Guitarra: Meus 51 solos favoritos

Foto: Victor de Andrade Lopes

O instrumento-símbolo do rock ‘n’ roll, quando operado pelas mãos certas, é capaz de produzir coisas as quais somos incapazes de colocar em palavras (com todo respeito ao van Canto).

Um dos elementos mais importantes do rock e de outros gêneros é o solo, momento em que o instrumento brilha com destaque e ajuda a escrever a história da música. Inspirado por aqueles que mais me marcaram, decidir compilar uma lista com os meus 51 favoritos.

Metodologia e curadoria


Por que 51? Bem, falemos um pouco de como surgiu e foi montado este ranking. Ele é totalmente pessoal – termo que aqui significa “criado a partir do meu gosto como fã e não com base numa análise jornalística fria, muito menos com a pretensão de fazer média com fãs e gravadoras”. Assim, muita coisa boa ficou de fora. Muita coisa mesmo. Só pra dar dois exemplos, Eric Clapton e Tak Matsumoto entrariam facilmente no meu top 10 guitarristas, mas não constam na lista.

A lista preliminar continha quase 200 solos, mas cheguei à acertada conclusão de que se 200 coisas são consideradas “especiais”, então nenhuma delas é, de fato, especial. Fui lentamente reduzindo tendo míseros dez solos como meta, mas o número era insanamente restritivo e “travei” bem antes, na quantidade definitiva de 51. Simplesmente não consegui descartar mais nenhum. Era o sinal de que a seleção estava finalizada.

De modo a facilitar a tarefa de curadoria, e evidentemente com muita dor no coração, deixei de fora solos em faixas instrumentais e também solos que são músicas inteiras, como o clássico “Eruption”, do Van Halen.

Com mais um tanto de dor, excluí solos que são na verdade apenas frases em loop, como o belíssimo encerramento de “Let It Grow” do já mencionado Eric Clapton, ou a inconfundível abertura de “Sweet Child O’ Mine”, do Guns ‘N’ Roses (executada por Slash).

Descartei, por fim (desta vez sem dor nenhuma), solos que eu gosto por fazerem parte de algum duelo com teclados – uma lista separada será compilada um dia para estes casos. Até tem um ou outro duelo nesta lista aqui, mas aí é porque a parte de guitarra me marcou muito mais que a de teclado.

Por fim, vale dizer que as escolhas podem ter sido “contaminadas” por outros fatores. Por exemplo, esforcei-me para deixar de fora solos que eu senti gostar apenas por fazerem parte de músicas que eu gosto muito como um todo.

Mas também fica a pergunta: o que faz um bom solo? É só o solo em si? Ou um bom pano de fundo é necessário, especialmente na forma de um bom riff? Foi nesse sentido que retirei mais alguns infelizes: o que mais me fisgava neles eram os riffs da base, não o solo em si…

Pois bem, aqui está a lista, com solos de todos os tipos. Aqueles fritados que criam bolhas nos dedos de quem se atreve a tocá-los, e outros bem lentos. Alguns tão curtos que podemos apelidá-los de “ejaculação precoce”, e outros tão longos que superam a duração de uma música convencional. Os bem crus de bandas “sem frescura”, como dizem por aí, e outros que se destacam em meio a camadas e mais camadas de vozes simultâneas. Alguns são executados por artistas solo, outros por membros oficiais de uma banda, outros por músicos de apoio, outros por convidados especiais e, pasmem, aqui vai ter até solo que eu sequer sei quem toca por não ter encontrado fontes confiáveis que atestassem a informação. Se algum(a) leitor(a) iluminado(a) quiser contribuir, faça as honras! 😉

O formato da lista é o seguinte: A hashtag indica a colocação do solo neste ranking. Entre aspas, o nome da música. Após o traço, o nome do guitarrista e, entre parênteses, o artista da música (se não for o próprio guitarrista) e, se for o caso, a indicação de que é músico contratado ou convidado. Os vídeos estão configurados para começarem exatamente no solo ao se apertar o “play”, já que eles são o objeto de discussão deste post, mas todos sabemos que para a experiência ser completa, é preciso ouvir as músicas desde o início – inclusive aquelas bem longas. Combinado?

#51: “Lá Vou Eu” — Paulo Rafael (Zélia Duncan; músico de apoio)
Em 1994, ainda não muito conhecida, Zélia Duncan lançava um disco de inéditas e alguns covers. Um deles é “Lá Vou Eu”, uma das músicas mais paulistanas da história e gravada originalmente por Rita Lee e sua banda Tutti Frutti 18 anos antes. Quem executa o solo “rebelde” (por fazer a lista ficar com 51 itens) é Paulo Rafael, guitarrista de apoio bastante gabaritado. Seu currículo soma trabalhos com inúmeros artistas nacionais consagrados como Elba Ramalho, Cássia Eller, Gal Costa, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, entre outros. A versão original traz outro solo, mais ao final da música, mas bem menos marcante.

#50: “Bright Lights” — Gary Clark Jr.
Quanto tempo leva para a polícia vir aqui me buscar pelo crime de deixar esta jovem lenda numa posição tão baixa nesta lista? Brincadeiras à parte, não discutiria com alguém que dissesse que ele tem solos melhores. A verdade é que esta música foi a primeira que eu ouvi dele (valeu, Luke Cage!) e mesmo após passar por toda a sua discografia, continua sendo minha favorita. E é claro que isso influenciou muito na escolha…

#49: “A Lenda” — Junior (Sandy & Junior)
Parece piada, mas não é. Esta que é uma das mais belas canções brasileiras de todos os tempos (composta por integrantes do Roupa Nova e regravada mais tarde pelos próprios) recebeu uma rica roupagem com direito a solo de violão, solo de guitarra (o assunto deste parágrafo), cordas e clipe romântico à beira do mar. Brega até dizer chega, mas who yes door? O solo obviamente não é nada espetacular e ainda por cima Junior sequer o executava na recente turnê de reunião da dupla. Mas continua sendo um elemento que marcou este grande sucesso de 20 anos atrás…

#48: “Lanterna dos Afogados” — Herbert Vianna (Os Paralamas do Sucesso)
Não está entre os hits absolutos d’Os Paralamas do Sucesso, mas além de figurar aqui, esta faixa foi selecionada também para constar entre “As 100 melhores músicas do século e as 14 mais”, por Ricardo Cravo Albin – e isto não é pouca bosta! O solo encerra com bastante vigor um dos mais tocantes itens do catálogo desta que é uma das maiores bandas nacionais. A versão precisa que deveria constar aqui é a do CD Sempre Livre Mix, um disco ao vivo em conjunto com os Titãs, mas como não está disponível no YouTube, fiquemos com esta, quase tão boa quanto.

PS: Inacreditavelmente, acabam aqui os solos de músicas em língua portuguesa desta lista – mas não será o último executado por um brasileiro…

#47: “Sleeping Sun” — Emppu Vuorinen (Nightwish)
Do ponto de vista técnico, dá para pinçar vários outros solos melhores na discografia do Nightwish: “End of All Hope”, “Wishmaster”, “Over the Hills and Far Away”, “Shudder Before the Beautiful”, “Eva”, entre outros. Mas “Sleeping Sun”, do alto de seus meros 15 segundos, conseguiu me conquistar pela emoção e simplicidade – repare que boa parte dele é apenas uma variação da melodia do refrão. E o fato de ser uma das melhores baladas do Nightwish, claro, só ajuda.

#46: “Corazón Espinado” — Carlos Santana (Santana)
Difícil pinçar um solo desta lenda viva que “fala” por meio de sua guitarra de timbre inconfundível. “Corazón Espinado” acabou sendo a única selecionada (apesar do mexicano ser um dos meus guitarristas favoritos) por motivos bem pessoais. Anos atrás (por volta de 2010, deduzo), fui a um bar em São Paulo conferir o show da banda de um amigo que era tecladista e saxofonista. Dentre as peças executadas, estava esta, e o guitarrista (cujo nome, infelizmente, eu sequer me lembro) hipnotizou a todos com sua performance, que continuou arrebatadora em outros hits como “Bad Love” e o tema de abertura de Peter Gunn.

#45: “Back in Black” — Angus Young (AC/DC)
Outra lenda difícil para pinçar um solo – e estamos falando de um dos guitarristas mais influentes de todos os tempos. Fiquemos então com esta pedrada que é um clássico absoluto não só do AC/DC, mas do rock em geral. Uma variação do icônico riff de abertura é usada como pano de fundo para Angus nos deliciar com esta performance abrasadora, que tem direito a uma continuação a partir dos 3:29, num encerramento cujo volume é a única coisa que se esvai.

#44: “Dani California” — John Frusciante (Red Hot Chili Peppers)
No momento, John está iniciando sua terceira passagem pelo Red Hot Chili Peppers. Em sua segunda, ele participou “apenas” dos três discos mais importantes e populares da banda, a trilogia arrebatadora Californication, By the Way e Stadium Arcadium. Este último é o disco mais encorpado, sofisticado e maduro que a banda já fez, e disputa com Blood Sugar Sex Magic o posto de melhor item da discografia do grupo. Dentre as várias pérolas que a produção dupla nos trouxe, está o primeiro single, o clássico “Dani California”. O solo que abordo aqui é um trabalho bem cru e visceral para os padrões da banda, encerrando esta música que trouxe também um riff e um refrão bem marcantes. Antes de fechar este parágrafo, gostaria de ressaltar que o quarteto possui outros dois grandes trabalhos guitarrísticos com Frusiante: “Lyon 06.06.06” e “Permutation”, lançadas como lados B de “Tell Me Baby” e “Snow ((Hey Oh))”, respectivamente. Nenhum dos dois figurou nesta lista por serem instrumentais, contudo.

#43: “New Math” — ??? (Mackenzie Phillips)
A primeira de razoavelmente várias faixas desta lista cujo guitarrista eu sequer sei o nome. Esta música é parte da excelente trilha sonora de So Weird, exibida como Sinistro aqui no Brasil 20 anos atrás, no saudoso Fox Kids. Esta série, juntamente a Ciência Travessa e O Colégio do Buraco Negro, marcaram minha pré-adolescência. No caso de Sinistro, a história girava em torno de uma cantora, interpretada pela talentosíssima Mackenzie Phillips (filha de John Phillips, do The Mamas & the Papas), que sai em turnê pelos Estados Unidos com sua filha e sua equipe e vivencia acontecimentos sobrenaturais na jornada. Recomendo fortemente outras músicas que integram a trilha sonora da série, como “She Sells”, “Rebecca”, “Origami” e o tema de abertura, “In the Darkness”.

#42: “Let’s Go Beybladers” — ??? (Krystal Band)
Dobradinha de guitarristas “anônimos”. Esta tal de Krystal Band parece ter existido somente para executar esta música que integrou a dublagem em inglês americano da primeira temporada de Beyblade, também uns 20 anos atrás. Estas peças, que depois foram redubladas para outras línguas que usaram a versão estadunidense como base, foram a única coisa boa que os yankees fizeram, uma vez que eles deturparam várias coisas no anime, que tinha tom sensivelmente mais maduro e sério na dublagem original japonesa. Nesta peça aqui, temos um pop punk basicão e de letra infantiloide, mas com um solo relativamente inspirado. Quem quiser, pode arriscar buscar no YouTube a versão brasileira da faixa, cujo nível final ficou inferior a esta.

#41: “At Wit’s End” — John Petrucci (Dream Theater)
Acostume-se com esta lenda, pois ela ainda vai aparecer muito nesta lista. O que me fisgou na faixa mais longa do mais recente álbum deles, Distance Over Time, não foi o duelo insano com o continuum do tecladista Jordan Rudess aos 3:44 – guardarei este tipo de momento para minha lista de duelos favoritos. A cereja do bolo aqui é o belíssimo solo de encerramento, inicialmente contraposto com os versos “don’t leave me now”. Quase não inclui este solo por considerá-lo algo muito próximo de “solos que são na verdade apenas frases em loop”, mas John faz variações suficientes para me impedir de classificar essa passagem desta forma.

#40: “La Vita È Adesso” — presumidamente, Paulo Lourenço (Renato Russo; músico de apoio)
Um mistério ronda este solo e esta faixa como um todo. A música não consta nos streamings oficiais deste ótimo disco solo de Renato Russo. No encarte do álbum, por sua vez, ninguém aparece como responsável pelas guitarras nesta música. Deduzi Paulo Lourenço como o músico em questão por ele constar como guitarrista no resto do álbum, mas não ponho minha mão no fogo por esta informação. A falta de clareza não nos impede, porém, de apreciar esta maravilha…

#39: “E=mc²” — Michael Romeo (Ayreon; participação especial)
A segunda colaboração do virtuoso guitarrista estadunidense Michael Romeo na metal opera Ayreon (que reaparecerá na lista algumas vezes), do gênio holandês Arjen Anthony Lucassen, é quase tão magnífica quanto a primeira, que ganhou colocação mais alta. Esta faixa aborda um trecho do enredo do álbum em que um casal de cientistas de 2085 tenta enviar a equação mais famosa de Albert Einstein para o passado de modo a alertar a humanidade dos perigos que virão. Eles fracassam no final, mas eu gosto de pensar que o solo é o clímax da história, ou seja, a última tentativa.

#38: “Candy” — Charlie Singleton (Cameo)
O solo mais “ejaculação precoce” desta lista, com menos de dez segundos. Quem realmente é lembrado por esta canção, porém, é Michael Brecker, que também entrega um solo, mas de saxofone. Nem o fato dela ter figurado na trilha sonora do inesquecível Grand Theft Auto San Andreas, nem o fato de ser comumente sampleada por aí garantiram que o solo de guitarra de (presumidamente) Charlie Singleton se tornasse tão lendário quanto a própria faixa. Admito que temos aqui um funk pop de qualidade questionável, mas eu simplesmente amo esse solo nada a ver que irrompe no começo do terceiro minuto e vai embora como se nunca tivesse existido.

#37: “Rise Above the Storm” — ??? (Daniel LeBlanc and Creighton Doane)
Mais um solo de artistas absolutamente desconhecidos que parecem ter existido somente para registrar um item da trilha sonora de Beyblade. Esta música aqui só foi usada na terceira e melhor temporada (G-Revolution). Mais uma cortesia da dublagem estadunidense, como se para compensar o tamanho do estrago que causaram na tradução infantiloide. A boa notícia é que esta faixa tem letra “neutra”, isto é, não precisa ser necessariamente só sobre Beyblade, diferentemente da “Let’s Go Beybladers” mais acima.

#36: “Innocence” — Hugo Mariutti (Shaman)
Uma das mais belas baladas já criadas por nosso eterno e saudoso Andre Matos, cantor e pianista cuja morte acaba de completar um ano. Esta aqui, ele fez para o segundo disco do Shaman, grupo que montou com os ex-integrantes do Angra que levou consigo após romper com o dito-cujo. Nesta peça, apresentada a mim por um amigo de escola, temos um belíssimo solo de Hugo Mariutti.

#35: “The Piper at the Gates of Dawn” — Sascha Paeth (Avantasia)
Um dos solos mais recentes desta lista, oriundo de um álbum do início de 2019. Sascha Paeth virou o guitarrista de praxe do Avantasia há um bom tempo e também em 2019 realizou enfim sua estreia solo. Aqui, ele entrega uma perfomance das mais inspiradas de sua vasta lista de contribuições para a metal opera. Não se deixe enganar pelo começo relativamente apático e repetitivo, pois o solo se libera de si mesmo na segunda metade ao adquirir uma alma mais própria e acelerada. É Sascha duelando consigo mesmo!

#34: “The Parting” — Steve Hackett (Ayreon; participação especial)
“Infelizmente”, este solo vem pouco depois de um dos berros mais épicos da história do metal mundial (1:29), o que pode ofuscá-lo injustamente. Mas fato é que Steve Hackett, o único guitarrista convidado deste maravilhoso disco do Ayreon que foi mais focado nos teclados, deixou aqui um trabalho da mais alta estirpe.

#33: “Amoeba” — Rikk Agnew (ou talvez Frank Agnew) (Adolescents)
Uma das músicas mais famosas deste lendário supergrupo punk, cuja popularidade foi impulsionada pela inclusão da mesma nas trilhas sonoras de Tony Hawk’s Pro Skater 3 e Grand Theft Auto V. Há dois solos aqui: o que motivou a inclusão desta canção nesta lista e o solo de encerramento (aos 2:20), que vale tanto a pena quanto. Não sei exatamente qual dos dois irmãos faz a guitarra solo aqui, mas analisando vídeos da época em que tocavam no grupo, é mais provável que seja Rikk.

#32: “Beloved” — Hisashi (GLAY)
O GLAY, uma das melhores bandas do rock japonês, nunca fez assim, digamos, um rock pesadão e malvado, mas nem por isso são menos respeitáveis quando se fala do que fazem com as guitarras. E em “Beloved”, balada dos primórdios deles, o guitarrista solo Hisashi mostra por que é uma peça essencial nesta formação que praticamente nunca mudou.

#31: “Carolina IV” — Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt (Angra)
O primeiro duelo de fato da lista. Atual guitarrista solo do gigante Megadeth, o brasileiro Kiko Loureiro há muito já mostrava ser um músico acima da média. Com o Angra, banda que formou com o guitarrista igualmente talentoso Rafael Bittencourt (com quem divide este solo) e o já mencionado Andre Matos, Kiko e os colegas puderam pôr para fora uma música única que unia as influências eruditas, metálicas e nacionais que eles tanto apreciavam. “Carolina IV” não só é um dos melhores exemplos disso como traz um dos melhores solos da discografia deles.

#30: “Dawn of a Million Souls” — Michael Romeo (Ayreon; participação especial)
Em sua primeira colaboração com o Ayreon, Michael Romeo mandou não só um, mas dois solos em seguida. Quer dizer, tecnicamente é um solo só, pois trata-se do mesmo músico e um emenda no outro, mas a mudança de atmosfera e até do timbre meio que nos dá o direito de considerar que se trata de um solo dividido em dois. Enfim, neste aqui, ele se sente em casa, afinal, está participando de uma música que já conta com vocais do seu colega de Symphony X, o estupendo Russell Allen.

#29: “Elysium” — Matias Kupiainen (Stratovarius)
Alguns me incluirão em suas respectivas listas negras por mencionar o atual guitarrista do Stratovarius, mas não o antigo – o lendário Timo Tolkki. Bem, Timo até tem muitos solos bons, mas ele é um shredder e eu tenho um gosto um tanto particular para esta modalidade. Acredito que o jovem Matias imprime muito mais emoção em suas notas, e a obra-prima da banda que recebeu o mesmo nome do disco em que foi lançada foi uma oportunidade de quase 20 minutos para ele mostrar isso. O foco deste parágrafo é o solo de encerramento, mas não deixe de conferir também o empolgante duelo com o tecladista Jens Johansson aos 9:27.

#28: “Star of Sirrah” — Paul Gilbert (Ayreon; participação especial)
Parece incrível que um solo tenha se destacado numa faixa que tem um dos riffs mais matadores da história do Ayreon e ainda traz a participação de James LaBrie, Russell Allen, Hansi Kürsch, Tobias Sammet, Nils K. Rue, Tommy Rogers, Michael Eriksen e Floor Jansen (ufa!). Bem, é que o solo ficou sob os cuidados de uma lenda igualmente gigante: o estadunidense Paul Gilbert. Infelizmente, tive de puxar um vídeo “pirata” para esta faixa porque o oficial é um lyric video que criminosamente cortou parte do solo.

#27: “The Count of Tuscany” — John Petrucci (Dream Theater)
Olha só quem apareceu de novo. E desta vez com um dos solos mais especiais e diferentes desta lista. Acostumado a fazer com suas mãos coisas que os humanos ainda não conseguem, John Petrucci entrega nesta faixa sobre um encontro que ele teve na Toscânia (Itália) um longo solo carregado de emoção e abusando da técnica do swell, que consiste em usar pedais para “atrasar” o som da guitarra e assim omitir o primeiríssimo ruído que se faz (o barulho do “ataque” à corda).

#26: “Wind of Change” — Matthias Jabs (Scorpions)
Este clássico alemão com uma letra emblemática sobre o fim da União Soviética ficou ainda melhor quando os Scorpions decidiram contemplá-lo no álbum Moment of Glory, lançado em 2000 em parceria com a Orquestra Filarmônica de Berlim. Se este solo de Matthias Jabs já era carregado de emoção na versão original, olhem só como fica com todas as cordas e sopros ao fundo:

#25: “The Dream Dissolves” — Marcel Coenen (Ayreon; participação especial)
Ayreon de novo, e com o mesmo álbum do último solo em que foi mencionado. Desta vez, o time de vocalistas participantes é mais enxuto, trazendo “apenas” Nils K. Rue, Michael Eriksen, Floor Jansen e Simone Simons. Por outro lado, o guitarrista que deixou sua marca aqui (Marcel Coenen, do Sun Caged) teve de fazê-lo logo após um tecladista dos grandes: Mark Kelly, do Marillion. Quem ganha é o fã, que fica com dois solos monstruosos em sequência. Uma curiosidade: o primeiro solo que Marcel mandou para Arjen foi rejeitado. Ele fez este outro na força do ódio (mentira, nem foi assim) e agradeceu à mente por trás do Ayreon por tê-lo estimulado a ir além. De novo, quem ganhou foi o fã.

#24: “Butter-Fly” — ??? (Wada Kouji)
Dentre as muitas contribuições que o saudoso Wada Kouji deixou para a música japonesa, está a abertura da primeira temporada de Digimon, “Butter-Fly”. O clássico anime deu à luz outras memoráveis canções, mas esta aqui traz um solo dos mais inspirados e empolgantes, executado por um ilustre desconhecido. E mais tarde o cantor prepararia outra música de Digimon com um solo ainda melhor, que guardei para uma colocação mais alta nesta lista…

#23: “Over” — Lori Linstruth (Guilt Machine)
Quando George Harrison escreveu aquela famosa música sobre sua guitarra chorar, ele provavelmente não imaginava que um dia alguém haveria de se especializar em solos que parecem fazer exatamente isso. Chegamos à – infelizmente – única mulher na lista: Lori Linstruth. Aqui, mostramos um solo extremamente tocante que ela deixou no Guilt Machine, projeto paralelo ao Ayreon (ou seja, tome Arjen de novo) que até o momento rendeu um único disco. A faixa, como todas do lançamento, traz letras bem “deprê” e o solo “chorão” só vem somar à atmosfera entristecida da música. Aos 5:10, Lori até se junta ao vocalista Jasper Steverlinck num “duelo de choros”!

#22: “The Shattered Fortress” — John Petrucci (Dream Theater)
E lá vem John de novo. “The Shattered Fortress” é a última das cinco canções que o ex-baterista do Dream Theater, Mike Portnoy, escreveu sobre sua luta contra o alcoolismo. Ela faz uma espécie de pout pourri de riffs, melodias e versos das peças anteriores e, como não poderia deixar de ser, é carregada de muita emoção. Contrariando tendências da banda, os solos de John e de Jordan ficam em momentos separados da música. O tecladista vem primeiro com seu continuum, e executando um solo igualmente matador que se inicia aos 5:32.

#21: “Heroes of Our Time” — Herman Li & Sam Totman (DragonForce)
Claro que, quando se pensa em “DragonForce” e “solo” na mesma frase, ela parece incompleta se não contiver “Through the Fire and Flames”, o grande clássico da banda e a última música de metal & derivados que podemos chamar de “hit”. O próprio solo, que impressionou a todos por sua virtuosidade e ganhou câmera em foco no clipe, ajudou a alavancar a fama da peça. Mas meu coração bate mais por “Heroes of Our Time” e alguns outros solos do grupo britânico – que guardarei para a lista de duelos favoritos por serem intercalados com solos de teclado também.

#20: “Sorrow” — David Gilmour (Pink Floyd)
O lendário David Gilmour aparecerá três vezes nesta lista, e a primeira já é logo na 20ª colocação. “Sorrow” foi inteiramente escrita pelo próprio guitarrista ao longo de um fim de semana no Astoria, seu estúdio flutuante. O solo é executado em sua Steinberger GL (uma guitarra “sem cabeça”) com um amplificador Gallien-Krueger (na época, a empresa ainda não havia focado totalmente sua produção em amplificadores de baixo). Não deixe de conferir também as versões ao vivo desta beleza!

#19: “Wisdom and the Cage” — Kristian Niemann (Therion)
Depois de uma faixa inteira dedicada a Sofia, a personificação da sabedoria, o que ainda poderíamos esperar destes pioneiros do metal sinfônico? Kristian Niemann duelando consigo mesmo, é claro! Os dois solos são separados por uma melodia ao teclado e o foco do parágrafo é o segundo, que encerra a faixa com chave de ouro.

#18: “Silent Jealousy” — hide & Pata (X Japan)
Outros guitarristas que aparecerão três vezes, todas no top 20, são hide e Pata, a dupla de ouro do X Japan – o grupo japonês criminosamente ignorado pela mídia ao falar de power metal. Quando a maioria das bandas do gênero ainda tentava se livrar das fortes influências thrash, o X Japan já estava lá, pleníssimo, fazendo power metal limpo, agudo e cheio de elementos sinfônicos. “Silent Jealousy” é uma das melhores músicas que eles já fizeram, e um exemplo de como fazer power metal. O solo em questão, devo adicionar, vem após um solo de baixo, um solo de piano e, depois de alguns refrãos, ainda é sucedido por um solo de bateria.

#17: “Art of Life” — hide & Pata (X Japan)
Dobradinha de X Japan. Vamos agora para esta que é uma das melhores obras musicais da história da humanidade: “Art of Life”, faixa que ocupa sozinha a totalidade do quarto disco dos japoneses. Dentre as várias passagens que compõem a obra-prima deles, temos dois grandes solos de guitarra, isso sem considerar as linhas de abertura e alguns licks em loop pouco antes do encerramento. O solo em foco aqui é o do meio, que dura pouco mais de três minutos. Mas não deixe de conferir também o primeiro, que se inicia aos 5:56.

#16: “Another Brick in the Wall, Part II” — David Gilmour & Tim Renwick (Pink Floyd; membro oficial e músico de apoio, respectivamente)
Sim, já temos David Gilmour de novo, naquela que na minha opinião é a melhor versão da segunda parte de “Another Brick in the Wall”, ainda que sem Roger Waters. Aqui, David duela com o músico de apoio Tim Rendwick, e quem ganha somos nós. Ao fundo, uma das linhas de baixo mais marcantes da história do rock, só que nos dedos do também contratado Guy Pratt, já que Roger não mais estava no grupo.

#15: “Nova Era” — Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt (Angra)
Primeiro, ela foi plagiada pelo Parangolé. Depois, caiu de paraquedas num pouco conhecido meme pró-Bolsonaro. “Nova Era”, uma das primeiras músicas do Angra que me apresentaram, é um destaque na discografia do quinteto e acabou ficando famosa pelos motivos errados. Querem razões melhores, além da óbvia qualidade? O solo de Kiko e Rafael, um dos primeiros que me marcaram na vida.

#14: “Stairway to Heaven” — Jimmy Page (Led Zeppelin)
Com certeza o solo mais manjado e “modinha” desta lista, mas ainda assim o mais lendário da história do rock. Executado pelo mestre Jimmy Page (coautor da faixa) em uma Fender Telecaster recebida das mãos de Jeff Beck (que, como ele, tocou no The Yardbirds) e plugada em um amplificador que ele não recorda se era um Supro ou um Marshall. Ao vivo, e usando sua icônica Gibson de dois braços, Jimmy normalmente estendia o solo, motivo pelo qual há versões desta música que ultrapassam (às vezes muito) a marca dos dez minutos.

#13: “Free Bird” — Allen Collins (Lynyrd Skynyrd)
Dobradinha de solos manjados e “modinhas”. Este aqui, receio, deve ter sofrido uma certa banalização por sua presença em dois jogos muito populares (Guitar Hero II e Grand Theft Auto San Andreas (embora neste último ele seja criminosamente cortado)) e também porque “toca Free Bird!” é o “toca Raul!” dos estadunidenses. Mas tudo bem, um solo que ocupa metade de uma música de dez minutos (o mais longo da lista!) que nem se trata de rock progressivo e que se tornou motivo de louvação à parte da própria faixa com certeza é um solo que me chamaria a atenção.

#12: “Peruvian Skies” — John Petrucci (Dream Theater)
E lá vem ele de novo. Desta vez, com um solo que teve o azar de ser lançado no disco mais injustiçado do Dream Theater, o inofensivo Falling into Infinity. Curiosamente, esta foi uma das primeiras músicas que eu ouvi do Dream Theater, mais ou menos em 2005, mas levou anos para eu perceber o quanto ela era boa, e somente um pouco depois eu notei o quanto este solo era maravilhoso. Tudo só melhorou quando eu comprei uma partitura digital oficial para aprender as partes de órgão que tocam ao fundo, mas lamentavelmente o aplicativo simplesmente saiu do ar sem explicações e eu fiquei na mão. Fuén…

#11: “Crawl” — Steve Morse (Flying Colors)
Pra mim, este é o melhor grupo de rock surgido nos anos 2010 – ainda que eu admita haver certa dose de covardia em colocar um supergrupo nesse posto. Nas guitarras, temos Steve Morse (o incontestável membro do Deep Purple e do Dixie Dregs), com o vocalista Casey McPherson apoiando na base e o tecladista/vocalista Neal Morse (sem parentesco) dando um eventual suporte adicional no violão. E nesta faixa, ele entrega um solo daqueles que até arrepia. Não deixe de conferir também o solo igualmente bom que serve de encerramento da faixa, além, é claro, de toda a discografia desta grande banda de rock progressivo, pop e hard.

#10: “Comfortably Numb” — David Gilmour (Pink Floyd)
Abrimos o top 10 com a última aparição de David nesta lista, e também com o último solo que considero manjado e “modinha”. Mas fazer o quê, o danado é uma obra-prima mesmo, ué. Aliás, os danados – apesar de ocorrerem em momentos diferentes, os dois solos desta música muitas vezes aparecem como um só em listas do tipo. O primeiro é bem simples, mas extremamente tocante (sem trocadilhos). O segundo demonstra mais poder de fogo, assemelhando-se ao que David desenvolveria mais tarde tanto em carreira solo quanto nos discos da banda sem Roger Waters.

#9: “Tears” — hide & Pata (X Japan)
Um dos primeiros solos de guitarra que me marcou na vida, uma das primeiras músicas do X-Japan que eu ouvi, e uma das baladas de rock/metal mais lindas já feitas pelo homem. É só isso que tenho a dizer sobre esta obra divina.

#8: “Chalice of Agony” — Henjo Richter (Avantasia; participação especial)
Numa faixa em que Tobias Sammet faz “trieto” com Andre Matos e Kai Hansen, quem se destaca é Henjo Richter (colega de Kai no Gamma Ray). A exemplo do solo de Sascha, este também começa inofensivo, só com uns arpeggios, mas na segunda metade as notas ganham mais independência e, bem, viram essa maravilha aí embaixo.

#7: “The Watchmaker’s Dream” — Arjen Anthony Lucassen (Avantasia; participação especial)
Dobradinha de Avantasia, e a última ocorrência da maior metal opera de todos os tempos nesta lista. Chega a soar ofensivo que Arjen apareça neste lista como “visitante” em outro grupo e não no seu próprio projeto (que é a melhor metal opera de todos os tempos), mas… este solo dele é simplesmente incrível. No Ayreon, ele acaba cedendo espaço para outros guitarristas brilharem em solos, e não por um acaso muitos vieram parar aqui. Para alguém que assumidamente não gosta de praticar e por isso não é virtuoso, Arjen conseguiu um posto bem elevado nesta lista…

#6: “Innocent” — ??? (Wada Kouji)
Ao falar de “Butter-Fly”, a 24ª da lista, eu disse que Wada Kouji tinha uma música de Digimon com um solo ainda melhor, reservado para uma colocação mais alta nesta lista. Pois aqui está: o encerramento para a quarta temporada, Digimon Frontiers. Se por um lado foi a partir daqui que a qualidade do anime começou a decair, musicalmente falando o nível permaneceu bem alto. A presença desta música na lista – e numa posição tão nobre – é muito provavelmente influência do fato dela ter uma das linhas de baixo mais incríveis que eu já ouvi em toda a minha vida. Mas… o solo é bom mesmo, pode ouvir sem medo. E tome mais um “anônimo involuntário”!

PS: Qual era a chance de duas músicas com quase o mesmo nome (“Innocence” (a 36ª) e “Innocent”) acabarem nesta lista?

#5: “Hold the Line” — Steve Lukather (Toto)
Não é o clássico riff de piano de David Paich. Não é a voz aguda de Bobby Kimball. Não é a bateria marchante de Jeff Porcaro. O que mais me agrada nesta música é o ótimo solo de Steve Lukather. Talvez você nunca tenha ouvido esta canção (apesar de fazer parte da tríade de ouro do Toto, junto com “Africa” e “Rosanna”), ou talvez não conheça nada desta banda, mas é virtualmente impossível não ter ouvido Steve – ele já participou de literalmente milhares de álbuns de uma gama muito ampla de gêneros e artistas diferentes – incluindo o brasileiro Gilberto Gil.

PS: Mais uma música sob a qual milhares de jovens felizes fizeram miséria no Grand Theft Auto San Andreas

#4: “Another Day” — John Petrucci (Dream Theater)
Sim, lá vem ele de novo. E esta nem é a última aparição de Petrucci nesta lista, o que significa que sim, ele estará no pódio! Nesta faixa dos primórdios do Dream Theater – repare no vídeo como o quinteto ainda era super jovem -, John reflete sobre a vida com o pai, que acabara de ser diagnosticado com câncer na época. Alguns anos depois, ele morreria e o evento renderia “Take Away My Pain”, do já mencionado Falling into Infinity. Seria imperdoável não mencionar também os dois solos de Jay Beckenstein, saxofonista soprano que deu um toque inesquecível a este grande momento dos deuses do metal progressivo.

#3: “Hotel California” — Don Felder & Joe Walsh (Eagles)
Eu só não digo que o pódio vai abrir com mais um solo manjado/”modinha” porque esta música é famosa como um todo, e possivelmente seu refrão é mais lembrado que o solo de mais de dois minutos que a encerra. Não vou falar da letra porque os próprios integrantes e ex-integrantes não conseguem chegar a um consenso sobre o que diabos ela significa. Vale dizer que a faixa se utiliza de uma progressão harmônica não usual para o rock, mas comum na música espanhola (especialmente a flaminca), o que lhe confere uma boa dose de autenticidade. Sobre o solo em si, ao tentar descrevê-lo, sinto-me como um oceanógrafo tentando falar de um tsunami ao vivo. Ele pode proferir as palavras que quiser, mas a onda simplesmente chega e o leva, junto com tudo o que houver ao seu redor.

#2: “The Ghost of Tom Joad” — Tom Morello (Bruce Springsteen; membro de apoio)
Muitos acusam Tom Morello, famoso por seu trabalho no Rage Against the Machine e no Audioslave, de ser “só pedais e efeitos”. Ele obviamente faz extenso uso desses apetrechos, mas… até para usá-los, você precisa entender o que está fazendo. E Tom com certeza entende. O tecladista Jens Johansson (do Stravovarius; mencionado lá em cima no solo nº 29) diz que quando você usa o pitch bend do seu teclado, você precisa ter uma nota específica em mente. Apesar de ser tecladista e não guitarrista, creio que o mesmo se aplica aos efeitos de uma guitarra. Neste solo estupendo, Tom Morello encerra de forma magistral uma faixa retrabalhada do grande Bruce Springsteen – cuja versão original já era ótima. Uma curiosidade é que logo antes da passagem de som para o show em que ela seria apresentada pela primeira vez com o ex-RATM na guitarra e também nos vocais, Bruce decidiu subir o tom da música – literalmente. Em seu curso de guitarra na plataforma MasterClass, Tom explica que não sabia se conseguiria alcançar as novas notas (oito tons acima), tampouco se soaria convincente – e para ele, que é politizado até o osso, soar convincente numa faixa cuja letra faz um protesto tão poético era vital. No fim, ele entregou uma das coisas mais lindas já feitas pela mão do homem. Não deixe de conferir também o solo intermediário, um duelo com o próprio Bruce, aos 2:38. Vale lembrar que esta música foi executada várias vezes no palco desde 2008 e só em 2013 foi registrada em estúdio para um lançamento no começo do ano seguinte. Vale correr atrás dessas versões ao vivo e conferir as primeiras variações da obra.

#1: “The Ministry of Lost Souls” — John Petrucci (Dream Theater)
E o guitarrista que mais pareceu nesta lista é também o que a lidera. Agora, permitam-me admitir que este final foi um tanto “anti-climax”. O solo em questão é até bastante simples comparado à maioria dos outros e principalmente levando em conta um solo típico de Petrucci, sem falar que ele flerta muito perigosamente com a definição “solos que são na verdade apenas frases em loop”, que usei como critério de exclusão no meu processo de curadoria. Mas ele te atinge em cheio na alma – se me permitem o trocadilho com o título – especialmente se você ouve a faixa inteira e ainda por cima prestando atenção na letra. Vale lembrar que ele é somente o terceiro de três solos que John entrega aqui. O primeiro (3:21) é um “aperitivo” do final e o segundo (9:00) é um duelo enfurecido com Jordan.

Menções honrosas
Alguns solos que não figuraram aqui, mas me agradam muito e eu recomendo (em ordem aleatória):

  • “Strutter” – Kiss
  • “Lugar Nenhum” – Titãs; versão Volume Dois
  • “End of All Hope” – Nightwish
  • “Eva” – Nightwish
  • “Wishmaster” – Nightwish
  • “The Day That Never Comes” – Metallica
  • “Dictatorshit” – Sepultura
  • “Dahlia” – X Japan

Resenha: Hvman. :||: Natvre. – Nightwish

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Depois que o sexteto finlandês de metal sinfônico Nightwish lançou o ótimo Endless Forms Most Beautiful (clique aqui para conferir minha resenha a respeito), um álbum que lidava com temas como biologia, evolução e natureza, deduzi que o próximo passo poderia ser abordar temas de fora da Terra – exploração espacial, vida extraterrestre, astrofísica, nosso lugar no universo, etc.

Mas tolo fui eu de me julgar capaz de prever o tecladista, líder e principal compositor do grupo, Tuomas Holopainen – um dos poucos músicos vivos que eu me atrevo a classificar como gênio. Com Hvman. :||: Natvre. (Human Nature para os íntimos), ele expandiu temas do disco anterior ao mesmo em que aborda temáticas mais humanas.

A formação é exatamente a mesma de antes, com a diferença de que agora o baterista Kai Hahto empunha as baquetas de forma oficial – Jukka Nevalainen anunciou no ano passado que estava fora da banda definitivamente, ao menos enquanto músico.

A primeira coisa que devo falar sobre Hvman. :||: Natvre. é que ele fez o mínimo que se esperava dele: corrigiu os problemas do Endless Forms Most Beautiful. Para quem não se lembra, embora ótimo, ele foi marcado pela subutilização da então nova vocalista Floor Jansen, que passou longe de mostrar todo o seu potencial, e o mesmo ocorreu com o também novo integrante oficial (mas antigo colaborador) Troy Donockley, que continuou dando as caras só esporadicamente com seus vocais e instrumentos exóticos.

Neste lançamento eles finalmente liberam seus talentos sem amarras. No caso de Troy, deve-se mencionar ainda que Tuomas conseguiu aumentar sua dosagem sem que o sexteto virasse folk.

Mas parece que o ajuste teve um sacrifício: Marco Hietala, o baixista e também vocalista, quase não dá as caras – digo, as vozes. Fica restrito a vocais de apoio e ganha espaço digno em apenas uma faixa: “Endlessness”. Há algum sentido em desperdiçar um talento desses?

Falando especificamente das músicas, abrimos muito bem com “Music”. O clima tribal que marca o pontapé inicial desemboca num trabalho típico e pesado – esta pegada tribal, agressiva, primitiva será não só resgatada, mas também aprofundada quase no final do CD 1, na empolgante e percussiva… “Tribal”.

“Shoemaker” é outro destaque, não só pelo peso, mas por trazer um dos pontos altos de Floor, que ataca até com vocais operáticos – não por um acaso, ela teve de tentar vários takes até atingir o nível desejado, conforme explicou em vídeo no YouTube. E falando em peso, quem gosta deste aspecto do som do Nightwish vai se deliciar com “Pan”.

“Harvest”, o segundo single, também figura entre os pontos altos, sendo a faixa mais folk e a única em que a voz de Troy aparece em mais evidência, uma vez que no resto do álbum ele se limita a oferecer um belo contraponto a Floor. “How’s the Heart” também traz uma boa dosagem celta e mais uma performance de gala da holandesa.

A primeira parte se encerra magnificamente com “Endlessness”, um trabalho que reúne peso, emoção e toda a musicalidade característica do Nightwish. Faltou falar só da segunda faixa, “Noise”, que é bem menos comercial do que se poderia esperar do primeiro single de um álbum, mas ainda assim não fica entre as melhores.

O CD 2 consiste em oito faixas que, juntas, formam uma peça extensa de 31 minutos. E é aí que reside a grande decepção de Hvman. :||: Natvre.. Esta segunda metade, que recebeu o nome “All the Works of Nature Which Adorn the World”, é totalmente orquestral e instrumental (se não levarmos em conta as narrações e vocalises), fazendo dos integrantes coadjuvantes em sua própria música.

É um trabalho lindo? Não tenho a menor dúvida, chega a arrepiar em alguns momentos. Ele deu certo? Se fosse a trilha sonora de um filme ou mais uma aventura solo de Tuomas, com certeza. Mas não é. Fica a sensação de que ela foi toda criada tendo algumas imagens em mente. Imagens estas que só chegaram para o encerramento “Ad Astra” – que foi lançado como terceiro single.

Este segundo disco inteiro, atrevo-me a dizer, é descartável. Não no sentido de que seja ruim, mas no sentido de que ele não veio para somar, veio para fazer volume, o que é bem diferente. Por corresponder a praticamente 40% da obra, acaba impedindo que sua média seja alta.

Um álbum excelente que não atende as expectativas. Este é Hvman. :||: Natvre.. Parece absurda a ideia, não? Bom, o Nightwish é uma das melhores bandas do mundo (não só no metal, mas na música em geral), então eles teriam que se esforçar muito para fazer algo ruim. Daí o “excelente”. Por outro lado, justamente por serem tão bons, esperava-se algo mais, especialmente de “All the Works of Nature Which Adorn the World”, que não bate nem na trave se comparada a outras faixas épicas deles como “The Greatest Show on Earth”, “The Poet and the Pendulum” e “Ghost Love Score”.

Sem falar, claro, na relegação de Marco e Troy a segundo plano enquanto cantores. Gerenciar três vocalistas não é tarefa fácil, mas a matemática por sua vez não é tão complicada. No CD 1, são nove faixas: sete para Floor, uma para Troy e uma para Marco. Algo está errado nessa balança aí…

Nota = 4/5.

Abaixo, o lyric video de “Music”

Resenha: Mustan Sydämen Rovio – Marko Hietala

Reprodução da capa do álbum (© Savonian Rooster)

Foi como “hard progressivo” que Marco Hietala, mais conhecido como vocalista e baixista das bandas finlandesas Nightwish e Tarot, definiu o som de Mustan Sydämen Rovio, seu primeiro álbum solo em pouco mais de 50 anos de vida, e para o qual ele adota a variação ‘Marko’ de seu primeiro nome.

O termo “hard progressivo” normalmente nos remete a nomes arrojados como Rush e Sons of Apollo, mas o som que o barbudo finlandês (que deu um pulo recente no Brasil para se casar) imprime em sua estreia a solo é, na verdade, algo um pouco mais abrangente que uma mera mistura de hard rock com progressivo.

Existem cordas suficientes para considerarmos que o trabalho engloba também os gêneros folk e sinfônico. Ao mesmo tempo, a levada das guitarras em certos momentos nos faz pensar em algo tão básico quanto heavy metal tradicional.

Como costuma acontecer em lançamentos solo de quem já carrega nas costas a experiência de décadas em nomes diversos, Mustan Sydämen Rovio não é exatamente direto. Ele propõe novas direções a todo momento, ainda que sem sair de um determinado universo musical.

Por exemplo, a abertura “Kiviä” nos leva a crer que estamos diante de uma espécie de cruzamento de Korpiklaani com Nightwish. Mas a sequência “Isäni Ääni” já direciona o som para algo mais melancólico.

“Tähti, Hiekka ja Varjo”, que abre com riffs eletrônicos que deixariam o Stratovarius moderno com um sorriso no rosto, logo deságua num metal moderno com toques de power e do próprio Nightwish. O peso evolui em “Kuolleiden Jumalten Poika”, com um instrumental relativamente cru, uma entrega vocal acima da média do álbum e potencial para ser single.

“Laulu Sinulle”, a mais longa da vez, destoa bastante de suas companheiras ao adotar uma roupagem alternativa e altamente sintética, que lentamente se transforma no momento mais progressivo do disco – mas nem de longe o mais interessante.

Melhor é sua sucessora “Minä Olen Tie”, que também evolui aos poucos, mas para algo mais empolgante, incluindo riffs fortes e um solo fritado que à primeira ouvida parece se esforçar para se encaixar na proposta mais pé no chão do lançamento, mas no fim acaba dando certo.

Na verdade, a segunda metade da obra é a sua melhor parte. “Juoksen Rautateitä” e “Totuus Vapauttaa” são sem dúvidas o ponto alto em termos instrumentais por serem dinâmicas e altamente empolgantes, com trabalhos no órgão por parte de Vili Ollila que fariam Rick van der Linden sorrir em seu túmulo, não tivesse ele sido cremado. O time do disco envolve ainda o baterista Anssi Nykänen e o guitarrista Tuomas Wäinölä.

“Unelmoin Öisin” desacelera o ritmo das coisas sem deixar a peteca cair, preparando o terreno para o encerramento acústico “Totuus Vapauttaa”, carregado de emoção e recheado de cordas.

Marko Hietala faz em Mustan Sydämen Rovio uma sólida estreia solo, com muitos motivos para torcermos por uma continuação, ainda que saibamos que ela pode levar um bom tempo – principalmente porque os ensaios do novo álbum do Nightwish já começaram, conforme post recente do líder Tuomas Holopainen.

Nota = 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Isäni Ääni”: