Resenha: Talviyö – Sonata Arctica

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

O décimo álbum de estúdio é uma marca importante – e respeitável – para qualquer banda. Algo a ser celebrado. No caso da lenda finlandesa do power metal Sonata Arctica, esta marca será lembrada com desgosto.

Porque tirando a regravação do Ecliptica, realizada em 2014 para celebrar seu 15º aniversário e que acabou sendo um ataque gratuito e desnecessário ao disco de estreia deles que nunca fez mal a ninguém, Talviyö é, simplesmente, o ponto mais baixo da carreira do quinteto.

O álbum, cujo nome significa “noite de inverno” em finlandês, carece de tudo o que se esperaria de um lançamento deles. Não temos refrãos memoráveis, não temos solos dignos, não temos quase nenhum riff inspirado e todos os envolvidos parecem estar cumprindo suas funções por obrigação contratual, apenas. Ao final das primeiras escutadas, eu era incapaz de me lembrar de um único verso.

O seu antecessor, The Ninth Hour (veja aqui minha resenha a respeito), mesclava bem o que o Sonata Arctica moderno tem de bom e de ruim, frase que aqui significa “tem momentos bem sonolentos intercalados com retornos à era clássica e algumas inovações muito bem-vindas”.

Mas Talviyö, não. A abertura “Message from the Sun” é promissora (e o próprio vocalista, tecladista e compositor principal Tony Kakko admitiu que ela era “enganosa” com relação ao estilo do álbum), e com algum esforço a gente fica meigo com o encerramento de “Whirlwind”, mas de “Cold” em diante, é de cortar o coração.

Os únicos bons (razoáveis?) momentos são a já mencionada abertura; “Storm the Armada” e “Demon’s Gate”, com riffs realmente poderosos e trabalhos memoráveis nos teclados; a faixa bônus japonesa “You Won’t Fall”; o instrumental “Ismo’s Got Good Reactors” (único lampejo de criatividade e energia juntos num total de uma hora de música); e a razoavelmente longa e diversa “The Raven Still Flies”. Aliás, uma peça instrumental ser o ponto alto do disco de uma banda cujo vocalista é também o único compositor é, no mínimo, peculiar.

O resto (ou seja, metade da obra) passa por nossos ouvidos sem deixar marcas. E gostaria de falar especialmente de “The Last of the Lambs”, continuação da tal da saga Caleb. Céus, como que os membros, o empresário, o produtor e a gravadora concordaram em incluir essa faixa? Ela é de uma chatice insuportável do começo ao fim.

Diz o grupo que o objetivo aqui era soar “ao vivo”. Para isso, contrataram um produtor com experiência em registros de shows (Mikko Tegelman) e fizeram o baterista Tommy Portimo e o baixista Pasi Kauppinen gravarem suas partes tocando juntos. Com efeito, o quinteto soa bem coeso – se as músicas fossem inspiradas, poderia ter sido um grande disco.

Nunca me cansarei de apontar o quanto o Sonata Arctica merece aplausos por arriscar direções diferentes que os tornam talvez a banda mais autêntica dentro do repetitivo gênero do power metal. Mas desta vez, o tiro saiu pela culatra. A luz no fim do túnel, no caso, é que Tony Kakko é um exímio compositor, e mesmo um trabalho ruim como este não nos dá o direito de ficar com um pé atrás com relação ao próximo.

Nota = 2/5.

Abaixo, o vídeo de “Who Failed the Most”:

Resenha: The Ninth Hour – Sonata Arctica

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Se você acha que as eleições estadunidenses dividiram as pessoas, experimente irromper em uma assembleia de fãs de power metal e perguntar se o Sonata Arctica anda prestando ou não. Caso os frequentadores comecem a exibir facas e tacos de beisebol, jogue umas cópias do Silence ou do Winterheart’s Guild para restaurar a paz.

Este prólogo serviu apenas para lembrar que estamos tratando aqui de uma das bandas mais polêmicas do power metal. Não por causa das coisas que diz, mas por causa da música que faz. Já faz tempo que adotaram um direcionamento único que se mostrou uma faca de dois gumes: transformou-os num nome bastante autêntico do gênero, mas alienou parte da comunidade de fãs.

The Ninth Hour, nono trabalho de estúdio dos finlandeses, dá seguimento a essa lógica. O som geral dele reproduz aquela coisa peculiar que o Sonata virou nos últimos dez anos. Ao mesmo tempo em que entrega faixas bem sonolentas, mostra também alguns retornos à era clássica da banda.

“Closer to an Animal”, a abertura e primeiro single, tem uma introdução promissora, mas logo se perde em clichês comerciais nos quais os artistas de power metal apostam para que seus vídeos ultrapassem 100 mil visualizações no YouTube em um prazo razoável.

“Life” é, para The Ninth Hour, o que “Love” é para o lançamento anterior, Pariah’s Child (resenhado neste blog): boba (a própria letra admite), levinha, lenta e emotiva. E por incrível que pareça, isto não é uma crítica. É uma das faixas que eu jogaria no meu carrinho de compras se o disco fosse um mercado. Mas para uma faixa que, segundo a banda, foi tão alterada durante as gravações, eu esperava mais… A ela, faz companhia “We Are What We Are”, que traz a tímida participação do flautista Troy Donockley, do Nightiwsh, e uma mensagem de preservação da Terra e essa coisa toda.

“Fairytale” esboçaria uma leve reação por parte de quem prefere o antigo Sonata Arctica. Não tem nada de fritação, mas a velocidade e o peso elevados chamam a atenção. Mais atenção ainda chama a letra, com uma clara mensagem anti-Trump – posicionamentos do tipo são bem raros no power metal em geral. O site oficial do quinteto coloca até uma citação do ditador Joseph Stalin ao final da letra desta canção! “Till Death’s Done Us Apart” é reminiscente dos dois álbuns anteriores – e talvez por isso, agrada também. É marcada por uma alternância de momentos lentos e frenéticos.

A primeira faixa que realmente se destaca no álbum é “Rise a Night”. Tem velocidade, pedais duplos e duelos de guitarra e teclado pra saudosista nenhum botar defeito. Só poderia ter recebido uma performance mais inspirada de Tony. Ela é seguida por “Fly, Navigate, Communicate”, que mescla com maestria os elementos antigos e modernos da banda. Os próprios membros consideraram-na tão estranha que inicialmente preferiram que ela não fosse incluída no disco ou que fosse lançada como bônus – graças a Dio, não cometeram o que seria um erro imperdoável.

Entre “Candle Lawns” e “White Pearl, Black Oceans – Part II, ‘By the Grace of the Ocean'”, os japoneses – sempre eles – ganham um ótimo presente: “The Elephant”. Um instrumental forte e rápido cria a base para uma letra com mais uma mensagem crítica sobre guerras, mencionando o mito do bombardeio a Berlim em 1945 que supostamente matou o único elefante do zoológico da capital alemã.

Você pode até achar “White Pearl, Black Oceans – Part II, ‘By the Grace of the Ocean'” chata em seus primeiros minutos (se não tiver um mínimo de paciência, pode ser que nem chegue a ela), mas dê uma chance, ouça a segunda metade e delicie-se com um dos melhores momentos da banda em anos, com um duelo de guitarra e teclado inspirado pelas fritações de Jani Liimatainen e Mikko Härkin em Silence. Aparentemente, os protagonistas da história não morreram, como sugere a letra da primeira parte. A moça sobreviveu ao naufrágio e o rapaz não morreu ao se jogar no mar. O que isso tem a ver com o álbum? Nada. Por que o vocalista, tecladista e compositor Tony Kakko resolveu inventar uma continuação com final alegrinho para uma história que já estava teoricamente encerrada de forma cinematograficamente trágica? Não sei. Mas é uma baita música…

Os patinhos feitos do álbum ficam por conta de “Among the Shooting Stars”, “Candle Lawns” e “On the Faultline (Closure to an Animal)” (que reprisa a introdução), além do insosso cover de “Run to You”, de Bryan Adams, que tirou da canção o que ela tinha de melhor: aquele “quê” de anos 80. Todas tão emocionantes quanto uma corrida de barcos encalhados.

Alguns poderiam apontar o dedo para este que vos escreve com o manjado (e patético) argumento “vai lá e faz melhor”. Ora, é uma recomendação tola, pois a própria banda já o fez! É verdade que The Ninth Hour tem momentos memoráveis, mas eu não o indicaria para alguém que ainda não os conhece. Inclusive na discografia mais recente do grupo, já nesta fase de exploração de um caminho inédito no gênero, podemos encontrar itens mais respeitosos.

Além disso, considere o seguinte: um grupo de headbangers finlandeses reclusos em uma cabana no meio da exuberante natureza escandinava para criar um álbum que fale da natureza. Endless Forms Most Beautiful parte II? Coincidências à parte, se o trabalho se propunha a colocar na mesa questões relevantes sobre o impacto do homem na natureza hoje, acertou na trave. É uma compilação de faixas que tratam do tema de forma mais ou menos contundente, mas a capa e o marketing da obra sugeriam algo bem mais coeso e aprofundado.

Nota = 3/5. Nenhum fã do Sonata Arctica deverá desprezar The Ninth Hour, sob pena de perder algumas pérolas. Mas até o mais fissurado deles precisa perceber quando o ídolo não está com a bola toda. Aqui, o quinteto definitivamente não está.

Abaixo, o lyric video de “Closer to an Animal”:

Resenha: Stormcrow – Cain’s Offering

Breve histórico: Supergrupo fundado por Jani Liimatainen (ex-guitarrista do Sonata Arctica) e Timo Kotipelto (vocalista do Stratovarius) – só isso já diz muito sobre este quinteto, que traz ainda ninguém menos que Jens Johansson (tecladista do Stratovarius) e os nem tão conhecidos Jonas Kuhlberg (baixo) e Jani Hurula (bateria).

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

Queria estar escrevendo para um veículo anglófono só para poder usar a expressão “this album is a blast!”. Em português não soa bem, fica até meio ridículo: “Este álbum é uma explosão!”. É que “explosão” é a primeira palavra que vem à cabeça ao se escutar as primeiras faixas de Stormcrow, segundo disco do supergrupo, lançado após um período de inatividade.

Foram seis anos de inatividade desde o longínquo Gather the Faithful. Nem mesmo uma turnê aconteceu. O máximo que houve entre os membros foi o Blackoustic, que reúne Jani Liimatainen e Timo Kotipelto numa sessão de faixas acústicas. O silêncio foi lentamente sendo quebrado até os detalhes do álbum serem levados a público em abril deste ano.

Enfim, à música: sem firulas, o álbum já deixa claro a que veio na faixa-título, que serve de abertura. Os músicos executam aqui o mais fino power metal sinfônico. A segunda, “The Best of Times” lembra muito Nemesis (resenhado neste blog), do Stratovarius, especialmente por causa dos toques eletrônicos trazidos por Jens Johansson.

“I Will Build You a Rome”, “Constellation of Tears” e “Rising Sun” são as que farão o fã banguear de imediato. Riffs de atitude, acelerados e agressivos. Se você ainda não conhece a banda, provavelmente serão estas as faixas que farão você gostar dela.

Outras peças que merecem comentários à parte são “Too Tired to Run”, que parece ser “só aquela balada aleatória que toda banda de power metal enfia em seus álbuns”, mas logo deságua em um belíssimo encerramento sinfônico; “Antemortem”, cujos riffs lembram muito os trabalhos recentes do Nightwish; e “I Am Legion”, a única faixa instrumental, mas que não traz nada de muito especial além da ausência de vocais.

Acertadamente, membros da banda já haviam adiantado que este álbum era mais “focado” e mais bem produzido. Os instrumentos estão bem dosados, especialmente as guitarras e os teclados, que dão a tônica do disco inteiro do primeiro ao último acorde e são os grandes responsáveis por isto ser um sério candidato a constar em listas de melhores do ano.

Nota = 9,0. O maior êxito de Stormcrow é colocar o nível lá em cima logo na primeira faixa e não deixar cair – é um problema comum a muitos álbuns de power metal a banda perder o gás da metade para o fim. É um lançamento fácil de digerir e chamará a atenção até daqueles que acham que o estilo está saturado. Está mesmo, e é justamente por isso que é preciso louvar trabalhos que se destacam no mar de obras de power metal – é o caso deste.

Abaixo, o vídeo de “Stormcrow”: