Resenha: 2020 – Bon Jovi

Reprodução da capa do álbum '2020', de Bon Jovi. Trata-se de uma foto em preto e branco do busto de Jon Bon Jovi visto de frente, com a mão direita na boca e óculos escuros nos quais cada lente reflete uma imagem da bandeira dos Estados Unidos. O nome da banda (em branco) e o do disco (dourado, com uma estrela dentro de cada zero) aparecem no topo, à direita

Reprodução da capa do álbum (© Island Records)

Quatro anos atrás, eu encerrava minha então mais recente resenha do quinteto estadunidense de pop rock Bon Jovi, sobre o chatíssimo This House Is Not for Sale (clique aqui para conferi-la), com um esperançoso “Mas eu sou brasileiro e não desisto nunca: um dia, o Bon Jovi há de voltar.” 2020, esse ano louco, que inclusive é o próprio nome do sucessor de THINFS, poderia ter sido a oportunidade de consagrar minha previsão, mas… é, não foi dessa vez.

Após ver o lançamento (preparado desde março de 2019) adiado por conta da pandemia, o líder, vocalista e violonista Jon Bon Jovi aproveitou para escrever duas músicas adicionais de temas atualíssimos: “Do What You Can”, sobre o impacto da COVID-19, e “American Reckoning”, sobre o assassinato de George Floyd. Felizmente, elas não foram relegadas a meras faixas-bônus; na verdade, “Shine” e “Luv Can” – ambas tão dispensáveis quanto 80% do disco – é que acabaram indo pro banco para dar lugar às irmãs mais novas.

Vamos prum papo reto: tirando essa dupla de novidades, o disco não tem quase nada de muito empolgante. E olha que “American Reckoning”, em que pese sua mensagem de extrema relevância, ainda deve muito para peças de temas similares como “American Skin (41 Shots)”, do também novajersiano Bruce Springsteen.

Os problemas são os mesmos que afligem a banda há mais ou menos uma década: produção pasteurizada, arranjos que praticamente imploram por execução nas rádios e baixo aproveitamento do potencial dos integrantes – todos amplamente respeitados no meio musical.

Além das já citadas, temos duas outras exceções à lógica. Uma delas é “Story of Love”, que quase desperdiçou uma tocante mensagem com uma roupagem cafona e pouco inspirada, mas acabou salva no final por Phil X, que entrega um providencial e belíssimo solo.

A outra é “Beautiful Drug”, a mais próxima do que poderíamos chamar de rock ‘n’ roll no disco, e muito enriquecida pela percussão de Everett Bradley.

Esta nova decepção vem com um gosto ainda mais amargo pelo fato do trabalho refletir a personalidade “ponta firme” da banda: a grana arrecadada com a venda dos três primeiros singles foi toda revertida para instituições ligadas aos temas dessas músicas.

Além das duas faixas convertidas em bônus, vale citar uma terceira, que na verdade é uma versão de “Do What You Can” com a participação de Jennifer Nettles, do Sugarland – uma adição que aumentou consideravelmente a qualidade da canção. Mas que não salva o disco. Se muito, evita que ele seja pior que os anteriores.

Nota = 2/5.

Abaixo, o clipe de “Do What You Can”:

Resenha: This House Is Not for Sale – Bon Jovi

Reprodução da capa do álbum (© Island Records)

Reprodução da capa do álbum (© Island Records)

Nem a crítica nem os fãs se entendem quando o assunto é Bon Jovi. O quinteto já deu à luz 13 álbuns de estúdio (incluindo este) e você encontrará diferentes grupos defendendo que cada um deles foi o último grande lançamento do quinteto. Alguns diriam até que a banda nunca fez nada que preste!

O que é uma tremenda injustiça, claro. Não reconhecer a importância e a qualidade que eles já tiveram é de uma desonestidade intelectual quase criminosa. Mais desonesto do que isso, só a recusa em reconhecer o quão ruim anda o grupo.

This House Is Not for Sale, décimo terceiro álbum de estúdio dos cinquentões/sessentões, infelizmente confirma o que eu digo. Sem sombra de dúvidas, é um trabalho melhor que os fraquinhos What About Now e Burning Bridges (resenhados neste blog aqui e aqui). Mas ainda deve muito para o último bom disco da banda, The Circle (pronto, já descobrimos a qual facção de fãs do Bon Jovi eu pertenço).

Das pouquíssimas faixas que valem a pena nesta obra, destaco a faixa-título, inspirada pela fotografia que acabou virando a capa do disco; “Labor of Love”, onde Jon Bon Jovi parece estar incorporado pelo conterrâneo Bruce Springsteen; “The Devil’s in the Temple”, uma continuação dos recados à indústria musical que já eram dados em “Burning Bridges”; e “God Bless This Mess”, talvez a letra mais relacionável do álbum.

Aliás, o único legado do Bon Jovi que foi respeitado em This House Is Not For Sale é a diversidade de letras, com as quais todos podem se identificar. Mas confesso envergonhado que este parágrafo é na verdade uma tentativa desesperada de achar alguma coisa boa no álbum, apenas por ser fã da banda.

Quem tiver estômago pode correr atrás de diversas edições especiais, o que pode render até sete faixas bônus – todas igualmente ruins, com exceção da marcante “We Don’t Run”, que já havia sido lançada anteriormente.

Há duas mudanças importantes na formação do grupo neste álbum: pela primeira vez em mais de duas décadas de parceria, o baixista Hugh McDonald é citado como membro oficial. Além disso, e mais notoriamente, temos a entrada definitiva de Phil X no lugar de Richie Sambora. Que diferença isso fez com relação a What About Now? Quase nenhuma. Explico a seguir.

Em primeiro lugar, o verdadeiro guitarrista aqui, segundo declaração do baterista Tico Torres, é o produtor John Shanks, que criou e executou a maior parte dos trabalhos nas seis cordas. Phil X, por incrível que pareça, ficou relegado a um papel de coadjuvante. O outro motivo pelo qual fica difícil comparar ambos os guitarristas é, talvez, culpa de John também. O som do Bon Jovi foi tão pasteurizado nos últimos anos que qualquer guitarrista que posta vídeos no YouTube tocando por cima da música dos outros em seu quarto poderia trabalhar nestes últimos álbuns. Em outras palavras, a produção e os arranjos não deixam muito espaço para alguém mostrar sua cara.

Por essas e por outras, não foi com This House Is Not for Sale que a banda fez jus ao seu passado. E nem adianta vir com os números mágicos de vendas de cópias e entradas para shows para tentar me contradizer. A não ser que seu parâmetro de avaliação artística seja a histeria adolescente demonstrada pelo público nos shows dos caras.

Nota = 2/5. Quando eu analisei Burning Bridges, disse que o álbum nos deixava receosos sobre o futuro do Bon Jovi. Infelizmente, o medo se tornou realidade e eles continuam apenas uma sombra criativa do que um dia já foram. Mas eu sou brasileiro e não desisto nunca: um dia, o Bon Jovi há de voltar.

Abaixo, o vídeo de “This House Is Not for Sale”:

Resenha: Burning Bridges – Bon Jovi

Breve histórico: uma das bandas mais importantes a emergir nos anos 80 dos Estados Unidos, o Bon Jovi lançou desde clássicos do rock até trabalhos de qualidade bem duvidosa, mas sem nunca parar de tocar. Hoje sem o guitarrista e fundador Richie Sambora, o grupo segue como trio + músicos contratados.

Reprodução da capa do álbum (© Mercury Records)

Reprodução da capa do álbum (© Mercury Records)

Separados de um membro importante e sem ganhar uma boa recepção da crítica há mais de dez anos (com efeito, o trabalho anterior agradou a poucos), o momento que o Bon Jovi vive não pareceria propício ao lançamento de um álbum. Mas o trio não pensou assim e resolveu criar, meio que na surdina, uma coletânea de “restos”.

O álbum é tão “errado” que fica até difícil decidir por onde começar. Primeiramente, é como se a banda sequer desejasse que os fãs o ouvissem. No Facebook oficial do grupo, não há uma única menção a ele nos últimos meses (a não ser que tenham feito postagens não-visualizáveis para brasileiros). A capa, por sua vez, não é menos simplória que um rabisco qualquer no caderno de um estudante entediado.

Falando da parte musical, são poucas as faixas que interessam realmente. “Who Woud You Die For” repete insistentemente a pergunta que lhe dá nome, e quando você menos espera, já está mentalmente formulando uma resposta. A faixa-título destoa com seu ritmo meio country e é precedida pelo máximo de rock que se verá aqui: “I’m Your Man”. “Fingerprints” dá sono, mas encerra-se com um solo que mostra a que veio o novo guitarrista da banda, Phil X que dá arrepios. Ao menos na escolha do primeiro single, eles acertaram em cheio: “We Don’t Run” uma das poucas recém-compostas.

De resto, é um amontoado de baladas sonolentas. Ao menos o lançamento foi bem definido como um “álbum de fã”. Até supera a vergonha que foi o lançamento anterior What About Now (resenhado neste blog), mas não consegue ser mais que um apanhado de curiosidades, um item de colecionador.

O maior problema, aliás, é que este trabalho mal tem cara de Bon Jovi. A ausência de Richie Sambora sozinha não explica isso, pois a banda já adotava um direcionamento mais pop há muito tempo, e as guitarras dele iam ficando mais discretas. Ser uma coletânea de sobras também não é desculpa, pois 100,000,000 Bon Jovi Fans Can’t Be Wrong também trazia um monte de raridades, só que bem mais interessantes.

Nota = 4,5. Vejam bem, ninguém está pedindo um novo Slippery When Wet (seria insanidade), mas peguemos The Circle, por exemplo. Não é lá um queridinho da crítica e dos fãs, mas faz jus ao legado da banda, encaixava-se na música de sua época e mantinha a relevância dos nova-jersianos. Burning Bridges, porém, apenas alimenta a fogueira dos que decretaram a morte da banda, deixando-os receosos quanto ao que está por vir em 2016, quando mais um álbum deles – este totalmente original – virá.

Abaixo, o lyric video de “We Don’t Run”:

ERRATA: Diferentemente do publicado anteriormente, Phil X não participou das gravações deste álbum. O Sinfonia de Ideias agradece aos leitores atentos que enviaram correções à versão desta resenha publicada no Whiplash.net – inclusive àqueles que enviaram a correção em meio a gentilíssimos adjetivos pela minha ousadia em falar mal do Bon Jovi. A estes, agradeço especialmente por ajudarem a elevar a contagem de acessos.