Resenha: Architecture of a God – Labyrinth

Reprodução da capa do álbum (© Frontiers Records)

Os sete anos que separam o ótimo Return to Heaven Denied Part II: “A Midnight Autumn’s Dream” deste que é o oitavo lançamento do sexteto italiano de power metal Labyrinth foram marcados por inatividades e incertezas. Chegaram a anunciar o rodado cantor Mark Boals como vocalista, após Roberto Tiranti sair para se dedicar a projetos solo e dizer que nunca trabalharia com power metal em outro grupo.

Depois de uma dança das cadeiras que envolveu a saída de três membros (o tecladista Andrea De Paoli, o baterista Alessandro Bissa e o baixista Sergio Pagnacco) e com um empurrãozinho da gravadora Frontiers, que sugeriu por telefone uma reunião dos membros da formação clássica para a gravação de um novo trabalho, a banda finalmente anunciou seu retorno definitivo com uma formação que, além dos guitarristas fundadores Andrea Cantarelli e Olaf Thorsen e do próprio Roberto, inclui os novos membros Nik Mazzucconi (baixo), o ex-Vision Divine Oleg Smirnoff (teclados) e o notório John Macaluso (bateria).

Todos sabem que iniciativas resultantes da insistência de uma gravadora podem dar muito errado, e nem preciso fugir do power metal para dar um exemplo recente: a horrível regravação de 2014 que o Sonata Arctica fez do seu bom álbum de estreia Ecliptica a convite de uma gravadora japonesa. Porém, no fim das contas, o que temos aqui é um case de sucesso.

A tríade de abertura deixa isso claro. “Bullets” (que recebeu um vídeo) e “Still Alive” resumem bem a nova proposta musical do grupo, e temos na excelente “Take on My Legacy” o ponto alto do disco. O sexteto perde um pouco o gás em “A New Dream”, que ressuscita alguns elementos típicos do Labyrinth, e na razoável “Someone Says”, que também ganhou um clipe.

O breve e misterioso interlúdio “Random Logic” faz a ponte para a faixa título, a mais longa do álbum e também da discografia dos italianos. Embora não seja a melhor, é um dos pontos altos e tem todo aquele dinamismo que exige uma faixa com duração além do convencional.

“Chldren” se trata de um cover de um grande hit eletrônico italiano dos anos 1990, originalmente lançado por Robert Miles. Embora soe estranha logo de cara, qualquer um acaba se rendendo à simpatia da regravação. “Those Days” é o mais próximo que temos de uma balada e cria o momento menos empolgante do disco com a insossa “We Belong to Yesterday”. Mas pra não dizer que fechou mal, Architecture of a God nos dá a ótima “Stardust and Ashes”, na mesma vibe de “Take on My Legacy”.

A faixa de encerramento, “Diamond”, é um tanto difícil de compreender. Com um instrumental exclusivamente eletrônico, parece uma espécie de cartão de visitas para Oleg. Ficaria melhor como faixa bônus, uma vez que não tem absolutamente nada a ver com o Labyrinth e dialoga muito pouco com este álbum.

E falando em Oleg, cabe aqui um elogio à nova metade da banda. Sem descambar para o electronicore, o ex-Vision Divine enfeitou o Labyrinth com toques eletrônicos que não soam como peixes fora d’água. Nik foge do óbvio em muitos momentos, às vezes incorporando o Toshiya do Dir en grey, e só isso já o põe bem acima da média dos baixistas de power metal, que normalmente só acompanham a guitarra. O mesmo faz John Macaluso, o que não é de se surpreender, pois tem um vasto currículo nas costas

Nota = 4/5. Longe da perfeição, mas bastante empolgante, Architecture of a God inaugura uma nova era para o Labyrinth que, torçamos, renderá mais álbuns. A junção do “núcleo duro” da banda com três novos e talentosos membros mostrou-se mais que uma mera jogada de marketing da Frontiers e recolocará os rapazes no mapa europeu do power metal.

Abaixo, o vídeo de “Bullets”:

Resenha: Residente – Residente

Reprodução da capa do álbum (© Fusion Media Group)

Se com o Calle 13 o cantor porto-riquenho Residente nos leva a viagens sonoras pela América Latina com seu meio-irmão Visitante, em sua aventura solo ele decidiu atravessar os oceanos e explorar sons do resto do mundo. Em 13 faixas, o músico nascido como René Perez Joglar vai à Sibéria, à África, à China, ao Cáucaso e a Paris, muitas vezes misturando elementos de outros lugares.

A escolha das etapas desta longa viagem não foi aleatória: Residente realizou um teste de DNA para descobrir as origens de seu código genético e surpreendeu-se ao constatar os locais de suas raízes. Motivado, viajou para todos esses lugares e gravou com músicos locais, desconhecidos em sua maioria.

O resultado da “salada” dialoga diretamente com o clipe de “Somos Anormales” (veja abaixo), primeiro single do trabalho, e cuja mensagem é clara: somos diferentes, mas viemos do mesmo lugar. Os meios utilizados para propagar tal recado podem chocar tanto os mais conservadores (vide o supracitado vídeo) quanto os progressistas de sofá que “estudam” sociologia por meio de posts no Facebook e provavelmente reagiriam com um “ui, apropriassaum cuturau”, mas o que temos é um discaço incontestável.

A tese geral de Residente é didaticamente comentada na abertura “Intro ADN / DNA”, onde o premiadíssimo ator e compositor Lin-Manuel Miranda narra como ele e Residente descobriram serem primos distantes e depois manda um rap com reflexões sobre a genética. Em seguida, chegamos ao primeiro single “Somos Anormales”. A letra tem aquela levada bem humorada típica do porto-riquenho, mas é um caso em que o vídeo fala muito mais que as palavras. Se você não for da turma do “mds uma vajina nunca vi iço”, confira você mesmo ao final da resenha. Musicalmente, é um trabalho dos mais interessantes, misturando um ritmo tribal com a impressionante performance dos cantores difônicos da Ásia Central, capazes de manipular suas vozes de um jeito que deixaria Bobby McFerrin com inveja. A terceira faixa, “Interludio Entre Montañas Siberianas”, dá dois minutos e meio para esses artistas exibirem um pouco mais suas habilidades.

O segundo single, “Desencuentro”, é a faixa menos empolgante do álbum, mesmo com a participação da cantora francesa SoKo, o que é compensado com um belo e divertido clipe – ambos (canção e clipe) têm um final inexplicavelmente abrupto.

A visita à China nos rende duas faixas: uma bela canção chamada “Una Leyenda China”, com um instrumental certeiro que nos transporta imediatamente para o país da Grande Muralha; e outra mais bela ainda, “Apocaliptico”, combinando serenos vocais chineses, os sinistros órgãos da Temple Church de Londres e do Palácio da Música Catalã de Barcelona, e os fortes versos de Residente, no melhor estilo “Respira el Momento” e “Calma Pueblo”.

Antes de “Apocaliptico”, temos um tema parecido em “Guerra”, outro ponto alto do disco com vocais dramáticos e instrumental tenso. Trata-se de um trabalho que causa ainda mais admiração quando você descobre que ele foi gravado em meio a bombas no Azerbaijão e envolveu pessoas dos dois lados do conflito da Ossétia.

Da África, ganhamos “Interludio Haruna Fati”, prelúdio quase a cappella para “Dagombas en Tamale”, em que uma tribo dagomba de Gana acompanha o rap de Residente com uma cativante batucada; “Milo”, homenagem a seu filho também gravada em Gana e introduzida por cordas que nos remetem a “Baile de los Pobres”; e “La Sombra”, funk étnico com aroma de blues criado em Burkina Faso com o icônico guitarrista tuaregue Bombino, cujo trabalho nas seis cordas nos leva a mais um ponto alto do álbum e me deixa curioso para saber o que sairia de uma parceria dele com Carlos Santana.

Encerrando o disco, temos “El Futuro Es Nuestro”, divertida peça de funk/reggaeton cujas letras são uma tentativa cômica de prever um futuro em que baratas serão alimentos e a lua não existirá mais como consequência de uma detonação terrorista; e “Hijos del Cañaveral”, bonita canção sobre o local onde a viagem genética de Residente termina e a viagem de sua vida começa: sua pátria mãe, Porto Rico. A irmã do cantor, que agora atende pelo nome de ILE, participa nos vocais de apoio.

Quanto mais você ouve Residente, mais você quer ouvi-lo de novo. É incrível como apenas 13 faixas de duração normal bastaram para Residente captar e condensar tantas coisas pouco palatáveis para um artista mediano – coisa que ele, sem sombra de dúvidas, está longe de ser.

Nota = 5/5. Se eu fosse escrever tudo o que senti ouvindo Residente, 11 parágrafos não dariam nem para metade do texto. Por isso, convido o leitor a ouvir a experiência que é este projeto – que envolve também um documentário e um livro – e tirar suas próprias conclusões. Você pode até não ficar tão impressionado quanto eu, mas duvido que não se sinta tocado de alguma forma.

Abaixo, o vídeo de “Somos Anormales”:

Resenha: Illusions Dimension – Matheus Manente

Reprodução da capa do álbum (© VmbrellA)

Apesar do potencial, o Brasil ainda não é um polo do metal progressivo como é do power metal e do thrash, por exemplo. Tirando Dream Theater e Symphony X, bandas com cacife para encabeçar extensas turnês mundiais, é relativamente raro um grupo relevante do gênero dar as caras por aqui. Além disso, temos uma carência de nomes fortes do estilo. O mais promissor deles, Bad Salad, tem seu futuro incerto.

Felizmente, uma nova promessa mostrou-se para o mundo no início deste ano, diretamente de São Paulo. Praticamente sozinho, o multi-instrumentista Matheus Manente criou este que já é um grande lançamento progressivo do ano – o digo isso em escala global!

Cuidando de quase todos os instrumentos, o paulistano juntou 13 faixas bem variadas num disco de metal progressivo instrumental que esbarra frequentemente no jazz fusion, na música clássica, no eletrônico e na world music, com resultados encantadores.

A abertura “Knetic Disturbances” (sem contar a breve introdução autointitulada) nos leva a uma intrincada viagem guitarrística a la John Petrucci, com passagens que nos remetem ao trabalho do estadunidense em “The Count of Tuscany”, do Dream Theater. O virtuosismo prossegue em “The Shapley-Curtis Debate”.

“Inner Peace”, como o nome sugere, pisa no freio bruscamente e nos traz um leve dueto de um piano sereno comandado por Gryzor87 e uma guitarra emotiva. O peso volta na técnica “Symmetry of Evil” e na dinâmica “Market Garden”, que ganhou um clipe.

Temos então um novo e longo momento de respiro que começa em “Castaway”, onde um violão conversa sozinho até ser somado a mais um companheiro de seis cordas ao mesmo tempo em que sons de praia ao fundo vão dando lugar a um burburinho de aglomeração humana. Chega então a bela “The Seventh of Nights”, em que o violão passa a fazer companhia a delicados sopros e percussões, e tudo culmina em “Pamukkale”, balada quase acústica com mais um belo trabalho ao piano de Gryzor87 e dedilhadas na guitarra elétrica.

E assim chegamos a “Virtual Destruction”, onde o peso e as influências eletrônicas ajudam a criar um dos pontos altos do disco. Um novo interlúdio, “The Burial of the Count of Orgaz”, leva-nos a outro ponto alto, “Brihadeeswarar Temple”, onde os elementos eletrônicos voltam a dar as caras e dividem espaço com riffs de aroma thrash e uma bateria no melhor estilo St. Anger. O encerramento fica por conta da boa “Dreams and Memories”.

Talvez o fato de ser produto de um nome ainda pouco conhecido jogue contra Illusions Dimensions, mas a verdade é que álbuns bem menos empolgantes costumam aparecer nas listas de melhores lançamentos progressivos do ano. Graças a Dio, você não depende só dessas listas para descobrir novidades.

Nota = 5/5. Cuidando de tudo sozinho, Matheus conseguiu reunir riffs e solos de alto nível, linhas de baixo e bateria que fazem jus ao som das seis cordas, trabalhos tocantes no violão e arranjos muito bem-vindos de teclados. O que mais você espera de um álbum de metal progressivo instrumental?

Abaixo, o vídeo de “Market Garden”:

* O CD Illusions Dimensions foi enviado ao autor do blog via e-mail pelo próprio músico e a resenha foi escrita por sugestão do mesmo.