Resenha: Behind the Mask Part I – Vikram

Reprodução da capa do álbum (© Rockshots Records)

Se alguém me falasse um tempo atrás que em 2019 uma banda brasileira lançaria um dos melhores discos de metal oriental que eu já ouvi, eu provavelmente responderia com uma sonora gargalhada.

Mas uma das coisas que faz a vida valer a pena ser vivida é justamente esse conjunto de surpresas que ela provê. E este trabalho do qual falo aqui surpreende por dois motivos: o mais óbvio é a improbabilidade mencionada no parágrafo anterior. O segundo é a qualidade de sua produção e o fato de ele ser apenas um elemento num universo conceitual que o grupo criou.

Explico: Behind the Mask: Part I (sim, parte 1) é parte de um projeto multimídia que envolve também um livro (o primeiro de uma trilogia), um RPG, um sample pack com vários dos sons exóticos utilizados nas músicas e um songbook com as transcrições do álbum inteiro para as cinco partes principais (voz, guitarra, baixo, teclado e bateria).

É um projeto tão abrangente que humildemente confesso que isto aqui é uma “resenha parcial”, pois está cobrindo apenas uma das partes que compõem todo o projeto.

A qualidade do disco em si é inquestionável, especialmente no que diz respeito à produção. A mixagem valoriza a pureza de cada instrumento dum jeito que raramente vemos em estreias nacionais, especialmente quando elas se arriscam em terrenos tão sofisticados quanto oriental metal progressivo.

Mas isso fica fácil de entender quando vemos que o Vikram é uma banda jovem, porém formada por músicos calejados, com décadas de experiência nos mais diversos projetos. Um deles, o líder do projeto, é o guitarrista Tiago Della Vega, reconhecido pelo Guiness como guitarrista mais rápido do mundo.

Mas tal título é de importância menor frente à grandeza dos riffs que ele entrega nas 14 canções que compõem a obra (sem contar uma bônus japonesa, que consiste numa versão da faixa título no idioma local). São frases que deixariam Michael Romeo (Symphony X) e Malek Ben Arbia (Myrath) com sorrisos em seus rostos.

O quinteto incorpora de forma bastante efetiva os elementos orientais, em particular egípcios, em sua música. Eles complementam o som de modo a se tornarem parte integrante real das composições, e não um mero adereço. É resultado de um processo nitidamente profissional e atento a detalhes.

Sem dúvidas, Behind the Mask: Part I merece espaço na lista de melhores lançamentos do metal nacional em 2019 e que merece atenção da imprensa internacional também.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo de “Requiem for Salem”:

Resenha: MMXIX – Sioux 66

Reprodução da capa do álbum (© Sioux 66/Sony Music Entertainment Brasil)

Um dos nomes mais gratificantes do rock nacional recente está de volta com um dos álbuns mais gratificantes do rock nacional em 2019, lançado antes mesmo que baixasse a poeira da apresentação deles no Rock in Rio deste ano.

Sioux 66, quinteto paulistano que brinca naquela tênue linha que separa o hard rock pesado do heavy metal tradicional, vem com um trabalho curto e direto com o sugestivo nome MMXIX (2019 em algarismos romanos).

E bota curto nisso: são apenas oito faixas, totalizando menos de 40 minutos de música. Talvez o único defeito relevante da obra como um todo seja este, ser breve demais.

Mas é uma decisão que faz sentido frente ao que parece ser uma nova proposta musical da banda. O som deles está mais pesado e acelerado que no CD anterior (Caos, de 2016; clique aqui para conferir minha resenha a respeito), e ser direto era crucial para garantir que as mensagens urgentes do disco fossem entregues com eficiência.

Mensagens estas que vemos principalmente em momentos mais ácidos como “Respostas”, “O Corre”, “Virtual/Realidade” e mesmo o cover de “Diversão”, dos Titãs, com participação do baixista e vocalista deles, Branco Mello, nos vocais de apoio. Branco é pai do guitarrista Bento Mello e divide sua atuação nesta música com os também vocalistas Gabriel Martins (Mattilha) e Cyz Mendes.

Outras faixas, como a abertura “Paralisia” (se a breve introdução instrumental “Laico” não for considerada) e o encerramento “Aqui Estou”, são mais introspectivas e pessoais. E faltou falar só de uma: a diferentona “Jaz”, toda acústica e com uma levada tribal.

Não posso deixar de constar que MMXIX marca a estreia – e isso ajuda a explicar a evolução no som – de Yohan Kisser como substituto de Mika Jaxx na outra guitarra. Agora, as doze cordas do quinteto estão nas mãos de dois herdeiros do rock nacional clássico.

Explico: além de Bento, Yohan, como você já deve ter desconfiado, também é filho de outra lenda do rock/metal nacional: Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura (coincidentemente ou não, Andreas fez uma participação especial em “Uma Só Vez”, canção presente na estreia deles, Diante do Inferno (2013)).

Mas seria de uma canalhice imensa atribuir o sucesso e a qualidade deles a essas descendências. Eles têm mérito próprio de sobra, de modo que esses “paizões” apenas somam a algo que já era grande por si só.

MMXIX coloca o Sioux 66 no pódio do rock nacional de 2019 – especialmente por ser cantado em português – e, por que não, pode ser colocado em condição de igualdade com outros ótimos lançamentos recentes do gênero na gringa. Falo de Boneshaker, do Airbourne, e Damnation, do Aerodyne (clique aqui e aqui, respectivamente, para conferir minhas resenhas a respeito deles).

Nota = 5/5

Abaixo, o clipe de “Aqui Estamos”:

Resenha: Carbônica – Carbônica

capa do álbum Carbônica, da banda de mesmo nome

Reprodução da capa do álbum (© CLAM Discos)

Foi necessário mais de uma década de shows, EPs e iniciativas culturais dignas de nota até que o power trio guarulhense Carbônica finalmente lançasse seu primeiro disco cheio, autointitulado.

Seria um tanto injusto dizer que ele coloca os rapazes no mapa do rock nacional porque uma banda que protagoniza projetos como o selo CLAM, as intervenções culturais CLAMdestino e a festa Noites Inflamáveis evidentemente é uma banda que respira, come e caga música já há algum tempo, dispensando a necessidade de um trabalho “formal” para cravar seu nome em algum lugar. E essa dedicação toda se reflete na intensidade deste trabalho.

Ele reúne algumas pérolas que foram lançadas anteriormente nos três primeiros EPs do grupo: “Se a Cidade Parar”, do Rock Puro e Sem Gelo; “Agora Eu Te Bebo”, “Você Quer Pecar” e “Até no Caos”, do Inflamável; e “Augusta”, do TR3S. E olha que muita coisa boa ainda ficou de fora…

A boa notícia é que essas faixas “rejeitadas” deram espaço para outras maravilhas: nomeadamente, “Inflamável”, “Sangue”, “Quem Nunca”, “Lama” e “Loucura”.

As dez canções ora dialogam diretamente com as urgências do cidadão médio paulistano (“Se a Cidade Parar”, “Quem Nunca” (com uma linha de baixo que deixaria Adam Clayton com um sorriso no rosto), “Até no Caos”), ora versam sobre questões mais pessoais (“Inflamável”, “Agora Eu Te Bebo”, “Você Quer Pecar”, “Loucura”).

“Augusta”, com uma letra dúbia que pode estar se referindo tanto à famosa rua boêmia paulistana quanto a uma moça qualquer, traça uma interessante ponte entre esses universos temáticos do Carbônica.

A faixa mais surpreendente talvez seja “Lama”. A letra é recheada de críticas sociopolíticas, mas o nome parece ter também inspirado uma roupagem com aromas de manguebeat – aquele estilo consagrado no clássico absoluto Da Lama ao Caos, de Chico Science & Nação Zumbi.

O álbum Carbônica faz jus à sua proposta. E quando falo “proposta”, refiro-me ao projeto como um todo e sua vibe incendiária. Desde a capa até o último acorde, o trio se propõe a colocar fogo em nossos ouvidos e mentes com música de qualidade e letras com as quais você provavelmente se identificará, em maior ou menor grau.

Nota = 5/5

Abaixo, o clipe de “Até no Caos”:

* A resenha foi escrita após sugestão da assessoria de imprensa da banda.