Resenha: F & M – Lindemann

Reprodução da capa do álbum (© Vertigo Records)

Meia década separa F & M, segundo disco do projeto sueco-alemão Lindemann, da estreia Skills in Pills (clique aqui para conferir minha resenha a respeito), e mesmo assim deve ter gente que ainda não se recuperou da “visceralidade” (quase literal) daquele lançamento.

Eu poderia dizer que é melhor elas se prepararem para o próximo round, mas na verdade este álbum não é tão chocante quanto seu antecessor. É uma amostra clara do quanto esta dupla formada por Till Lindemann (Rammstein) e Peter Tägtgren (PAIN) amadureceu musicalmente.

O fato de terem perdido (um pouco) o fator choque não é um problema justamente por isso: o amadurecimento. Lembrando que a obra coroa um ano e tanto para Till, que já vem de outro grande lançamento: um trabalho sem título oficial criado com sua banda principal, o Rammstein (clique aqui para conferir minha resenha a respeito).

Antes, o Lindemann soava como um Rammstein em inglês. Agora que Till voltou a focar em sua língua materna, o grupo é ainda mais parecido com o consagrado sexteto alemão. De novo, isso não e um problema. Ainda é possível sentir fortes aromas de PAIN. Tal como em Skill in Pills, prosseguimos com aquele equilíbrio entre “isto parece Rammstein” e “isto é um trabalho diferente”.

As letras parecem lidar com assuntos um pouco mais amplos e diversos. “Steh Auf” foi uma ótima escolha como abertura por conter 100% do DNA do Lindemann, exceto pelo fato do imaginário do single e de seu vídeo não fazerem referência explícita a sexo. Mas a bizarrice continua ali.

E as abordagens desses assuntos afetivos ainda aparecem em destaques como “Allesfresser” e a ótima “Knebel”, que começa serena e sem nenhum aviso vira uma das mais agressivas e chocantes (se levarmos em conta o vídeo também – a versão sem censura, é claro.).

O experimentalismo surge em “Ach so Gern”, com um ritmo bem diferenciado para eles (e que recebeu uma versão PAIN como faixa bônus), e em “Mathematik”, uma espécie de rap eletrônico contra a matemática que talvez fará sucesso entre estudantes e veio como faixa bônus da edição de luxo.

Esse lado artificial do Lindemann (que vem quase todo de Peter Tägtgren) é notado com menor força em “Blut” e “Platz Eins”, conferindo a estas faixas um certo ar dançante.

E F & M (que, aliás, significa Frau & Mann; Mulher & Homem em alemão) traz até, olha só, baladas: a emotiva “Schlaf Ein” e a sinfônica “Wer Weiß das Schon”.

Não contente em nos reconquistar com sua banda principal, Till Lindemann quis também mostrar que Lindemann era mais que um projeto de um disco só – o que nos concedeu o privilégio de ver a evolução de algo tosco (mas bom) em algo maduro, mas que não perdeu a irreverência.

Nota: 5/5.

Abaixo, o vídeo de “Knebel”.

Resenha: Signs of Wings – Sascha Paeth’s Masters of Ceremony

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

Depois de três décadas ajudando a moldar alguns dos discos mais importantes do power metal e do metal sinfônico, Sascha Paeth, produtor e guitarrista alemão que assina álbuns de artistas como Avantasia, Edguy, Rhapsody of Fire, Kamelot, Angra e muitos outros decidiu que era hora de finalmente canalizar seus esforços em direção a um projeto totalmente seu: o Masters of Ceremony.

Apesar de se tratar de uma iniciativa solo, o músico não conseguiu abandonar totalmente sua condição de profissional de bastidores. Quero dizer, temos aqui um som com grande foco nas guitarras, mas ele “se armou” de uma competente banda de apoio na qual todos os membros têm lugar de destaque.

A começar pela vocalista estadunidense Adrienne Cowan, do Seven Spires. Sua voz com lampejos de Kimberly Goss do Sinergy, Brittney Hayes do Unleash the Archers e Daísa Munhoz do Vandroya faz bonito frente ao peso que Signs of Wings, estreia do quinteto, oferece.

Na ala instrumental, temos Felix Bohnke (Edguy, Avantasia) na bateria, André Neygenfind (músico de apoio com passagens pelo Avantasia e pelo Rhapsody of Fire) no baixo e Corvin Bahn nos teclados.

Signs of Wings, é, em geral, uma homenagem ao gênero, e nem poderia ser diferente, afinal, estamos falando de uma figura importantíssima dos bastidores do power metal.

De faixas aceleradas e com refrãos marcantes (“The Time Has Come”, “Where Would It Be” e “Weight of the World”) a baladas lentas (“Path”), passando por lampejos de folk metal (“Radar”, “Bound in Vertigo”), Sascha abrange as facetas mais relevantes desta que é uma das sub-vertentes mais populares do metal.

O disco não surpreende nem inova em momento algum, mas faz o feijão com arroz de modo tão profissional e empolgante que não dá para não gostar do trabalho. Na verdade, ele faz esse feijão com arroz mais competentemente que alguns expoentes pioneiras do gênero. Sonata Arctica e Edguy que o digam.

Nota = 5/5.

Abaixo, o clipe de “The Time Has Come”:

Resenha: Renegades – Equilibrium

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Foi com bastante ceticismo e ressentimento que a comunidade de fãs do sexteto alemão Equilibrium recebeu os primeiros singles do sexto disco de estúdio deles, Renegades.

Pudera, logo de cara, sem anestesia, a banda mandou uma faixa (“Path of Destiny”) quase totalmente desprovida dos elementos folclóricos e sinfônicos que consistiam em seus diferenciais; marcada por inéditos vocais limpos; e que ainda por cima trazia a participação especial do grupo de rapcore The Butcher Sisters. Tem fã que deve estar em coma até agora.

A má notícia é que o folk foi assumidamente chutado para escanteio e substituído por algo próximo do new metal, numa tentativa deliberada de se modernizar o som, nas palavras do guitarrista e líder René Berthiaume. E o álbum tem alguns problemas pontuais que discutirei mais abaixo. A boa notícia é que eles ainda são bons – eu, pelo menos, ainda compraria um ingresso para assisti-los ao vivo.

A jornada começa com a poderosa “Renegades – A Lost Generation”, cujo riff deixa claro que a banda está, definitivamente, de olho em outros estilos que não sejam o folk ou o black metal. Eu diria que foi um claríssimo cartão de visitas para esta nova fase.

Exceto pelo fato de que é na sequência “Tornado” que temos outra novidade relevante desta nova fase do Equilibrium: os supramencionados vocais limpos, alternados com os tradicionais guturais. Cortesia do baixista Martin “Skar” Berger, um dos membros estreantes aqui.

“Himmel und Feuer” é um dos destaques. Por quê? É a única totalmente na língua materna deles; evolui a partir dum riff que parece ter saído dum lançamento qualquer de pop punk; brinca com compassos não-ortodoxos; e é toda cantada em gutural.

Sobre a já mencionada “Path of Destiny”, só acrescento que a adoção de rap no heavy metal pode funcionar muito bem, a despeito dos chiliques dos insuportáveis “puro sangue”, mas neste caso a decisão foi simplesmente nada a ver e o trecho sobra no meio da canção.

“Kawaakari – The Periphery of the Mind” surpreende mais uma vez, desta vez com riffs que liberam um leve aroma metalcore. E as definições de “aleatório” são novamente atualizadas no cover inesperado de “Johnny B”, do The Hooters. E tirando a participação da cantora Julie Even, cujo timbre é assustadoramente parecido com o da nossa Zélia Duncan, “Hype Train” não acrescenta muito ao disco.

Apesar de tudo que estou dizendo, é fato que Renegades ainda reserva algumas homenagens às origens dos rapazes (e rapariga). Falo de “Moonlight”, menos impactada pela adoção de toques moderninhos e enriquecida com uma (agora rara) flauta; “Final Tear”, a que melhor se aproxima do passado, mas sem demonstrar muita intimidade com o mesmo (embora eu aplauda a aparente tentativa de fazer uma continuação para a magnífica “Eternal Destination”, do disco anterior (clique aqui para ver minha resenha sobre ele)); e o encerramento “Rise of the Phoenix”, cujo conteúdo pouco inspirado não faz jus ao nome e à duração.

Outra nova adição à banda é a tecladista Skadi Rosehurst, cuja entrada fez do grupo um sexteto e fez os fãs esperarem que os elementos folclóricos e sinfônicos ganhassem um destaque sem precedentes. Mas o que aconteceu foi justamente o inverso. Tímida, sua participação fica limitada a alguns panos de fundo e um punhado de riffs moderninhos – nada muito superior ao que já era feito antes, sem um membro exclusivo para isso.

Não vou abrir espaço para a eterna discussão “manter a fórmula vs. mudar”, até porque não existe resposta fixa para isso. No caso do Equilibrium, a decisão foi simplesmente errada, pois eles estão abrindo mão daquilo que os consolidou – e o fazem de maneira tão abrupta que soa artificial. A escapatória deles, no caso, foi que mesmo se aventurando num novo estilo, eles foram felizes e entregaram um bom trabalho. Pesando as duas coisas numa balança, ele pende levemente para o lado positivo. E o tempo dirá se a guinada sonora valeu a pena.

Nota: 3/5

Abaixo, o vídeo de “Path of Destiny”: