Resenha: Shehili – Myrath

Reprodução da capa do álbum (© earMUSIC)

Foi como “metal desértico ardente” que Zaher Zorgati, vocalista do quinteto tunisiano de metal oriental progressivo Myrath, definiu o quinto lançamento deles em entrevista à revista finlandesa Tuonela. Para ele, a banda mudou seu gênero com este registro de 2019 e assumidamente optou por um caminho comercial, no bom sentido.

No fundo, Shehili não é assim tão destoante da discografia dos africanos, mas trata-se de uma notável evolução com relação ao passado, tanto quanto seu antecessor Legacy (2016, resenhado neste blog) foi quando comparado ao mediano Tales of the Sands (2011, terceiro disco deles, também resenhado neste blog).

Porque não apenas o grupo manteve o que deu certo em seu quarto álbum – os riffs memoráveis, a força das composições, o resgate dos elementos árabes como parte relevante de sua música e não apenas um detalhe de fundo – como também melhorou especialmente este último aspecto, que é o que a torna autêntica e um dos expoentes do gênero hoje.

A bela abertura “Asl” já nos dá um bom indicativo disso ao trazer a participação de Mehdi Ayachi nos vocais. Ela prepara o terreno para “Born to Survive”, que, misturando riffs pesados, percussão e cordas árabes e sopros orquestrais, coloca logo de cara o nível da obra lá em cima.

Mas o quinteto demonstra pouca dificuldade em manter a peteca no alto. Seja na ótima “You’ve Lost Yourself”, na grandiosa “Dance”, que conta a história de um dançarino que segue com sua arte mesmo após receber ameaças de morte do Estado Islâmico e que recebeu um clipe histórico; no belo cover de “Lili Twil”, originalmente por Younes Migri; na ótima “Mersal”, com vocais do renomado tunisiano Lotfi Bouchnak; ou num dos (muitos) pontos altos, “Darkness Arise”, com um brilhante trabalho instrumental por parte de toda a banda.

A jornada musical se encerra com a faixa título, que não chega a ser a melhor, mas faz jus ao nome que lhe foi dado, sendo uma das que mais bem equilibra o lado metal com o lado árabe do grupo.

O lançamento, por si só, também faz jus a seu título, que pode ser traduzido como algo do tipo “vento quente que vem do deserto”. Pois é isso que o Myrath vem sendo: um sopro de criatividade e energia que atinge a Europa diretamente da costa norte do continente ao sul.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo de “No Holding Back”:

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Resenha: Wanderlust – Stolen Byrds

reprodução da capa do álbum 'wanderlust', do Stolen Byrds. Trata-se do busto de uma mulher negra e de cabeça raspada visto pela diagonal esquerda enquanto ela olha para frente e levemente para cima, cercada por um retrato e ante um fundo de folhas e galhos, com uma cobra marrom pendurada no ar à direita dela

Reprodução da capa do álbum (© Sony Music Entertainment ltda)

Wanderlust – do alemão “wandern” (fazer uma caminhada) e “Lust” (vontade, desejo). Um termo usado para designar um impulso ardente de viajar pelo mundo ou, num sentido mais amplo, empreender em uma jornada de autoconhecimento e descobertas diversas.

Um título bastante apropriado não apenas para este lançamento, mas para toda a discografia do quinteto paranaense Stolen Byrds, que nunca se contentou com qualquer tipo de zona de conforto. Na linha de seu antecessor 2019 (resenhado neste blog), a banda explora múltiplas possibilidades, desta vez sem sair muito do nebuloso universo do rock alternativo.

Podemos conferir tal fato na dupla de abertura “Soul Much Higher” e “Masterplan”, esta última enfeitada com o charme de uma percussão brucespringsteenística.

“É Tão Bom” incorpora elementos psicodélicos em um som que poderia ter saído da excelente estreia do Joana Marte, De Outro Lugar. O mesmo vale, em menor grau, para a excelente “Unbearable Truth”, com um dos pontos altos do disco em termos instrumentais.

A sereníssima “Under the Water” engolfa o ouvinte no sentimento de estar, com efeito, submerso, e em muito destoa de sua sucessora “New Born Child”, que resgata o stoner que sempre marcou, em menor ou maior grau, o som dos paranaenses.

“Tapete Preto”, um interlúdio sereno que é pano de fundo de um monólogo sobre a vida na estrada do ponto de vista de um caminhoneiro e “Tell Me”, com singulares camadas de metais ao fundo, são charmes à parte.

“Sang D’CöCö”, com aquela percussão africanizada de “Masterplan”, é uma introdução para a última música “Green Dress”, uma peça que começa serena (não tanto quanto “Under the Water”), revisita o clima progressivo de “É Tão Bom” e constrói um encerramento mais denso, fechando a obra com chave de ouro.

Em termos de qualidade musical, Wanderlust está em pé de igualdade com a discografia pregressa do Stolen Byrds e é naturalmente superior a 2019 que, com não muito mais do que 20 minutos distribuídos em seis faixas, não passava de um EP disfarçado.

Nota = 4/5.

Abaixo, o álbum completo no canal oficial da banda:

Resenha: RASGACABEZA – Francisco, el Hombre

reprodução da capa do álbum 'rasgacabeza', do francisco el hombre. Trata-se de uma figura humanoide com o busto em chamas ante um céu encoberto, com o nome do disco altamente estilizado acima e ao centro e o nome da banda em fonte convencional ao centro, embaixo

Reprodução da capa do álbum (© Francisco, el Hombre)

Após cravar seu nome no mapa da música brasileira contemporânea com SOLTASBRUXA (2016, resenhado neste blog), o quinteto paulista Francisco, el Hombre voltou ao estúdio, deduzo, cheio de aflições e mensagens que gostaria de colocar para fora artisticamente – em grande parte, novamente deduzo, motivado pela mudança nos paradigmas políticos nacionais – digamos que a simpática faixa de protesto “Bolso Nada”, que figurou no álbum supracitado, pouco adiantou para evitar o desastre das eleições presidenciais de 2018.

Como se isso não bastasse, a banda tinha ainda um desejo de mudar seu som – e o finado produtor Carlos Eduardo Miranda deixou de herança para eles justamente um pedido para que ousassem sonoramente – ousadia, alias, é algo que não lhe faltou ao dizer que o lançamento anterior pecava pela falta de… ousadia.

Assim nasceu RASGACABEZA, um disco em ebulição, fortemente influenciado pela música eletrônica e pelo carnaval, com ritmos cativantes, letras sóbrias, guitarras baianas e um fio de condução bastante perceptível. É quase como se o plano fosse montar uma setlist de um trio elétrico (o que bate com a época em que o trabalho foi lançado), e isso se percebe já desde a abertura “CHAMA ADRENALINA :: gasolina”. Só o título da mesma já nos dá fortes indícios da energia a ser entregue.

Mas há espaço para faixas mais orgânicas como “PARAFUSO SOLTO :: ponto morto”, talvez a que mais dialogue com a fase mais latina da banda, e a belíssima balada “O TEMPO É SUA MORADA :: celebrar”, que aborda o Dia dos Mortos com uma dose de emoção equivalente a “Triste, Louca ou Má”.

A boa notícia é que a guinada sonora empreendida pelo grupo não comprometeu a qualidade do seu som, embora seja, com efeito, uma ruptura considerável. É que eles já atingiram um status artístico em que praticamente qualquer direção é um investimento de baixo risco e alto retorno.

De qualquer forma, fica até difícil acreditar que o disco – cujo único grande defeito é ser curto demais – foi preparado em vários lugares diferentes antes de ser gravado de fato, tamanha a coesão. É como se toda a gravação tivesse sido realizada numa tomada única. O que só nos faz lembrar que o Francisco, el Hombre foi feito para o calor dos palcos, e não para o ar-condicionado dos estúdios.

Nota = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “CHAMA ADRENALINA :: gasolina”: