Resenha: Ømni – Angra

Reprodução da capa do álbum (© earMUSIC)

Depois de duas trocas de vocalistas, chegou a hora do Angra encarar um novo tipo de mudança: substituição nas seis cordas. Kiko Loureiro saiu para integrar o Megadeth e, em seu lugar, entrou Marcelo Barbosa, sujeito bastante cultuado por aqui após passagens pelo Khallice e pelo Almah, do ex-vocalista Edu Falaschi.

E sua trajetória no quinteto paulista começa num projeto ambicioso: Ømni, cujo conceito liga os discos anteriores da banda. Uma tarefa complexa, considerando que cada um deles, por si só, já costumava trazer uma ideia sofisticada.

Boa parte do álbum é feito do mais puro power metal: “Light of Transcendence”, “Travelers of Time”, “Insania”, “War Horns”, “Magic Mirror”- não por um acaso, são algumas das melhores. Dobradinhas empolgantes nas guitarras, solos fritados, riffs agressivos… o que mais você precisa? “War Horns” poderia receber o injusto rótulo de “aquela faixa com um solo do Kiko”, mas ela é possivelmente, e simplesmente, uma das melhores do disco. Ømni traz um “fator uau” equiparável ao do Temple of Shadows, de 2004.

As demais faixas merecem comentários à parte. “Black Widow’s Web”, por exemplo, só não funciona na mente de quem não aprecia o estilo ou é limitado demais para “aceitar” que uma cantora como Sandy colabore com o Angra – ainda que Alissa White-Gluz, do Arch Enemy, dê sua contribuição também, como que para lembrar a todos que isto não é nada além de mais uma peça de metal.

É uma história que se repete de tempos em tempos: “Carolina IV”, “Unholy Wars” e “Late Redemption” causaram semelhante rebuliço quando foram lançadas. O próprio Kiko fez um interessante comentário a respeito da questão.

Enquanto vocalista, Rafael Bittencourt começa a bater suas asinhas com mais liberdade aqui. Em “Travelers of Time”, “Caveman”, “Magic Mirror” e “Ømni – Silence Inside”, ele oferece um agradável contraste para a voz de Fabio. Já em “The Bottom of My Soul”, na qual atua sozinho, não obtém semelhante sucesso. É um trabalho interessante, com um instrumental lento e marcado por fraseados orientais, mas que destoa bastante do resto do disco, comprometendo sua coesão.

“Caveman”, como o nome sugere, é tribal, com elementos brasileiros e um pouco de português nas letras, que fazem alusão à Alegoria da Caverna de Platão. Taí uma outra vantagem de se ter Rafael como segundo vocalista: garantia de uma pronúncia adequada do nosso idioma.

Encerrando o álbum, “Ømni – Silence Inside”, um power prog elaborado, e “Ømni – Infinite Nothing”, que retoma e condensa as frases principais de cada faixa do disco em uma curta peça orquestral, na melhor escola “Gate XIII” ou mesmo “Imaginaerum”, do Nightwish.

Os (poucos) pontos baixos de Ømni são “Insania”, um trabalho mais comercial que surpreendentemente – e felizmente – não foi o escolhido para ganhar um vídeo; e “Always More” – em que pese trazer uma mensagem bonitinha, destoa quase tanto quanto “The Bottom of My Soul”, mesmo para uma baladinha.

O álbum é fenomenal no sentido de que é uma obra de power metal de altíssima qualidade, incorpora elementos eruditos e brasileiros naquela dosagem costumaz deles, tranquiliza os fãs quanto às credenciais de Marcelo e reafirma a capacidade criativa de Rafael, mesmo num time já desfalcado de grandes compositores como Kiko e Andre Matos.

Alguns continuarão dizendo que o Angra perdeu sua essência. Não, não, ela nunca foi perdida, apenas alterada. Pudera, somente um membro restou da formação original. Aliás, uma banda que apresenta uma proposta musical tão requintada dificilmente conseguiria se prender a alguma fórmula.

Como eu não resenhei Secret Garden – que é ótimo, mas ainda inferior a Ømni – aproveito para dizer que a entrada de Fabio Lione no grupo foi benéfica para ambos, mas se colocarmos numa balança, o ganho do italiano é bem maior. Se por um lado ele não é o vocalista perfeito para o Angra, ele ganhou no grupo brasileiro um espaço para desenlatar sua voz e mostrar que ele pode bem mais do que aqueles vocais enjoados do Rhapsody of Fire.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo de “War Horns”:

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Resenha: Lione/Conti – Lione/Conti

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Music Slr)

Em meio a toda aquela confusão sobre o que é o Rhapsody hoje, dois dos vocalistas que já deixaram sua marca nessa lenda italiana do power metal sinfônico decidiram unir forças para começar 2018 com uma colaboração: Fabio Lione e Alessandro Conti. O primeiro cantou na versão original do Rhapsody (o Rhapsody of Fire) por duas décadas, enquanto que o segundo teve uma passagem mais breve, cantando nos dois álbuns da versão do Rhapsody capitaneada por Luca Turilli após sua saída do Rhapsody original e antes dele formar um terceiro Rhapsody com o próprio Lione e outros ex-membros. Ufa!

Batizados com o revolucionário nome Lione/Conti, os dois cantores se juntaram aos pouco conhecidos Filippo Martignano (teclados) e Marco Lanciotti (bateria) mais o respeitado guitarrista e baixista Simone Mularoni para preparar seu disco de estreia, autointitulado.

É perfeitamente aceitável que você não se impressione muito com as primeiras faixas. Apesar do ótimo trabalho de Simone, que se esforça para torná-las mais agressivas, elas são bem comerciais, com teclados moderninhos aqui e ali e uma estrutura deveras convencional.

Mais a coisa vai melhorando aos poucos. O álbum ganha contornos de metal sinfônico em “You’re Falling” e “Somebody Else”, esta última com uma letra reflexiva na melhor escola Stratovarius de autoafirmação; enquanto que a paulada “Misbeliever” fecha a primeira metade com chave de ouro.

A segunda metade vem bem recheada com mais duas cacetadas do mais puro power metal (“Glories” e “Gravity”), duas faixas não tão rápidas mas muito dignas (“Truth” e “Crosswinds”) e a peça mais esquecível do disco, “Destruction Show”.

Exceto em alguns momentos realmente inspirados, o álbum surpreendentemente não apresenta os dois vocalistas em sua melhor forma. São performances competentes, profissionais, mas só. Por outro lado, os três instrumentistas mostram talento equiparável às bandas mais tradicionais do gênero, deixando-nos já ansiosos para lançamentos futuros.

Nota = 4/5

Abaixo, o vídeo de “Ascension”:

Resenha: The Dark Element – The Dark Element

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

Quando foi anunciado que Jani Liimatainen (ex-Sonata Arctica, Cain’s Offering, Blackoustic) se juntaria a Anette Olzon (ex-Nightwish) num projeto, logo pareceu que tínhamos praticamente mais um supergrupo a caminho. E considerando o alto nível dos trabalhos recentes de ambos, coisa ruim não poderia sair disso.

Mas, por incrível que pareça, foi exatamente o que aconteceu nesta iniciativa batizada como The Dark Element. Sabe aquelas faixas comerciais que toda banda de power metal e/ou metal sinfônico enfia no meio dos álbuns para ganhar um vídeo e agradar suas gravadoras? Bom, o disco de estreia autointitulado deles é, basicamente, uma compilação disso. Reúne o que há de pior e mais fraco nos gêneros num trabalho essencialmente genérico.

Em alguns momentos, temos até tentativas constrangedoras (e fracassadas) de imitar o Nightwish, como em “My Sweet Mystery”, “Dead to Me” e “The Ghost and the Reaper”. Como se os profissionais envolvidos precisassem se sujeitar a isso. Cadê aquele vigor todo do Cain’s Offering, supergrupo que envolve justamente Jani, o baixista e o baterista deste projeto, Jonas Kuhlberg e Jani ‘Hurtsi’ Hurula? Ora, não foram eles (acrescidos das lendas vivas Timo Kotipelto e Jens Johansson) que em 2015 lançaram um dos melhores discos de power metal da década, Stormcrow (resenhado neste blog)?

Mas é claro que o álbum tem seus acertos – e ele é tão sofrível que aquilo para o que normalmente torcemos o nariz acaba salvando o dia aqui: as baladas “Someone You Used to Know”, “Heaven of Your Heart” e “Only One Who Knows Me”. Será coincidência que elas parecem material não aproveitado da estreia solo de Anette, o agradável Shine (resenhado neste blog)? “Dead to Me”, por sua vez, e apesar do que eu disse no parágrafo acima, é um dos poucos momentos em que o quarteto tenta realmente soar pesado, uma empreitada que termina bem para nossos ouvidos.

A maior parte da culpa da baixa qualidade do disco recai em Jani, afinal, ele fez tudo menos o vocal, o baixo e a bateria. Temos aqui um trabalho tímido na guitarra, que acaba muitas vezes soterrada sob arranjos pop nos teclados, talvez numa tentativa de fazer o projeto soar “moderno”.

Anette, por sua vez, faz o possível para elevar o nível das músicas e aproveita muito mais o seu potencial, entregando uma performance condizente com sua média. O mesmo vale para os outros dois discretos integrantes. Mas como a esperança é a última que morre, não custa torcer para que o projeto volte um dia com um disco melhor, o que no caso significa um disco que faça jus à capacidade do time responsável.

Nota = 2/5. Por mais que The Dark Element tenha seus bons momentos, é aquela velha história: deixemos a fanboyzisse de lado e reconheçamos quando músicos que admiramos não produzem algo a altura de suas capacidades.

Abaixo, o vídeo de “My Sweet Mystery”: