Resenha: Nekomata – Muñoz

Reprodução da capa do álbum (© Abraxas/Locomotiva Records)

O stoner rock não se resume a riffs crus, vocais entorpecidos e atmosferas desérticas e eu posso provar. Como? Com Nekomata, terceiro disco da dupla mineiro-catarinense Muñoz.

Formado pelos irmãos Mauro (vocais, guitarra, baixo, sintetizador) e Samuel Fontoura (bateria, percussão), o duo sempre fez exatamente o som que descrevi no parágrafo acima. Com este álbum, porém, eles elevam tudo a um novo patamar, e essa elevação foi um verdadeiro salto, e não apenas uma ida de um degrau para o seguinte.

Como dito, até o lançamento anterior, Smokestack (2016), a dupla já era dos melhores exemplos de stoner rock nacional que poderíamos pinçar. Mas aqui eles ultrapassam os limites do gênero e incorporam ritmos diversos para harmonizar com suas guitarras cruas e vocais psicodélicos.

O resultado é um dos trabalhos mais autênticos, criativos e primorosos do rock nacional em 2019. A sensação é a de estarmos ouvindo um rito tribal com guitarras elétricas ou algo do tipo.

Claro que a definição acima é muito aberta e poderia englobar bandas tão distintas quanto Sepultura e The Hu. Então vamos afunilar um pouco o conceito e dizer que o Muñoz incorporou ritmos brasileiros e africanos para criar uma espécie de “BaianaSystem encontra Far From Alaska”, especialmente no que diz respeito à percussão – departamento que ganha mais espaço do que nunca na música deles.

A trilogia de abertura segura essa levada sem muito descanso. O ritmo desacelera na faixa-título e é retomado em “Deep Sleep” e “Collapse”. O auge da viagem sonora, sem dúvidas, é a sétima faixa, “Estamira”, que começa “normal” (para os padrões do grupo) e desemboca numa verdadeira orgia musical.

A relativamente crua “Sentinela” (talvez a menos experimental) faz a ponte com “Tyrant Times” e tudo se encerra na morna “Blue Cat & the Eternal Rat”.

“Nekomata” é uma criatura do folclore japonês na qual gatos domésticos se transformam após viverem muito tempo – tal como o Muñoz, que já roda por aí há quase uma década e virou um nome dos mais interessantes do rock nacional recente.

Nota = 4/5.

Abaixo, a faixa “Planet End”:

* A resenha foi escrita por sugestão da assessoria de imprensa da banda.

Resenha: Wanderlust – Stolen Byrds

reprodução da capa do álbum 'wanderlust', do Stolen Byrds. Trata-se do busto de uma mulher negra e de cabeça raspada visto pela diagonal esquerda enquanto ela olha para frente e levemente para cima, cercada por um retrato e ante um fundo de folhas e galhos, com uma cobra marrom pendurada no ar à direita dela

Reprodução da capa do álbum (© Sony Music Entertainment ltda)

Wanderlust – do alemão “wandern” (fazer uma caminhada) e “Lust” (vontade, desejo). Um termo usado para designar um impulso ardente de viajar pelo mundo ou, num sentido mais amplo, empreender em uma jornada de autoconhecimento e descobertas diversas.

Um título bastante apropriado não apenas para este lançamento, mas para toda a discografia do quinteto paranaense Stolen Byrds, que nunca se contentou com qualquer tipo de zona de conforto. Na linha de seu antecessor 2019 (resenhado neste blog), a banda explora múltiplas possibilidades, desta vez sem sair muito do nebuloso universo do rock alternativo.

Podemos conferir tal fato na dupla de abertura “Soul Much Higher” e “Masterplan”, esta última enfeitada com o charme de uma percussão brucespringsteenística.

“É Tão Bom” incorpora elementos psicodélicos em um som que poderia ter saído da excelente estreia do Joana Marte, De Outro Lugar. O mesmo vale, em menor grau, para a excelente “Unbearable Truth”, com um dos pontos altos do disco em termos instrumentais.

A sereníssima “Under the Water” engolfa o ouvinte no sentimento de estar, com efeito, submerso, e em muito destoa de sua sucessora “New Born Child”, que resgata o stoner que sempre marcou, em menor ou maior grau, o som dos paranaenses.

“Tapete Preto”, um interlúdio sereno que é pano de fundo de um monólogo sobre a vida na estrada do ponto de vista de um caminhoneiro e “Tell Me”, com singulares camadas de metais ao fundo, são charmes à parte.

“Sang D’CöCö”, com aquela percussão africanizada de “Masterplan”, é uma introdução para a última música “Green Dress”, uma peça que começa serena (não tanto quanto “Under the Water”), revisita o clima progressivo de “É Tão Bom” e constrói um encerramento mais denso, fechando a obra com chave de ouro.

Em termos de qualidade musical, Wanderlust está em pé de igualdade com a discografia pregressa do Stolen Byrds e é naturalmente superior a 2019 que, com não muito mais do que 20 minutos distribuídos em seis faixas, não passava de um EP disfarçado.

Nota = 4/5.

Abaixo, o álbum completo no canal oficial da banda:

Resenha: Unlikely – Far from Alaska

Reprodução da capa do álbum (© Elemess)

É uma introdução clichê, mas… não dá pra não começar este texto dizendo que “muita coisa aconteceu” desde o último álbum do Far from Alaska, o ótimo modeHuman (resenhado neste blog). O quinteto potiguar baseado em São Paulo tocou em festivais grandes, fez parcerias com outras potências emergentes do rock nacional, foi elogiado por músicos e jornalistas estrangeiros e multiplicou sua população de fãs numa velocidade chinesa, sacramentando o que eu já previra ao encerrar a resenha de sua estreia.

A banda não tinha atmosfera melhor para começar a bolar seu segundo trabalho de estúdio. Por meio de uma campanha de financiamento coletivo, viajaram aos EUA e sentaram com a gabaritada Sylvia Massy (System of a Down, Red Hot Chili Peppers, Johnny Cash, Tool, entre outros) para preparar Unlikely, cujo título dialoga com o fato de serem um grupo de rock de Natal conhecido até lá fora.

O álbum começa com tudo (ou com o “pé na porta”, como eles tão bem descreveram) com o single “Cobra”, que manda sem anestesia e com meros 15 segundos de aviso prévio o refrão e o riff mais agressivos do disco. Nada na discografia deles merece mais o adjetivo “visceral”.

Mas Unlikely não é só pancada seca. Logo depois da abertura, “Bear” já chega com riffs robustos como o animal que lhe dá nome e bem mais elementos eletrônicos. Até a última faixa, esses elementos serão incorporados em maior ou menor grau – notoriamente em “Monkey” e “Coruja”. E “Elephant”, apesar do animal que lhe dá nome, pode ser considerada a balada do disco, talvez?

Em “Pig”, temos um trabalho de Cris Botarelli na lap steel guitar que a torna uma espécie de irmã de “Politiks”, do modeHuman. Mas o que mais chama atenção é como os primeiros versos parecem uma mistura de “All I Really Want”, da Alanis Morissette, com “Just Like That”, do Squidd – canção que só conhece quem jogou 1080º Avalanche para Game Cube. O sempre bem-vindo lap steel reaparecerá na excelente “Armadillo”, que evoca um clima tão desértico quanto o cenário do clipe de “Dino vs. Dino”, do lançamento anterior.

O bom humor que sempre foi característico do quinteto se manifesta em Unlikely bem mais do que em modeHuman. Exemplos são faixas como “Pizza” e sua letra absolutamente despretensiosa; a meta-canção “Rhino”, que pega o gritado e emotivo refrão de “I Will Always Love You” e o transforma em algo tenso combinado a riffs marchantes que nos fazem visualizar o animal do título se aproximando; e a divertida mensagem subliminar ao final de “Slug”. Some isso ao trabalho visual todo transado e colorido e entenda por que esta obra é realmente a cara deles.

Aliás, é isso que o grupo tem defendido em entrevistas. Que Unlikely é mais “solto” que modeHuman. Pelos motivos mencionados acima, ele é muito mais condizente com a imagem que o Far from Alaska passa ao vivo e em suas redes sociais. As piadinhas, as fotos de divulgação descontraídas, a linguagem jovial, nada disso combinava com a seriedade do debut deles – em que pese ser um discão, e em que pese eu desejar que eles um dia voltem a fazer algo mais complexo e “cabeça”.

Por fim, vale ressaltar que o álbum não tem todo esse equilíbrio entre pop e rock que tem sido alardeado aos quatro ventos. É rock do começo ao fim, ditado pelas guitarras cruas de Rafael Brasil, a explosão rítmica de Edu Filgueira e Lauro Kirsch e os vocais firmes de Emmily Barreto. Os teclados de Cris (que passaram por curiosos experimentalismos nas mãos de Sylvia, com os cabos passando por salsichas, lâmpadas e furadeiras) são um charme indispensável, é verdade, mas qualquer toque de pop é apenas isso – um toque. Um tempero. Sem o qual a banda não seria o que é.

Nota = 5/5. Criatividade na composição, perícia na produção e na execução, coragem para continuar ousando… Tudo isso ajuda a fazer de Unlikely um dos melhores lançamentos nacionais do ano. E agora podemos até usar o manjado adjetivo “honesto” para classificá-lo, por se tratar da obra que transmite devidamente em música o que eles manifestam visualmente.

Abaixo, o vídeo de “Cobra”: