Resenha: Engenho Que Fabrica Opinião – Black Bell Tone

Reprodução da capa do álbum (© Black Bell Tone)

O Rio Grande do Sul não cansa de nos brindar com ótimos nomes novos do rock nacional. Hoje, falaremos do Black Bell Tone, quarteto porto-alegrense que, com apenas dois anos de vida, já se meteu na empreitada de lançar um álbum de estreia com qualidade profissional.

Engenho Que Fabrica Opinião, título da obra, é um sinal claro o suficiente de que o disco abordará de forma crítica temas diversos. Depois de abrir já com uma de suas melhores, “Gravitacional”, ele segue para o single “Amor, Ordem e Progresso”, que questiona o lema da nossa bandeira de maneira bem fundamentada.

É que as palavras presentes na nossa flâmula vêm do lema positivista “Amor por princípio, Ordem por base e Progresso por fim”, do autor francês Auguste Comte. Mas a primeira parte foi suprimida. O resultado, sugere a letra e o clipe, é que, em tempos de polarização política, esquecemos de respeitar o outro e focamos em destruir seus argumentos (quando existem).

O álbum todo não deixa de ser um questionamento e uma provocação a reflexões em geral. Músicas para se ouvir no mar (“Navegando e Cantando”), personificações do brasileiro médio (“Opinião Pública”) e questões de relacionamento (“Violeta Violenta”, “Terra e Pá de Aço”) permeiam sua lista de faixas.

A banda até se arrisca em (bom) inglês na indie/alternativa “Monogame”, na autêntica “All You Said Was Never True”, na hard rock “Wolfpacks Bay” e no leve encerramento “It’s All Right to Sense Again”.

E é muito gratificante ver que os rapazes souberam criar uma instrumentação digna de carregar tais letras. Destaco principalmente o trabalho dos guitarristas Taba Kuntz (que também canta) e Nando Pontin. Na maioria das faixas, as guitarras efetivamente conversam, em vez de simplesmente se acompanharem num uníssono cru. Completam a formação Lucas Pontin (baixista) e Fernando Paulista (baterista).

Seja na já mencionada abertura, que invade nossos ouvidos com riffs tensos, ou na belíssima Navegando e Cantando, ou mesmo na estilosa “Opinião Pública”, o quarteto tem muitos ases em suas mangas e merece constar nas listas de melhores lançamentos nacionais do ano.

Nota = 5/5

Abaixo, o clipe de “Amor, Ordem e Progresso”:

* A resenha foi escrita após sugestão da banda.

Resenha: Tripa Seca – Tripa Seca

Reprodução da capa do álbum (© Super Discos)

O que acontece quando você reúne uma trupe de músicos experientes e oriundos das mais diversas vertentes? Se você gosta de música, sabe que a resposta é inexistente por sua imprevisibilidade. Pode sair uma joia ou um chorume.

Nesta resenha, falamos de uma joia. Joia esta que carrega o não tão refinado nome de Tripa Seca – estreia do projeto homônimo. “Projeto” porque os rapazes não querem se ver como banda. E o Tripa Seca soa mesmo mais como um encontro especial, em vez de uma banda no sentido mercadológico da palavra.

Sabe quando você revê os colegas de escola e percebe que os caminhos que cada um escolheu são muito distantes uns dos outros, mas você ainda aprecia cada minuto que passa ao lado deles? É mais ou menos esse o paralelo que posso estabelecer com a sonoridade deste quarteto formado por Renato Martins (vocais, guitarra), André Paixão (vocais, guitarra, teclados), Melvin Ribeiro (baixo) e Marcelo Callado (bateria, percussão) – todos músicos calejados do cenário underground carioca.

A primeira coisa que ouvimos (na abertura “Mil”) é uma garota aparentemente alcoolizada proferindo o nome do grupo como se fosse a coisa mais sensacional do mundo. Esse “sample“, por assim dizer, dita a tônica irreverente do disco.

Mas os acordes e a letra que se seguem – não só nesta primeira faixa, mas também na segunda, “Cicatrizes”, mostram que o álbum também sabe ser maduro. Indie, alternativo, pop e new wave chocam-se da mesma forma que colidiram nos anos 1980 no repertório do rock nacional.

E a banda também consegue ser musicalmente brasileira até dizer chega. E isso já nos fica claro na terceira, “Vai Que Eu Vou”, na qual ritmos caribenhos e nortistas dançam colados. “Never” tira proveito do trocadilho entre as palavras “neve” e “never” (nunca, em inglês). É bonitinha, mas confesso não ter paciência para ouvir a piada sendo repetida ao longo de cinco minutos de música lenta.

Inclusive, é nesta hora que o disco começa a intercalar velocidades. De lentas, temos a eletrônica e psicodélica “Universo Paralelo”, a melancólica “A Paisagem” e o progressivo encerramento “My Saturation”. E do outro lado: “Bipolar”, companheira musical de “Mil” e “Cicatriz”; e as urgentes “Na Palavra” e “Vai Com Deus”, com influências punk.

É em “Bipolar”, gostaria de ressaltar, que percebi o quanto a voz de Renato é parecida com a de Tato, do Falamansa, impressão esta que pode ter sido reforçada pelo acordeão de Fernando Bastos, presença notória nesta peça.

No grande encontro musical promovido pela Tripa Seca – falta só isso *gesto de ‘pouquinho’ com as mãos* para eu chamá-los acidentalmente de Trupe Seca – , quem ganha é todo mundo: os músicos, que nitidamente se divertiram produzindo a obra aos poucos, desde 2015; e os fãs, que ganham uma das melhores estreias nacionais de 2019.

Nota = 5/5.

Abaixo, o clipe de “Vai Que Eu Vou”:

* A resenha foi escrita após sugestão da assessoria de imprensa da banda.

Resenha: Behind the Mask Part I – Vikram

Reprodução da capa do álbum (© Rockshots Records)

Se alguém me falasse um tempo atrás que em 2019 uma banda brasileira lançaria um dos melhores discos de metal oriental que eu já ouvi, eu provavelmente responderia com uma sonora gargalhada.

Mas uma das coisas que faz a vida valer a pena ser vivida é justamente esse conjunto de surpresas que ela provê. E este trabalho do qual falo aqui surpreende por dois motivos: o mais óbvio é a improbabilidade mencionada no parágrafo anterior. O segundo é a qualidade de sua produção e o fato de ele ser apenas um elemento num universo conceitual que o grupo criou.

Explico: Behind the Mask: Part I (sim, parte 1) é parte de um projeto multimídia que envolve também um livro (o primeiro de uma trilogia), um RPG, um sample pack com vários dos sons exóticos utilizados nas músicas e um songbook com as transcrições do álbum inteiro para as cinco partes principais (voz, guitarra, baixo, teclado e bateria).

É um projeto tão abrangente que humildemente confesso que isto aqui é uma “resenha parcial”, pois está cobrindo apenas uma das partes que compõem todo o projeto.

A qualidade do disco em si é inquestionável, especialmente no que diz respeito à produção. A mixagem valoriza a pureza de cada instrumento dum jeito que raramente vemos em estreias nacionais, especialmente quando elas se arriscam em terrenos tão sofisticados quanto oriental metal progressivo.

Mas isso fica fácil de entender quando vemos que o Vikram é uma banda jovem, porém formada por músicos calejados, com décadas de experiência nos mais diversos projetos. Um deles, o líder do projeto, é o guitarrista Tiago Della Vega, reconhecido pelo Guiness como guitarrista mais rápido do mundo.

Mas tal título é de importância menor frente à grandeza dos riffs que ele entrega nas 14 canções que compõem a obra (sem contar uma bônus japonesa, que consiste numa versão da faixa título no idioma local). São frases que deixariam Michael Romeo (Symphony X) e Malek Ben Arbia (Myrath) com sorrisos em seus rostos.

O quinteto incorpora de forma bastante efetiva os elementos orientais, em particular egípcios, em sua música. Eles complementam o som de modo a se tornarem parte integrante real das composições, e não um mero adereço. É resultado de um processo nitidamente profissional e atento a detalhes.

Sem dúvidas, Behind the Mask: Part I merece espaço na lista de melhores lançamentos do metal nacional em 2019 e que merece atenção da imprensa internacional também.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo de “Requiem for Salem”: