Resenha: O Pulso Ainda Pulsa – Vários Artistas

Reprodução da capa do álbum (© Crush em Hi-Fi/Hits Perdidos)

Sem muito alarde, uma vasta carteira de bandas novas brasileiras decidiu se reunir em 2016 sob a batuta de João Pedro Ramos (Crush em Hi-Fi) e Rafael Chioccarello (Hits Perdidos) para gravar um grande CD de tributos à maior banda do rock nacional em atividade: os Titãs. E esta última frase não foi copiada de nenhum comunicado de imprensa enviado pela assessoria da coletânea: os Titãs são, realmente, o maior grupo do rock brasileiro que ainda está gravando e se apresentando ao vivo.

Um tributo a uma banda deste calibre precisa ser muito bem bolado, urgindo um repertório bom e uma carteira de artistas que deem conta do recado. O resultado final atende a essas requisitos, mas não na totalidade da obra.

Eu dividiria as 33 faixas em três grupos: as que ganharam uma roupagem bacana e diferente, as que mudaram muito pouco e as que foram distorcidas além do que eu consideraria aceitável.

A abertura “Diversão”, por exemplo, ganhou uma roupagem meio hard rock bem gostosa de ouvir nas mãos do Thrill and the Chase. “Polícia”, por sua vez, aparece aqui numa interessante versão com elementos de punk e eletrônico criada pelo FingerFingerr. “Insensível” foi transformada numa melancólica balada grunge pelo Mundo Alto, enquanto que, com Cigana, “Deus e o Diabo” virou uma deliciosa peça de rock meio alternativo, meio funk. O clássico “Epitáfio” ganhou uma versão country nas mãos d’O Bardo e o Banjo, mantendo seu tom nostálgico e melancólico.

Coube ao tal do Danger City fazer a versão da faixa título, resultando em uma misteriosa canção que lista uma série de outras doenças, como que atualizando o sucesso. Não Há Mais Volta (com a participação de Badauí, do CPM 22bom) e Pedroluts mostraram mais ou menos (ou exatamente, no caso do segundo) como ficariam as faixas “Homem Primata” e “Não Vou Me Adaptar”, respectivamente, caso fossem regravadas pelo Matanza. “Disneylândia” ficou ainda mais pesada na regravação da banda Penhasco, embora o vocal não imponha o mesmo respeito. A versão de “Comida”, por BBGG, ficou um tanto peculiar, mas… a própria versão original deste sucesso não era lá muito convencional.

Você pode até achar que a versão de “Domingo” ganhou um tom um tanto deprê (mesmo para a letra melancólica da faixa), mas o resultado final ficou deveras satisfatório – parabéns aos Subcelebs. “Desordem”, cuja letra aparentemente nunca será obsoleta no Brasil, foi transformada num simpático trabalho de rock agitado pela banda que atende pelo sugestivo nome de The Bombers. “Medo” virou um rock alternativo na voz feminina de Camila Garófalo. NÃDA fez uma interessante versão instrumental violada de “Os Cegos do Castelo” sobre o riff principal de “Eu Não Aguento”. “Nome aos Bois” foi adaptada para uma peça alternativa pesada, que abre com um breve discurso do abominável deputado Jair Bolsonaro. A regravação é dos Giallos. O mesmo ocorreu com “Televisão”, de The Hangovern. Os resultados não chegam a ser ruins.

“Isso Para Mim É Perfume” perdeu toda a sua agressividade nas mãos do Porno Massacre, mas neste caso não foi uma decisão tão infeliz porque o repaginação deu uma cara ainda condizente a esta que é a letra mais escatológica da história dos paulistas. “Clitóris”, que também não é nada limpa, ganhou mais peso numa versão com elementos grunge de Sky Down. Assim como “Babi Índio”, na versão de Ostra Brains.

Agora, como dito anteriormente, tivemos em O Pulso Ainda Pulsa alguns exemplos de interpretações que descaracterizaram as originais de tal forma que as novas versões parecem trabalhos autorais que meramente se inspiraram em obras dos Titãs.

“Será Que É Disso Que Eu Necessito?”, notório petardo de Titanomaquia, o disco mais agressivo da banda, ganhou uma versão risivelmente leve, com as frases “ninguém fez nada de mais, filha da puta” sendo proferidas por uma doce voz pertencente à vocalista do S.E.T.I. Erraram até o nome da faixa, que aparece grafada como “Será Que é Isso o Que Eu Necessito”. “Flores para Ela” também acabou ficando um tanto estranha cantada na voz de uma mulher que parece mais amedrontada por uma barata no teto do estúdio que pelo abusador abordado na letra – e olha que estamos falando de Paula Cavalciuk, um interessante novo nome da nossa música. “Taxidermia” e “Nem Sempre Se Pode Ser Deus”, outros pesos-pesados de Titanomaquia, foram também tornados mais leves e combinadas no pout-pourri de clima gótico-eletrônico do Horror Deluxe. “Lugar Nenhum”, que recebeu várias versões diferentes ao longo da discografia dos próprios Titãs, foi transformada numa chata peça eletrônica por Subburbia, o que também ocorreu em “Estado Violência” de Gomalakka – ambas perderam sua imponência com isso.

“Tô Cansado” ganhou uma versão condizente até demais com seu título: os Moblins parecem ter sido obrigados a criar a versão após cinco dias de privação de sono. E isto não foi um elogio. “Flores” perdeu seu encanto na versão de Ruca Souza, que tentou enfeitá-la com uns versos nada a ver em seu encerramento – um esforço em vão. Os vocais de “Go Back”, a faixa que mais apanhou, parecem ter sido gravados apressadamente por áudio de Whatsapp e jogados no meio da salada instrumental bem amadora da banda All Acaso.

E houve as poucas faixas cujas versões não trouxeram grandes mudanças: “Corações e Mentes”, do Der Baum; “Flat – Cemitério – Apartamento”, do Aletrix; “Enquanto Houver Sol”, do Jéf; “Vossa Excelência”, do Color for Shane; “Hereditário”, dos Videocassetes; e “Bichos Escrotos”, dos Abacates Valvulados.

Se a escolha das bandas não foi 100% feliz, podemos elogiar bastante a montagem do repertório. Os Titãs já lançaram mais de 200 músicas diferentes e muitas delas foram sucessos radiofônicos – mesmo assim, a seleção não privilegiou os hits e deu espaço para algumas joias que só os fãs verdadeiros conhecem.

Nota= 4/5. Sendo um disco tributo de vários artistas, o trabalho de cada banda e músico aqui deve ser analisado isoladamente; como um todo, o tributo é bom e faz jus ao maior grupo de rock que nosso país tem a oferecer hoje.

Abaixo, o vídeo da banda Cigana regravando “Deus e o Diabo”:

Post para abrir 2017

Seguindo uma fórmula aplicada em textos anteriores, escrevo aqui para abrir a temporada 2017 de posts no Sinfonia de Ideias. Confira as bandas que deverão lançar novidades neste ano (cuja maioria será evidentemente resenhada aqui), uma lista de sugestões de bandas novas descobertas na loucura que foi o ano passado e otras cositas más…

Mundo Estranho
2016 marcou minha entrada como freelancer na Revista Mundo Estranho, do Grupo Abril. Trabalhar numa revista de grande circulação e que eu acompanho desde o nascimento – ainda tenho a primeira edição! – foi evidentemente um grande momento da minha carreira. A maioria das matérias que fiz ainda estão somente nas edições impressas, mas duas delas já foram para o site e você pode conferi-las aqui e aqui.

Camerata Filarmônica Granja Vianna
Uma das grandes novidades de 2016 foi a Camerata Filarmônica Granja Vianna, iniciativa do Granja News, um dos jornais para os quais escrevo, que contou com o apoio de diversas outras entidades (veja no link acima), inclusive este que vos escreve. O primeiro concerto do grupo ocorreu na noite do dia 6 de dezembro e você confere os detalhes aqui e aqui, nas páginas 4 e 5.

Álbuns de 2017
Bandas e artistas com material novo a ser lançado em 2017 incluem Nova Collective, Residente, Unlocking the Truth, Rhapsody of Fire, Bad Salad, Deep Purple, Next to None, Far From Alaska, Sepultura, Prospekt, Anette Olzon & Jani Liimatainen, Until Rain, Heavatar, Fastball, Diablo Swing Orchestra, Titãs, Labyrinth, Tierramystica, Linkin Park, Flying Colors, Dir en grey, X Japan, Rammstein, System of a Down e Ayreon. Lembrando que, evidentemente, outras bandas poderão anunciar nos próximos meses discos a serem lançados ainda em 2016, e também qualquer uma das bandas acima pode postergar o lançamento de seus próximos trabalhos.

Dicas de bandas/artistas novos
Aqui vão indicações de bandas e artistas novos que descobri em 2016. Alguns nem são tão novos assim, mas serão novidade para boa parte dos leitores por serem relativamente desconhecidos. Embuti no nome de todos um link para um vídeo no YouTube contendo um clipe ou uma música do artista, para que você possa experimentá-lo.

  • Native Construct – uma das boas novas bandas de metal progressivo
  • Filipe Catto – ganhou notoriedade por sua voz feminina no melhor estilo Ney Matogrosso. Embora seu álbum mais recente, Tomada, seja bem chatão, tem um álbum e um EP pregressos que valem a pena uma ouvida.
  • Project46 – uma das grandes novidades do metal nacional. Instrumental bem pesadão aliado a letras ácidas com críticas sociopolíticas – e cantadas em português!
  • Bad Salad – provavelmente a melhor banda de metal progressivo em atividade no Brasil, e um dos bons novos nomes do gênero.
  • Francisco, el Hombre – de forma incontestavelmente justa, este grupo meio brasileiro, meio mexicano de MPB, música latina, música folclórica e rock vem ganhando as atenções de fãs e da mídia com música agradável e letras bastante francas e necessárias para os dias atuais.
  • Dom La Nena – se alguém um dia te contasse que uma jovem violoncelista brasileira cravaria seu nome internacionalmente misturando música clássica com MPB em francês, inglês e português, você provavelmente mandaria a pessoa se tratar. Mas foi o que esta doce moça gaúcha conseguiu.
  • Cavaleiro Dragão – a instrumentação crua, somadas às letras sombrias e à arte oldschool podem fazer você achar que trata-se de uma joia perdida dos primórdios do metal brasileiro, mas e só o Cavaleiro Dragão, um grupo recente de heavy metal tradicional no qual todos devemos ficar de olho.
  • Overfuzz – diretamente de Goiânia, outra grande novidade nacional, passeando pelo grunge, o punk, o heavy metal e o alternativo.
  • Armahda – uma espécie de Sabaton tupiniquim, o Armahda usa um impecável instrumental com elementos de thrash para dar base a letras que resgatam importantes momentos da história do Brasil.
  • Eu Acuso! – na mesma linha do Hempadura, este grupo gaúcho tem algumas das letras mais ácidas e desconcertantes do rock nacional, mescladas com um forte instrumental.
  • Cavern – banda de metal instrumental com elementos de grunge, metal alternativo e stoner rock.
  • Black Moth – se o Black Sabbath e o Far From Alaska fizessem aquela fusão do Dragon Ball Z, o resultado soaria mais ou menos assim.
  • Alabama Shakes – talvez o nome mais famoso da lista, pois foram sensação no último Grammy (sim, ainda tem música boa no Grammy). Um rock calcado no blues que foi ganhando uns elementos mais modernos no segundo álbum. Se você ainda não conhece, corra para tirar o atraso!
  • Alarion – esta nova metal opera não está no mesmo nível de um Avantasia, mas mostrou ser capaz de fazer boa música e juntou um time bem interessante. Vale uma ouvida!
  • Stolen Byrds – já estão em seu segundo álbum, mas ainda posso chamá-los de novidade do rock nacional. Se o primeiro álbum era uma compilação de boas peças de hard rock classicão, o segundo lançamento, que levou o nome do grupo, mostrou um lado muito mais diverso dos rapazes paranaenses.
  • A-WA – já ouvi música em muitas línguas e continuo achando que o árabe sempre soa muito bem – mesmo sem entender porra nenhuma. As três irmãs do A-WA ganharam atenção mundialmente com sua música iemenita misturada a elementos eletrônicos produzida diretamente de Israel, onde vivem.
  • Unlocking the Truth – grata surpresa de Nova Iorque, este trio de adolescentes negros rompeu paradigmas e se tornou um dos nomes mais promissores do metal atual.
  • Chaos Synopsis – um dos melhores novos nomes do death/thrash metal brasileiro.
  • Twilight Force – confesso que não entendi a empolgação de parte da imprensa especializada com esta banda. Eles nada mais são que um Rhapsody of Fire com um vocal menos enjoado, o que significa que eles merecem sim uma chance de vossa parte – mas nada de colocá-los num pedestal que não lhes pertence…
  • Frost* – não são exatamente uma novidade, mas ainda merecem estar aqui. Este ótimo grupo inglês de rock progressivo são mais uma prova de como o progressivo e o eletrônico estão intimamente ligados.
  • Unerload – bom nome da nova safra do rock brasileiro, demonstrando certa versatilidade, embora nem tanto quanto o Stolen Byrds.
  • AttracthA – outro grande novo nome do metal brasileiro e um dos destaques do ano.

Ao som de Zé Ramalho.

Resenha: No Fear to Face What’s Buried Inside You – AttracthA

Reprodução da capa do álbum (© Dunna Records/Shinigami Records)

Reprodução da capa do álbum (© Dunna Records/Shinigami Records)

O título deste álbum pode parecer ser “No Fear” para os incautos, mas o elaborado encarte que se abre aos poucos vai revelando o resto do longo nome que batiza a estreia do AttracthA: No Fear to Face What’s Buried Inside You. E como se a capa extremamente elaborada não bastasse para chamar a atenção, ao virarmos o case ainda constatamos que ninguém menos que Edu Falaschi (Almah, ex-Angra, ex-Symbols) assina a produção do lançamento. O que levaria uma das principais vozes do metal brasileiro a querer trabalhar o som deste quarteto paulista?

A resposta chega desprovida de qualquer tipo de formalidade: “Bleeding in Silence”, faixa de abertura, já vem com todos os riffs e viradas de bateria que você precisa para sentir seus cabelos voando para trás conforme o som sai do alto-falante, seguida pelas igualmente pesadas “Unmasked (Revisited)” e “231”.

E essa peteca pesada que eles levantam, eles demoram a deixar cair. O único momento de sossego é ma balada “No More Lies”, mas o disco vai gradativamente recuperando sua força total, encerrando com a sabbathiana “Victorious” e a madura “Payback Time”.

No Fear to Face What’s Buried Inside You é aquele tipo de álbum que quanto você mais ouve, mais foda fica. Metal diretão, química afiada entre os membros e vocais tecnicamente impecáveis – eu só recomendaria ao vocalista praticar a pronúncia do inglês para perder o sotaque ainda carregado.

Nota = 5/5. Não por um acaso, foi eleito por este que vos escreve como a revelação do ano no metal nacional, e acolhido pelo experiente Edu Falaschi. Se você anda desesperançoso com relação ao metal brasileiro, esta banda pode até te fazer mudar de ideia.

Abaixo, o vídeo de “Payback Time”:

* O CD No Fear to Face What’s Buried Inside You foi enviado ao autor do blog via correio pela assessoria de imprensa da banda e a resenha foi escrita por sugestão da mesma.