Resenha: The Help Machine – Fastball

Reprodução da capa do álbum (© 33 1/3 Records)

Felizmente, não foi necessário aguardar outros oito anos por mais um álbum de estúdio do power trio estadunidense Fastball. The Help Machine, sétimo lançamento deles, veio após uma espera mais usual de dois anos.

E ele segue de onde o ótimo Step into Light (clique aqui para conferir minha resenha a respeito), seu antecessor, parou. Prossegue com a exploração de novos sons, mas sem perder algumas essências particulares do som da banda.

A abertura “Friend or Foe” adota sons esperançosos para iluminar o caminho que aguarda o ouvinte. “White Collar”, uma das poucas composições do vocalista, tecladista, baixista e guitarrista Tony Scalzo, é uma faixa à qual eu atribuiria o rótulo de “100% Fastball” – e só quem é fã entende o que quero dizer.

O vocalista e guitarrista Miles Zuniga é quem se arrisca mais nas composições, sendo portanto o maior responsável pela adoção dos tais sons novos. Isso fica mais óbvio em “Holding the Devil’s Hand”, por exemplo, que mistura um clima sereno e soturno.

Mas Tony Scalzo também traz sua bagagem diversa, como na densa “All Gone Fuzzy”, a divertidíssima “The Girl You Pretended to Be”, a cativante “Doesn’t It Make You Feel Small” e a já mencionada “White Collar”.

A surpresa do disco, na humilde análise deste que vos escreve, é “Redeemed”, com uma marcante roupagem bluegrass, como se o The Devil Makes Three realizasse uma participação especial.

Eu diria que o álbum perde para o anterior, e por dois motivos. Primeiramente porque Step into Light era um lançamento de retorno após um bom tempo quase totalmente sem inéditas, o que incendiou a antecipação por ele e deixou fãs e crítica menos rigorosos. E também porque era um trabalho bem conciso e direto, ainda que com um pé em várias áreas diferentes a título de exploração musical.

The Help Machine é um conjunto de músicas ótimas, mas falta um fio amarrador que faça elas fazerem mais sentido enquanto integrantes de uma mesma obra. O próprio Tony admitiu em entrevista que a discrepância no número de composições dele e de Miles faz com que este disco tenha a cara deste último.

Nota = 4/5.

Abaixo, o clipe de “The Help Machine”:

Resenha: Third Degree – Flying Colors

Reprodução da capa do álbum (© Mascot Label Group)

Cinco anos separam Third Degree, terceiro lançamento de estúdio do supergrupo estadunidense Flying Colors, de seu antecessor, o estupendo Second Nature (veja aqui minha resenha a respeito).

A desvantagem dos supergrupos costuma ser justamente essa falta de tempo para manter o projeto funcionando regularmente. Especialmente um que envolve Casey McPherson (vocais, guitarra base), Steve Morse (guitarras), Neal Morse (teclados, vocais, sem parentesco com o anterior), Dave LaRue (baixo) e Mike Portnoy (bateria, vocais). Todos envolvidos em múltiplas outras bandas em plena atividade. Não por um acaso, a primeira sessão do álbum aconteceu em dezembro de 2016 e a segunda só ocorreria exatos dois anos depois.

A vantagem, pelo menos no caso do Flying Colors, é que não importa o que eles façam, você sabe que vai ser bom. E aqui não foi diferente. Third Degree não impressiona tanto quanto Second Nature, cujo “exibicionismo” melódico e harmônico foi de tirar o fôlego, e demora um pouco mais para agradar, mas ele ainda tem lugar garantido em qualquer lista de melhores do ano que se preze.

Uma característica que sempre os marcou é a improbabilidade de um grupo destes ter surgido e ainda por cima dado certo. Porque ele põe cinco bagagens musicais bem distintas em rota de colisão. Mas eles sempre encontram um meio de fazer tudo fluir bem, alternando trabalhos mais agressivos e progressivos com outros mais leves e acessíveis. Tiveram êxito em reforçar como a sofisticação do rock progressivo pode casar com a simplicidade e a comercialidade do pop.

Em Third Degree, isso fica bem em evidência. As primeiras faixas, “The Loss Inside” e “More”, exploram o lado mais agressivo e pesado do quinteto. Depois, temos “Cadence” e “Guardian”, que estão longe de serem baladas, mas adotam uma sonoridade relativamente mais pacífica. A segunda tem uma pegada que lembra “Kayla”, pérola da estreia autointitulada deles (clique aqui para conferir minha resenha a respeito).

O lado mais rebuscado deles voltará a ser explorado na cativante e rítmica “Geronimo”, enquanto que “Love Letter” é, podemos dizer, a surpresa do álbum. Uma canção com fortíssimos temperos sessentistas/setentistas que, muito apropriadamente, recebeu um vídeo com estética psicodélica e colorida.

A balada de fato do disco é “You Are Not Alone”, escrita após Casey vivenciar o furacão Harvey em sua cidade (Austin, Texas) e testemunhar a subsequente onda de solidariedade entre os moradores da região atingida.

Para equilibrar os mundos que o Flying Colors representa, nada melhor que faixas épicas, com espaço para muito material musical. E para isso temos “Last Train Home” e “Crawl”, com a última sendo bem melhor que a primeira ao explorar de forma mais completa o talento do qual a banda como um todo dispõe.

A edição especial do álbum vem com um segundo CD com algumas simpáticas versões instrumentais e alternativas de “Last Train Home”, “Geronimo”, “You Are Not Alone” e “Crawl”; uma versão acústica de “Love Letter”; e aquilo que sozinho já compensaria a compra do disco adicional inteiro: a faixa bônus “Waiting for the Sun”, que é simplesmente boa demais para ficar de fora da edição regular.

Third Degree tem como único defeito não ser superior ao seu antecessor, mas chegou tão perto, e estamos falando de uma banda que já é a princípio tão acima da média, que isso não me impedirá de conceder nota máxima a esta belezinha.

Nota = 5/5

Abaixo, o clipe de “The Loss Inside”:

Resenha: Reflexicon – Reflexicon

Reprodução da capa do álbum

Quando vi esta nova banda numa lista de lançamentos recentes rotulada como “metal progressivo”, não tardei em correr atrás de ouvir seu álbum de estreia autointitulado. Mas logo nos primeiros acordes, percebi que houvera um engano na categorização da música deles. Só que há surpresas que vêm para o bem…

O Reflexicon não faz nada assim, digamos, surpreendente ou extraordinário, mas misturam de maneira pouco vista elementos de muitos gêneros não tão distantes uns dos outros, ficando ali naquelas tênues linhas que separam grunge, hard rock e stoner. E sim, temos alguns toques progressivos.

Mas o rótulo de “metal progressivo” não deixa de ser estranho. É fato que esses estadunidenses de Chicago fazem canções dinâmicas e com durações não-ortodoxas. Mas se for assim, vamos ter que atribuir o rótulo “progressivo” a nomes tão diversos quanto Legião Urbana, Aerosmith, Nando Reis e Iron Maiden.

O único momento próximo disso seria a faixa de encerramento “Nightmare”, com pouco mais de nove minutos e um número razoável de variações para justificar um comprimento desses. Quero dizer, a música em questão chegou a este tamanho de maneira lógica; em nenhum momento pareceu-me que a banda estava se obrigando a fazer algo longo.

A força do quinteto está especialmente em sua ala instrumental. São riffs abrasivos nas seis cordas de Jerry Buczko e Paul Kratky, uma bateria pulsante nas baquetas de John Ashe e um baixo proeminente nos dedos de Bill Dixon.

O vocal que não deixa os companheiros na mão é a voz arranhada de Fred Morg. Ele faz parecer que Sammy Hagar virou o vocalista do Sons of Apollo ou do Nickelback – dois exemplos de grupos que soam diferentes mas cujos fãs podem encontrar algo para gostar aqui.

Esta cozinha visceral e a voz acima de qualquer suspeita que compõem o som do Reflexicon são basicamente o motivo pelo qual eu indicaria esta banda a qualquer pessoa interessada em alguma novidade do rock moderno.

Nota = 4/5

Abaixo, o lyric video de “Grasp at the Sky”: