Resenha: Enigma – Tak Matsumoto

Breve histórico: guitarrista talentosíssimo e que tardou em ser reconhecido – seu primeiro e único Grammy só veio em 2011, já com cerca de 25 de carreira – Tak Matsumoto é a metade instrumental da dupla japonesa de hard/pop rock B’z. Se nessa banda ele ficou famoso por entregar riffs agressivos e cativantes intercalados com solos de som inconfundível, em sua carreira solo ele abre espaço para um lado mais sofisticado e sereno, indo do jazz ao rock com orquestra.

Reprodução da capa do álbum (© Vermillion Records)

Reprodução da capa do álbum (© Vermillion Records)

Apenas dois anos depois de entregar um belo álbum com influências de jazz, soul e R&B, o guitarrista e compositor japonês ataca novamente com um trabalho mais enérgico e mais aberto ao hard rock, mas mantendo elementos dos lançamentos anteriores e contando com participações de alguns nomes marcantes do rock mundial.

Você vai encontrar diversas facetas de Tak aqui, algumas escancaradas, outras mais escondidas. Se o seu apreço é por baladas leves e um trato gentil às seis cordas, vá de “Drifting”, “The Voyage”, “Mystic Journey” e “Step to Heaven”, esta última com uma atmosfera parecida com a do mexicano-estadunidense Carlos Santana (aliás, já pensou uma colaboração dos dois?). O antecessor de Enigma, New Horizon (resenhado neste blog), ecoa em “Roppongi Noise”, com uma forte pegada jazz.

Mas se o seu coração bate mais por um hard, aí a pedida é “Vermillion Palace”, bem típica do gênero; “Ups and Downs” e “Rock the Rock”, com roupagens mais características do japonês; e “Dream Dive” e “The Rock Show”, que ficam menos distantes do trabalho do guitarrista no B’z.

Nem toda faixa integra um desses grupos, contudo. A abertura “Enigma” e sua reprise “Enigma (Epilogue)”, como os nomes sugerem, trazem uma atmosfera meio misteriosa e até um tanto destoante em relação ao resto do álbum, inclusive pela presença de vocais. O diálogo com a capa e com o próprio título do lançamento legitimam as escolhas como faixas de abertura e encerramento, apesar da distância da proposta central.

“Hopes” e “Under the Sun”, fazendo um meio-termo entre o grupo hard e o grupo soft, também trazem vocais – essas duas mais os dois capítulos da faixa-título revelam a agradável voz de Mark Renk, profissional da música cujo nome se fez mais nos bastidores como produtor, arranjador e engenheiro de som.

Como faixa bônus, temos “#1090 ~Million Dreams~”, que, ainda bem, foi deixada fora da lista principal: é praticamente uma paródia não-humorística do B’z, mas, em vez da voz do enérgico Koshi Inaba, temos o rapper Joey McCoy e Greta Karen num coral de fundo.

E qual o saldo de tudo isso? Um excelente disco de rock, onde este guitarrista só timidamente reconhecido mistura desde o hard que o levou à fama até os sopros, as cordas e os elementos de jazz que marcaram seus lançamentos anteriores.

Vale destacar por fim os grandes nomes que contribuíram para a ala rítmica e que contribuem para sua elevada qualidade: os bateristas de longa carreira Jason Sutter, Brian Tichy e Shane Gaalaas (os dois últimos presentes em discos do B’z); e os baixistas Juan Alderete (Racer X e The Mars Volta; com quem o B’z já havia colaborado), Barry Sparks (atual baixista de apoio do B’z) e Travis Carlton (filho do guitarrista Larry Carlton, com quem Tak lançou seu álbum vencedor do Grammy Take Your Pick).

Nota = 9. Enigma é a continuação da carreira de um dos melhores guitarristas que a terra do sol nascente já viu nascer. Não fosse a negligência sistemática que sofre o rock japonês, ele já teria alcançado mais destaque, mas eu não vou importunar ninguém com meu chororô nipoentusiasta: se gosta de boa música, compre sem medo.

Uma vez que não há clipes promocionais das faixas do álbum, nem imagens de apresentações ao vivo, tampouco áudios carregados em sites de vídeos, esta resenha não trará nenhuma degustação.

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Resenha: Santana IV – Santana

Breve histórico: Santana é a banda do guitarrista mexicano naturalizado estadunidense Carlos Santana. Na ativa desde o final dos anos 1960, o grupo começou a carreira com um trabalho de blues misturado com música latina, para nos anos 1990 começar a investir em interessantes e bem-sucedidas parcerias com artistas variadíssimos que deram ao músico altas posições em paradas, prêmios Grammy e muita difusão em rádios. Mais recentemente, o guitarrista aposta em um equilíbrio entre essas duas fases.

Reprodução da capa do álbum (© Santana IV Records)

Reprodução da capa do álbum (© Santana IV Records)

Os álbuns recentes do Santana são irregulares em termos de sonoridade: a brilhante tríade Shaman, Supernatural e all that i am, cheia de participações especiais e toques latinos, foi sucedida por um álbum de covers, depois um álbum de volta às raízes e por fim um álbum nos moldes da supracitada sequência (Corazón, resenhado neste blog).

E foi aí que fomos surpreendidos novamente com o anúncio da volta da formação clássica do Santana, aquela que lançou os primeiros discos do músico mexicano-estadunidense. Reuniram-se o guitarrista Neal Schon, o tecladista e vocalista Gregg Rolie, o percussionista Michael Carabello e o baterista Michael Shrieve. Todos eles participaram dos primeiros três lançamentos da banda (Santana, Abraxas e Santana III), exceto Neal, que só esteve no terceiro. Só faltou o baixista David Brown voltar dos mortos para completar o time, mas as quatro cordas ficaram a cargo do menos conhecido e competente Benny Rietveld. Karl Perazzo também mostra suas credenciais aqui, na ausência do segundo percussionista da formação clássica José Areas.

O resultado é um impecável trabalho de rock, blues e salsa. A química afinadíssima dos sete músicos é a marca deste álbum cujos ensaios resultaram em nada menos que 16 faixas, que intercalam atmosferas, velocidades e direcionamentos musicais. É verdade que algumas podem levar mais tempo para cair no gosto do fã, especialmente os instrumentais mais serenos.

A abertura “Yambu” é pomposa, firme e marcante, como um lento descortinar de um espetáculo. O que vem a seguir é uma maratona de música fina. Há faixas bem típicas da era clássica do Santana, como os longos instrumentais “Fillmore East” e “Forgiveness” e a bela “Blues Magic”.

Outras já fazem referência aos discos mais populares do guitarrista, como “Anywhere You Want to Go”, “Choo Choo” e sua continuação “All Aboard”, além de “Freedom in Your Mind”, esta última com a participação de Ronald Isley – sim, aquele do The Isley Brothers. O estadunidense dá as caras (ou melhor, as vozes) também em “Love Makes the World Go Round”.

Por mais que Santana IV tente fazer referência a quatro décadas e meia atrás, não foi possível esquecer a quantidade de tempo de carreira que decorreu desde os anos 1970. A maturação dos músicos é evidente e foi determinante para a qualidade do som produzido aqui – justamente por isso não seria possível recuperar os sons de quando eles eram jovens de 20 e poucos anos com bem menos experiência. E olha que eles já arrebentavam na época. Santana IV é menos um trabalho de aventura do que um trabalho de celebração.

Nota = 9,0. Não importa quantos discos dele tenham saído, quem aprecia Carlos Santana nunca ouvirá o suficiente. É muito gratificante ver que um artista que começou no final dos anos 1960, junto com a maioria das bandas definitivas do rock clássico, continua fazendo boa música, sem nunca ter parado, sem nunca ter sentado numa zona de conforto – e ainda assim, você o reconhece na primeira nota.

Abaixo, a faixa “Anywhere You Want to Go”:

Resenha: Corazón – Santana

Breve histórico: Santana é a banda do guitarrista mexicano naturalizado estadunidense Carlos Santana. Na ativa desde o final dos anos 60, o grupo começou a carreira com um trabalho de blues misturado com música latina, para nos anos 90 começar a investir em interessantes e bem-sucedidas parcerias com artistas variadíssimos que deram ao músico altas posições em paradas, prêmios Grammy e muita difusão em rádios.

Reprodução da capa do álbum (© RCA/Sony Latin Iberia)

Reprodução da capa do álbum (© RCA/Sony Latin Iberia)

Após quebrar esta série de discos cheios de parcerias em 2012 com Shape Shifter, álbum quase totalmente instrumental e de volta às raízes, o distinto guitarrista mostrou-se disposto a voltar a investir no lado comercial, o que, no caso dele, é quase sempre um tiro certo. E lança, assim, Corazón, álbum recheado de parcerias e regravações de outros artistas, com uma música melhor que a outra.

Algumas faixas são especiais para nós, brasileiros: a abertura, por exemplo, é um cover de “Saideira”, sucesso do Skank, cantada pelo próprio Samuel Rosa, guitarrista e vocalista do quarteto mineiro. A edição de luxo do álbum traz uma versão com letras em espanhol, cantadas também por Samuel. O encerramento “I See Your Face”, um breve solo de violão, é também um cover de um brasileiro, no caso, do guitarrista Bola Sete.

Até a renomada cantora cubano-estadunidense Gloria Estefan se arrisca na lusofonia na faixa “Beijo de Longe”, com um carregado sotaque mais próximo do português que do brasileiro. Algumas edições do álbum vêm ainda com a versão original em espanhol, tocada ao vivo algumas vezes recentemente.

Além dessas, temos outras pérolas, como “Mal Bicho”, um cover dos nosso hermanos argentinos Los Fabulosos Cadillacs com a participação dos próprios. Esta, bem como “Margarita” e “Yo Soy La Luz” (esta última composta pelo próprio Santana) são exemplos de trabalhos que remetem a sons latinos que tanto ganharam espaço nos trabalhos recentes do guitarrista.

As outras faixas variam bastante em termos de atmosfera. “La Flaca”, mais um cover, traz Santana aliado a Juanes, ex-vocalista/guitarrista do grupo colombiano de thrash metal Ekhymosis. Em sua carreira solo, o cantor quebrou o recorde de prêmios Grammy Latino conquistados por um só artista (20, no total). Aqui, ele participa de uma regravação dos espanhóis Jarabe de Palo. Outra faixa com participação de um cantor com coleções de prêmios é “Indy”, leve e sem percussão, que nos traz a voz do estadunidense descendente de mexicanos Miguel.

Vale citar ainda a versão retrabalhada de “Oye Como Va”, que pode fazer alguns fãs mais ortodoxos levantarem uma sobrancelha devido à presença do rapper porto-riquenho Pitbull. Fato é que esta nova interpretação, intitulada “Oye 2014”, moderniza o hit ao mesmo tempo em que respeita sua essência.

E, já que foram citadas quase todas as faixas, porque não mencionar as restantes: a romântica “Amor Correspondido”, com Diego Torres, acompanhada de sua respectiva versão anglófona “Feel It Coming Back”; “Una Noche en Nápoles”, cover de uma música originalmente cantada em italiano no grupo Pink Martini e, muito convenientemente, marcada por um belo trabalho de Santana no violão de doze cordas que realmente lembra os violões clássicos do país europeu; e “Iron Lion Zion”, cover de Bob Marley com a participação de seu filho Ziggy e o grupo afro-cubano ChocQuibTown.

É fácil perceber que o trabalho todo tem um clima positivo, a começar pela capa e pelo encarte, cheios de cores e imagens caricatas que lembram a conhecida alegria da arte mexicana.

Nota = 8,5. Num disco em que o Carlos Santana volta a usar sua bem sucedida fórmula que combina parcerias, sons latinos e seus inconfundíveis licks enfeitando as músicas do começo ao fim, o resultado final é gratificante para quem aprecia uma boa música latina e um bom trabalho na guitarra. Não é necessariamente um disco voltado para o rock, tampouco para o blues característico do grupo em suas origens. É apenas um trabalho da mais bem produzida e marcante música latina, com a adição da magia das seis cordas do icônico guitarrista.

Abaixo, o vídeo de “Saidera” (versão em espanhol):