Resenha: Signs of Wings – Sascha Paeth’s Masters of Ceremony

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

Depois de três décadas ajudando a moldar alguns dos discos mais importantes do power metal e do metal sinfônico, Sascha Paeth, produtor e guitarrista alemão que assina álbuns de artistas como Avantasia, Edguy, Rhapsody of Fire, Kamelot, Angra e muitos outros decidiu que era hora de finalmente canalizar seus esforços em direção a um projeto totalmente seu: o Masters of Ceremony.

Apesar de se tratar de uma iniciativa solo, o músico não conseguiu abandonar totalmente sua condição de profissional de bastidores. Quero dizer, temos aqui um som com grande foco nas guitarras, mas ele “se armou” de uma competente banda de apoio na qual todos os membros têm lugar de destaque.

A começar pela vocalista estadunidense Adrienne Cowan, do Seven Spires. Sua voz com lampejos de Kimberly Goss do Sinergy, Brittney Hayes do Unleash the Archers e Daísa Munhoz do Vandroya faz bonito frente ao peso que Signs of Wings, estreia do quinteto, oferece.

Na ala instrumental, temos Felix Bohnke (Edguy, Avantasia) na bateria, André Neygenfind (músico de apoio com passagens pelo Avantasia e pelo Rhapsody of Fire) no baixo e Corvin Bahn nos teclados.

Signs of Wings, é, em geral, uma homenagem ao gênero, e nem poderia ser diferente, afinal, estamos falando de uma figura importantíssima dos bastidores do power metal.

De faixas aceleradas e com refrãos marcantes (“The Time Has Come”, “Where Would It Be” e “Weight of the World”) a baladas lentas (“Path”), passando por lampejos de folk metal (“Radar”, “Bound in Vertigo”), Sascha abrange as facetas mais relevantes desta que é uma das sub-vertentes mais populares do metal.

O disco não surpreende nem inova em momento algum, mas faz o feijão com arroz de modo tão profissional e empolgante que não dá para não gostar do trabalho. Na verdade, ele faz esse feijão com arroz mais competentemente que alguns expoentes pioneiras do gênero. Sonata Arctica e Edguy que o digam.

Nota = 5/5.

Abaixo, o clipe de “The Time Has Come”:

Resenha: Renegades – Equilibrium

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Foi com bastante ceticismo e ressentimento que a comunidade de fãs do sexteto alemão Equilibrium recebeu os primeiros singles do sexto disco de estúdio deles, Renegades.

Pudera, logo de cara, sem anestesia, a banda mandou uma faixa (“Path of Destiny”) quase totalmente desprovida dos elementos folclóricos e sinfônicos que consistiam em seus diferenciais; marcada por inéditos vocais limpos; e que ainda por cima trazia a participação especial do grupo de rapcore The Butcher Sisters. Tem fã que deve estar em coma até agora.

A má notícia é que o folk foi assumidamente chutado para escanteio e substituído por algo próximo do new metal, numa tentativa deliberada de se modernizar o som, nas palavras do guitarrista e líder René Berthiaume. E o álbum tem alguns problemas pontuais que discutirei mais abaixo. A boa notícia é que eles ainda são bons – eu, pelo menos, ainda compraria um ingresso para assisti-los ao vivo.

A jornada começa com a poderosa “Renegades – A Lost Generation”, cujo riff deixa claro que a banda está, definitivamente, de olho em outros estilos que não sejam o folk ou o black metal. Eu diria que foi um claríssimo cartão de visitas para esta nova fase.

Exceto pelo fato de que é na sequência “Tornado” que temos outra novidade relevante desta nova fase do Equilibrium: os supramencionados vocais limpos, alternados com os tradicionais guturais. Cortesia do baixista Martin “Skar” Berger, um dos membros estreantes aqui.

“Himmel und Feuer” é um dos destaques. Por quê? É a única totalmente na língua materna deles; evolui a partir dum riff que parece ter saído dum lançamento qualquer de pop punk; brinca com compassos não-ortodoxos; e é toda cantada em gutural.

Sobre a já mencionada “Path of Destiny”, só acrescento que a adoção de rap no heavy metal pode funcionar muito bem, a despeito dos chiliques dos insuportáveis “puro sangue”, mas neste caso a decisão foi simplesmente nada a ver e o trecho sobra no meio da canção.

“Kawaakari – The Periphery of the Mind” surpreende mais uma vez, desta vez com riffs que liberam um leve aroma metalcore. E as definições de “aleatório” são novamente atualizadas no cover inesperado de “Johnny B”, do The Hooters. E tirando a participação da cantora Julie Even, cujo timbre é assustadoramente parecido com o da nossa Zélia Duncan, “Hype Train” não acrescenta muito ao disco.

Apesar de tudo que estou dizendo, é fato que Renegades ainda reserva algumas homenagens às origens dos rapazes (e rapariga). Falo de “Moonlight”, menos impactada pela adoção de toques moderninhos e enriquecida com uma (agora rara) flauta; “Final Tear”, a que melhor se aproxima do passado, mas sem demonstrar muita intimidade com o mesmo (embora eu aplauda a aparente tentativa de fazer uma continuação para a magnífica “Eternal Destination”, do disco anterior (clique aqui para ver minha resenha sobre ele)); e o encerramento “Rise of the Phoenix”, cujo conteúdo pouco inspirado não faz jus ao nome e à duração.

Outra nova adição à banda é a tecladista Skadi Rosehurst, cuja entrada fez do grupo um sexteto e fez os fãs esperarem que os elementos folclóricos e sinfônicos ganhassem um destaque sem precedentes. Mas o que aconteceu foi justamente o inverso. Tímida, sua participação fica limitada a alguns panos de fundo e um punhado de riffs moderninhos – nada muito superior ao que já era feito antes, sem um membro exclusivo para isso.

Não vou abrir espaço para a eterna discussão “manter a fórmula vs. mudar”, até porque não existe resposta fixa para isso. No caso do Equilibrium, a decisão foi simplesmente errada, pois eles estão abrindo mão daquilo que os consolidou – e o fazem de maneira tão abrupta que soa artificial. A escapatória deles, no caso, foi que mesmo se aventurando num novo estilo, eles foram felizes e entregaram um bom trabalho. Pesando as duas coisas numa balança, ele pende levemente para o lado positivo. E o tempo dirá se a guinada sonora valeu a pena.

Nota: 3/5

Abaixo, o vídeo de “Path of Destiny”:

Resenha: Rammstein – Rammstein

Reprodução da capa do álbum (© Universal Music Group)

Foram praticamente 10 anos de espera desde o ótimo Liebe ist für alle da, mas o sexteto alemão de metal industrial Rammstein finalmente marcou a década de 2010 com um trabalho de inéditas. A obra não tem título, mas vem sendo informalmente batizada com o próprio nome do grupo e assim será doravante denominada.

À expectativa acumulada pôde ser dada toda a vazão necessária. E o mais curioso (e talvez admirável) disso é que Rammstein nem é lá um disco espetacular que te faz ficar boquiaberto logo de cara. Na verdade, ele é bastante pé no chão e a banda parece tê-lo feito de forma bem tranquila, como se o lançamento viesse após um intervalo mais convencional (dois ou três anos).

O que não quer dizer que ele demore para empolgar, absolutamente. Na verdade, ele abre com uma tríade de arrebentar. O cartão de visitas é “Deutschland”, um trabalho no melhor estilo Rammstein, termo que aqui significa “uma música que causou polêmica pelo conteúdo das letras e pela estética do vídeo correspondente”. Problematizar a própria história é pisar em ovos para o povo alemão, que vive sob o espectro do passado nazista.

Depois temos “Radio”, um dos destaques, pois equilibra de forma sublime o lado metal com o lado eletrônico do grupo. E, fechando a tal tríade, “Zeig Dich”, aberta por um coral em latim que não é um mero enfeite: é a ambientação necessária para uma letra que critica a Igreja Católica.

O humor característico da banda não passou batido, tampouco. “Ausländer”, cuja título significa “estrangeiro”, leva-nos a crer que ouviremos palavras sobre a atual crise migratória na Europa tão ácidas quanto as da faixa de abertura, mas na verdade a peça pode ser entendida também como a história de um reles mulherengo, que “coloniza” mulheres às dezenas e vai trocando-as sem nunca se estabelecer em nenhuma. Não por um acaso, seu ritmo bebe bastante do eurodance. O vídeo correspondente, de qualquer forma, optou por representar a interpretação mais crítica e nos rendeu um retrato caricato da colonização da América.

“Sex” é outra que parece uma coisa, mas no fim é outra. Quero dizer, se “Pussy” (do álbum anterior) foi tão chocante na letra e na estética do clipe, o que esperar de algo batizado com um nome tão direto? Nada de mais, na verdade. Estamos falando do momento menos interessante deste lançamento.

Muito mais chocante é sua sucessora “Puppe”, que trata de prostituição (possivelmente infantil) de uma forma tão incômoda e visceral que faz “Deutschland” parecer uma apresentação de stand-up – e ela perderia metade de sua força sem a magnífica performance vocal de Till Lindemann.

A segunda metade do álbum começa com a forte “Was Ich Liebe”, marcada por um dos riffs mais poderosos do disco, seguida pela balada acústica e crua “Diamant”.

A reta final fica a cargo da tríade “Weit Weg”, “Tattoo” e “Hallomann”. A primeira faz par com “Radio” ao misturar brilhantemente elementos eletrônicos kraftwerkianos com o peso característico do Rammstein, evocando o riff de “Perfect Strangers”, do Deep Purple. “Tattoo” surpreende com guitarras de thrash oitentista e Rammstein se encerra com mais uma canção incômoda: “Hallomann”, sobre um sequestrador de crianças.

O que mais chama a atenção neste lançamento não é apenas a qualidade em si – é a capacidade do grupo de encarar de maneira fria e natural o fato de ser um dos álbuns mais aguardados da década. E, em vez de entregar um trabalho burocrático só para satisfazer anseios alheios, ou de entregar algo que arrisca pra todos os lados e no fim não acerta em nada, o sexteto coloca no mercado um produto que daqui a décadas provavelmente continuará sendo citado como um dos melhores itens de sua discografia.

Um aspecto em que eles se arriscaram e acertaram foi na adoção de novos sons nas guitarras de Richard Z. Kruspe e Paul Landers. Para quem está acostumado ao som riff-centrista e grave dos alemães, é agradável ser surpreendido com dedilhados rápidos (“Deutschland”), riffs com notas altas (“Zeig Dich”) e influências de thrash (“Tattoo”), entre outros momentos memoráveis nas seis cordas.

Os outros quatro membros também não devem nada aos fãs e à crítica: Christoph Schneider dosa sua intensidade na bateria de maneira impecável a cada momento; Till segue penetrando nossas mentes com sua voz tenebrosa, Oliver Riedel ganha uma faixa guiada por seu baixo (“Hallomann”) e Christian Lorenz continua provando que você não precisa solar até sangrar os dedos tampouco simular uma orquestra de cem integrantes para tornar seu teclado indispensável na construção do som da sua banda.

Nota = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “Radio”: