Resenha: The Illuminated Sky – Prospekt

Reprodução da capa do álbum (© Laser’s Edge)

Com duas importantes mudanças na formação (saem o vocalista Matt Wichester e o tecladista Richard Marshall e entram em seus lugares, respectivamente, Rox Capriotti e Michael Morris), o quinteto inglês de metal progressivo Prospekt retorna com seu segundo álbum após figurar em listas de melhores lançamentos prog do ano de 2013 com sua estreia The Colourless Sunrise.

The Illuminated Sky é notavelmente superior a seu predecessor, que já não era ruim. Nota-se uma produção mais madura, uma química mais desenvolvida, uma música mais intrincada, poderosa e direta. Os rapazes de certa forma reproduziram a grandiosidade, complexidade e melodia de outras bandas da nova geração do gênero como Haken e Circus Maximus.

Na lista de faixas, vemos uma predileção por trabalhos relativamente longos. Metade deles passa dos 6 minutos. Dentre os outras cinco, temos uma introdução e um interlúdio, dos quais normalmente são se espera delongas mesmo. E não pense que as músicas longas foram inchadas com passagens calmas: é tudo 80% pauleira.

Tal característica se repete em basicamente todo o disco, de forma que não faz sentido falar de cada uma das dez faixas. O que não significa que não tenham seus charmes individuais: a introdução neoclássica em “Cosmic Emissary”, o vocal em “Akaibara” que parece incorporar Michael Kiske, o inspirado solo do calejado Greg Howe em “Alien Makers of Discord” e até mesmo a tímida participação de Marc Hudson (do DragonForce) em “Where Masters Fall”.

Faz falta aquela vozinha enjoada de Matt, mas Rox é dono de ótima técnica que permite à banda alçar voos mais ousados. O mesmo se pode dizer de Michael, que elevou a ala das teclas da banda a um novo patamar por meio de arranjos e intervenções bem pensadas e dosadas.

Nota = 5/5. É obrigação de qualquer banda superar seu lançamento de estreia no segundo álbum, mas o Prospekt foi além e definiu para si mesmo uma referência bem mais elevada para os trabalhos futuros. Se eles darão conta do recado, o tempo dirá, mas por enquanto, já fizeram bonito.

Abaixo, a faixa “In the Shadows of the Earth”:

Resenha: Phases – Next to None

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

A quantidade e a importância das mudanças pelas quais uma pessoa normalmente passa ao longo de dois anos dentro da adolescência são gigantemente superiores àquelas que vivemos no mesmo período na idade adulta. O que diabos isto tem a ver com o texto?

Bom, falamos aqui de uma banda de jovens: o Next to None, cujo baterista é Max Portnoy (sim, filho do lendário Mike Portnoy). Mas é injusto reduzir a banda a isto, dada a qualidade dos demais integrantes. O parágrafo introdutório? Uma rasa filosofada para comentar a “guinada” que este álbum traz.

Se a estreia do quarteto, A Light in the Dark (resenhado neste blog), foi marcada por um metal progressivo “típico” e muito bem executado para um grupo de garotos, o sucessor Phases adota um tom bem mais puxado para o metalcore.

A abertura “Answer Me”, precedida pela introdução “13”, deixa clara essa guinada, embora ainda mantenha elementos progressivos. O single “Apple”, por sua vez, chocou alguns fãs – para o bem e para o mal. Aqui sim, temos um metalcore bem típico. Ao menos ela impõe mais respeito. Assim como “Beg”, uma das mais pesadas e com vocal mais convincente.

O progressivo finalmente chega numa sequência de 20 minutos divididos quase igualitariamente entre “Alone” e “Kek”. E chega muito bem! No caso da primeira, temos uma ótima peça do gênero, com tudo que pede o manual: um começo sereno, um peso que vai sendo construído aos poucos, variações de andamento e muitos solos. O metalcore ainda está presente na forma de guturais e acordes staccatos, mas somente como coadjuvante. A segunda é menos ortodoxa e não impressiona tanto, mas mantém a peteca lá no alto.

De “Clarity” a “Mr. Mime”, passando por “Pause”, temos uma espécie de “desaquecimento” do progressivo de volta para o metalcore, com as faixas lentamente encurtando de duração e ficando com aquela cara mais “moderninha”. Vem então o breve interlúdio instrumental “Isolation” para emendar em mais uma boa peça progressiva, “Denial”.

E chegamos ao fim nos quase 20 minutos de “The Wanderer”. É admirável o esforço dos meninos em preenchê-los de forma entusiasmante, mas a verdade é que a faixa é uma espécie de “Empire of the Clouds”, ou seja, ou seja, foi esticada para parecer superlonga. Uma boa produção teria aparado-a um pouco para caber talvez em 15 minutos. Falando em produção, o pai de Max desocupou esta função no disco e a própria banda a assumiu, o que ajuda a explicar o rejuvenescimento do som.

Posso comentar aqui sobre cada um dos membros individualmente, a começar por Max. Ao mesmo tempo em que sua habilidade mostra clara evolução e ele dá mais sinais de ter herdado a destreza do pai, percebemos uma configuração nas caixas que se aproxima daquilo que Lars Ulrich, do Metallica, fez em St. Anger e que até hoje é motivo de debate. Prevejo debates aqui também, mas em nível bem menor, proporcional à relevância da banda.

Thomas Cuce impôs muito mais respeito com seus guturais do que com sua voz limpa. Resta saber se conseguirá reproduzi-los decentemente ao vivo. E já que ele comanda satisfatoriamente os teclados, não seria o caso de chamar um vocalista para cada um focar em uma função?

E o estreante Derrick Schneider, que entra no lugar de Ryland Holland por recomendação de ninguém menos que Ron “Bumblefoot” Thal (que fez uma participação em A Light in the Dark e hoje integra o supergrupo Sons of Apollo com Mike Portnoy)? Ele sem dúvida é um dos responsáveis diretos pela mudança no direcionamento da banda, sendo sua guitarra a nave-mãe desse novo som que a banda apresenta, e ele ficou totalmente à altura da nova responsabilidade.

Nota = 4/5. Apostar no metalcore se mostrará uma faca de dois gumes: por um lado, afastará headbangers mais conservadores, que desprezam a vertente como coisa de adolescente. Por outro lado, faz a banda surfar na onda do gênero, que tem se mostrado muito popular nos Estados Unidos, criando uma possibilidade para aproximar esse público do progressivo. De qualquer forma, do ponto de vista estritamente musical, o álbum é quase impecável. E o bom de ser uma banda tão jovem é que ainda tem muito, mas muito espaço para evoluir.

Abaixo, o lyric video de “Apple”:

Resenha: Inure – Until Rain

Reprodução da capa do álbum (© Sensory Records)

Depois de uma profunda troca de membros que fez sobrar apenas o guitarrista Theodore Amaksopoulos e o tecladista Lefteris Germenlis, a banda grega de metal progressivo Until Rain marca 2017 com seu terceiro álbum cheio, Inure, e quatro novos integrantes, incluindo uma vocalista de apoio.

Embora a guitarra e o teclado sejam geralmente os instrumentos fundamentais do gênero, a mudança na formação não passou despercebida de forma alguma. Houve uma evidente mudança no som dos europeus, e não necessariamente para melhor.

Inure abre com a boa “Progressus in Idem”, que acena com uma mistura de Headspace, Myrath e Amassefer (algo que se ouvirá novamente mais tarde no disco, mais precisamente em “Butterfly Invasion”). Sua sucessora “New World Fiction” já vai pra um lado meio pop prog, parecido com o que o Haken fez em “Atlas Stone”, do The Mountain (resenhado neste blog). Em outras palavras, tem toques comerciais no sentido positivo do termo. “This Fear”, a quarta faixa, faz uma síntese entre as duas primeiras.

“Because Something Might Happen”, que recebeu um clipe perturbador, traz em seus primeiros seis minutos um prog impecável, mas o restante da faixa é extremamente arrastado e apenas repete um riff enjoado. Sim, também existe encheção de linguiça na música.

“Tearful Farewell” pode soar como uma balada acústica genérica ao ouvido destreinado, mas revela-se um trabalho bem tocante – “Broken Wing” segue na mesma linha. A intrincada “This Solitude” retoma os toques mais prog metal do agora sexteto e abre uma sequência melhor de faixas. A ela, fazem companhia a já mencionada “Butterfly Invasion”, a bônus morna “Debate” e a faixa título, que nos brinda com 13 minutos de ótimo metal progressivo, passagens guturais e um breve interlúdio sereno à la “The Count of Tuscany”, do Dream Theater.

O saldo das nove faixas (dez, se contabilizada a bônus) é positivo, mas quem acompanha a banda sabe que ela já fez melhor. A música do Until Rain ainda capta sua atenção e se destaca no mar de novos nomes progressivos, mas não temos aqueles riffs majestosos, sequências de solos e frases intrincadas que marcavam o grupo antes. Talvez seja preciso tempo para esta nova formação fluir como óleo. Espero que dentro de alguns anos eu possa me referir ao Inure como um álbum de transição, e não de inauguração de uma nova fase.

Nota = 3/5. Ao mesmo tempo em que não nego a qualidade geral de Inure, eu não o usaria como melhor exemplo de música do Until Rain. Especialmente depois do estupendo Anthem of Creation, de 2013. É um álbum bom, mas ainda pequeno para o talento dos músicos envolvidos.

Abaixo, o vídeo de “Because Something Might Happen”: