Resenha: Celaris – In Hiding

Reprodução da capa do álbum 'In Hiding', de Celari. Trata-se da ilustração de um campo com colinas e um céu cheio de nuvens azuis e roxeadas, com um rapaz no canto inferior direito parado e olhando para a esquerda. O nome da banda aparece no centro, entre o meio e o topo, e o nome do álbum vem abaixo do rapaz, mais à direita ainda.

Reprodução da capa do álbum (© Celaris)

Diretamente da Carolina do Norte, na costa leste estadunidense, chega mais uma banda para engrossar o caldo de nomes do metal progressivo que vêm surgindo aos montes.

Apostando no estilo “djent” e tendo como diferencial uma mulher (Rachel Pappalardo) em uma das guitarras, o quinteto Celaris estreia em outubro seu primeiro álbum-quase-EP, In Hiding. Completam a formação Chris Hesla (vocais), Jon Pearson (guitarra), Dan Mungal (baixo) e Josh Rush (bateria).

Se a abertura “A Manfold in Paradise” mostra que eles pretendem apostar em vocais guturais bem metalcore e passagens melódicas típicas de grupos como Between the Burried and Me, Periphery e TesseracT, “Reprieve, Release” chega com mais ênfase no peso e “Regenerate” abusa da serenidade para construir um ápice que nunca chega – mas a situação é resolvida pela intensa “The Torus Separation”.

“Hemostasis” é outro instrumental, desta vez mais curto e configurando uma ponte de verdade, agora para a pesada e também ótima “Hastur”. E a breve jornada se encerra na notável “Escharotic”.

O elemento mais marcante da música do Celaris é a alternância constante entre vocais melódicos acompanhados de dedilhados quase eletrônicos e guturais ritmados por riffs djent martelantes.

O álbum tem potencial para constar nas famosas listas de melhores lançamentos prog do ano, mas não vejo o quinteto como uma banda “pronta”. Você nota nos arranjos uma certa inocência e uma busca por uma identidade que ainda não chegou. Mas o segundo trabalho deles – seja para quando for – tem alta possibilidade de dar o próximo passo natural, que é a evolução, o amadurecimento.

Avaliação: 4/5

Abaixo, a faixa “A Manifold in Parallel”:

Resenha: 2020 – Bon Jovi

Reprodução da capa do álbum '2020', de Bon Jovi. Trata-se de uma foto em preto e branco do busto de Jon Bon Jovi visto de frente, com a mão direita na boca e óculos escuros nos quais cada lente reflete uma imagem da bandeira dos Estados Unidos. O nome da banda (em branco) e o do disco (dourado, com uma estrela dentro de cada zero) aparecem no topo, à direita

Reprodução da capa do álbum (© Island Records)

Quatro anos atrás, eu encerrava minha então mais recente resenha do quinteto estadunidense de pop rock Bon Jovi, sobre o chatíssimo This House Is Not for Sale (clique aqui para conferi-la), com um esperançoso “Mas eu sou brasileiro e não desisto nunca: um dia, o Bon Jovi há de voltar.” 2020, esse ano louco, que inclusive é o próprio nome do sucessor de THINFS, poderia ter sido a oportunidade de consagrar minha previsão, mas… é, não foi dessa vez.

Após ver o lançamento (preparado desde março de 2019) adiado por conta da pandemia, o líder, vocalista e violonista Jon Bon Jovi aproveitou para escrever duas músicas adicionais de temas atualíssimos: “Do What You Can”, sobre o impacto da COVID-19, e “American Reckoning”, sobre o assassinato de George Floyd. Felizmente, elas não foram relegadas a meras faixas-bônus; na verdade, “Shine” e “Luv Can” – ambas tão dispensáveis quanto 80% do disco – é que acabaram indo pro banco para dar lugar às irmãs mais novas.

Vamos prum papo reto: tirando essa dupla de novidades, o disco não tem quase nada de muito empolgante. E olha que “American Reckoning”, em que pese sua mensagem de extrema relevância, ainda deve muito para peças de temas similares como “American Skin (41 Shots)”, do também novajersiano Bruce Springsteen.

Os problemas são os mesmos que afligem a banda há mais ou menos uma década: produção pasteurizada, arranjos que praticamente imploram por execução nas rádios e baixo aproveitamento do potencial dos integrantes – todos amplamente respeitados no meio musical.

Além das já citadas, temos duas outras exceções à lógica. Uma delas é “Story of Love”, que quase desperdiçou uma tocante mensagem com uma roupagem cafona e pouco inspirada, mas acabou salva no final por Phil X, que entrega um providencial e belíssimo solo.

A outra é “Beautiful Drug”, a mais próxima do que poderíamos chamar de rock ‘n’ roll no disco, e muito enriquecida pela percussão de Everett Bradley.

Esta nova decepção vem com um gosto ainda mais amargo pelo fato do trabalho refletir a personalidade “ponta firme” da banda: a grana arrecadada com a venda dos três primeiros singles foi toda revertida para instituições ligadas aos temas dessas músicas.

Além das duas faixas convertidas em bônus, vale citar uma terceira, que na verdade é uma versão de “Do What You Can” com a participação de Jennifer Nettles, do Sugarland – uma adição que aumentou consideravelmente a qualidade da canção. Mas que não salva o disco. Se muito, evita que ele seja pior que os anteriores.

Nota = 2/5.

Abaixo, o clipe de “Do What You Can”:

Resenha: Sonic Birth – The Progressive Souls Collective

Reprodução da capa do álbum 'Sonic Birth', do The Progressive Souls Collective. Trata-se de um feto robótico visto de perfil, pelo lado direito, ante um fundo branco. No topo, ao centro, aparecem o nome da banda (acima) e do álbum (abaixo)

Reprodução da capa do álbum (© Metalville Records; arte por Florian Zepf (conceito) e Felix Schönberger (finalização))

Mais um supergrupo de metal progressivo – o gênero que pode acabar destronando o power metal como “variante mais saturada do heavy metal”. Exceto que neste projeto aqui, ao menos, não há nada de saturado.

A iniciativa (espertamente autodefinida como “não uma banda, mas uma aventura”) capitaneada pelo desconhecido, porém talentoso guitarrista alemão Florian Zepf conseguiu a proeza de reunir um time internacional de gigantes: o sérvio Vladimir Lalic (Organized Chaos) nos vocais; os estadunidenses Conner Green (Haken) no baixo, Derek Sherinian (ex-Dream Theater, Sons of Apollo) nos teclados e Kevin Moore (ex-Dream Theater, O.S.I., Chroma Key) na programação de loops; o sul-africano naturalizado brasileiro Aquiles Priester (ex-Angra) na bateria e o cubano Luis Conte (ex-Phil Collins) na percussão.

Vale lembrar que este projeto relativamente discreto marca a primeira vez na história que os dois primeiros tecladistas do Dream Theater tocam juntos. Derek chegou a tocar com o atual (Jordan Rudess) num show comemorativo dos quinze anos da estreia do quinteto, When Dream and Day Unite.

Apesar do gabarito impressionante dos músicos, o projeto, de pomposo, só tem o nome: The Progressive Souls Collective. De resto, eles são de certa forma modestos, tanto que a divulgação não teve o mesmo alarde que o Sons of Apollo – embora os dois estejam bem próximos em termos de qualidade musical. A prova de tudo o que é dito neste parágrafo é a estreia deles, Sonic Birth.

Depois de uma espécie de abertura dupla distribuída na pesada “Metature” e na leve “Comfortable Darkness”, o álbum começa “pra valer” em “Killing True Beliefs”, com direito a uma percussão latina muito bem encaixada.

Essa divisão entre “pesado” e “leve” vai se mostrar bastante relevante no resto do trabalho. De um lado, temos momentos mais encorpados como a dinâmica “Fractorial Emotion”, o single “A Formula for Happiness” e a alterbridgeana “Hurt” e seus inesperados metais de swing.

Do outro, passagens mais serenas como “Inner Circle”, a misteriosa “Mind Treasures” e a balada quase pop “You and Me Alone”, cujos sopros discretos ao fundo me fizeram pesquisar se Troy Donockley não teria sido um convidado também.

Ledo engano – quem toca os exóticos aqui são Isaac Alderson e Kevin Buckley, sem falar na vocalista Megan Burtt, que faz dueto com Vladimir. O disco, aliás, tem a participação de alguns outros músicos com instrumentos incomuns no metal e suas letras são recheadas de citações a obras diversas – tudo devidamente detalhado no site oficial do projeto.

Quando disse que o The Progressive Souls Collective só tinha o nome de pomposo, quis dizer que o grupo, na contramão do gênero, não buscou riffs matematicamente construídos nem solos alucinados para marcar sua música. Ela já tem graça o suficiente desde sua base e flui de forma bastante natural, num ritmo que alguns considerariam lento, mas que parece ser exatamente o que a somatória musical aplicada aqui pede.

Nota = 5/5

Abaixo, o clipe de “Fractional Emotion”: