Resenha: The Further Side – Nova Collective

Reprodução da capa do álbum (© Metal Blade Records)

A partir de meados de 2014, membros do Between the Buried and Me, Haken e Trioscapes (três dos maiores grupos de metal progressivo/jazz fusion da atualidade) começaram a escrever música juntos. São eles: Richard Henshall (guitarrista e tecladista do Haken e do To-Mera), Dan Briggs (baixista do Between the Buried and Me e do Trioscapes), Pete Jones (ex-tecladista do Haken) e Matt Lynch (baterista do Trioscapes e do Cynic). O resultado da cozinha começou a ser revelado aos poucos no ano passado, culminando no lançamento de The Further Side, álbum de estreia do quarteto instrumental.

A primeira coisa a ter em mente aqui é que não se trata de um trabalho de metal progressivo “puro”. A ideia era se embrenhar pelas matas do jazz, da world music e da música clássica, o que significou deixar o peso de lado. Ouve-se muito pouco de riffs grandiosos, acordes super distorcidos e sequências matadoras. Há um foco em composições mais limpas e refinadas, com os instrumentos bem separados na mixagem e sem grandes sobreposições de camadas de teclados e múltiplas guitarras. O que os quatro rapazes fazem aqui pode ser facilmente reproduzido ao vivo sem membros de apoio ou os abomináveis playbacks.

The Further Side traz apenas seis faixas. Uma batida de olho e você pode supor que ao menos uma delas é um trabalho super épico, mas na verdade nenhuma delas bate os dez minutos. Temos um total de menos de 50 minutos de música, algo não muito comum para trabalhos do gênero.

Mas o espaço foi suficiente para os anglo-estadunidenses mostrarem a que vieram. Misturados ao rock e ao pouco heavy metal, temos bastante jazz e música clássica, na forma, respectivamente, de passagens intrincadas e complexas e frases acústicas polidas. Já a world music prometida ficou só no marketing. De vez em quando aparece um ou outro acorde mais exótico, mas nada que justificasse o rótulo. Quem sabe no próximo lançamento eles cumprem essa promessa.

Da simpática abertura “Dancing Machines” ao forte encerramento que levou o nome do disco, passando ainda pela divertida “Ripped Apart and Reassembled”, que ganhou um vídeo (veja abaixo), e as outras três canções, constatamos facilmente a habilidade e química musical dos membros. Contudo, o Nova Collective soa bastante como um projeto paralelo, sem causar lá um grande impacto nem sinalizar uma possibilidade de banda “séria” como conseguiu o supergrupo britânico Headspace, por exemplo. Podemos chamar isso de ausência do “fator uau”?

Nota = 4/5. A forte coesão entre as seis faixas e a curta duração do álbum deixam um gostinho de “queria mais” e não permitem concluir até onde vai o alcance musical da banda. Mas os 47 minutos de música foram suficientes para sabermos que estamos diante de um candidato a figurar em listas de 50 melhores lançamentos progressivos do ano. Uma lista de top 10, contudo, já seria sonhar demais.

Abaixo, o vídeo de “Ripped Apart and Reassembled”:

Resenha: Enigma – Tak Matsumoto

Breve histórico: guitarrista talentosíssimo e que tardou em ser reconhecido – seu primeiro e único Grammy só veio em 2011, já com cerca de 25 de carreira – Tak Matsumoto é a metade instrumental da dupla japonesa de hard/pop rock B’z. Se nessa banda ele ficou famoso por entregar riffs agressivos e cativantes intercalados com solos de som inconfundível, em sua carreira solo ele abre espaço para um lado mais sofisticado e sereno, indo do jazz ao rock com orquestra.

Reprodução da capa do álbum (© Vermillion Records)

Reprodução da capa do álbum (© Vermillion Records)

Apenas dois anos depois de entregar um belo álbum com influências de jazz, soul e R&B, o guitarrista e compositor japonês ataca novamente com um trabalho mais enérgico e mais aberto ao hard rock, mas mantendo elementos dos lançamentos anteriores e contando com participações de alguns nomes marcantes do rock mundial.

Você vai encontrar diversas facetas de Tak aqui, algumas escancaradas, outras mais escondidas. Se o seu apreço é por baladas leves e um trato gentil às seis cordas, vá de “Drifting”, “The Voyage”, “Mystic Journey” e “Step to Heaven”, esta última com uma atmosfera parecida com a do mexicano-estadunidense Carlos Santana (aliás, já pensou uma colaboração dos dois?). O antecessor de Enigma, New Horizon (resenhado neste blog), ecoa em “Roppongi Noise”, com uma forte pegada jazz.

Mas se o seu coração bate mais por um hard, aí a pedida é “Vermillion Palace”, bem típica do gênero; “Ups and Downs” e “Rock the Rock”, com roupagens mais características do japonês; e “Dream Dive” e “The Rock Show”, que ficam menos distantes do trabalho do guitarrista no B’z.

Nem toda faixa integra um desses grupos, contudo. A abertura “Enigma” e sua reprise “Enigma (Epilogue)”, como os nomes sugerem, trazem uma atmosfera meio misteriosa e até um tanto destoante em relação ao resto do álbum, inclusive pela presença de vocais. O diálogo com a capa e com o próprio título do lançamento legitimam as escolhas como faixas de abertura e encerramento, apesar da distância da proposta central.

“Hopes” e “Under the Sun”, fazendo um meio-termo entre o grupo hard e o grupo soft, também trazem vocais – essas duas mais os dois capítulos da faixa-título revelam a agradável voz de Mark Renk, profissional da música cujo nome se fez mais nos bastidores como produtor, arranjador e engenheiro de som.

Como faixa bônus, temos “#1090 ~Million Dreams~”, que, ainda bem, foi deixada fora da lista principal: é praticamente uma paródia não-humorística do B’z, mas, em vez da voz do enérgico Koshi Inaba, temos o rapper Joey McCoy e Greta Karen num coral de fundo.

E qual o saldo de tudo isso? Um excelente disco de rock, onde este guitarrista só timidamente reconhecido mistura desde o hard que o levou à fama até os sopros, as cordas e os elementos de jazz que marcaram seus lançamentos anteriores.

Vale destacar por fim os grandes nomes que contribuíram para a ala rítmica e que contribuem para sua elevada qualidade: os bateristas de longa carreira Jason Sutter, Brian Tichy e Shane Gaalaas (os dois últimos presentes em discos do B’z); e os baixistas Juan Alderete (Racer X e The Mars Volta; com quem o B’z já havia colaborado), Barry Sparks (atual baixista de apoio do B’z) e Travis Carlton (filho do guitarrista Larry Carlton, com quem Tak lançou seu álbum vencedor do Grammy Take Your Pick).

Nota = 9. Enigma é a continuação da carreira de um dos melhores guitarristas que a terra do sol nascente já viu nascer. Não fosse a negligência sistemática que sofre o rock japonês, ele já teria alcançado mais destaque, mas eu não vou importunar ninguém com meu chororô nipoentusiasta: se gosta de boa música, compre sem medo.

Uma vez que não há clipes promocionais das faixas do álbum, nem imagens de apresentações ao vivo, tampouco áudios carregados em sites de vídeos, esta resenha não trará nenhuma degustação.

Resenha: Homônimo – Somba

Breve histórico: Mais um fruto da cozinha musical que é o estado de Minas Gerais, a banda Somba nasceu ao final dos anos 1990 com uma proposta que, até o momento, vem sendo bem aplicada: criar um som sem rótulos.

Reprodução da capa do álbum

Reprodução da capa do álbum

Dando continuidade a uma discografia de riqueza musical indiscutível, o Somba marcou o ano da Copa com seu terceiro disco Homônimo – afinal, por que autointitular um álbum quando você pode chamá-lo assim? Esta é apenas a primeira de uma série de tiradas que mantêm um padrão humorístico estabelecido desde o início. No campo instrumental, só resta aplaudir como o grupo continua transitando sem medo entre os mais diversos gêneros, com uma liberdade muito “alicecaymmiana”.

A abertura “Kem Soul”, com seu trocadilho anglolusófono, comprova a influência dos Beatles na música mineira, juntamente a “Real One”. O rock da terra da rainha também parece ter influenciado “The Ox”, com seu ritmo meio Pink Floyd; e “Light Your Fire”, uma mistura de Led Zeppelin com os estadunidenses do The Doors. Já “Carne Fraca” pega emprestado lances de rock nacional, e poderia facilmente ser item da discografia do 5PRAStANtAS.

“Vem Pro Meu Lado Negro, Nega!”, uma das melhores do trabalho, poderia facilmente ser parte da fictícia rádio de world music WorldWide FM, do jogo Grand Theft Auto V. Ela conquista de imediato com seu riff de metais sampleando a Marcha Imperial de Guerra nas Estrelas – o próprio título já dá a dica da referência.

“Rocambole” incorpora mais um gênero a esta cozinha: jazz, com toques de MPB. Dão tempero indispensável à faixa as vocalistas convidadas do Caffeine Trio. “Musichat” reforça a sagacidade do grupo com uma letra escrita em “internetês”, mesmo que isso não fique claro para quem só escuta – daí a importância de se apreciar o encarte.

O lado zoeira da banda chega ao apogeu em “4:20”. Sim, a faixa tem esse título. Sim, ela dura exatos quatro minutos e vinte segundos. Sim, ela consiste unicamente no som de algo queimando. Não, eu não preciso falar mais nada.

Homônimo se encerra com o punk rock cru e satírico de “Eu Queria Fazer Uma Música pra Vender, mas, PQP! Eu Não Consigo”. Completam a lista de faixas do álbum as leves “Trânsito” e “Correria” e a lenta balada “By Heart and Soul”.

O Somba é um grupo que nunca se levou muito a sério, o que não quer dizer que não trabalham com profissionalismo. É uma riqueza musical que, por sua diversidade, pode coletar fãs das mais diversas tribos, e isso faz deles um medalhão valioso na música mineira atual.

Nota = 9,0. Arrisco dizer que Homônimo merecia até ter ganho uma indicação ao Grammy Latino. Trata-se de um conjunto com um grande leque de influências, música dosada com humor leve e saudável e, é claro, a indispensável brasilidade. Quer mais alguma coisa?

Abaixo, uma performance ao vivo de “Kem Soul”:

* Atualização em 10 de maio de 2016: o CD Homônimo foi enviado ao autor do blog via correio pela assessoria de imprensa da banda e a resenha foi escrita por sugestão da mesma.