Resenha: The Cocoon – Richard Henshall

Reprodução da capa do álbum (© Hen Music)

Foram quatro anos de criação até que o guitarrista e tecladista inglês Richard Henshall, famoso por suas contribuições no Haken, To Mera, Nova Collective e Mike Portnoy’s The Shattered Fortress, deu à luz seu primeiro álbum solo, The Cocoon. Para completar a formação principal, ele conta com seus colegas de banda Conner Green (Haken) no baixo e Matthew Lynch (Nova Collective, Cynic) na bateria.

Este trio acima de qualquer suspeita ajuda o músico a fazer uma estreia sólida e segura, mesmo para quem já havia provado noutras ocasiões que merecia lugar de destaque na nova geração de guitarristas do heavy metal.

É verdade que menos de 50 minutos de música distribuídos em apenas sete faixas parecem um rendimento pífio para quatro anos de maturação. Mas podemos dizer que ser curto é o único defeito relevante do excelente The Cocoon.

A abertura “Pupa” é um ótimo cartão de visitas por resumir em dois minutos e meio a proposta musical do disco: instrumental técnico com direito a passagens serenas. Exceto que o álbum não é todo instrumental, e quem garante isso é o próprio Richard, que demonstra ser um vocalista à altura de sua própria música – e também dono de um timbre curiosamente parecido com o de seu colega de Haken, Ross Jennings, mas notadamente mais baixo.

Falando no sexteto de metal progressivo, não dá para não perceber uns toques de Haken no som de Richard. Pudera, ele é o guitarrista, segundo tecladista e, por muito tempo, principal compositor do grupo. A primeira música de fato, a faixa título, reafirma este parágrafo e o anterior por dez minutos – a mais longa da obra. Dentre seus destaques, temos o solo de saxofone de Adam Carrillo.

“Silken Chains”, com a participação do multi-instrumentista David Maxim Micic, valoriza mais o lado leve do guitarrista. É altamente técnica, mas com pouca distorção. “Limbo” leva isto para outro nível e se revela um trabalho com fortes toques de música ambiente – tanto que chega a ser monótona em comparação às suas companheiras.

“Lunar Room”, com Marco Sfogli, Ben Levin, Jessica Kion (os dois últimos do Bent Knee) e “Twisted Shadows” (com Jordan Rudess (Dream Theater) e o já mencionado Ross) repetem “Cocoon” e são os momentos mais técnicos – e melhores – do álbum.

Outro membro do Bent Knee, o violinista Chris Baum, deixa sua marca no disco, agora no encerramento “Afterglow”, que também equilibra bem os lados leve e pesado do trabalho.

A curta duração de The Cocoon faz com que ele pareça ter sido pouco para tudo que o músico tinha a oferecer. O que ao menos deixa espaço de sobra para um sucessor igualmente bom, quiçá até melhor. É, Richard… Você se deu uma missão tão difícil quanto a de outro grande guitarrista inglês da nova leva do metal progressivo, Lee Luland, do Prospekt (veja aqui minha resenha a respeito de sua estreia solo, realizada há pouco tempo) – superar um produto que já é de altíssimo nível.

Nota = 5/5

Abaixo, o playthrough de “Twisted Shadows”:

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Resenha: Zero Gravity: Rebirth and Evolution – Turilli/Lione Rhapsody

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

A sandice em torno do nome “Rhapsody”, lenda italiana do power metal sinfônico, está mais absurda que aquela vez em que duas diferentes versões do Queensrÿche lançaram dois discos no mesmo ano (2013). Após deixar o grupo principal em 2011, o guitarrista Luca Turilli formou sua própria versão de Rhapsody. Depois, ele a encerrou para formar uma terceira versão (!) só com ex-membros do próprio Rhapsody of Fire (??). Enquanto isso, o que sobrou da banda original tocou a vida e já fez sua estreia em estúdio neste mesmo ano de 2019.

Se você, meu leitor assíduo, achou o início deste texto familiar, provavelmente é porque estou abrindo-o mais ou menos da mesma forma que abri a resenha de The Eighth Mountain (confira-a aqui), o primeiro álbum do Rhapsody of Fire com sua formação atual. Aliás, eu poderia fazer um post inteiro comparando a situação deles ao paradoxo do navio de Teseu, sobre o qual escrevi para a saudosa revista Mundo Estranho, mas vamos focar na música da estreia desta versão do Rhapsody – devidamente intitulada Turilli/Lione Rhapsody, por ser liderada também pelo consagrado vocalista Fabio Lione.

É com Zero Gravity: Rebirth and Evolution que esta formação (que, lembrando, envolve ainda Dominique Leurquin (guitarras), Patrice Guers (baixo) e Alex Holzwarth (bateria), também remanescentes da era clássica da banda) faz seu primeiro aceno para o mundo, após uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo. Se o lançamento dos dois trabalhos fosse uma partida de futebol, eu poderia descrevê-la como uma goleada ou um passeio. Porque isto aqui é muito melhor do que The Eighth Mountain – que já não foi ruim, vale ressaltar.

E a superioridade não é simplesmente pela qualidade da produção, pela química entre os integrantes e pelo talento individual dos mesmos – para as quais aliás eu nem vou dedicar muitas palavras para não chover no molhado.

Ela se dá também pela criatividade nas composições. Isso mesmo: um grupo que se tornou conhecido por criar um dos sons mais clichês do power metal aproveitou o último ano desta década para desfazer a imagem de repetitivos. Com Zero Gravity: Rebirth and Evolution, eles se mostram dispostos a modernizar o som e torná-lo menos óbvio, tal como o DragonForce e o Sonata Arctica vêm fazendo recentemente.

Por exemplo, a abertura “Phoenix Rising” tem alguns toques étnicos inesperados em seu interlúdio. A faixa título faz o mesmo, desta vez com elementos árabes. “D.N.A. (Demon and Angel)”, por sua vez, incorpora alguns temperos eletrônicos que deixariam Jens Johansson (do Stratovarius) com um sorriso no rosto. Aqui, a convidada Elize Ryd (Amaranthe) faz um bonito contraste com Fabio.

Outro convidado que empresta sua voz é Mark Basile, do DGM. Em “I Am”, ele nos encanta com seu timbre que parece uma média entre Bob Catley e Demis Roussos. O solo de “Fast Radio Burst” também surpreende ao trocar o ritmo frenético típico destes momentos em músicas de power metal por um um andamento mais contido e cativante.

O disco é bem sucedido também em outro aspecto: a harmonização do lado metal com os toques modernos. “Decoding the Multiverse” serve de exemplo: temos nela linhas ao piano e cordas (típicas daquelas músicas mais comerciais e que ganham clipes) dividindo espaço com riffs graves e pesados na guitarra.

Zero Gravity: Rebirth and Evolution tem espaço até para ópera: “Amata Immortale” e “Oceano” são ambas cantadas inteiramente em italiano, sem guitarras e alternando diferentes tipos de voz. A segunda é uma faixa bônus exclusiva das versões digipak e vinil duplo e conta ainda com Sascha Paeth no baixo, Arne Wiegand nas guitarras, bandolim e piano e Joost van den Broek nos teclados. E se ópera por si só não funciona muito para você, tome “Arcanum (Da Vinci’s Enigma)”, que a mistura com metal.

É muito cedo para dizer quem levou a melhor na divisão do Rhapsody, mas sem dúvidas Turilli e Lione já começaram a “disputa” com ampla vantagem sobre Alex Strapoli, tecladista e líder da versão original do grupo. Alguns talvez se incomodem com minha tentativa de estabelecer algum tipo de rixa entre ambos, mas quando duas versões de um mesmo nome escolhem o mesmo ano para estrear, a natureza competitiva dos lançamentos fica óbvia até demais.

Nota: 5/5

Abaixo, o vídeo de “Zero Gravity”:

Resenha: Jesus Christ: The Exorcist – Neal Morse

Reprodução da capa do álbum (© Radiant Records)

Não bastasse ter lançado o excelente The Great Adventure (confira aqui minha resenha a respeito) no início de 2019, o vocalista, tecladista e guitarrista estadunidense Neal Morse encontrou tempo, criatividade e disposição para colocar mais uma joia nas lojas.

Se bem que este disco, Jesus Christ: The Exorcist, teve seus rascunhos escritos lá no final da década passada. Quis o destino que o momento comercial propício para encaixar tudo e realizar o lançamento ocorresse logo após outra empreitada bem-sucedida.

Como os demais itens de sua discografia no século XXI, esta é uma obra cristã, só que desta vez bem mais explícita quanto à sua religiosidade – algo que inclusive se manifesta na forma de música gospel em momentos marcados por corais e cordas.

A boa notícia é que Neal não nos enjoa com pregação barata. A ideia deste álbum, segundo o próprio autor, era fazer algo nos moldes do musical Jesus Christ Superstar, que levou aos palcos (e, posteriormente, às telonas) uma interpretação mais livre da biografia de Jesus Cristo. Sendo ele uma personalidade histórica, podemos comparar o trabalho com um disco qualquer do Sabaton ou do Armahda, talvez?

Criado na forma de uma rock opera, o lançamento traz muitas vozes convidadas, incluindo Ted Leonard e Nick D’Virgilio (membros (oficial e de apoio, respectivamente) da ex-banda de Neal, Spock’s Beard); Matt Smith (Theocracy) e Rick Florian (Whiteheart). Essa miríade de vozes só faz enriquecer uma obra que já nasce grandiosa.

Muitas faixas de Jesus Christ: The Exorcist não funcionam sozinhas e acabam sendo parte de “momentos” da trama, tornando difícil a sua apreciação isolada. Outras (as longas) são verdadeiros destaques e dão certo enquanto peças independentes por serem bem mais empolgantes, especialmente para um público possivelmente mais interessado na química musical e qualidade das composições do que na trama em si.

A força destas canções se explica pela presença de boa parte de sua The Neal Morse Band: o baixista Randy George, o tecladista Bill Hubauer e Eric Gillette – que normalmente está ocupado justificando sua alcunha de “novo John Petrucci” mas, neste álbum em particular, surpreende ao mostrar-se também um baterista mui hábil. Sem falar na equipe de cordas e no coral, que não vieram veio apenas dar um toque gospel: em muitos momentos, eles praticamente tornam a música mais sinfônica mesmo.

Jesus Christ: The Exorcist reserva ainda algumas surpresas, como o delicioso blues “The Woman of Seven Devils” (que logo vira mais uma faixa progressiva, é verdade, mas não deixa de ser muito marcante); a agressiva “Get Behind Me Satan”, com fortes influências de Deep Purple e Uriah Heap; e uma versão acústica de “Love Has Called My Name” (exclusiva da edição japonesa).

Já é praticamente chover no molhado dizer que Neal Morse lançou um bom trabalho, mas o fato de ser uma rock opera pensada para os palcos, explicitamente bíblica e com uma proposta menos pesada que a da The Neal Morse Band nos autorizavam a ter resquícios de dúvidas – todos devidamente pulverizados com apenas uma audição.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo de “Get Behind Me Satan”: