Resenha: Western Stars – Bruce Springsteen

Reprodução da capa do álbum (© Columbia Records)

Quase 15 anos depois de Devils & Dust, o cantor e guitarrista estadunidense Bruce Springsteen, o eterno The Boss, retomou a simplicidade para lançar Western Stars, mais um disco totalmente solo – termo que aqui significa “sem o envolvimento de sua E Street Band”.

E sendo um trabalho solo, ele é mais despretensioso, orgânico e acústico que os lançamentos que cria com sua tradicional banda de apoio. Boa parte da obra gira em torno da voz e do violão de Bruce e de cordas. Muitas cordas.

A boa notícia é que o músico não faz um uso enfadonho ou cafona desses instrumentos. Eles dão o pano de fundo certo para um disco com clima esperançoso, positivo e iluminado. Exemplo bom é o single “Hello Sunshine”, a primeira a ser divulgada e que veio juntamente a um bucólico lyric video. Aliás, bucólico é outro adjetivo bastante apropriado para Western Stars.

Sua essência captura o espírito dos EUA em faixas que combinam com viagens por aquelas longas estradas desérticas, ou com as pacatas zonas interioranas da terra do Tio Sam. É como se nos transportássemos para os cenários daqueles filmes que marcaram nossa vida. Contribuem para isso os fortes elementos country encontrados aqui (incluindo o sotaque de Bruce, a suavidade dos violões e a utilização providencial do lap steel).

A maioria das faixas segue um ritmo sereno e lento, mas há espaço para peças mais animadas, como “Sleepy Joe’s Café” e “Sundown”. Outros destaques ficam por conta da característica faixa título; de “Somewhere North of Nashville”, que mesmo sendo a mais curta, consegue concentrar de forma primorosa os elementos tradicionalistas que marcam o country do álbum; da altamente emotiva “There Goes My Miracle”; e de “The Wayfarer”, que começa parecida com suas companheiras, mas eventualmente é enriquecida pela participação proeminente de metais.

Esta obra renderá ainda um documentário sobre sua criação; por outro lado, não resultará em turnê. Em vez disso, Bruce dedicará a segunda metade de 2019 à concepção de um novo disco, desta vez com a E Street Band – se seguir a linha dos lançamentos recentes do The Boss, tem tudo para dar certo.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo da faixa-título:

Dia Mundial do Rock: 15 encerramentos de tirar o fôlego

Neste ano, o Dia Mundial do Rock coincidiu com a final da Copa. Por este motivo, o Sinfonia de Ideias não publicou nada a respeito no último domingo: o negócio era celebrar o tetra da Alemanha, curtir uns 15 minutos de sadismo com a derrota da Argentina e palpitar sobre o futuro do futebol brasileiro. Poucos lembraram do rock. O post deveria ter sido publicado na segunda-feira, portanto, mas só deu para finalizar hoje, por motivos de força maior. Sem mais desculpas e antes tarde do que nunca, aqui vamos nós:

Inspirado por uma ideia que me surgiu há alguns meses, e aproveitando que encerramos o evento mais importante do ano, resolvi pinçar algumas músicas da minha biblioteca que contivessem encerramentos que me deixam até arrepiado de tão bons. Fiz uma lista com algumas dezenas, excluí várias e fechei uma compilação com 15, já que dez seria muito pouco. São faixas variadas de rock, heavy metal e derivados, algumas conhecidas, outras nem tanto. Boa audição!

PS: Isto NÃO É uma lista de “15 melhores”. As faixas abaixo são meras sugestões, listadas na ordem alfabética dos artistas. Evidentemente, muita coisa boa ficou de fora, e nada impede você de adicionar bons exemplos nos comentários. 😉

“Endeavour” – Andre Matos
Uma lenda do metal brasileiro e ainda por cima graduado em música. Andre Matos abre a lista com a última faixa da edição regular de seu álbum de estreia, Time to Be Free. Co-assinada pelo tecladista Fabio Ribeiro, “Endeavour” começa como um belo trabalho de power metal veloz e aromas de Stratovarius. Já a partir dos 3:30, mais ou menos, ela toma uma direção levemente diferente, ainda rápida, para então fechar num belo encerramento que mistura toques sinfônicos, um solo inspirado e gritos arrepiantes do ex-vocalista do Angra e do Shaman.

“Farewell” – Apocalyptica
O violoncelo é um instrumento de som bastante emocionante – ele praticamente fala. Leva o público do conforto às lágrimas. Aproveitando-se das qualidades desse nobre instrumento, quatro amigos violoncelistas decidiram fundar em 1993 o Apocalyptica, até hoje um dos grupos mais notórios da Finlândia. Destaca-se por não conter vocalistas (exceto convidados ocasionais), baixistas ou guitarristas, somente violoncelistas e, a partir de 2003, um baterista. No último minuto desta faixa advinda do álbum homônimo do grupo, uma música que é melancólica do começo ao fim entra numa reta final arrepiante, comandada por uma melodia tocante e relativamente simples.

“Farewell” – Avantasia
Pura coincidência, mas outra faixa intitulada “Farewell” foi selecionada para esta lista. Marcando a única participação de Sharon den Adel (Within Temptation) no primeiro dos dois álbuns The Metal Opera, “Farewell” traz ainda Tobias Sammet (Edguy), líder, baixista e principal vocalista do Avantasia, projeto que deu vida a esta música; e Michael Kiske (ex-Helloween, Unisonic), um dos nomes-chave do power metal e presença constante nos álbuns do Avantasia. É ele o responsável por tornar o encerramento desta balada um momento arrepiante a partir dos 5:28, com dois versos cantados repetidamente em cruzamento com o refrão de Tobias.

“I Want You (She’s So Heavy)” – The Beatles
Não é bem uma música emocionante, mas está aqui como reconhecimento a uma das maiores bandas que já existiram. Tudo bem que esta faixa não é típica dos Beatles – é longa e de vocabulário enxuto. Mas é emblemática, considerada por alguns até como uma forma embrionária do heavy metal. O acorde tocado em arpejos que se repete por três minutos ao final vai ganhando corpo até o fim e faz deste encerramento um dos melhores da carreira deles, ainda que a música termine de forma estranhamento abrupta.

“The Ghost of Tom Joad” – Bruce Springsteen (com Tom Morello)
Pra não dizer que não há faixas ao vivo aqui, trago a primeira parceria de Bruce Springsteen com Tom Morello (Rage Against the Machine), uma combinação de muita química musical (e ideológica, posto que os dois são porta-vozes da esquerda estadunidense) que culminou na gravação do álbum mais recente do The Boss, High Hopes (resenhado neste blog). Neste que é basicamente um álbum de autorregravações, Tom participa de metade das faixas, incluindo esta. Foi lançada pela primeira vez como faixa-título e de abertura do décimo primeiro disco do guitarrista/vocalista de Nova Jérsei. O solo de encerramento que Tom fez em estúdio é praticamente o mesmo que fazia ao vivo: pessoal, marcante e cheio de efeitos, como pode ser conferido abaixo.

“White Shadows” – Coldplay
Fazer músicas arrepiantes é a especialidade do Coldplay, e não importa o quanto os chatos tr00 4life tentem diminuir a banda, o quarteto britânico é um nome que será sempre obrigatoriamente abordado por quem estuda a cultura ocidental da primeira década deste século. “Politik” quase entrou no lugar desta, mas como seu encerramento é mais longo e marca praticamente um segundo momento da música, optei por “White Shadows”, que traz a participação de Brian Eno nos sintetizadores e um encerramento mais “repentino”, que, aos 4:20, dá fim digníssimo para uma das melhores faixas do terceiro álbum do grupo, X&Y.

“Justice for Saint Mary” – Diablo Swing Orchestra
O Diablo Swing Orchestra é uma das mais gratas surpresas do metal neste início de século. Talvez os primeiros a se atreverem a misturar heavy metal com jazz e swing, o grupo vem conquistando os fãs do chamado avant-guarde metal. Nesta faixa, a última de seu mais recente disco Pandora’s Piñata, um belo instrumental com cordas e metais fecha este trabalho guiado por melodias e letras tensas com chave de ouro – ainda que eu, particularmente, teria deixado de fora os efeitos sonoros que chegam depois.

“The Ministry of Lost Souls” – Dream Theater
Uma bela história em forma de canção pede um belo trabalho musical – o que, no caso destas lendas do metal progressivo, não é pedir muito. Escrita por John Petrucci, a faixa nos transporta para a história de uma mulher que é salva do afogamento por um herói anônimo que acaba morrendo no resgate, o que a deixa cheia de remorsos até conseguir reencontrar seu salvador. O solo de guitarra a partir dos 12:44 é, sinceramente, um dos trabalhos musicais mais belos que já ouvi na vida.

“Hotel California” – Eagles
E falando em solos de encerramento na guitarra, destaco aqui um dos mais emblemáticos de todos os tempos: “Hotel California”, presença constante nas listas de melhores solos da história do rock. E não é para menos: este brilhante duelo de Don Felder com Joe Walsh, acompanhados no violão de doze cordas de Glenn Frey e no baixo de Randy Meisner, é um verdadeiro acontecimento do rock setentista.

“Let It Grow” – Eric Clapton
E vamos para mais um solo de guitarra utilizado para fechar músicas (lembrando que a lista está na ordem alfabética dos artistas). Aqui, o mestre do blues Eric Clapton dá uma aula de arpejos, ainda que alguns digam que a melodia principal do solo tenha sido chupada da introdução de “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin.

“Visions” – Haken
Talvez o carro chefe de uma nova leva de bandas de metal progressivo, o Haken vem arrancando elogios da crítica especializada e já conquistaram até os supracitados Dream Theater com suas letras melódicas e instrumentais impecáveis. A música mais longa da carreira do sexteto britânico é “Visions”, faixa de encerramento de seu segundo álbum (de mesmo nome). Após mais de vinte minutos do mais bem executado metal progressivo enfeitado com toques sinfônicos e eletrônicos, a banda dá lugar a um belo “epílogo musical” de cordas.

“The Saints” – Helloween
Fundadores do power metal e com três décadas de estrada, o Helloween não é bem uma banda acostumada a belas melodias: seu negócio é agressividade nos riffs, no ritmo e no vocal – apesar de já terem se acostumado a uma balada aqui e outra ali. Talvez por isso o breve encerramento de “The Saints” seja uma grata surpresa: ninguém esperaria que uma banda tão 666 resolvesse acabar uma música com um solo de cordas, sintetizado pelo tecladista contratado Matthias Ulmer.

“Beauty of the Beast” – Nightwish
Quase que outra música de nome parecidíssimo veio aqui no lugar desta: “Beauty and the Beast”, do disco de estreia Angels Fall First. Por que a opção por esta, então? Porque “Beauty of the Beast” é mais longa e mais bem produzida, o que valoriza o som do grupo que, nesta época, apresentava sua formação mais popular (Marco Hietala, presente aqui, ainda não tocava com a banda no primeiro disco). O poderoso encerramento combina todos os membros da banda: Jukka, Emppu e Marco aliados em um ritmo e um riff que lembra uma marcha militar; Tuomas e seu brilhante trabalho sinfônico ao fundo; e Tarja com belos “ohs” da vida.

“Mulher de Fases” – Raimundos
E pra ninguém dizer que a lista não tem representantes brasileiros que cantam em português, aí está um dos maiores nomes do nosso punk. “Poxa, mas tinha tanta música brasileira com encerramentos mais bacanas!” Sim, mas como deixei claro lá em cima, a lista não é uma Top 15. Enfim, aos fatos: na mesma linha de “The Saints”, temos aqui outra faixa pesada encerrada com cordas, e de maneira inesperada – cordas não são bem os instrumentos que você espera ouvir ao adquirir um álbum de punk. Mas elas estão aí, marcando presença na música inteira, e ganhando destaque ao final, dando um toque paradisíaco a um dos maiores hits do quarteto.

“The Eye of Ra” – Star One

O que aconteceria se Russell Allen (Symphony X, Adrenaline Mob), Damian Wilson (Threshold), Floor Jansesn (ex-After Forever, ReVamp, Nightwish) e Dan Swanö (Nightingale) cantassem na mesma música? Ou no mesmo álbum? O gênio holandês Arjen Anthony Lucasen já respondeu a esta pergunta por diversas vezes ao longo dos dois álbuns de seu projeto Star One, que faz músicas de “space metal” com letras inspiradas em filmes de ficção científica. A letra da faixa abaixo, “The Eye of Ra”, dialoga com o clássico Stargate, de 1994. E o encerramento fica por conta dos quatro gigantes cantando os mesmos versos, primeiro acompanhados pelos instrumentos, e lentamente deixados quase que a cappella.

Resenha: Em “High Hopes”, Bruce Springsteen mostra que o familiar também pode soar novo

Breve histórico: Bruce Springsteen é um dos mais aclamados roqueiros dos Estados Unidos e está acima de qualquer crítica. Na ativa com sua banda de apoio E Street desde o começo dos anos 70, o músico coleciona prêmios Grammy, hits nas paradas, turnês de lotar estádios e shows memoráveis. Do alto de seus 64 anos, não demonstra nenhum sinal de que irá parar com a música. Além disso, Bruce é aquele típico “american nice guy” que participa de eventos beneficentes, faz letras críticas e simpáticas à classe média estadunidense, apoia causas como o casamento homoafetivo e faz campanha pelo Barack Obama.

Reprodução da capa do álbum (© Columbia Records)

Reprodução da capa do álbum (© Columbia Records)

O álbum High Hopes não é um disco qualquer. Ele traz apenas covers ou regravações de raridades e canções antigas. Mesmo assim, não deixa de ser uma novidade. É como uma edição antiga de um jornal qualquer reescrita em linguagem mais contemporânea e diagramado em um formato mais moderno, se me permitem a analogia pouco feliz.

Antes de mais nada, é preciso apontar a participação de alguém cujo envolvimento foi determinante na sonoridade do álbum. Trata-se de Tom Morello, guitarrista do quarteto estadunidense Rage Against the Machine e famoso também pelo ativismo político dentro e fora do conjunto. Após participar da etapa australiana da turnê mundial do álbum anterior, Wrecking Ball, em substituição do guitarrista Steven Van Zandt, então ocupado com as filmagens de uma série televisiva, Tom passou a compor algumas canções com Bruce nas horas livres. As parcerias culminaram neste álbum, que no fim das contas não traz nenhuma composição inédita, mas tem Tom participando de oito das doze faixas.

O disco abre com sua faixa-título e primeiro single, originalmente composta por Tim Scott McConnell, numa versão retrabalhada com metais proeminentes e ritmo mais cativante. A segunda faixa, “Harry’s Place”, é uma das várias que foram escritas para discos anteriores, mas acabaram deixadas de lado. Neste caso, a faixa seria parte do The Rising, mas acabou fora. 11 anos após o lançamento do disco, é possível afirmar que a faixa não faria muita diferença, mas aqui neste álbum, ela dá um toque meio pop, ajudando na diversificação musical alcançada aqui. As serenas e quase sonolentas “Down in the Hole” e “The Wall”; a poderosa “Heaven’s Wall”; e a sinfônica “Hunter of Invisible Game” se juntam a este grupo de “sobras”. Destas, “The Wall” destaca-se pelo significado: foi escrita após uma visita que Bruce fez ao memorial da Guerra do Vietnã em Washington DC e em homenagem a um músico conterrâneo, Walter Cichon, que foi para a citada guerra e não voltou para sua casa na Nova Jérsei.

“American Skin (41 Shots)” é a faixa mais emocionante do disco. Foi escrita originalmente em 2000, após um imigrante ganês ser morto em Nova Iorque com 41 tiros disparados por policiais à paisana. Quase 15 anos após o caso (ocorrido em fevereiro de 1999), a crítica contida na música segue mais atual do que nunca. Bruce voltou a tocar a canção ao vivo em shows recentes, desta vez motivado pelo assassinato de Trayvon Martin, e resolveu incluí-la no disco, numa versão de tirar o fôlego.

“Just Like Fire Would”, que abre com um riff que remete à abertura de “How Bizarre”, hit do OMC, é um dos dois covers de bandas punks, o outro sendo “Dream Baby Dream” (respectivamente, covers das bandas The Saints e Suicide). São faixas relativamente leves, mesmo em suas versões originais, e ganham aqui aquele toque característico do “heartland rock” de Bruce. No caso da segunda, que ficou como faixa de encerramento, fechou o disco com chave de ouro.

Outra faixa que vale destacar é “The Ghost of Tom Joad”, uma velha conhecida dos fãs que dá nome também ao décimo primeiro álbum do artista. Foi retrabalhada algumas vezes ao vivo já com Tom Morello na guitarra, lembrando que o próprio Rage Againt the Machine já fez uma versão da faixa. Neste disco, ela ganha uma versão bastante interessante na qual Tom não só faz um solo brilhante a ponto de dar arrepios, como também participa com alguns vocais, tornando este o ponto alto do disco.

Completam o álbum a alegre “Frankie Fell in Love” e “This is Your Sword”, de origens desconhecidas para este que vos escreve.

Nota = 8,5. High Hopes, conforme explicado anteriormente, não é um dico de inéditas, mas soa como tal. Bruce fuçou seu acervo e resgatou verdadeiras pérolas esquecidas em sua vasta carreira e soube retrabalhá-las de forma a ganharem um toque atual e ainda assim inconfundível para quem aprecia o trabalho do músico. E reafirma uma vez mais, se é que isso alguma vez já foi colocado em questão, a relevância de Bruce Springsteen como um dos principais roqueiros da terra do Tio Sam.

Abaixo, o vídeo da faixa-título: