Resenha: The Ninth Hour – Sonata Arctica

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Se você acha que as eleições estadunidenses dividiram as pessoas, experimente irromper em uma assembleia de fãs de power metal e perguntar se o Sonata Arctica anda prestando ou não. Caso os frequentadores comecem a exibir facas e tacos de beisebol, jogue umas cópias do Silence ou do Winterheart’s Guild para restaurar a paz.

Este prólogo serviu apenas para lembrar que estamos tratando aqui de uma das bandas mais polêmicas do power metal. Não por causa das coisas que diz, mas por causa da música que faz. Já faz tempo que adotaram um direcionamento único que se mostrou uma faca de dois gumes: transformou-os num nome bastante autêntico do gênero, mas alienou parte da comunidade de fãs.

The Ninth Hour, nono trabalho de estúdio dos finlandeses, dá seguimento a essa lógica. O som geral dele reproduz aquela coisa peculiar que o Sonata virou nos últimos dez anos. Ao mesmo tempo em que entrega faixas bem sonolentas, mostra também alguns retornos à era clássica da banda.

“Closer to an Animal”, a abertura e primeiro single, tem uma introdução promissora, mas logo se perde em clichês comerciais nos quais os artistas de power metal apostam para que seus vídeos ultrapassem 100 mil visualizações no YouTube em um prazo razoável.

“Life” é, para The Ninth Hour, o que “Love” é para o lançamento anterior, Pariah’s Child (resenhado neste blog): boba (a própria letra admite), levinha, lenta e emotiva. E por incrível que pareça, isto não é uma crítica. É uma das faixas que eu jogaria no meu carrinho de compras se o disco fosse um mercado. Mas para uma faixa que, segundo a banda, foi tão alterada durante as gravações, eu esperava mais… A ela, faz companhia “We Are What We Are”, que traz a tímida participação do flautista Troy Donockley, do Nightiwsh, e uma mensagem de preservação da Terra e essa coisa toda.

“Fairytale” esboçaria uma leve reação por parte de quem prefere o antigo Sonata Arctica. Não tem nada de fritação, mas a velocidade e o peso elevados chamam a atenção. Mais atenção ainda chama a letra, com uma clara mensagem anti-Trump – posicionamentos do tipo são bem raros no power metal em geral. O site oficial do quinteto coloca até uma citação do ditador Joseph Stalin ao final da letra desta canção! “Till Death’s Done Us Apart” é reminiscente dos dois álbuns anteriores – e talvez por isso, agrada também. É marcada por uma alternância de momentos lentos e frenéticos.

A primeira faixa que realmente se destaca no álbum é “Rise a Night”. Tem velocidade, pedais duplos e duelos de guitarra e teclado pra saudosista nenhum botar defeito. Só poderia ter recebido uma performance mais inspirada de Tony. Ela é seguida por “Fly, Navigate, Communicate”, que mescla com maestria os elementos antigos e modernos da banda. Os próprios membros consideraram-na tão estranha que inicialmente preferiram que ela não fosse incluída no disco ou que fosse lançada como bônus – graças a Dio, não cometeram o que seria um erro imperdoável.

Entre “Candle Lawns” e “White Pearl, Black Oceans – Part II, ‘By the Grace of the Ocean'”, os japoneses – sempre eles – ganham um ótimo presente: “The Elephant”. Um instrumental forte e rápido cria a base para uma letra com mais uma mensagem crítica sobre guerras, mencionando o mito do bombardeio a Berlim em 1945 que supostamente matou o único elefante do zoológico da capital alemã.

Você pode até achar “White Pearl, Black Oceans – Part II, ‘By the Grace of the Ocean'” chata em seus primeiros minutos (se não tiver um mínimo de paciência, pode ser que nem chegue a ela), mas dê uma chance, ouça a segunda metade e delicie-se com um dos melhores momentos da banda em anos, com um duelo de guitarra e teclado inspirado pelas fritações de Jani Liimatainen e Mikko Härkin em Silence. Aparentemente, os protagonistas da história não morreram, como sugere a letra da primeira parte. A moça sobreviveu ao naufrágio e o rapaz não morreu ao se jogar no mar. O que isso tem a ver com o álbum? Nada. Por que o vocalista, tecladista e compositor Tony Kakko resolveu inventar uma continuação com final alegrinho para uma história que já estava teoricamente encerrada de forma cinematograficamente trágica? Não sei. Mas é uma baita música…

Os patinhos feitos do álbum ficam por conta de “Among the Shooting Stars”, “Candle Lawns” e “On the Faultline (Closure to an Animal)” (que reprisa a introdução), além do insosso cover de “Run to You”, de Bryan Adams, que tirou da canção o que ela tinha de melhor: aquele “quê” de anos 80. Todas tão emocionantes quanto uma corrida de barcos encalhados.

Alguns poderiam apontar o dedo para este que vos escreve com o manjado (e patético) argumento “vai lá e faz melhor”. Ora, é uma recomendação tola, pois a própria banda já o fez! É verdade que The Ninth Hour tem momentos memoráveis, mas eu não o indicaria para alguém que ainda não os conhece. Inclusive na discografia mais recente do grupo, já nesta fase de exploração de um caminho inédito no gênero, podemos encontrar itens mais respeitosos.

Além disso, considere o seguinte: um grupo de headbangers finlandeses reclusos em uma cabana no meio da exuberante natureza escandinava para criar um álbum que fale da natureza. Endless Forms Most Beautiful parte II? Coincidências à parte, se o trabalho se propunha a colocar na mesa questões relevantes sobre o impacto do homem na natureza hoje, acertou na trave. É uma compilação de faixas que tratam do tema de forma mais ou menos contundente, mas a capa e o marketing da obra sugeriam algo bem mais coeso e aprofundado.

Nota = 3/5. Nenhum fã do Sonata Arctica deverá desprezar The Ninth Hour, sob pena de perder algumas pérolas. Mas até o mais fissurado deles precisa perceber quando o ídolo não está com a bola toda. Aqui, o quinteto definitivamente não está.

Abaixo, o lyric video de “Closer to an Animal”:

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Resenha: Stormcrow – Cain’s Offering

Breve histórico: Supergrupo fundado por Jani Liimatainen (ex-guitarrista do Sonata Arctica) e Timo Kotipelto (vocalista do Stratovarius) – só isso já diz muito sobre este quinteto, que traz ainda ninguém menos que Jens Johansson (tecladista do Stratovarius) e os nem tão conhecidos Jonas Kuhlberg (baixo) e Jani Hurula (bateria).

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

Queria estar escrevendo para um veículo anglófono só para poder usar a expressão “this album is a blast!”. Em português não soa bem, fica até meio ridículo: “Este álbum é uma explosão!”. É que “explosão” é a primeira palavra que vem à cabeça ao se escutar as primeiras faixas de Stormcrow, segundo disco do supergrupo, lançado após um período de inatividade.

Foram seis anos de inatividade desde o longínquo Gather the Faithful. Nem mesmo uma turnê aconteceu. O máximo que houve entre os membros foi o Blackoustic, que reúne Jani Liimatainen e Timo Kotipelto numa sessão de faixas acústicas. O silêncio foi lentamente sendo quebrado até os detalhes do álbum serem levados a público em abril deste ano.

Enfim, à música: sem firulas, o álbum já deixa claro a que veio na faixa-título, que serve de abertura. Os músicos executam aqui o mais fino power metal sinfônico. A segunda, “The Best of Times” lembra muito Nemesis (resenhado neste blog), do Stratovarius, especialmente por causa dos toques eletrônicos trazidos por Jens Johansson.

“I Will Build You a Rome”, “Constellation of Tears” e “Rising Sun” são as que farão o fã banguear de imediato. Riffs de atitude, acelerados e agressivos. Se você ainda não conhece a banda, provavelmente serão estas as faixas que farão você gostar dela.

Outras peças que merecem comentários à parte são “Too Tired to Run”, que parece ser “só aquela balada aleatória que toda banda de power metal enfia em seus álbuns”, mas logo deságua em um belíssimo encerramento sinfônico; “Antemortem”, cujos riffs lembram muito os trabalhos recentes do Nightwish; e “I Am Legion”, a única faixa instrumental, mas que não traz nada de muito especial além da ausência de vocais.

Acertadamente, membros da banda já haviam adiantado que este álbum era mais “focado” e mais bem produzido. Os instrumentos estão bem dosados, especialmente as guitarras e os teclados, que dão a tônica do disco inteiro do primeiro ao último acorde e são os grandes responsáveis por isto ser um sério candidato a constar em listas de melhores do ano.

Nota = 9,0. O maior êxito de Stormcrow é colocar o nível lá em cima logo na primeira faixa e não deixar cair – é um problema comum a muitos álbuns de power metal a banda perder o gás da metade para o fim. É um lançamento fácil de digerir e chamará a atenção até daqueles que acham que o estilo está saturado. Está mesmo, e é justamente por isso que é preciso louvar trabalhos que se destacam no mar de obras de power metal – é o caso deste.

Abaixo, o vídeo de “Stormcrow”:

Resenha: Pariah’s Child – Sonata Arctica

Breve histórico: O Sonata Arctica é um dos principais grupos de power metal da Finlâdia e do mundo, e a banda chamou a atenção do universo headbanger por ter gradualmente se distanciado do power tradicional e incorporado elementos mais sofisticados e inusitados à sua música, o que causou estranhamento em muitos. Após lançar um álbum onde esta diversidade musical atingiu seu auge (Stones Grow Her Name, resenhado neste blog), o Sonata decidiu que era hora de voltar às raízes – mas nem tanto.

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Seguindo os passos da banda alemã Edguy, o Sonata Arctica resolveu lançar um álbum “de volta às raízes”. Voltar às raízes, no caso, era um desafio e tanto, considerando o quão distante o Sonata foi para inovar seu som. Para esta aventura, não contaram com seu antigo baixista Marko Paasikoski, que decidiu sair da banda em 2013 e logo foi substituído pelo competente Pasi Kauppinen, que já havia trabalhado na parte técnica de três álbuns e dois DVDs do quinteto.

Pariah’s Child abre com a morna “The Wolves Die Young”, primeiro single e vídeo. O segundo single e quarta faixa, “Cloud Factory”, segue mais ou menos a mesma linha. Nem muito pesada, nem muito moderna, mas ao menos traz um breve duelo entre o guitarrista Elias Viljanen e o tecladista Henrik Klingenberg – aproveite, pois é um dos poucos momentos de “fritação” que você ouvirá aqui.

A segunda faixa, “Running Lights”, dá sinais de que a volta às raízes era papo sério. O belo trabalho de Tommy Portimo na bateria, não por um acaso, foi uma homenagem ao alemão Jörg Michael, ex-Stratovarius, segundo declaração de Tommy em uma série de dois vídeos de comentários faixa-a-faixa. A quinta faixa, “Blood”, uma das mais agressivas e com leves toques progressivos, reforça a intenção da banda de voltar ao que era antes. Mas a coisa parece ter morrido mais ou menos por aí mesmo.

“Take One Breath”, por exemplo, é uma das mais experimentais do disco e talvez até de toda a carreira do grupo. A melancólica “What Did You Do in the War, Dad?” até tem alguns traços do antigo Sonata, mas isto fica ofuscado pela atmosfera e a história de sua letra, escrita pelo vocalista, tecladista e principal compositor Tony Kakko.

Embora a banda tenha antecipado “Half a Marathon Man” como uma faixa “simples e fácil”, esta terminou sendo uma das melhores do disco. Abrindo e fechando de forma relativamente serena, o “recheio” foi muito bem preenchido por Elias e Henrik, que trouxeram aqui uma combinação de riffs de guitarra e de órgão reminiscentes do rock setentista/oitentista, mas com os temperos sonatanos que qualquer um esperaria.

“X Marks the Spot” é uma espécie de “Cinderblox II”, embora não tenha os toques de música country que deram tão certo na canção do disco anterior. Mesmo assim, tem um clima bem humorado e alegre que caiu muito bem aqui. “Love” é a balada do álbum e futuro segundo vídeo, e uma resposta de Tony aos que dizem que ele escreve apenas histórias trágicas de amor. Aqui, ele fala de um casal que se conhece na juventude e permanece junto até a morte. Clichê ao extremo, mas é necessário admitir que a música é realmente bela e merece um bom vídeo.

Fechando o disco, “Larger Than Life”, a faixa épica de quase dez minutos, marcando a primeira vez que a banda investe em algo tão longo desde “White Pearl, Black Oceans…”, do Reckoning Night. Grandiosa, a faixa traz orquestrações e alternância de climas e ritmos, lembrando o trabalho mais recente do Nightwish, Imaginaerum (resenhado neste blog). Só faltou um “pequeno” detalhe: solos. Quem ouve uma música deste tamanho num álbum de power metal espera ao menos um solo que faça jus à ela, como aconteceu em “The Power of One”, do Silence. Não houve esta preocupação aqui, tampouco na maior parte do álbum. Não que isso tenha arruinado a faixa, ela é boa, mas fica a sensação de que faltou algo.

O que concluir da audição das dez faixas de Pariah’s Child? Ele é uma volta às raízes, ma non tanto. Faltam aspectos que marcaram a primeira metade da carreira do grupo. Cadê os solos frenéticos de guitarra e teclado, por exemplo? Eles estavam presentes nas melhores músicas dos primeiros três discos da banda.

Seria muito difícil cobrar que a banda voltasse realmente às raízes quando ela está sem os maiores responsáveis pelo seu antigo som: o tecladista Mikko Härkin e o guitarrista Jani Liimatainen. Sem desmerecer os atuais responsáveis por estes instrumentos – cada um é bom naquilo que faz. Mas voltas às raízes fazem mais sentido em bandas como Edguy, cuja formação pouco mudou ao longo da história.

Nota = 7,0. A grande ironia deste trabalho é que os melhores momentos são justamente os que remetem à fase mais recente da banda – da qual o Sonata não se desprendeu tanto quanto alguns esperavam. Não é que o álbum não seja bom. Mas a banda disse que seria uma volta às raízes, então, ele foi analisado como tal. Se voltar às raízes era apenas fazer músicas um pouco mais rápidas, então o Sonata Arctica esqueceu o que realmente fez dele um dos melhores nomes do gênero.

Abaixo, o vídeo de “The Wolves Die Young”: