Resenha: Tríptico – Belle Trio

Reprodução da capa do álbum (© Belle Trio)

Depois de duas décadas acompanhando músicos do naipe de Cátia de França, Gus Monsanto, Oniblues Band, Arthur Maia, Chico César, Jorge Amorim, Xangai, Milton Guedes, Russo Passapusso e outros, o guitarrista brasileiro Wiliam Belle finalmente decidiu criar e lançar um material totalmente autoral.

Unindo forças com dois companheiros da Oniblues Band – o baixista Zeca Vellozo e o baterista Coquinho – Wiliam formou o seu Belle Trio e, com ele, colocou nas plataformas digitais o seu disco de estreia Tríptico.

A qualidade do lançamento com certeza o coloca em pé de igualdade com outros ótimos nomes recentes do instrumental brasileiro como Freakeys, Fernando Molinari e Matheus Manente. E por que não compará-lo com artistas internacionais? Sem dúvidas há calibre aqui para isso.

A abertura “Fusion Nº 1” é um excelente cartão de visitas, resumindo de forma concisa a proposta musical do álbum. “Coconut Groove” permite a Coquinho (há!) mostrar o seu melhor nas baquetas e, condizentemente, é uma das faixas mais rítmicas. Essa diversidade rítmica vai voltar assim, no talo, só lá na ótima “Organized Mess”, cujo nome é bastante apropriado para o gênero do disco como um todo.

No meio do caminho, temos “Prestige”, “Saturno” e “Belle Blues”, que adotam uma roupagem mais serena e leve, com foco no fino canto da guitarra de William (que, afinal, é o líder do trio). O encerramento “Terra Oca” leva isso a um patamar diferente ao dispensar percussão e focar apenas nas cordas – todas tocadas pelo próprio William. Uma jornada musical inspirada no clássico Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne.

Como prometido na divulgação do trabalho, Tríptico é uma obra que colide harmoniosamente rock, jazz fusion, MPB, blues, funk e R&B. É o tipo de som que eu poderia ouvir por horas a fio num bar apreciando uma boa cerveja sem enjoar. Convido você a fazer o mesmo favor a si mesmo.

Nota = 4/5

Abaixo, a faixa “Fusion Nº1”:

* A resenha foi escrita por sugestão da assessoria de imprensa da banda.

Resenha: Will – Special Providence

Reprodução da capa do álbum (© G E P Records Limited)

O quarteto húngaro Special Providence, sem dúvidas um dos melhores grupos instrumentais de metal progressivo desde o Liquid Tension Experiment, chega ao seu quinto álbum, Will, totalmente em forma.

O trabalho soa extremamente coeso, como se fosse uma única faixa de 50 minutos dividida em várias seções. E como manda o manual de metal progressivo instrumental, as faixas abusam de ritmos complexos, variações constantes de andamentos e frases intrincadas, dando espaço para todos os membros exibirem suas habilidades.

Mas temos também alguns momentos de relativa calmaria e simplicidade, como as passagens meio bossa nova de “Irrelevant Connotations”, o longo solo sem base de guitarra de “A Magnetic Moment”, ou a segunda mais longa “The Rainmaker”, que, grosso modo, vê a banda modulando e variando sobre um mesmo fraseado não tão agressivo por quase sete minutos.

Os destaques ficam por conta de “Slow Spin” e “Mos Eisley”, nas quais o tecladista Zsolt Kaltenecker preenche o som com elementos eletrônicos na melhor escola Rush de oitentização do rock progressivo; e a mais longa, “The Ancient Cosmic Bubble”, que vê a banda condensar todas as suas facetas em quase sete minutos e meio do mais refinado progressivo instrumental.

Até pela complexidade do som, pode ser um disco um tanto indigesto e pouco acessível, especialmente para quem não aprecia o gênero. Talvez por isso também o álbum pareça desprovido do chamado “fator uau”. Mas ainda assim é merecedor de constar nas listas de melhores lançamentos progressivos de 2017.

Nota = 4/5. Perfeito para os fãs do gênero, Will reafirma o Special Providence como uma potência instrumental da década, no mesmo nível de Animals as Leaders e afins. Pode comprar sem medo – exceto se você não tiver estômago para música deste naipe.

Abaixo, o vídeo de “Irrelevant Connotations”:

Resenha: The Further Side – Nova Collective

Reprodução da capa do álbum (© Metal Blade Records)

A partir de meados de 2014, membros do Between the Buried and Me, Haken e Trioscapes (três dos maiores grupos de metal progressivo/jazz fusion da atualidade) começaram a escrever música juntos. São eles: Richard Henshall (guitarrista e tecladista do Haken e do To-Mera), Dan Briggs (baixista do Between the Buried and Me e do Trioscapes), Pete Jones (ex-tecladista do Haken) e Matt Lynch (baterista do Trioscapes e do Cynic). O resultado da cozinha começou a ser revelado aos poucos no ano passado, culminando no lançamento de The Further Side, álbum de estreia do quarteto instrumental.

A primeira coisa a ter em mente aqui é que não se trata de um trabalho de metal progressivo “puro”. A ideia era se embrenhar pelas matas do jazz, da world music e da música clássica, o que significou deixar o peso de lado. Ouve-se muito pouco de riffs grandiosos, acordes super distorcidos e sequências matadoras. Há um foco em composições mais limpas e refinadas, com os instrumentos bem separados na mixagem e sem grandes sobreposições de camadas de teclados e múltiplas guitarras. O que os quatro rapazes fazem aqui pode ser facilmente reproduzido ao vivo sem membros de apoio ou os abomináveis playbacks.

The Further Side traz apenas seis faixas. Uma batida de olho e você pode supor que ao menos uma delas é um trabalho super épico, mas na verdade nenhuma delas bate os dez minutos. Temos um total de menos de 50 minutos de música, algo não muito comum para trabalhos do gênero.

Mas o espaço foi suficiente para os anglo-estadunidenses mostrarem a que vieram. Misturados ao rock e ao pouco heavy metal, temos bastante jazz e música clássica, na forma, respectivamente, de passagens intrincadas e complexas e frases acústicas polidas. Já a world music prometida ficou só no marketing. De vez em quando aparece um ou outro acorde mais exótico, mas nada que justificasse o rótulo. Quem sabe no próximo lançamento eles cumprem essa promessa.

Da simpática abertura “Dancing Machines” ao forte encerramento que levou o nome do disco, passando ainda pela divertida “Ripped Apart and Reassembled”, que ganhou um vídeo (veja abaixo), e as outras três canções, constatamos facilmente a habilidade e química musical dos membros. Contudo, o Nova Collective soa bastante como um projeto paralelo, sem causar lá um grande impacto nem sinalizar uma possibilidade de banda “séria” como conseguiu o supergrupo britânico Headspace, por exemplo. Podemos chamar isso de ausência do “fator uau”?

Nota = 4/5. A forte coesão entre as seis faixas e a curta duração do álbum deixam um gostinho de “queria mais” e não permitem concluir até onde vai o alcance musical da banda. Mas os 47 minutos de música foram suficientes para sabermos que estamos diante de um candidato a figurar em listas de 50 melhores lançamentos progressivos do ano. Uma lista de top 10, contudo, já seria sonhar demais.

Abaixo, o vídeo de “Ripped Apart and Reassembled”: