Resenha: O Tempo É Agora – Anavitória

capa do álbum 'O Tempo É Agora'; trata-se de uma fotografia em preto e branco da dupla olhando para a câmera; vitória faz um gesto com os braços se cruzando

Reprodução da capa do álbum (© Universal Music International)

A dupla de vozes femininas que conquistou o Brasil com uma harmonia deliciosa e letras românticas sem se render às facilidades mercadológicas da intragável “sofrência” (não que elas também não tenham um forte apelo comercial) está de volta em 2018 com seu segundo disco: um lançamento bem melhor que o anterior.

Vamos combinar que a estreia autointitulada delas, por mais que agradasse, é o último CD que eu indicaria a alguém com sono e prestes a dirigir numa estrada perfeitamente reta. Mas este O Tempo É Agora não: a música se mostra mais encorpada, madura e densa.

Aliás, maturidade é o adjetivo mais adequado para o disco. Em oposição à inocência que marcou o primeiro. Talvez isso não fique claro na primeira dupla de faixas: a abertura em clima tropical “Ai, Amor” e a sonolenta “Porque Eu Te Amo”. Esse tipo de canção ainda dará as caras outras vezes, como em “Preta” e “Se Tudo Acaba”.

Mas na terceira, “Calendário”, já começamos a notar os primeiros sinais de evolução musical. Um arranjo certeiro de cordas conduz um música que, mais crua, seria só mais do mesmo. E o trocadilho no nome de “Outrória”, parceria com o também duo OutroEu, é bem menos interessante que o resultado musical da junção das quatro vozes neste trabalho de MPB-pop.

“A Gente Junto” é o primeiro sinal incontestável de maturidade sonora do álbum. Trata-se de uma peça com ritmo charmoso e instrumental elegante, uma das melhores – “Canção de Hotel” e “Dói Sem Tanto” seguiram o mesmo caminho. A boba alegre faixa título, por sua vez, parece dialogar com “A Lei Desse Troço”, do lançamento solo de Paulo Miklos, A Gente Mora no Agora (resenhado neste blog).

Se “A Gente Junto” e “Canção de Hotel” foram as maiores evidências de evolução musical, “Cecília” é o auge da maturidade e rompimento com a inocência, o que pode ser percebido em suas letras melancólicas e no instrumental guiado por um lacrimejante piano.

Batizar como O Tempo é Agora o produto que submeterá Anavitória à tal da “prova do segundo disco” é um tanto curioso, pois não tem como o álbum não nos instigar a estabelecer comparações com o anterior – e a conclusão sempre haverá de ser favorável ao novo.

Nota = 4/5.

Abaixo, o áudio de “A Gente Junto”:

Anúncios

Resenha: The Insulated World – Dir en grey

capa do álbum 'the insulated world'; a imagem mostra um rosto humanoide cheio de formas e cores diferentes

Reprodução da capa do álbum (© Firewall Div.)

Houve uma época em que toda vez que o Dir en grey, um dos maiores nomes do metal japonês atualmente, anunciava um novo disco, a pergunta que se fazia era: qual o direcionamento musical que o quinteto adotará? Bem, essa época parece ter chegado ao fim.

O grupo se agarrou a uma zona de conforto. Se os trabalhos de estúdio deles descrevessem uma curva num gráfico peso x tempo, poderíamos dizer que, a partir de Uroboros, a curva foi ficando cada vez menos acentuada e quase paralela ao eixo de tempo.

Assim, o décimo álbum deles, The Insulated World, é uma continuação natural de Arche e Dum Spiro Spero, ambos ótimos (e resenhados neste blog aqui e aqui, respectivamente). Acontece que a estratégia de focar neste tipo de som – uma indefinível mistura de metal experimental, alternativo, progressivo, thrash, death e metalcore – é uma faca de dois gumes.

Por um lado, a banda se garante num terreno confortável: se os três discos anteriores foram bem recebidos pela crítica e pelos fãs, o que poderia dar errado com este, que reproduz a estética de seus antecessores?

Por outro lado, a característica principal do Dir en grey sempre foi justamente não ter característica nenhuma. As mudanças de um lançamento para o outro sempre eram gritantes (em alguns casos, literalmente), ainda mais para um conjunto que nunca mudou sua formação.

Assim, o que podemos constatar a esta altura da carreira deles é que eles continuam agradando, e muito, mas não surpreendem mais. Claro que ouvir faixas ótimas como “Keibetsu to Hajimari”, “Devote My Life”, “Downfall” e “Zetsuentai” pela primeira vez não deixa de ser uma experiência gratificante e inédita.

E vez ou outra até ouvimos algo bastante novo, como a introdução de “Rubbish Heap” e o instrumental de “Followers”, sem falar nas regravações de “Kigan”, “The Deeper Vileness” e “Wake”, que “atualizam” músicas da década passada, quando o som da banda era bastante diferente.

Mesmo assim, a tendência parece ser que cada vez menos tenhamos o “fator ‘uau!'” nos álbuns do Dir en grey. E olha que é difícil não ficar boquiaberto com o quanto esse quinteto soa bem: as linhas proeminentes do baixista Toshiya, os diálogos das guitarras de Kaoru e Die, a perícia de Shinya na bateria e, é claro, os vocais de Kyo, que são um charme à parte.

The Insulated World é um trabalho excelente e merecedor de todos os elogios dos fãs e da crítica – vide a nota que esta mesma resenha atribuirá logo abaixo. Mas ouvir música sem refletir é uma tarefa feita pela metade. Até o mais apaixonado dos fãs não pode se furtar de admitir que a banda está caindo numa mesmice – uma mesmice boa, mas atípica para o grupo. Que os membros enjoem disso antes que os fãs…

Nota = 4/5

Abaixo, o clipe de “Ningen wo Kaburu”:

Resenha: Mrã Waze – Arandu Arakuaa

capa do álbum Mrã Waze; há o focinho de uma onça pintada com cocar em meio a paisagens diversas desenhadas ao fundo; o nome da banda aparece ao centro, em cima, com duas folhas nas laterais, e o nome do álbum aparece ao centro, embaixo

Reprodução da capa do álbum (© Arandu Arakuaa)

Foram necessários 15 anos para que uma banda brasileira acertasse a peteca levantada pelo clássico Roots, do Sepultura. Refiro-me à mistura de heavy metal com música indígena, algo que ninguém fez consistentemente até o surgimento do Arandu Arakuaa, grupo brasiliense capitaneado pelo vocalista, guitarrista e violista Zândhio Huku, que cresceu em contato com a cultura xerente. Em 2011, eles subiram ao palco pela primeira vez e, dois anos depois, lançaram sua estreia Kó Yby Oré.

Passados cinco anos, o quinteto – com uma formação totalmente nova, exceto por Zândhio – lança seu terceiro álbum, Mrã Waze, e não são necessárias muitas audições para concluirmos que é o melhor do grupo até agora.

Como se adentrássemos a Floresta Amazônica e nos aproximássemos de um ritual indígena, “Sy-Guâsu” abre o disco com uma levada ainda totalmente orgânica, sem heavy metal. É em “Guâiupîá” que a viagem musical começa de fato, e muito bem.

Daí em diante, temos 40 minutos do mais típico Arandu Arakuaa, termo que aqui significa “faixas com guitarras de heavy metal contracenando com cânticos e ritmos indígenas brasileiros, vez ou outra intercaladas com peças totalmente acústicas como ‘Danhõ’re’, ‘Ko Kri’ (instrumental) e ‘Gûaînumby'”.

Mesmo assim, nota-se uma evolução óbvia com relação aos discos anteriores, talvez capitaneada pela reciclagem quase total dos membros. Mrã Waze leva a mistura inusitada do Arandu Arakuaa a um novo patamar de homogeneidade. Com efeito, nós não temos mais simplesmente uma riffagem de metal enfeitada com chocalhos, violas e cânticos. Temos guitarras que efetivamente incorporam os padrões rítmicos indígenas em seus acordes, o que fica claro na já mencionada “Guâiupîá” e em “Jurupari”.

A banda abre mais espaço para o heavy metal tradicional em detrimento do thrash/death que lhe são costumeiros – uma sábia decisão, pois torna o som mais palatável e deixa a mistura de estilos menos heterogênea. Ademais, as mudanças constantes de dinâmicas são suficientes para constatarmos até elementos progressivos no trabalho, vide o encerramento “Rowahtu-Ze”.

Provando mais uma vez que o heavy metal não conhece barreiras culturais, o Arandu Arakuaa lança mais do que um álbum: trata-se praticamente de um ato de resistência, numa era em que índios lutam para terem seus direitos reconhecidos e em que aquilo que foge ao óbvio é rapidamente julgado.

Nota = 4/5

Abaixo, o vídeo de “Huku Hêmba”: