Resenha: Ruler of the Seas – Stone Merrick

capa do álbum 'ruler of the seas', do Stone Merrick. Trata-se de uma ilustração do mar encoberto por nuvens de tempestade com um grande raio acertando a água

Reprodução da capa do álbum (© Stone Merrick Records)

Confesso que surpreendentemente não sei quase nada sobre este projeto. Tomei conhecimento dele por acaso, ao vê-lo mencionado em um site obscuro em meio a outros trocentos lançamentos recentes de heavy metal e derivados.

Foi necessário revirar o Google para descobrir que se trata de um projeto paralelo de Scott Sereboff, guitarrista da banda estadunidense Legacy (ambos os quais eu também nunca (ou)vi mais gordos).

Mas fato é que o Stone Merrick (nome criado a partir dos nomes do meio de cada um dos filhos de Scott) me conquistou com seu metal progressivo fartamente dosado com power metal e metal sinfônico. Eu poderia até dizer que eles sofrem grande influência do guitarrista iraniano Farzad Golpayegani, se ele não fosse outro músico com fama diametralmente oposta a de um Steve Vai.

Ruler of the Seas, lançamento de estreia deles, tem apenas oito faixas, mas quase metade delas superam os cinco minutos, rendendo uma boa quantidade de material sonoro, com direito inclusive a uma épica (aquela que não pode faltar num trabalho de metal progressivo).

“Lifeson’s Chord”, “Night Flight” e “X Marks the Spot” equilibram momentos progressivos com momentos acelerados de power metal. Já “Nightwish” (coincidentemente?) traz uma pegada muito mais sinfônica e tem na bagagem também os únicos vocais do disco, ora guturais, ora limpos e femininos (presumivelmente por Mary Zimmer).

Por outro lado, a outra metade do álbum concentra seus esforços mais na faceta progressiva, o que inclui “Aladdin”, o encerramento “Mind of Darkness”, o patinho feito “Agressive Narcissism” e a épica faixa título, que não aproveita seus 11 minutos para demonstrar toda a capacidade criativa do projeto.

Sendo um disco de um guitarrista, há um foco adequado neste instrumento, relegando a bateria e o baixo a papeis um tanto secundários. Você percebe em poucas escutadas que os executantes são talentosos, mas poderiam ter recebido o direito a mais criatividade nos arranjos (os únicos outros membros além de Scott e Mary que sabidamente participaram da obra são o guitarrista Timo Somers (Delain, Arrow Haze) e o tecladista Vikram Shankar (Redemption)).

Mas o brilho geral desta grata surpresa chamada Ruler of the Seas está garantido, e você vai querer ficar de olho no grupo – como, eu não sei, pois nem perfis nas redes sociais eles têm…

Nota = 4/5

Abaixo, a faixa “Lifeson’s Chord”:

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Resenha: Resist – Within Temptation

reprodução da capa do álbum 'resist', do within temptation. Trata-se de uma figura humanoide e robótica na beira de um edifício e com uma grande capa vermelha esvoaçante vista pela esquerda e contemplando uma esfera luminosa em sua mão direita, com uma cidade ao fundo durante uma noite chuvosa

Reprodução da capa do álbum (© Daccar Records)

É forte a mensagem transmitida por Resist, sétimo álbum de estúdio do septeto de metal sinfônico holandês Within Tempation. Seu título diz respeito não apenas à sua temática em geral, mas também aos acontecimentos que o moldaram.

O mais notável deles foi o bloqueio criativo da vocalista Sharon den Adel, que a deixou “apagada” por um tempo e cuja recuperação teve início com o lançamento de um projeto pessoal, My Indigo (cujo disco de estreia foi resenhado neste blog), marcado por um pop eletrônico genérico e esquecível.

O projeto, embora mediano, parece ter tido significativa influência em Resist, pois a incursão no pop com a qual a banda já brinca há um bom tempo alcançou níveis mais altos aqui, o que se revela uma faca de dois gumes. Numa primeira audição, muitas músicas parecem variações delas mesmas, numa versão musical do meme “-Posso copiar seu trabalho? -Pode, só não faz igual”. Além disso, mesmo após várias audições, no máximo metade das faixas são realmente memoráveis (talvez o problema mais grave aqui).

Por outro lado, temos aqui uma proposta clara e coerentemente executada, e as roupagens pop ajudam a manter o som coeso, como uma corrente. Com canções que falam, basicamente, sobre resistência (dã!), enfrentamento e inconformismo, Resist se mostra uma trilha sonora adequada para os tempos sociopolíticos tenebrosos que o mundo enfrenta e tem um tom crítico equiparável ao ambientalista Mother Earth, de 2000.

O álbum até abre bem com “The Reckoning”, que já traz uma das três participações especiais: Jacoby Shaddix, do Papa Roach. O grupo afirmou em entrevista ao Heavy Metal Headquarters que o chamou para dar à canção uma ira misturada a vulnerabilidade – e foi exatamente o que conseguiram.

O septeto perde o gás já na sequência, a fraca “Endless War”, mas o recupera no single “Raise Your Banner”, uma das mais emblemáticas da temática de resistência e adoçada com a participação de Anders Fridén, do In Flames; em “Supernova”, poderosa homenagem ao pai de Sharon, falecido há um ano; e em “Holy Ground”.

Perdemos a empolgação de novo com as monótonas “In Vain” e “Firelight” – esta última foi originalmente composta para o My Indigo e deveria ter ficado por lá mesmo, uma vez que nem o simpático Jasper Steverlinck (Arid, Guilt Machine) consegue torná-la interessante, em que pese sua levada singelamente tribal.

A tríade final é o ponto alto da obra: primeiro, a industrial “Mad World”. Depois, ironicamente, o momento mais pop de todos, “Mercy Mirror”, mas que também é quando parece haver maior entrega da banda. Mais ironicamente ainda, ele é sucedido justamente pelo momento mais metal, e talvez justamente por isso a melhor faixa, “Trophy Hunter”.

Resist tem menos músicas memoráveis que a média da discografia do Within Temptation, e tem também menos espaço para as (três!) guitarras. Fora um solo em “Raise Your Banner”, umas passagens faroesteanas em “Firelight” e um punhado riffs mais fortes aqui e ali, elas parecem constantemente sufocadas pelas camadas vocais, pelas orquestrações e pelos teclados.

Falando em teclados, é estranho que um grupo de metal sinfônico lance um produto em que metade das faixas começa com melodias eletrônicas. Sinal de um novo direcionamento sonoro? Resquício do My Indigo? Jogada comercial? Evidência de que o bloqueio criativo ainda não acabou por completo? Tentativa de se distanciar do ótimo Hydra (resenhado neste blog), que encantou a crítica mas dividiu os fãs? Provavelmente, um pouco de cada.

O disco é bom por ser fruto do trabalho de uma banda ótima, mas acaba derrotado pela maioria dos antecessores. Mesmo assim, não posso deixar de destacar a capacidade e a coragem que o Within Temptation tem para se arriscar, independentemente do resultado ser feliz ou não. Eu diria que eles estão para o metal sinfônico assim como o Sonata Arctica está para o power metal.

Nota = 3/5

Abaixo, o lyric video de “Raise Your Banner”:

Resenha: The Great Adventure – The Neal Morse Band

Reprodução da capa do álbum The Great Adventure, da The Neal Morse Band. Trata-se do nome do disco e da banda em uma gravura parecida com uma capa de um livro antigo

Reprodução da capa do álbum (© Radiant Records)

Depois do estupendo The Similitude of a Dream (resenhado neste blog), o vocalista, tecladista e violonista estadunidense Neal Morse não parecia capaz de lançar algo ainda melhor. Mas foi exatamente o que ele fez.

Quer dizer, talvez seja muito cedo ainda para comparar definitivamente o disco de 2019 com o de 2016. Mas o novo trabalho com sua The Neal Morse Band (integrada pelos antigos parceiros Mike Portnoy (bateria, vocais) e Randy George (baixo) e os integrantes mais recentes Bill Hubauer (teclados, vocais) e o talentosíssimo guitarrista Eric Gillette, que também canta) é, no mínimo, 99% tão bom quanto o anterior.

Pudera, o álbum foi gravado num ritmo diferente do seu antecessor, com 21 dias apenas para as gravações iniciais e muitos personagens e até músicas inteiras sendo deixadas de lado para cumprir com o cronograma.

Continuação de The Similitude of a Dream – caso a capa quase idêntica não tenha deixado isso claro -, The Great Adventure vem novamente como um disco duplo somando mais de duas horas de música, mas sem encheção de linguiça. Navegando entre diferentes atmosferas e velocidades, as 22 faixas formam uma jornada sonora que faz jus ao título da obra.

A abertura é também a peça mais longa (pouco acima dos dez minutos), convenientemente intitulada “Overture” – uma manobra um tanto arriscada, como que entregando o ouro antes da hora, mas ao mesmo tempo coerente, pois, como uma espécie de cardápio, ela oferece um resumo dos tipos de som que ouviremos nas duas horas que nos aguardam. Cordas, riffs pesados, toques eletrônicos, órgãos… tudo que o terceiro lançamento de estúdio com a mesma formação oferece parece fazer uma festa musical neste pontapé inicial. Ela adianta também alguns riffs e melodias que serão retomados em múltiplas outras canções subsequentes.

A partir daí, vêm tantas faixas que a resenha ficaria maçante demais se formos falar de cada uma – embora todas mereçam tal deferência.

Assim, vou me limitar a falar, por exemplo, de “The Dream Isn’t Over” e seus toques de Pink Floyd, especialmente nos vocais. Ou então de “Welcome to the World”, que vem em duas partes e é dona talvez do refrão mais pegajoso do disco, sendo a sua segunda parte talvez a música mais pesada da obra toda.

“A Momentary Change” inicia com uma linha melódica que vira uma espécie de refrão do álbum, pois será ouvida diversas vezes ao longo dos dois CDs. Já sua sucessora “Dark Melody” traz todo o charme de um compasso setenário.

“Vanity Fair” nos brinda com um divertido enceramento circense e “The Great Despair” se encerra com um inspiradíssimo solo à la “The Ministry of Lost Souls” que emenda na abertura de “Freedom Calling”, que por sua vez recupera o riff de “The Slough”, do The Similitude of a Dream.

The Great Adventure reforça algo já óbvio da carreira de Neal Morse, mas que ainda não tive a oportunidade de falar: o cara consegue fazer um rock/metal progressivo melódico o suficiente para que possamos conceber muitas dessas faixas sendo tocadas em rádios “comercialescas”, por exemplo.

É o talento de quem sabe fazer o gênero ficar acessível sem perder sua essência sofisticada – ou, em uma linguagem mais popular, ficar sexy sem ser vulgar. Daí percebemos o seu grau de importância na moldagem do som do Flying Colors, por exemplo.

Quanto ao resto da banda, estes continuam funcionando tão bem que dá até inveja. Eric se consagra cada vez mais como expoente moderno de seu instrumento, enquanto que Bill incorpora novos tipos de tessituras, especialmente órgãos e eletrônicos, atualizando o som do quinteto. E quanto a Randy e Mike… há o que se falar mais deles sem chover no molhado?

Estamos em janeiro, mas já temos um sério candidato a álbum progressivo do ano – mas claro, faltam poucos dias para a chegada de Distance over Time, do Dream Theater, por exemplo, que evidentemente será resenhado aqui.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo de “I Got to Run”: