Resenha: Transitus – Ayreon

Reprodução da capa do álbum 'Transitus', de Ayreon. Trata-se do nome do disco e do projeto em fonte estilizada e abrasiva, ante um fundo vermelho retratando um mar e um céu quase em chamas

Reprodução da capa do álbum (© Mascot Label Group)

Um período de três anos extremamente produtivos separam The Source, o fantástico nono álbum do Ayreon (clique aqui para conferir minha resenha a respeito), de Transitus, seu sucessor. Pela primeira vez, o gênio por trás do projeto, o holandês Arjen Anthony Lucassen, resolveu montar uma turnê, que rendeu até CDs e DVDs. Pena que o próprio não participou da maioria das apresentações…

E em 2020, encarou o desafio de, uma vez mais, aglomerar (mas a distância) um time de músicos de primeira para materializar o décimo lançamento da melhor metal opera de todas.

O time de vocalistas, desta vez, envolve vozes majoritariamente novas: Cammie Gilbert (Oceans of Slumber), Johanne James (Kyrbgrinder, Threshold), Caroline Westendorp (ex-The Charm the Fury), Paul Manzi (ex-Arena), Dee Snider (Twisted Sister), Amanda Sommerville (Trillium, HDK) e Dianne van Giersbergen (Ex Libris), sem contar o narrador Tom Baker (sim, o quarto Doctor Who).

Os “veteranos” da vez são Tommy Karevik (Kamelot, Seventh Wonder), Simone Simons (Epica), Marcela Bovio (Elfonia, MaYaN, ex-Stream of Passion) e Michael Mills (Toehider). Tommy e Michael, vale lembrar, aparecem pela terceira vez consecutiva, algo incomum no elenco vocal de Arjen.

No caso de Michael, é até compreensível, dada sua grande extensão vocal e sua capacidade de convencer como um pai frio e ausente (The Theory of Everything; clique aqui para ver minha resenha); como uma máquina (The Source) e agora como uma… estátua falante. Mas Tommy, em que pese ser um vocalista indiscutivelmente talentoso, não me parece merecer mais aparições que outras tantas grandes vozes.

Quando expressei minha leve decepção quanto a isto no post de Arjen anunciando o vocalista, ele se defendeu afirmando que, quando pensa num personagem, pensa num vocalista em particular, independentemente do sujeito ter aparecido anteriormente ou não. Então tá.

Completam as vozes Dan J. Pierson, Jan Willem Ketelaers, Lisette van den Berg, Marjan Welman, Will Shaw e Wilmer Waarbroek como os aldeões (só Arjen mesmo para precisar de “vocalistas figurantes”) e o coral Hellscore, regido por Noa Gruman.

Todas essas vozes nos contarão uma história fora do enredo usual do Ayreon, isto é, nada de alienígenas colonizando a Terra e observando o comportamento humano. Desta vez, temos uma história com aromas de Romeu e Julieta, na qual o protagonista Daniel (Tommy) já começa morrendo e é enviado pro submundo, onde ganha uma rara chance de repassar sua vida e tentar se reconectar com sua amada Abby (Cammie), injustamente acusada por sua morte.

Só que essa história não nos é contada apenas nas letras. Transitus envolve também uma…revista em quadrinhos! Sim, são mais de 20 páginas ilustradas por Felix Vega e cujo conteúdo eu infelizmente não tive acesso, motivo pelo qual chego a afirmar que esta é uma “resenha parcial”.

O time de instrumentistas tem, além de Arjen nas guitarras, baixo e teclados, algumas figurinhas carimbadas, como Joost van den Broek no órgão e piano; Ben Mathot no violino e Jeroen Goossens nas flautas.

Mas temos também algumas novidades interessantes, como Jurriaan Westerveld no violoncelo, Alex Thyssen na trompa, Thomas Cochrane no trompete e trombone, Patty Gurdy no Hurdy Gurdy e… Juan van Emmerloot na bateria! Ed Warby, praticamente um membro oficial dos projetos de Arjen, não empunhou as baquetas em Transitus porque quando o gênio começou a escrever as músicas, ele não achava que elas virariam um disco do Ayreon, então ele chamou outro baterista.

Os dois solistas ilustres da vez são Joe Satriani e Marty Friedman (ex-Megadeth), dois gigantes, mas… ainda apenas dois, ante os usuais quatro ou cinco, o que nos traz outra leve decepção.

Há pouco, eu disse que quando Arjen começou a escrever as músicas, ele achava que elas seriam para qualquer outra coisa que não algo do Ayreon. No fim, sabe-se lá por quê, ele colocou sua marca mais conhecida na capa, mas são notáveis as surpresas que o lançamento duplo nos reserva.

Começamos com a maior “abertura” da história do projeto. Alguns dirão que estou enganado, que “The Day That the World Breaks Down” (do The Source) era maior. Sim, mas esta era uma canção “convencional”, apesar do tamanho, não exatamente uma abertura. Mas “Fatum Horrificum” tem quase dez minutos de narração e de “preparação musical” para uns dois minutos de “enredo” de fato. Ganha pontos por mostrar logo de cara as diversas facetas que suas sucessoras nos mostrarão.

A primeira surpresa do álbum (se é que todo o conceito em volta dele já não é, por si só, uma grande surpresa) é “Listen to My Story”, cujo arranjo de metais deixaria o Diablo Swing Orchestra com inveja.

Acontece que “Listen to My Story” é parte de uma “tríade de novidades”. Ou quase. Explico: Depois dela, temos “Two Worlds, Now One”, com uma atmosfera deliciosamente soturna e, praticamente, jazz. E fechando esse trio, o single “Talk of the Town”, uma das faixas folk que Arjen sempre mete em seus discos do Ayreon. Exceto que desta vez o clima medieval é tamanho que parece um trabalho extraído do The Gentle Storm, o projeto meio folk, meio metal que Arjen lançou em 2014 com Anneke van Giersbergen (sem parentesco com Dianne).

Depois de “Dumb Piece of Rock”, que seria “só mais uma” não fosse Michael falando como uma estátua insegura de si mesma à qual Daniel recorre por ajuda, chega o single “Get Out! Now!”, provavelmente o ponto alto do Disco 1, quiçá da obra toda. Pudera, temos Dee Snider nos vocais principais (interpretando o pai do protagonista) e Joe Satriani num solo de guitarra de tirar o fôlego. E a última coisa que ouvimos na primeira metade é um etranhamente aliviante e reconfortante “you got this!” (você consegue!”), quase que sussurrado por Simone.

O Disco 2 impressiona menos e dilui mais (são 13 faixas contra 9 no anterior, sendo várias delas pouco mais que interlúdios), mas ainda tem muitos pontos altos, a começar pelo single “Hopelessly Sleeping Away”, cuja roupagem relativamente minimalista permite a Tommy e Cammie apresentarem um dueto de arrepiar a espinha.

“Message From Beyond”, a exemplo de “Two Worlds, Now One”, chega soturna e carregada quase que nas costas por uma irresistível e charmosíssima linha de baixo e, claro, pelo solo de Marty Friedman. Junto ao single mencionado no parágrafo anterior, é o ponto alto da segunda metade.

Um dos melhores clichês do Ayreon acabou não utilizado aqui: um encerramento com todos os personagens reprisando falas suas (embora a última faixa, “The Great Beyond”, recupere riffs de “Talk of the Town”). Dada a história singular, é bastante compreensível. Falando em reprises, “Your Story Is Over” (a antepenúltima) reprisa “Listen to My Story”, só que desta vez a letra vem na perspectiva de Abby.

Embora a narrativa seja apresentada daquele jeito bem objetivo e típico dos projetos do Arjen, temos aqui nuances e detalhes que enriquecem a poesia, como o verso de “Get Out! Now!” em que Daniel chama o pai de “twisted” (algo como “distorcido”, “anormal”), em óbvia referência à banda de Dee Snider, Twisted Sister. Ou então em “Listen to My Story”, quando Daniel pergunta à Anja da Morte quem “diabos” ela é.

Por sua natureza singular e pela presença de elementos inéditos, Transitus pode ser talvez a obra mais ambiciosa do projeto e, ao mesmo tempo (ou talvez por conta disso) uma das mais difíceis de digerir. De qualquer forma, repete o feito da maioria de suas antecessoras: será presença obrigatória nas listas de melhores lançamentos de 2020 – pelo menos naquelas que não forem criadas só para fazer média com gravadoras.

Avaliação: 5/5.

Abaixo, um clipe especial de um medley centrado em “Listen to My Story”:

Resenha: Resist – Within Temptation

reprodução da capa do álbum 'resist', do within temptation. Trata-se de uma figura humanoide e robótica na beira de um edifício e com uma grande capa vermelha esvoaçante vista pela esquerda e contemplando uma esfera luminosa em sua mão direita, com uma cidade ao fundo durante uma noite chuvosa

Reprodução da capa do álbum (© Daccar Records)

É forte a mensagem transmitida por Resist, sétimo álbum de estúdio do septeto de metal sinfônico holandês Within Tempation. Seu título diz respeito não apenas à sua temática em geral, mas também aos acontecimentos que o moldaram.

O mais notável deles foi o bloqueio criativo da vocalista Sharon den Adel, que a deixou “apagada” por um tempo e cuja recuperação teve início com o lançamento de um projeto pessoal, My Indigo (cujo disco de estreia foi resenhado neste blog), marcado por um pop eletrônico genérico e esquecível.

O projeto, embora mediano, parece ter tido significativa influência em Resist, pois a incursão no pop com a qual a banda já brinca há um bom tempo alcançou níveis mais altos aqui, o que se revela uma faca de dois gumes. Numa primeira audição, muitas músicas parecem variações delas mesmas, numa versão musical do meme “-Posso copiar seu trabalho? -Pode, só não faz igual”. Além disso, mesmo após várias audições, no máximo metade das faixas são realmente memoráveis (talvez o problema mais grave aqui).

Por outro lado, temos aqui uma proposta clara e coerentemente executada, e as roupagens pop ajudam a manter o som coeso, como uma corrente. Com canções que falam, basicamente, sobre resistência (dã!), enfrentamento e inconformismo, Resist se mostra uma trilha sonora adequada para os tempos sociopolíticos tenebrosos que o mundo enfrenta e tem um tom crítico equiparável ao ambientalista Mother Earth, de 2000.

O álbum até abre bem com “The Reckoning”, que já traz uma das três participações especiais: Jacoby Shaddix, do Papa Roach. O grupo afirmou em entrevista ao Heavy Metal Headquarters que o chamou para dar à canção uma ira misturada a vulnerabilidade – e foi exatamente o que conseguiram.

O septeto perde o gás já na sequência, a fraca “Endless War”, mas o recupera no single “Raise Your Banner”, uma das mais emblemáticas da temática de resistência e adoçada com a participação de Anders Fridén, do In Flames; em “Supernova”, poderosa homenagem ao pai de Sharon, falecido há um ano; e em “Holy Ground”.

Perdemos a empolgação de novo com as monótonas “In Vain” e “Firelight” – esta última foi originalmente composta para o My Indigo e deveria ter ficado por lá mesmo, uma vez que nem o simpático Jasper Steverlinck (Arid, Guilt Machine) consegue torná-la interessante, em que pese sua levada singelamente tribal.

A tríade final é o ponto alto da obra: primeiro, a industrial “Mad World”. Depois, ironicamente, o momento mais pop de todos, “Mercy Mirror”, mas que também é quando parece haver maior entrega da banda. Mais ironicamente ainda, ele é sucedido justamente pelo momento mais metal, e talvez justamente por isso a melhor faixa, “Trophy Hunter”.

Resist tem menos músicas memoráveis que a média da discografia do Within Temptation, e tem também menos espaço para as (três!) guitarras. Fora um solo em “Raise Your Banner”, umas passagens faroesteanas em “Firelight” e um punhado riffs mais fortes aqui e ali, elas parecem constantemente sufocadas pelas camadas vocais, pelas orquestrações e pelos teclados.

Falando em teclados, é estranho que um grupo de metal sinfônico lance um produto em que metade das faixas começa com melodias eletrônicas. Sinal de um novo direcionamento sonoro? Resquício do My Indigo? Jogada comercial? Evidência de que o bloqueio criativo ainda não acabou por completo? Tentativa de se distanciar do ótimo Hydra (resenhado neste blog), que encantou a crítica mas dividiu os fãs? Provavelmente, um pouco de cada.

O disco é bom por ser fruto do trabalho de uma banda ótima, mas acaba derrotado pela maioria dos antecessores. Mesmo assim, não posso deixar de destacar a capacidade e a coragem que o Within Temptation tem para se arriscar, independentemente do resultado ser feliz ou não. Eu diria que eles estão para o metal sinfônico assim como o Sonata Arctica está para o power metal.

Nota = 3/5

Abaixo, o lyric video de “Raise Your Banner”:

Resenha: My Indigo – My Indigo

capa do álbum My Indigo de My Indigo, projeto paralelo de Sharon den Adel. A imagem mostra a cantora sentada num gramado, de pernas cruzadas, olhando para a câmera, com um cão sentado atrás e à esquerda dela e sendo afagado por ela.

Reprodução da capa do álbum (© BMG Rights Management)

Após uma divulgação inicialmente desastrosa nas redes sociais, que levou muitos fãs a perderem os cabelos (quem não se lembra do “Official Sharon den Adel statement coming soon…” com fundo preto publicado em novembro de 2017?), a cantora holandesa Sharon den Adel tratou de acalmar seus fãs, que normalmente a conhecem por seu trabalho à frente do septeto de metal sinfônico Within Temptation. O que ela tinha para anunciar era nada mais, nada menos que seu primeiro projeto solo.

Muitas vezes, artistas usam carreiras solo paralelas a suas bandas principais para explorarem gêneros com os quais normalmente não lidam. Contudo, digamos que, com My Indigo, Sharon resolveu chutar o balde mesmo.

My Indigo é um disco de pop, puro e simples. Ou quase puro, pois temos um violãozinho aqui e um violoncelinho lá. Mas não tem praticamente nenhuma relação musical com o som que ela desenvolve com o Within Temptation.

Em termos de criatividade, o álbum é fraquíssimo. Uma salada de modismos pop quase totalmente desprovida de momentos verdadeiramente empolgantes ou impactantes. Alguns virão com adjetivos desesperados para tentar colocar o trabalho lá em cima. “Intimista”, “vulnerável”, “introspectivo”, etc. Mas não há etiqueta que se pendure nele que possa esconder a superficialidade de seu som.

Mas My Indigo tem um outro fator que compensa tudo isso. Trata-se de um diferencial bastante difícil de bater: o canto de Sharon. Se ela não fosse dona de uma das melhores vozes femininas em atividade, este projeto seria tão descartável quanto 90% das músicas mais tocadas nas rádios brasileiras.

Pode soar como chuva no molhado, mas a artista é responsável por manter os próprios fãs atentos ao disco do começo ao fim. Claro que os mais conservadores provavelmente o desprezarão logo nos primeiros minutos, se é que chegarão a ouvi-lo.

Mas aí eles deixarão de acompanhar a evolução do álbum, que começa a ficar melhor a partir da terceira faixa, “Black Velvet Sun”. Não que o pop fácil ceda espaço para algo um pouco mais elaborado. Apenas ocorre que as composições ficam mais cativantes e permitem uma exibição melhor da vocalista.

E, ao mesmo tempo em que as canções soam todas artificiais, é improvável que você não encontre ao menos uma ou duas para chamar de “suas”, pois elas são todas bem independentes entre si, como manda o manual do pop – não por um acaso, será o primeiro gênero a abandonar a lógica do álbum.

Nota = 3/5.

Abaixo, o vídeo de “My Indigo”: