Resenha: Ordinary Man – Ozzy Osbourne

Reprodução da capa do álbum (© Epic)

Foram dez anos de espera. O lendário vocalista Ozzy Osbourne encerrou os anos 2000 com o bom, mas nada espetacular Scream, e esperou o fim da década seguinte para nos entregar Ordinary Man, o lançamento de estúdio seguinte.

Neste meio tempo, juntou-se aos companheiros Tony Iommi e Geezer Butler para terminar a carreira da pedra fundamental do heavy metal, o Black Sabbath, de maneira absolutamente digna (termo que aqui significa “com um álbum excelente e uma turnê de despedida que parece realmente ter sido a última, diferente das turnês de despedida caça-níqueis que outras bandas vêm fazendo sem o menor pudor”).

E o que o madman atinge com seu décimo segundo lançamento de estúdio? Bem, do lado de cá, nada de mais. Quer dizer, o que esta lenda viva ainda tem para provar para fãs ou crítica?

Por outro lado, parece que, ao menos para si, ele tinha muito a mostrar. Ao mesmo tempo em que dizia para a esposa Sharon que precisava lançar um disco, dizia a si mesmo não ter forças para isso.

Felizmente, ele encontrou a tal força – no caso, na juventude. Aos 29 anos, Andrew Watt assina a produção do trabalho e é considerado por Ozzy como o responsável por arranjar a disposição que ele precisava para concretizar o projeto.

Além do óbvio (heavy metal dos bons), Ordinary Man traz um toque especial: pop. Puro e simples. Quer dizer, misturado ao metal. Não é exatamente uma novidade na discografia dele, mas vem aqui em doses acima do que seria considerado “aceitável” pelos bangers puro-sangue.

Mas não de maneira desmedida. A jornada musical começa forte com “Straight to Hell”, um heavy metal cru e direto (para os padrões aqui estabelecidos). Momentos como “Eat It” repetirão essa roupagem mais pé no chão, em oposição às quase-baladas “All My Life” e “Holy for Tonight”.

A terceira canção, que faz a ponte entre os dois grupos, acabou levando o nome de “Goodbye” (adeus), mas este nome faria todo sentido na peça que acabou sendo a faixa-título.

Histórica, ela traz o “Príncipe das Trevas” acompanhado de Elton John no piano e nos vocais, Slash e Duff McKagan (ambos do Guns N’ Roses) na guitarra e no baixo, respectivamente, e Chad Smith (Red Hot Chili Peppers) na bateria. Haja talento! O clipe e a letra vêm em tom melancólico de retrospectiva e despedida.

“Under the Graveyard”, primeira faixa divulgada, já chamou a atenção por sua roupagem alternativa, mas o que a torna ainda mais interessante é o clipe, que equilibra tons de arrependimento (por ter passado dos limites nas noitadas quando era jovem) e de agradecimento (por nunca ter sido abandonado pela companheira Sharon, com quem segue casado até hoje).

“It’s a Raid” é uma parceria com Post Malone, que finalmente pode se dizer o “rockstar” que dá nome à sua canção mais famosa. Com toques punk, o caldeirão musical envolve ainda o guitarrista Tom Morello.

Esta não é a primeira colaboração do madman com o rapper; no ano passado, eles já haviam atuado juntos em “Take What You Want”, música de Post que conta ainda com outro rapper, Travis Scott. A faixa figura no próprio Ordinary Man como lançamento bônus das edições em CD, cassete e digital. Os japoneses, como sempre, ganham um mimo: “Darkside Blues”, uma breve peça com ares de demo em que Ozzy canta e toca gaita sobre um riff acústico e uma batida simples.

E não poderia deixar de destacar “Today Is the End” e “Scary Little Green Men”, com suas letras-crônicas na melhor escola Raul Seixas.

O disco, como dito, tem um apelo pop óbvio na adoção de elementos modernos. Mas esses fatores não precisam ser “vilões”, como muitos acham. Ozzy nunca foi tão apegado assim a um som mais cru dos anos 1970. Muito pelo contrário, ele lentamente foi na contramão das bandas ditas “das antigas” que fazem o tal do “rock sem frescuras”.

Se este tiver sido o último álbum dele – os fatalistas acreditam que seja, devido à saúde do cantor e ao tom de despedida de “Ordinary Man” – então podemos concluir com segurança que ele fechou com chave de ouro sua frutífera carreira. Pode morrer como qualquer coisa, menos como o “homem qualquer” que dá título à obra.

Nota = 5/5.

Abaixo, o clipe de “Under the Graveyard”:

Resenha: Everyday Life – Coldplay

Reprodução da capa do álbum (© Parlophone)

Ao avaliar A Head Full of Dreams (2015), sétimo trabalho de estúdio do quarteto inglês Coldplay, eu disse que o caminho que eles haviam seguido musicalmente era sem volta. Mas parece que me enganei. É o que se conclui após ouvir Everyday Life, sucessor do disco supracitado e objeto desta resenha.

Dado à luz após uma campanha que envolveu cartazes em cidades pelo mundo todo e cartas batidas à maquina de escrever, o oitavo lançamento de estúdio deste que é um dos nomes mais populares do mundo é duplo e vem dividido em “Sunrise” e “Sunset” – respectivamente, nascer e pôr do sol.

E por que me enganei? Porque a banda mostrou total disposição para retornar a um som mais encorpado e maduro. Mesmo assim, eu reluto em chamá-lo de “volta às raízes”, como alguns vêm fazendo. Este trabalho tem incursões demais em terrenos novos ou mais ligados ao som recente deles para ser comparado apenas ao início da carreira dos caras.

Por exemplo, “Broken” é um gospel puro e simples e o encerramento do primeiro disco, “When I Need a Friend”, também tem um clima bem religioso, só que desta vez com mais destaque para as vozes que acompanham o vocalista Chris Martin. E temos ainda “WOTW / POTP”, com qualidade propositalmente abaixo do normal para indicar algo rústico e, por que não, improvisado.

“Daddy” poderia ter sido lançada no horroroso Ghost Stories (clique aqui para conferir minha resenha a respeito) por sua grande leveza, com a diferença de que é uma leveza do tipo bom, e não do tipo “fomos convidados a tocar na cerimônia de abertura da Copa do Mundo de Sono” como foi o caso do álbum supramencionado.

“Arabesque” é de uma finesse grande até para o padrão do grupo, mostrando-se efetivamente uma das músicas do ano, pela surpresa, pela riqueza, pelo bom gosto, enfim. Chama a atenção especificamente o ritmo marchante, o baixo pulsante e muito vivo e os providenciais metais, que vêm com um toque de Jerry Martin que nos remete à trilha sonora do jogo SimCity 4.

Já as ligações com o passado recente vêm, por exemplo, na serena e sintética “Church”, que contrasta com a belíssima e puramente acústica abertura “Sunrise”, levada só nas cordas.

Ou então em “Guns”, que lembra “Major Minus” de Mylo Xyloto (clique aqui para conferir minha resenha a respeito). Essa conexão com o passado contrasta com o ineditismo de conter mais palavrões por m² que toda a discografia pregressa deles.

Outras canções dignas de nota incluem a boba alegre “Cry Cry Cry” e o quase instrumental “Bani Adam” que desemboca no destaque já mencionado “Champion of the World”. Separando os discos, temos um interlúdio de sinos de igrejas que, por algum motivo, veio separado em seis faixas curtíssimas.

Repetindo uma tradição recente, Everyday Life tem diversas participações especiais, mas de músicos bem menos conhecidos que as figurinhas pop com quem o Codlplay estava flertando. Trata-se de um seleto grupo de profissionais de diversos locais do mundo (principalmente de países muçulmanos).

Já faz um tempo que ressalto o fato do Coldplay não ser mais rock. Essa máxima continua válida aqui, mas não digo isso mais de forma pejorativa como antes. Agora, eu digo isso pelo simples motivo de que eles atingiram algo superior a categorizações.

Se eu finalizei a resenha de A Head Full of Dreams dizendo que ele nos dava “uma luz no fim do túnel quanto ao futuro da banda”, posso finalizar esta dizendo que a tal luz não desapontou.

Nota = 5/5.

Abaixo, o lyric de “Arabesque”:

Resenha: Extreme Power Metal – DragonForce

Reprodução da capa do álbum (© earMUSIC)

Existem muitos nomes no rock e no heavy metal que fazem música “séria”, mas demonstram um comportamento absolutamente descontraído e descompromissado nas redes sociais, em entrevistas e mesmo nos shows. Nesta década, é isso que o quarteto inglês de power metal DragonForce virou: uma banda bem-humorada com discos relativamente sérios.

Mas em 2019, em seu oitavo lançamento de estúdio, o grupo decidiu despirocar de vez. Chutar o balde. Ligar o foda-se. E a mensagem já fica clara logo no título: Extreme Power Metal, o rótulo por vezes atribuído ao som deles, que basicamente consiste num power metal mais alucinado que o usual.

A característica mais importante do disco é ser uma perfeita união da maturidade que a banda demonstrava em seus três trabalhos anteriores (confira aqui, aqui e aqui minhas resenhas a respeito) com a irreverência de seus lançamentos iniciais, quando seu som chegava a ser caricato de tão artificial e forçado.

Esse casamento está por toda parte, inclusive na estética, profundamente influenciada por games dos anos 1980, como podemos ver na capa e nos clipes de “Highway to Oblivion” e “Heart Demolition”. Alguns membros são gamers assumidos e parte da produção do álbum foi transmitida ao vivo pelo guitarrista Herman Li em seu canal no Twitch, evidenciando o quanto a fusão midiática faz sentido para eles.

Mas há outras peças mais “sérias”. O pitoresco título “Cosmic Power of the Infinite Shred Machine” esconde um dos pontos altos do disco (inclusive por parte de Coen) e que é sucedido por “The Last Dragonborn” e “Heart Demolition”, outros destaques – a primeira por sua roupagem nipônica e a segunda por sua letra sóbria e determinada, que entra em choque com o cômico vídeo.

E espere só até ver o clipe de “Razorblade Meltdown”, em que versões animadas dos membros literalmente se matam por uma mulher em meio a um sem-número de referências a piadas internas da banda, a maioria das quais eu confesso não ter sido capaz de pegar.

A segunda metade da obra vai intercalando momentos não tão impressionantes quando os iniciais até chegar na dupla final, formada pela curiosa “Remembrance Day”, com inéditas gaitas de foles; o improvável cover de “My Heart Will Go On”, de Celine Dion; e a faixa bônus “Behind the Mirror of Death”, salpicada de Thrash por ter sido composta pelo baixista Frédéric Leclercq.

E falando no talentoso músico francês, Extreme Power Metal marca sua última contribuição para o DragonForce. Pouco antes do lançamento do disco, ele anunciou sua saída do então quinteto, e mais tarde explicou que havia sido convidado para integrar a lenda teutônica Kreator, que pode acomodar de maneira mais apropriada as suas fortes tendências Thrash.

E esta não é a única mudança na formação que ronda o álbum: em 2018, sem alarde e sem despedida oficial, o tecladista Vadim Pruzhanov também foi embora. Eu cantei a bola de que ele faria falta. Contudo, para minha grata surpresa, as teclas são muito competentemente comandadas de forma provisória por Coen Janssen, do Epica.

Ressalto, todavia, que os teclados têm importância grande demais neste grupo para ficarem relegados a um músico de apoio (embora ele tenha até ajudado a compor “The Last Dragonborn”). Então, que achem logo um substituto à altura de Vadim e voltem a ser o sexteto que precisam ser.

Extreme Power Metal, com sua fusão de bom humor e música sóbria, é o álbum definitivo do DragonForce, no sentido literal da palavra, ou seja, é o álbum que melhor define o que a banda é. E é também o lançamento que servirá de parâmetro para trabalhos futuros.

Nota = 5/5.

Abaixo, o clipe de “Heart Demolition”: