Resenha: Father of All Motherfuckers – Green Day

Reprodução da capa do álbum (© Reprise)

Em 2014, Taylor Hawkins, baterista do então quinteto de rock alternativo Foo Fighters, usou em entrevista ao site The Music uma forma bastante peculiar e direta para se referir ao então novo álbum do U2, Songs of Innocence: “um peido” (tivemos opinião um pouco diferente e você pode conferi-la aqui).

O que todos esses artistas têm a ver com Father of All Motherfuckers, novo trabalho de estúdio do trio estadunidense de “punk” Green Day? Bem, sem receios de publicar o que pode ser uma das resenhas mais polêmicas da história do Sinfonia de Ideias, eu pego emprestada a terminologia de Taylor e atribuo-a à obra em questão.

A definição “peido” que eu uso aqui se deve primeiramente ao fato de ser um lançamento extremamente curto – um verdadeiro EP disfarçado. Posso mencionar dezenas de músicas de rock progressivo mais longas que essas dez faixas somadas.

Mas há mais semelhanças com a flatulência. Peidar é um ato divertidíssimo pra quem o comete. Mas pra quem está do lado, é desagradável. Você fica lá, rindo sozinho, e as pessoas em volta só têm olhares de julgamento e reprovação.

Foi mais ou menos a mesma cena quando eles foram lançando seus singles pouco a pouco e os fãs e a crítica apenas se entreolhavam, perguntando-se o que havia acontecido com os rapazes.

A direção musical vem ao encontro de uma das propostas do álbum, que é “o estilo de vida de cagar pra tudo”. Claramente, o trio cagou para crítica, fãs, sua própria história, enfim. Exemplo disso é o fato de terem reaproveitado parcialmente a capa do clássico American Idiot (2004). Chega a ser ofensivo…

Outro problema do disco é que quando uma banda como o Green Day – historicamente associada ao gênero punk, quer queira quer não – anuncia algo com um título tão “agressivo” como “Father of All Motherfuckers” (Pai de Todos os Filhos da Puta, em tradução livre), você espera no mínimo algo crítico, ácido, agressivo, enfim, com algum tipo de atitude.

Mas o que vemos é um mar de canções (ou não – já falei da extrema brevidade?) nas quais Billie Joe Armstrong tenta acenar para um público jovem – do alto dos seus nem um pouco aparentes quase 50 anos de idade. Há críticas de sobra nas letras, é verdade, mas todas ganham tom de caricatura ante a instrumentação “moderninha”.

No final das contas, só três momentos empolgam: o rock and roll cinquentista “Stab You in the Heart” e as relativamente densas e maduras “Meet You on the Roof” e “Junkies on a High”. O resto? Bem, como todo peido, dissipa-se e é esquecido. E é só isto que tenho a dizer sobre esta peça.

Nota = 2/5.

Abaixo, o clipe de “Father of All…”:

Resenha: MMXX – Sons of Apollo

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music/Sony)

Em 2020, estão de volta os Sons of Apollo, a tropa de elite musical formada pelo vocalista Jeff Scott Soto (Trans Siberian Orchestra, Talisman, ex-Journey, ex-Yngwie Malmsteen, ex-Axel Rudi Pell), o guitarrista Ron “Bumblefoot” Thal (Art of Anarchy, ex-Guns N’ Roses), o baixista Billy Sheehan (The Winery Dogs, Mr. Big, ex-David Lee Roth, B’z), o tecladista Derek Sherinian (Black Country Communion, ex-Dream Theater, ex-Alice Cooper, ex-Platypus, ex-Yngwie Malmsteen, ex-Kiss) e o baterista Mike Portnoy (ex-Dream Theater, Transatlantic, The Neal Morse Band, The Winery Dogs, Flying Colors, ex-Adrenaline Mob).

É daqueles supergrupos que, se postarem uma foto nas redes sociais, o peso do arquivo esgota a internet de metade dos seguidores. A estreia deles, Psychotic Symphony (clique aqui para conferir minha resenha a respeito), não foi uma obra-prima, mas com certeza não depôs contra o currículo de todos os membros.

Em MMXX, o desafio era aquele típico de segundos álbuns: superar-se. E eles conseguiram. Esteticamente falando, fizeram algo igualmente bem-vindo: tiraram o Sons of Apollo da antiguidade mitológica sugerida pela capa do trabalho de 2017 e trouxeram-no direto para a terceira década deste século. É exatamente este o objetivo por trás da capa, que traz o emblema da banda todo modernizado.

Fazer melhor que antes não era lá uma missão impossível. Todo grupo com um mínimo de competência demonstra do primeiro para o segundo disco uma evolução no entrosamento, se a formação tiver se mantido. E alguém aqui vai colocar em questão a competência desses caras? Não? Ninguém? Ufa.

Eles mantiveram o que funcionou na estreia, que foi a difícil combinação de “espaço igual para todos os membros” e “músicas executadas com força total”. Em outras palavras, nenhum membro rouba o espaço do outro e ao mesmo tempo todos arrebentam e confirmam o prestígio que têm em cada uma de suas funções. É o melhor de cada um na forma de riffs, solos, viradas e berros.

A abertura e primeiro single “Goodbye Divinity” tem aromas, especialmente em sua introdução, de “New Millenium”, uma das poucas músicas da era Sherinian do Dream Theater. “Wither to Black” e “Asphyxiation” chegam logo depois, têm alguns dos melhores solos e são diretas até para os padrões do quinteto.

O clima, a dinâmica e os riffs de “King of Delusion” flertam perigosamente com os de “Black Utopia”, encerramento do álbum solo de mesmo nome que Derek Sherinian lançou em 2003. Mas isto não tira dela o direito de constar entre os destaques. Curiosamente, “Black Utopia” também teve a participação de Billy Sheehan. Outra característica marcante dela é ser iniciada por um concerto sombrio e lisztiano ao piano de Derek. Sua concisão a torna mais interessante até que “New World Today”, o épico encerramento do qual falarei mais adiante no texto.

“Fall to Ascend” parece ser a manifestação de alguém que sofre a tão temida ansiedade. Seu solo se aproxima do metal neoclássico e a coloca na mesma turma de “Wither to Black” e “Asphyxiation”. E a ótima “Resurrection Day” é uma típica peça curta progressiva, com direito a um dos melhores duelos.

“Desolate July” é uma homenagem a David Z., o baixista do Trans-Siberian Orchestra e do Adrenaline Mob que morreu em 2017 num acidente envolvendo o ônibus da turnê desta última. Ele era conhecido de todos da banda, em maior ou menor grau. Ao modo deles, os rapazes executam o único momento da obra toda que podemos considerar como “balada” – ah, se todas fossem assim… autênticas, emocionantes e sem abrir mão da identidade do artista em favor de comercialismos baratos. E faço questão de destacar o trabalho magistral que Derek faz aqui nos teclados, evocando “New Millenium” em alguns momentos mais uma vez.

O épico encerramento “New World Today”… bem, é evidentemente acima da média, não só deles, mas do metal em geral. Só que a própria “King of Delusion” se mostrou superior a ela. Os quase 16 minutos parecem desnecessários, tornando-a uma daquelas famosas faixas “esticadas, não longas”. Ela é intensa e matadora, mas… algum pedaço de MMXX não é?

Na minha análise de Psychotic Symphony, eu sugeri que talvez “num próximo lançamento […] o quinteto ouse mais e fuja dos clichês dos gêneros”. Não diria que eles fugiram dos clichês aqui, mas oferecem uma energia tão abrasadora e uma música tão cativante que ter ou não clichês vira um mero detalhe.

Nota = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “Goodbye Divinity”:

Resenha: The Help Machine – Fastball

Reprodução da capa do álbum (© 33 1/3 Records)

Felizmente, não foi necessário aguardar outros oito anos por mais um álbum de estúdio do power trio estadunidense Fastball. The Help Machine, sétimo lançamento deles, veio após uma espera mais usual de dois anos.

E ele segue de onde o ótimo Step into Light (clique aqui para conferir minha resenha a respeito), seu antecessor, parou. Prossegue com a exploração de novos sons, mas sem perder algumas essências particulares do som da banda.

A abertura “Friend or Foe” adota sons esperançosos para iluminar o caminho que aguarda o ouvinte. “White Collar”, uma das poucas composições do vocalista, tecladista, baixista e guitarrista Tony Scalzo, é uma faixa à qual eu atribuiria o rótulo de “100% Fastball” – e só quem é fã entende o que quero dizer.

O vocalista e guitarrista Miles Zuniga é quem se arrisca mais nas composições, sendo portanto o maior responsável pela adoção dos tais sons novos. Isso fica mais óbvio em “Holding the Devil’s Hand”, por exemplo, que mistura um clima sereno e soturno.

Mas Tony Scalzo também traz sua bagagem diversa, como na densa “All Gone Fuzzy”, a divertidíssima “The Girl You Pretended to Be”, a cativante “Doesn’t It Make You Feel Small” e a já mencionada “White Collar”.

A surpresa do disco, na humilde análise deste que vos escreve, é “Redeemed”, com uma marcante roupagem bluegrass, como se o The Devil Makes Three realizasse uma participação especial.

Eu diria que o álbum perde para o anterior, e por dois motivos. Primeiramente porque Step into Light era um lançamento de retorno após um bom tempo quase totalmente sem inéditas, o que incendiou a antecipação por ele e deixou fãs e crítica menos rigorosos. E também porque era um trabalho bem conciso e direto, ainda que com um pé em várias áreas diferentes a título de exploração musical.

The Help Machine é um conjunto de músicas ótimas, mas falta um fio amarrador que faça elas fazerem mais sentido enquanto integrantes de uma mesma obra. O próprio Tony admitiu em entrevista que a discrepância no número de composições dele e de Miles faz com que este disco tenha a cara deste último.

Nota = 4/5.

Abaixo, o clipe de “The Help Machine”: