Resenha: Cell-0 – Apocalyptica

Reprodução da capa do álbum (© Silver Lining Music)

Após mais uma pausa relativamente longa entre álbuns (este é apenas o terceiro em praticamente uma década), o quarteto finlandês de cello metal Apocalyptica marca 2020 com um disco pra lá de especial: Cell-0, o primeiro totalmente instrumental desde Reflections (2003).

A banda vinha se enveredando por um caminho interessante ao trazer vozes humanas para suas canções. Por mais que os fins comerciais fossem nítidos, eles foram bastante felizes na aventura.

Mas a extensa turnê em comemoração ao Plays Metallica By Four Cellos deixou os fãs e o próprio grupo nostálgicos dos tempos instrumentais. E assim eles decidiram esquecer a cantoria e foram para o estúdio apenas com arcos e baquetas nas mãos. Ainda sem gravadora naquela época, a liberdade criativa foi total. O que rendeu ótimos frutos.

A abertura “Ashes of the Modern World” é um excelente cartão de visitas, mostrando todos os aspectos do Apocalyptica: o peso, a dinâmica, a emoção, a delicadeza, enfim. E essa demonstração continua na épica faixa-título, com quase 10 minutos.

“Rise” lembra “Farewell”, a estupenda peça que marcou o lançamento autointitulado deles de 2005, mas claro que sem alcançar o mesmo nível de grandiosidade – o que não a torna menos incrível, ainda mais se levarmos em conta os sutis acordes ao piano que aparecem na reta final.

A relativamente pesada e certeira “En Route to Mayhem” é um dos destaques, seguida pela não tão empolgante “Call My Name”, que fica abaixo da média puxada por suas companheiras.

“Fire & Ice” tem sua introdução serena adornada com a sempre bem-vinda participação de Troy Donockley (Nightwish) e seus inconfundíveis sopros. Essa jogada é sucedida por uma sequência pesada e intrincada, aproximando o grupo do metal progressivo – algo que o próprio violoncelista Perttu Kivilaakso reconheceu em entrevista ao Music Waves.

A reta final vem com a morna “Scream for the Silent”, que nos instiga com alguns toques sintéticos ao teclado; a esperançosa “Catharsis”, com mais um pouco de piano, e a excelente “Beyond the Stars”, que encerra o disco e a si mesma com forte carga emocional.

Esta faixa, aliás, assim como o terceiro single (“En Route to Mayhem”) lida, ainda que instrumentalmente, com questões ambientais. E o álbum todo gira em torno deste conceito.

Cell-0 é um belo jogo de palavras. A princípio, parece “cello”, o termo anglófono para violoncelo. Mas o título deve ser lido como “cell zero” – célula zero. A célula fundamental. Aquela sem a qual as outras não podem existir. O que isso tem a ver com o meio ambiente? É que, na visão dos membros, existe um elemento básico e não definido que nos falta e, por isso, os humanos acabam destruindo a natureza e as coisas bonitas que ele mesmo construiu.

Cell-0 é um sucessor de Reflections que nunca teria soado assim se tivesse sido lançado logo após o dito-cujo. Os finlandeses não teriam demonstrado tamanha maturidade sonora sem os anos de shows e trabalhos diferentes que lançaram entre um e outro. Ele é a coroação da evolução musical do quarteto e abre 2020 já com uma das obras mais classudas e admiráveis que o ano nos oferecerá.

Nota = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “Ashes of the Modern World”:

Resenha: Songs the Night Sings – The Dark Element

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

Quando o The Dark Element (supergrupo formado pelo guitarrista Jani Liimatainen (ex-Sonata Arctica, Cain’s Offering, Blackoustic) e a cantora Anette Olzon (ex-Nightwish) anunciou seu segundo disco, metade de mim pensou: “minha nossa, o primeiro lançamento não foi ruim o suficiente para eles perceberem que a parceria não funciona?”. A outra metade foi mais para o lado do “que bom, eles terão mais uma oportunidade de mostrar se são dignos de nossos ouvidos”.

Felizmente, meu lado mais fanboy e otimista levou a melhor desta vez. Porque a dupla aproveitou a chance. Songs the Night Sings não pode nem sonhar em entrar no meu top 10 de final de ano, mas sem dúvidas é uma grande evolução com relação à estreia autointitulada deles (clique aqui para conferir minha resenha a respeito).

O álbum ainda soa irritantemente comercial, mas desta vez o grupo faz disso uma característica de seu som, e não uma tentativa de agradar o titio mercado. As primeiras faixas já nos trazem riffs e solos de mais atitude (importantes para um supergrupo formado por um guitarrista de renome) e orquestrações mais respeitosas.

Mesmo as músicas que desaceleram, como “When It All Comes Down” e “To Whatever End”, fazem-no sem perder o peso e a atitude, mantendo uma firmeza razoável do começo ao fim. Não temos lá uma incursão profunda por novos territórios musicais conforme prometido no material de divulgação do trabalho, mas com certeza houve uma busca por algo mais distante da zona de conforto.

Jani, que ficou devendo (e muito) no disco anterior, ressurge ainda bem aquém de suas capacidades – aparentemente ele reserva sua própria nata para o Cain’s Offering – mas com uma performance mais respeitável, de qualquer forma.

Anette, por sua vez, manteve o bom nível ouvido na estreia. Desta vez, ela não teve de levar tudo nas costas e o projeto está funcionando mais efetivamente como uma parceria de duas pessoas, isto é, ambas as partes estão se entregando bastante – mas ainda sem darem o melhor de si.

Vale lembrar que o The Dark Element segue apoiado por uma dupla. O baixista Jonas Kuhlberg repete seu papel, enquanto que Rolf Pilve (Stratovarius) faz em Songs the Night Sings sua estreia nas baquetas.

Nota = 4/5.

Abaixo, o clipe de “Not Your Monster”:

Resenha: Talviyö – Sonata Arctica

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

O décimo álbum de estúdio é uma marca importante – e respeitável – para qualquer banda. Algo a ser celebrado. No caso da lenda finlandesa do power metal Sonata Arctica, esta marca será lembrada com desgosto.

Porque tirando a regravação do Ecliptica, realizada em 2014 para celebrar seu 15º aniversário e que acabou sendo um ataque gratuito e desnecessário ao disco de estreia deles que nunca fez mal a ninguém, Talviyö é, simplesmente, o ponto mais baixo da carreira do quinteto.

O álbum, cujo nome significa “noite de inverno” em finlandês, carece de tudo o que se esperaria de um lançamento deles. Não temos refrãos memoráveis, não temos solos dignos, não temos quase nenhum riff inspirado e todos os envolvidos parecem estar cumprindo suas funções por obrigação contratual, apenas. Ao final das primeiras escutadas, eu era incapaz de me lembrar de um único verso.

O seu antecessor, The Ninth Hour (veja aqui minha resenha a respeito), mesclava bem o que o Sonata Arctica moderno tem de bom e de ruim, frase que aqui significa “tem momentos bem sonolentos intercalados com retornos à era clássica e algumas inovações muito bem-vindas”.

Mas Talviyö, não. A abertura “Message from the Sun” é promissora (e o próprio vocalista, tecladista e compositor principal Tony Kakko admitiu que ela era “enganosa” com relação ao estilo do álbum), e com algum esforço a gente fica meigo com o encerramento de “Whirlwind”, mas de “Cold” em diante, é de cortar o coração.

Os únicos bons (razoáveis?) momentos são a já mencionada abertura; “Storm the Armada” e “Demon’s Gate”, com riffs realmente poderosos e trabalhos memoráveis nos teclados; a faixa bônus japonesa “You Won’t Fall”; o instrumental “Ismo’s Got Good Reactors” (único lampejo de criatividade e energia juntos num total de uma hora de música); e a razoavelmente longa e diversa “The Raven Still Flies”. Aliás, uma peça instrumental ser o ponto alto do disco de uma banda cujo vocalista é também o único compositor é, no mínimo, peculiar.

O resto (ou seja, metade da obra) passa por nossos ouvidos sem deixar marcas. E gostaria de falar especialmente de “The Last of the Lambs”, continuação da tal da saga Caleb. Céus, como que os membros, o empresário, o produtor e a gravadora concordaram em incluir essa faixa? Ela é de uma chatice insuportável do começo ao fim.

Diz o grupo que o objetivo aqui era soar “ao vivo”. Para isso, contrataram um produtor com experiência em registros de shows (Mikko Tegelman) e fizeram o baterista Tommy Portimo e o baixista Pasi Kauppinen gravarem suas partes tocando juntos. Com efeito, o quinteto soa bem coeso – se as músicas fossem inspiradas, poderia ter sido um grande disco.

Nunca me cansarei de apontar o quanto o Sonata Arctica merece aplausos por arriscar direções diferentes que os tornam talvez a banda mais autêntica dentro do repetitivo gênero do power metal. Mas desta vez, o tiro saiu pela culatra. A luz no fim do túnel, no caso, é que Tony Kakko é um exímio compositor, e mesmo um trabalho ruim como este não nos dá o direito de ficar com um pé atrás com relação ao próximo.

Nota = 2/5.

Abaixo, o vídeo de “Who Failed the Most”: