentos mais técnicos – e melhores – do álbum.

Outro membro do Bent Knee, o violinista Chris Baum, deixa sua marca no disco, agora no encerramento “Afterglow”, que também equilibra bem os lados leve e pesado do trabalho.

A curta duração de The Cocoon faz com que ele pareça ter sido pouco para tudo que o músico tinha a oferecer. O que ao menos deixa espaço de sobra para um sucessor igualmente bom, quiçá até melhor. É, Richard… Você se deu uma missão tão difícil quanto a de outro grande guitarrista inglês da nova leva do metal progressivo, Lee Luland, do Prospekt (veja aqui minha resenha a respeito de sua estreia solo, realizada há pouco tempo) – superar um produto que já é de altíssimo nível.

Nota = 5/5

Abaixo, o playthrough de “Twisted Shadows”: