Resenha: Resist – Within Temptation

reprodução da capa do álbum 'resist', do within temptation. Trata-se de uma figura humanoide e robótica na beira de um edifício e com uma grande capa vermelha esvoaçante vista pela esquerda e contemplando uma esfera luminosa em sua mão direita, com uma cidade ao fundo durante uma noite chuvosa

Reprodução da capa do álbum (© Daccar Records)

É forte a mensagem transmitida por Resist, sétimo álbum de estúdio do septeto de metal sinfônico holandês Within Tempation. Seu título diz respeito não apenas à sua temática em geral, mas também aos acontecimentos que o moldaram.

O mais notável deles foi o bloqueio criativo da vocalista Sharon den Adel, que a deixou “apagada” por um tempo e cuja recuperação teve início com o lançamento de um projeto pessoal, My Indigo (cujo disco de estreia foi resenhado neste blog), marcado por um pop eletrônico genérico e esquecível.

O projeto, embora mediano, parece ter tido significativa influência em Resist, pois a incursão no pop com a qual a banda já brinca há um bom tempo alcançou níveis mais altos aqui, o que se revela uma faca de dois gumes. Numa primeira audição, muitas músicas parecem variações delas mesmas, numa versão musical do meme “-Posso copiar seu trabalho? -Pode, só não faz igual”. Além disso, mesmo após várias audições, no máximo metade das faixas são realmente memoráveis (talvez o problema mais grave aqui).

Por outro lado, temos aqui uma proposta clara e coerentemente executada, e as roupagens pop ajudam a manter o som coeso, como uma corrente. Com canções que falam, basicamente, sobre resistência (dã!), enfrentamento e inconformismo, Resist se mostra uma trilha sonora adequada para os tempos sociopolíticos tenebrosos que o mundo enfrenta e tem um tom crítico equiparável ao ambientalista Mother Earth, de 2000.

O álbum até abre bem com “The Reckoning”, que já traz uma das três participações especiais: Jacoby Shaddix, do Papa Roach. O grupo afirmou em entrevista ao Heavy Metal Headquarters que o chamou para dar à canção uma ira misturada a vulnerabilidade – e foi exatamente o que conseguiram.

O septeto perde o gás já na sequência, a fraca “Endless War”, mas o recupera no single “Raise Your Banner”, uma das mais emblemáticas da temática de resistência e adoçada com a participação de Anders Fridén, do In Flames; em “Supernova”, poderosa homenagem ao pai de Sharon, falecido há um ano; e em “Holy Ground”.

Perdemos a empolgação de novo com as monótonas “In Vain” e “Firelight” – esta última foi originalmente composta para o My Indigo e deveria ter ficado por lá mesmo, uma vez que nem o simpático Jasper Steverlinck (Arid, Guilt Machine) consegue torná-la interessante, em que pese sua levada singelamente tribal.

A tríade final é o ponto alto da obra: primeiro, a industrial “Mad World”. Depois, ironicamente, o momento mais pop de todos, “Mercy Mirror”, mas que também é quando parece haver maior entrega da banda. Mais ironicamente ainda, ele é sucedido justamente pelo momento mais metal, e talvez justamente por isso a melhor faixa, “Trophy Hunter”.

Resist tem menos músicas memoráveis que a média da discografia do Within Temptation, e tem também menos espaço para as (três!) guitarras. Fora um solo em “Raise Your Banner”, umas passagens faroesteanas em “Firelight” e um punhado riffs mais fortes aqui e ali, elas parecem constantemente sufocadas pelas camadas vocais, pelas orquestrações e pelos teclados.

Falando em teclados, é estranho que um grupo de metal sinfônico lance um produto em que metade das faixas começa com melodias eletrônicas. Sinal de um novo direcionamento sonoro? Resquício do My Indigo? Jogada comercial? Evidência de que o bloqueio criativo ainda não acabou por completo? Tentativa de se distanciar do ótimo Hydra (resenhado neste blog), que encantou a crítica mas dividiu os fãs? Provavelmente, um pouco de cada.

O disco é bom por ser fruto do trabalho de uma banda ótima, mas acaba derrotado pela maioria dos antecessores. Mesmo assim, não posso deixar de destacar a capacidade e a coragem que o Within Temptation tem para se arriscar, independentemente do resultado ser feliz ou não. Eu diria que eles estão para o metal sinfônico assim como o Sonata Arctica está para o power metal.

Nota = 3/5

Abaixo, o lyric video de “Raise Your Banner”:

Resenha: My Indigo – My Indigo

capa do álbum My Indigo de My Indigo, projeto paralelo de Sharon den Adel. A imagem mostra a cantora sentada num gramado, de pernas cruzadas, olhando para a câmera, com um cão sentado atrás e à esquerda dela e sendo afagado por ela.

Reprodução da capa do álbum (© BMG Rights Management)

Após uma divulgação inicialmente desastrosa nas redes sociais, que levou muitos fãs a perderem os cabelos (quem não se lembra do “Official Sharon den Adel statement coming soon…” com fundo preto publicado em novembro de 2017?), a cantora holandesa Sharon den Adel tratou de acalmar seus fãs, que normalmente a conhecem por seu trabalho à frente do septeto de metal sinfônico Within Temptation. O que ela tinha para anunciar era nada mais, nada menos que seu primeiro projeto solo.

Muitas vezes, artistas usam carreiras solo paralelas a suas bandas principais para explorarem gêneros com os quais normalmente não lidam. Contudo, digamos que, com My Indigo, Sharon resolveu chutar o balde mesmo.

My Indigo é um disco de pop, puro e simples. Ou quase puro, pois temos um violãozinho aqui e um violoncelinho lá. Mas não tem praticamente nenhuma relação musical com o som que ela desenvolve com o Within Temptation.

Em termos de criatividade, o álbum é fraquíssimo. Uma salada de modismos pop quase totalmente desprovida de momentos verdadeiramente empolgantes ou impactantes. Alguns virão com adjetivos desesperados para tentar colocar o trabalho lá em cima. “Intimista”, “vulnerável”, “introspectivo”, etc. Mas não há etiqueta que se pendure nele que possa esconder a superficialidade de seu som.

Mas My Indigo tem um outro fator que compensa tudo isso. Trata-se de um diferencial bastante difícil de bater: o canto de Sharon. Se ela não fosse dona de uma das melhores vozes femininas em atividade, este projeto seria tão descartável quanto 90% das músicas mais tocadas nas rádios brasileiras.

Pode soar como chuva no molhado, mas a artista é responsável por manter os próprios fãs atentos ao disco do começo ao fim. Claro que os mais conservadores provavelmente o desprezarão logo nos primeiros minutos, se é que chegarão a ouvi-lo.

Mas aí eles deixarão de acompanhar a evolução do álbum, que começa a ficar melhor a partir da terceira faixa, “Black Velvet Sun”. Não que o pop fácil ceda espaço para algo um pouco mais elaborado. Apenas ocorre que as composições ficam mais cativantes e permitem uma exibição melhor da vocalista.

E, ao mesmo tempo em que as canções soam todas artificiais, é improvável que você não encontre ao menos uma ou duas para chamar de “suas”, pois elas são todas bem independentes entre si, como manda o manual do pop – não por um acaso, será o primeiro gênero a abandonar a lógica do álbum.

Nota = 3/5.

Abaixo, o vídeo de “My Indigo”:

Resenha: In This Moment We Are Free – Cities – VUUR

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

Dona de uma das melhores vozes do metal atual, a holandesa Anneke van Giersbergen anunciou há um ano seu novo projeto: VUUR, que pode significar “fogo” ou “paixão” em sua língua materna. O objetivo era canalizar o seu lado prog metal. Para isso, ela recrutou basicamente o mesmo time de músicos que já a acompanhava no The Gentle Storm e em sua banda de apoio: Jord Otto e Ferry Duijsens nas guitarras, Johan van Stratum no baixo e Ed Warby na bateria. Uma formação que, além de conter profissionais de primeira, começa já bem azeitada devido aos anos de shows.

A proposta do álbum de estreia do quinteto, In This Moment We Are Free – Cities, é falar de 11 das muitas cidades que Anneke já visitou durante turnês: o Brasil se vê representado pelo Rio de Janeiro na quinta faixa. Assim, temos uma diversidade musical razoável para um disco de poucos músicos que mal se utiliza de outros instrumentos além do básico.

“My Champion”, inspirada por Berlim, é um ótimo cartão de visitas para o lançamento, com um refrão carregado de emoção, especialidade de Anneke. Esta forma de fazer música será ouvida novamente em “The Martyr and the Saint”, inspirada por Beirute, uma faixa mais complexa quase toda em compasso ternário; “Sail Away” (Santiago), que reúne alguns dos melhores riffs do álbum; “Valley of Diamonds” (Cidade do México); e a dupla de encerramento “Save Me” (Istambul) e Reunite! (Paris), com alguns pontos altos da vocalista aqui, se é que é possível pinçar destaques num disco que gira em torno do seu canto. Há também faixas mais cruas, como “Time” (Roterdã), “The Fire” (São Francisco) e “Days Go By” (Londres).

“Freedom”, a homenagem ao Rio de Janeiro, traz um clima relativamente leve, alegre e orgânico, com a ajuda de uma guitarra sem distorções. Um trabalho condizente com a magia da Cidade Maravilhosa. Mas não corra para ela esperando sentir algum aroma de samba ou bossa nova – em nenhum momento a banda se propõe a incorporar elementos musicais locais nas canções. Não vou me atrever a analisar o mérito das demais faixas enquanto obras de arte inspiradas por localidades específicas, pois não conheço bem nenhuma das cidades selecionadas, embora já tenha tido o prazer de visitar algumas.

O destaque aqui, como não poderia deixar de ser, é a própria Anneke, novamente mostrando por que é dona de uma das vozes mais queridas do gênero. Já o resto do grupo, embora bastante competente, acaba não sendo muito mais do que uma banda de apoio, exceto por um ou outro solo de guitarra mais elaborado, o que faz o trabalho parecer repetitivo para quem ouvi-lo poucas vezes. Vale pensar em algo mais denso e verdadeiramente progressivo para um futuro lançamento.

Nota = 4/5. Anneke brilha em In This Moment We Are Free – Cities de uma forma acima da média para seu já rico currículo e o disco, que propôs uma ideia bem interessante, comportou bem seu talento. São poucas as arestas para aparar para um possível sucessor, sendo que o aspecto mais importante é o papel da ala instrumental do quinteto – exceto o baterista Ed Warby, que como sempre, se mostrou uma máquina.

Abaixo, o vídeo de “My Champion – Berlin”: