Resenha: War of the Worlds, Pt. 1 – Michael Romeo

reprodução da capa do álbum 'War of the Worlds, Pt. 1'

Reprodução da capa do álbum (© Mascot Label Group)

Um ano após sofrer uma segunda tragédia com o Adrenaline Mob, o vocalista do quinteto estadunidense de metal progressivo Symphony X, Russell Allen, ainda se recupera do baque. Enquanto isso, o guitarrista do grupo, Michael Romeo, na impossibilidade de seguir com os trabalhos, passou o último um ano e meio preparando seu segundo lançamento solo, o primeiro desde o protótipo do Symphony X de 24 anos atrás The Dark Chapter.

É bastante óbvio que War of the Worlds, Pt. 1 foi a válvula de escape que Michael encontrou para dar vazão à sua criatividade num momento em que Symphony X não está disponível para isso.

Talvez por isso, para o ouvido desatento, este pode parecer apenas um mero “Symphony X sem Russell Allen”. Ledo engano. É verdade, por um lado, que após duas décadas de convivência, as guitarras de Michael “pedem” a voz de Russell. Mas quem canta aqui é Rick Castellano (não confundir com o Richie Castellano do Blue Öyster Cult), um ilustre desconhecido que o guitarrista foi encontrar sabe-se lá onde e que carece da versatilidade do vocalista do Symphony X, mas não faz feio na obra.

Para mostrar a que veio, War of the Worlds, Pt. 1 abre com uma introdução instrumental bastante orquestrada que segue em uma faixa avassaladora, “Fear of the Unknown”, que por sua vez é sucedida por outra paulada, “Black”. E aí vem “F*cking Robots”, a mais interessante do ponto de vista musical, por sua incorporação de elementos eletrônicos que acabam lhe dando um tempero dubstep.

Após mais uma paulada (“Djinn”, cuja abertura remete à introdução de “The Shattered Fortress”, do Dream Theater), temos o primeiro respiro em “Believe”, a mais longa, com mais de oito minutos. Quase uma balada se comparada a suas companheiras, ela não preenche seu longo espaço com uma sequência concentrada de riffs matadores. Surpreendentemente, é aqui que Michael põe o pé no freio. Tática que poucos usariam numa obra do gênero, mas que dá certo aqui simplesmente porque a faixa está longe de ser ruim.

“Differences” recupera a agressividade e é separada da também ótima “Oblivion” pelo interlúdio cinematográfico “War Machine” – o próprio Michael reconhece que compositores de trilhas sonoras foram uma inspiração para compor a música do disco. E War of the Worlds, Pt. 1 chega ao fim em “Constellations”, a faixa que mais eficientemente mistura o lado metal com o lado sinfônico do trabalho.

Afora o já mencionado Rick Castellano, o álbum conta com as brilhantes performances de John “JD” DeServio (Black Label Society) no baixo e John Macaluso (ex-Yngwie Malmsteen) na bateria. Enquanto que o primeiro às vezes se faz ouvir até sobre as dominantes guitarras de Michael, o segundo bate nos componentes de seu instrumento como se este fosse o item mais importante de sua imensa discografia.

Quanto a Michael Romeo, não há muito o que dizer sem chover no molhado: ele domina a música do começo ao fim, seja nas seis cordas, seja nas orquestrações configuradas por ele, empolgando a todo momento e demonstrando grande competência. Uma comparação entre este álbum e qualquer item recente da discografia do Symphony X serve de excelente exemplo da diferença que pode existir entre um grupo em que você é dono e outro em que você é “apenas” líder.

War of the Worlds, Pt. 1 mata dois coelhos numa cajadada só: engana o estômago dos fãs famintos por alguma novidade do Symphony X e faz também o mais importante: mostra Michael em grande forma em todos os sentidos possíveis: riffagem, solos, composição, direcionamento artístico, etc.

E considerando que os últimos trabalhos do quinteto novajersiano, embora todos ótimos, dão sinais de que a banda encontrou uma nova zona de conforto, podemos torcer que Michael Romeo tenha encontrado inspiração para algo diferente neste projeto solo cujo único grande defeito é ser curto demais, a despeito do fato de War of the Worlds, Pt. 2 já estar quase pronto, segundo o músico.

Nota = 5/5.

Abaixo, o lyric video de “Djinn”:

Resenha: Underworld – Symphony X

Breve histórico: Symphony X é uma banda estadunidense de metal progressivo/neoclássico formada em 1994. Considerados expoentes dos dois gêneros, são reconhecidos por aliar peso, técnica, elementos orquestrais, passagens melódicas e letras místicas em suas composições.

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

A fim de buscar inspiração para seu nono álbum, o Symphony X foi pro inferno. Quer dizer, o Inferno de Dante Alighieri, talvez a passagem mais famosa de sua obra prima A Divina Comédia. Criar com base na trilogia já é quase um clichê no meio artístico. O romance mais recente de Dan Brown também faz referência a essa mesma terça parte, tanto que leva o nome dela. Mesmo no universo do metal, há o notório exemplo do décimo disco do Sepultura, Dante XXI.

O conceito todo é trabalhado de forma inteligente, com letras que descrevem as agonias da um personagem anônimo em sua jornada pelo inferno dantesco. Contribuindo para esse imaginário, temos as artes impecáveis do encarte, que retratam o herói como um rapaz aparentemente “comum”, com roupas dos dias de hoje. E claro que tudo é capitaneado pelo mais importante: a música do quinteto, que ficou definitivamente infernal a partir do excelente Paradise Lost.

Como um todo, não há surpresas aqui. Tudo o que você ouviu nos dois álbuns anteriores, ouvirá novamente nessas 11 faixas – e isto poderá desagradar aos fãs que ainda se prendem ao passado mais melódico e menos “loudness war” do grupo. Quase todas as músicas são pauladas do começo ao fim. As exceções são a abertura instrumental “Overture” e as baladas “Without You” e “Swan Song”. Pra quem gosta, o álbum é um prato cheio. Destaque para “Kiss of Fire”, com toques de thrash; a épica “To Hell and Back”; e a faixa-título – dá até para visualizar o público cantando junto o seu refrão.

O único deslize da banda aqui foi ter prometido o que, no fim, não entregou. Alguns membros haviam sugerido em entrevistas anteriores que o álbum traria elementos melódicos. Mas, na verdade, o que Underworld faz é enterrar de vez a esperança de alguns sinphomaníacos de ouvir novamente algo próximo de um The Divine Wings of Tragedy. Até existem faixas preparadas mais ou menos com esse fim, mas o grosso aqui é pra quem tem pescoço de aço para banguear por mais de uma hora. Os fãs mais sedentos por sangue agradecem.

Além disso, o quinteto parece ter encontrado uma nova zona de conforto. Até aí, nada de errado por si só. Mas um time de músicos conhecidos por surpreenderem nem sempre pode se dar esse luxo. Começa a se fazer necessário um álbum que seja tão surpreendente quanto Paradise Lost foi quando veio ao mundo.

Nota = 8,0. Com uma temática muito bem trabalhada e uma música ainda mais empolgante que Iconoclast, Underworld conquista mesmo sem mostrar nenhuma evolução musical. A pontuação alta se justifica porque o Symphony X é um dos grupos que mais faz jus ao seu passado atualmente. Um lançamento candidato a constar em lista de melhores do ano.

Abaixo, o lyric video da faixa “Nevermore”:

Resenha: “Omertá” surpreende logo de cara, algo difícil no metal atual

Breve histórico: Adrenaline Mob é um supergrupo de heavy metal fundado pelo baterista Mike Portnoy (ex-Dream Theater), o vocalista Russell Allen (Symphony X, Star One) e o guitarrista Mike Orlando (Bumblefoot, Zakk Wylde). Foram brevemente complementados pelo baixista Paul DiLeo e pelo segundo guitarrista Rich Ward, mas ambos acabaram saindo antes do lançamento do primeiro álbum, Omertá. Apenas o baixista foi substituído – John Moyer (Disturbed) assumiu as quatro cordas há um mês.

Reprodução da capa do álbum (© ESL Music)

Adrenaline Mob é diferente daquilo que os seus integrantes fizeram em suas (vastas) carreiras. E é isso que torna o projeto interessante – ninguém estava esperando por uma sonoridade como essa quando a banda começou a ser anunciada. Até porque seus membros fundadores são conhecidos por fazer um som um pouco mais limpo, ainda que igualmente pesado. Omertá, disco de estreia do quarteto — originalmente quinteto — mescla metal alternativo, industrial, progressivo e tem até alguns toques de thrash e nu metal.

Difícil dizer qual dos músicos está se destacando mais aqui, mas a voz poderosíssima de Russell talvez seja a primeira coisa a chamar a atenção do ouvinte, mesmo para quem já acompanha seu trabalho no Symphony X. Os riffs fortes e marcantes de Mike Orlando, aliados às batidas firmes de Mike Portnoy ditam o ritmo do álbum. Além dos riffs, Mike Orlando trouxe solos bastante técnicos e interessantes, que dão certa solidez ao trabalho. Outra característica notória desta obra é soar constante, sem grandes mudanças entre uma faixa e outra, e mesmo assim não enjoar.

Basicamente, Omertá pode ser dividido entre séries de faixas destruidoras, das quais destacam-se “Undaunted”, “Hit the Wall”, “Feelin’ Me” e “Down to the Floor” e alguns “respiros” posicionados entre elas: “All on the Line” e “Angel Sky”, duas belas baladas, e “Come Undone”, cover do Duran Duran, que conta com a participação da vocalista Lzzy Hale, dona de uma bela voz. O curioso da faixa é que Lzzy parece cantar com mais agressividade que Russell, que limitou-se a cantar versos de maneira mais “limpa”, ainda que com notável emoção.

Nota = 8,0. Surpreende logo na primeira escutada, logo na primeira faixa, algo raro nos lançamentos de heavy metal atualmente, o que torna este álbum uma obra que entraria facilmente numa lista de “melhores de 2012”. Já foi dito, mas não custa repetir: não espere um “Dream Theater encontra Symphony X” com este álbum só porque membros das duas bandas estão aí. Espere algo menos ambicioso, mas igualmente primoroso.

Abaixo, o vídeo da faixa de abertura, “Undaunted”: