Resenha: Noise Floor – Spock’s Beard

Reprodução da capa do álbum Noise Floor, da banda de rock progressivo Spock's Beard. Trata-se de uma esfera semi-enterrada num solo dourado e cercada por trâs triângulos sobrepostos, enquanto arcos de luz saltam da superfície e raios de luz emergem da esfera em direção aos céus

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

Com a volta do baterista Nick D’Virgilio (ainda que como músico de apoio, apenas), o quarteto estadunidense de rock progressivo Spock’s Beard tinha tudo para lançar mais um ótimo disco – e assim o fez.

Bom do começo ao fim, Noise Floor parece ter sido gravado numa tacada só, sem pausas nem segundas tomadas. As faixas fluem com relativa naturalidade e a ausência de peças épicas (a campeã, “Have We All Gone Crazy Yet”, mal passa dos oito minutos) não compromete a sofisticação esperada de uma banda como essa. É verdade que elas fazem falta, mas antes isso do que, apenas com o intuito de satisfazer dogmas não-escritos do gênero, esticar uma música que não nasceu com vocação para ser grande.

Afinal, os ritmos intrincados, os solos, as camadas de vocais e teclados, as variações de climas, tudo isso está garantido, especialmente em faixas como “One So Wise”, “Beginnings” e a longa supracitada.

Ao mesmo tempo, a coesão do disco não inibe o charme particular de algumas canções. A abertura “To Breathe Another Day”, por exemplo, além de fazer o álbum começar com tudo, demonstra aquela incorporação de elementos pop no prog como só eles e o Flying Colors sabem fazer. “So This Is Life”, por sua vez, mostra um Spock’s Beard despretensioso e minimalista, evocando as fases mais melódicas dos Beatles em alguns momentos.

Não bastassem as oito ótimas faixas, temos ainda um EP-anexo de nome Cutting Room Floor, composto por quatro “sobras” resultantes dos ensaios para o disco. O que elas têm a menos que as oito selecionadas para o CD principal, só eles sabem. Por isso, é de se louvar que tenham tido a sensibilidade de não relegá-las ao esquecimento – os fãs agradecem.

Como sempre, os talentos individuais dos integrantes são peças-chave na construção do sucesso de Noise Floor. Alan Morse e Dave Meros trabalham para que a guitarra e o baixo dialoguem, e não apenas soem em coro. Dave pode ser ouvido quase o tempo todo, às vezes até mais do que Alan, sem que isso soe forçado.

Ryo Okumoto, por sua vez, segue dando um show à parte com os teclados que o cercam. Seja com o órgão, seja com um sintetizador para passagens eletrônicas, ele ora dialoga com a guitarra, ora com o baixo, ora com o vocal, ora faz o pano de fundo. E sempre com máxima eficiência. Seu ponto alto em, sem sombra de dúvidas, é o instrumental “Box of Spiders”.

Nick D’Virgilio, baterista de qualidade equiparável a um Mike Portnoy, entrega uma performance acima da crítica enquanto Ted Leonard mantém a tradição de vocais melódicos e carregados de emoção da banda.

Por tudo isso, afirmo com segurança que, antes do meio do ano, já conhecemos um dos integrantes das listas de melhores lançamentos prog de 2018 – e olha que estamos falando dum ano que ainda verá um trabalho solo de Michael Romeo e a estreia do supergrupo The Sea Within.

Nota = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “To Breathe Another Day” (alô, Inside Out! Os caras mereciam algo mais profissional, não?):

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Resenha: Cold Like War – We Came as Romans

Reprodução da capa do álbum (© SharpTone Records)

Depois de lançar um chato álbum autointitulado (resenhado neste blog), o sexteto estadunidense We Came as Romans aparenta querer voltar para o bom electronicore em Cold Like War, seu quinto lançamento de estúdio, e o primeiro pela SharpTone e com o baterista David Puckett.

A abertura “Vultures with Clipped Wings” empolga – mas a primeira música do disco anterior fazia o mesmo e suas sucessoras colocavam a expectativa gerada a perder. Não é o que acontece aqui, pois depois dela, temos a também ótima faixa título. E, no decorrer da tracklist, teremos mais ótimos momentos como “Foreign Fire”, “Wasted Age” e “Encoder”.

Mas a aventura pop não ficou no passado. Praticamente todo o álbum passeia livremente entre o pop e o metal, variando a dosagem de cada um dos gêneros conforme a faixa – lembrando que o electronicore mistura metal com eletrônico, não necessariamente com pop. A qualidade delas também varia, indo do ótimo ao descartável, como a fraca “Promise Me”. É a banda em processo de busca por um som próprio – ou pelo menos é isso o que ela dizia ao divulgar o novo trabalho.

Na tentativa de fugir de simplismos, não vou me limitar a colocar as peças mais puxadas para o metal ou para o pop em duas pontas de uma gangorra, ver qual lado pesa mais e usar isso com critério principal para avaliar a obra como um todo. Limitar-me-ei a louvar a recuperação das raízes antes abandonadas e reconhecer o esforço do grupo em experimentar variações dentro do gênero.

Nota = 4/5. Mesmo que Cold Like War não seja uma pérola, já é um grande alento ver que o We Came as Romans pulou fora da barca furada que é a “linkinparkização” do electronicore. Entende-se que o disco anterior foi, realmente, apenas uma fase. Quem sabe eles não sejam imitados por outras bandas que trilhando o mesmo caminho perigoso, como o I See Stars e o Asking Alexandria (este último, por exemplo, acabou de lançar um trabalho bem fraquinho e representativo dessa tendência).

Abaixo, o vídeo de “Cold Like War”:

Resenha: Psychotic Symphony – Sons of Apollo

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music/Sony)

Nesta vida, só temos três certezas: a morte, o especial Roberto Carlos de final de ano na Globo e que o baterista Mike Portnoy montará alguma banda (geralmente, um supergrupo). Em 2017, o nome da vez é Sons of Apollo, no qual ele se junta ao vocalista Jeff Scott Soto (Trans Siberian Orchestra, Talisman, ex-Journey, ex-Yngwie Malmsteen, ex-Axel Rudi Pell); o guitarrista Ron “Bumblefoot” Thal (Art of Anarchy, ex-Guns N’ Roses); o baixista Billy Sheehan (The Winery Dogs, Mr. Big, ex-David Lee Roth, B’z); e o tecladista Derek Sherinian (Black Country Communion, ex-Dream Theater, ex-Alice Cooper, ex-Platypus, ex-Yngwie Malmsteen, ex-Kiss).

Eles nasceram como uma promessa do metal progressivo, mas acabaram se revelando a melhor mistura de progressivo com hard desde os tempos áureos do Rush. Não chega a ser uma surpresa, vide o currículo dos membros. E se o álbum de estreia deles, Psychotic Symphony, não é uma joia histórica como algumas críticas vêm pintando, também está longe de ser chato ou repetitivo como as resenhas mais negativas acusam.

Cada um dos cinco integrantes está bem dosado ao longo do disco, sem que houvesse uma disputa irracional por destaque, especialmente por parte de Bumblefoot, Billy e Derek. O bom entrosamento entre eles é parcialmente explicado pelo fato de muitos já terem trabalhado juntos: Mike e Derek no Dream Theater; Mike, Derek e Billy no P.S.M.S.; Mike e Billy no The Winery Dogs; Mike e Bumblefoot no Metal Allegiance. E o legal é poder ouvir cada um deles em ação e reconhecer logo de cara seus timbres e estilos característicos.

Após ouvir a faixa de abertura, a épica “God of the Sun”, você pode até se perguntar onde está o tal do hard rock. Mas você já encontrará elementos do dito-cujo em “Coming Home”, que recebeu um vídeo. Ou em “Signs of the Time”, que por mais que abra com um riff à la Sepultura e tenha uma passagem instrumental longa e bem fritada, abraça fortemente o rock clássico em seu refrão. E ainda na radiofônica (conforme os próprios membros admitem) “Alive”, na qual temos um riff que parece extraído de alguma banda de rock alternativo do início do século. E por fim, cito “Divine Addiction”, que escancara a influência que Derek sofre do saudoso Jon Lord. Ela é precedida pelo breve prelúdio “Figaro’s Whore”, um “momento Eruption” do tecladista.

Mas sim, é um álbum essencialmente progressivo. Além da abertura supracitada, também fazem questão de deixar isso bem claro a épica “Labyrinth”, na qual Derek finalmente amplia o leque de possibilidades que seu instrumento lhe proporciona, e “Lost in Oblivion”, em que Jeff parece estar numa outra dimensão com seu vocal hard rock colocado em cima de um instrumental prog bem fritado. Mas, ei, é disso que se trata o supergrupo, não é mesmo?

A faixa de encerramento, segunda mais longa e batizada com o pomposo título “Opus Maximus”, dá um descanso a Jeff e põe os quatro instrumentistas para trabalhar ininterruptamente por 10 minutos e 30 segundos. A despeito do nome que lhe foi dado, não supera as outras duas épicas, o que não a torna ruim de forma alguma – nada neste disco é ruim. Aliás, o que é aquela linha de baixo aos 4:40? Billy parece incorporar plenamente a alma de Geddy Lee, que nem morto está (graças a Dio).

Psychotic Symphony é aquilo que você espera dele: uma demonstração de potência por parte de seu estrondoso time que resultou em nove ótimas peças. Mas não há nada aqui que o torne um candidato a “disco da década” ou algo assim. Talvez num próximo lançamento, já com uma comunidade sólida de fãs e com uma química ainda melhor, o quinteto ouse mais e fuja dos clichês dos gêneros – aqueles que motivaram as críticas negativas.

Nota = 4/5. Por que dar nota alta a um trabalho que não é uma joia, um clássico instantâneo? Porque eu, pelo menos, não vi nenhum membro prometendo isto. Vi cinco “tiozões” do rock/metal aceitando o desafio de se juntarem numa empreitada que exigiu foco e dedicação e, por esse exato motivo, não é chamado de “projeto” por eles, já que o termo normalmente é usado para iniciativas paralelas a algo maior. Sons of Apollo foi criado com a promessa de ser uma banda de tempo integral e isso abre a possibilidade de álbuns melhores chegando antes do que esperamos.

Abaixo, o vídeo de “Lost in Oblivion”: