Resenha: Endless Forms Most Beautiful – Nightwish

Breve histórico: Não há muito o que falar do Nightwish sem chover no molhado. Maior banda de metal sinfônico da atualidade, uma das mais bem sucedidas do metal em geral, liderada por um gênio musical e formada por um time de talentosos músicos.

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Pela segunda vez, o Nightwish apresenta aos fãs uma nova vocalista. Trazem ainda outras duas alterações na formação: a incorporação do multi-instrumentista Troy Donockley como membro oficial e a substituição inesperada e provisória do baterista Jukka Nevalainen por Kai Hahto. O que isso muda? Na verdade, menos do que se poderia esperar. A adição de Troy mal se nota e a diferença entre Jukka e Kai é mínima. Já Floor merece um comentário à parte.

Mas antes, falemos do álbum em si. Inspirado pelo trabalho do grande Charles Darwin, Endless Forms Most Beautiful é mais pesado e direto que seu antecessor, Imaginaerum (resenhado neste blog). O instrumental aqui é de um nível que pode até reconquistar fãs perdidos ao longo da carreira. Já a parte vocal… Esta agrada, ma no tanto.

O que se ouve ao longo das 11 faixas? “Shudder Before the Beautiful”, a primeira, abre com a narração de ninguém menos que Richard Dawkins, uma escolha apropriadíssima para a temática do trabalho. O que se segue é uma música pesada e direta, abrindo o álbum de uma maneira como não se via desde Once (“The Poet and the Pendulum”, também era forte, mas tinha uma introdução relativamente longa; já “Storytime”, era precedida por uma faixa sem nada de metal). Um peso que remete a Once e Century Child, como Tuomas comentou. Ah, e temos aqui também algo que não se ouvia há muito tempo: um solo de teclado. Ninguém espera que Tuomas encarne o Jens Johansson, mas um duelinho com Emppu não mata ninguém, certo?

No decorrer das faixas, temos momentos muito empolgantes como as pesadas “Yours Is an Empty Hope” e a faixa-título; e músicas mais sonolentas, como “Our Decades in the Sun” (que ao menos é bonita, tanto que foi gravada debaixo de lágrimas dos integrantes, segundo Tuomas) e a dispensável “Élan”, o primeiro single. Tuomas afirmou em entrevista que nem sequer pretendia incluir a faixa no álbum quando ela era um demo, e que “Edema Ruh” era para ser o primeiro single, mas tomou gosto pelas versões mais encorpadas da canção e por sugestão do baixista/vocalista Marco Hietala ou de Troy, fez dela o primeiro single. Fraca, fraquíssima escolha, ainda mais para estrear Floor. Fora isso, o álbum tem alguns destaques que merecem parágrafos à parte.

Troy brilha em “My Walden”, cantando versos em galês logo no início; versos que até arrepiam pela beleza de sua voz. E com o seu trabalho nos sopros atingindo o ápice aqui, parece formar uma trilogia com “Last of the Wilds” do Dark Passion Play e “I Want My Tears Back” do Imaginaerum – com efeito, Tuomas definiu “My Walden” como algo próximo de uma continuação de “I Want My Tears Back”.

Para ouvir “The Eyes of Sharbat Gula”, fiz o que parecia mais natural e passei os seis minutos da faixa encarando a icônica capa de junho de 1985 da National Geographic, que traz a famosíssima fotografia da garota afegã mencionada no título, com seus olhos “selvagens, indomesticados, destemidos e temerosos”, como Tuomas os descreveu. Originalmente planejada para ter letras, que no caso tratariam de crianças na guerra, foi mantida como instrumental por sugestão de Troy. Um conselho muito sábio, pois os olhos de Sharbat por si só já dizem muita coisa e parecem constantemente dialogar com quem os encara. A música apenas tenta criar um clima para esta interação. Digo “tenta” porque ela não pareceu aprimorar em nada a experiência que é encarar Sharbat Gula. Nem sequer continha elementos que remetessem ao Oriente Médio. Mas não vale a pena se alongar nisso; a maneira como alguém musica uma imagem é algo extremamente subjetivo e pessoal, e não cabe aqui dizer o que a faixa deveria ser.

Fechando o álbum, “The Greatest Show on Earth” traduz em música o que o título sugere: o maior espetáculo da Terra. Não fica muito acima das outras faixas longas do grupo, mas é sem dúvidas uma das melhores da história do Nightwish, em todos os sentidos possíveis. Passagens de peso (as que provavelmente serão reproduzidas ao vivo, pois Tuomas já disse que não tocarão a faixa inteira em shows) dividem espaço com sons naturais e trechos de pura música clássica. Em uma música que trata de evolução, foi muito esperta a passagem em que são ouvidos desde ritmos tribais até sons de bateria eletrônica, passando pelo “Minueto em Sol Maior” de Christian Petzold e a “Tocata e Fuga em Ré Menor” de Bach, como se a intenção fosse samplear a evolução da música numa canção sobre a evolução da vida na Terra. E há ainda uma emocionante reflexão sobre vida e morte, a variabilidade do nosso DNA e as pessoas que “nunca morrerão porque nunca nascerão”, retirada da obra de Dawkins e recitada pelo próprio.

Traçando um diagnóstico do álbum, pode-se dizer com tranquilidade que é, de fato, mais pesado que os anteriores, com a seção rítmica mandando uma quantidade de pauladas raramente ouvida na discografia recente do sexteto. E, confirmando o que Tuomas já havia afirmado em entrevista, aborda a razão e a ciência, estabelecendo um interessante contraste com seu antecessor, que falava do poder da imaginação. Contraste que se refletiu na música; mais técnica, orgânica e direta que os sons fantasiosos, enfeitados e cinematográficos de Imaginaerum. A parte boa do álbum é essa. Mas há algumas coisas que chamam a atenção.

O primeiro problema envolve Floor. Pra começar, ela domina a parte vocal da banda. Marco canta poucas passagens, e a voz de Troy só se ouve isoladamente na já comentada “My Walden”. No resto do disco, limitam-se aos vocais de apoio. Além disso, perdoem-me por repetir algo que já foi escrito em inúmeras resenhas e comentários, mas é fato que a voz de Floor foi subutilizada, contrariando o que Tuomas e ela própria haviam prometido: desafiá-la a usar todo o seu potencial. Até em 01011001, do Ayreon, onde ela dividiu espaço com nada menos que 16 outros vocalistas, foi possível ver melhor sua versatilidade em ação. Nas poucas vezes que Tuomas tentou fazer Floor ir além, forçou a barra, como em “Yours Is an Empty Hope”, onde a voz dela soa forçada demais em alguns trechos. Mesmo assim, desconsiderando o fator Tuomas, Floor fez jus à responsabilidade que lhe foi dada e seu futuro no Nightwish ainda é promissor.

Outro ponto negativo é a participação tímida de Troy. Ora, quando ele foi anunciado como membro oficial, o que qualquer um esperaria é que sua entrada no grupo significaria necessariamente um uso maior de seus instrumentos exóticos e de sua bela voz. Ledo engano. Tudo bem, a banda é do Tuomas, e ele dosa a participação de cada membro como bem entender. Mas fica um gostinho de “só isso?”. Troy, mais do que Floor, foi o verdadeiro injustiçado em Endless Forms Most Beautiful.

Nota = 8,0. O álbum está muito longe de ser esse desastre todo que andam comentando por aí, mas há problemas evidentes que não podem ser ignorados. Problemas que não comprometem a qualidade geral do disco, pois os pontos perdidos na subutilização dos membros e na desnecessidade de uma ou outra faixa são compensados pelo peso, o rico conceito e as boas melodias.

Abaixo, a faixa “Shudder Before the Beautiful”

Dia Mundial do Rock: 15 encerramentos de tirar o fôlego

Neste ano, o Dia Mundial do Rock coincidiu com a final da Copa. Por este motivo, o Sinfonia de Ideias não publicou nada a respeito no último domingo: o negócio era celebrar o tetra da Alemanha, curtir uns 15 minutos de sadismo com a derrota da Argentina e palpitar sobre o futuro do futebol brasileiro. Poucos lembraram do rock. O post deveria ter sido publicado na segunda-feira, portanto, mas só deu para finalizar hoje, por motivos de força maior. Sem mais desculpas e antes tarde do que nunca, aqui vamos nós:

Inspirado por uma ideia que me surgiu há alguns meses, e aproveitando que encerramos o evento mais importante do ano, resolvi pinçar algumas músicas da minha biblioteca que contivessem encerramentos que me deixam até arrepiado de tão bons. Fiz uma lista com algumas dezenas, excluí várias e fechei uma compilação com 15, já que dez seria muito pouco. São faixas variadas de rock, heavy metal e derivados, algumas conhecidas, outras nem tanto. Boa audição!

PS: Isto NÃO É uma lista de “15 melhores”. As faixas abaixo são meras sugestões, listadas na ordem alfabética dos artistas. Evidentemente, muita coisa boa ficou de fora, e nada impede você de adicionar bons exemplos nos comentários. 😉

“Endeavour” – Andre Matos
Uma lenda do metal brasileiro e ainda por cima graduado em música. Andre Matos abre a lista com a última faixa da edição regular de seu álbum de estreia, Time to Be Free. Co-assinada pelo tecladista Fabio Ribeiro, “Endeavour” começa como um belo trabalho de power metal veloz e aromas de Stratovarius. Já a partir dos 3:30, mais ou menos, ela toma uma direção levemente diferente, ainda rápida, para então fechar num belo encerramento que mistura toques sinfônicos, um solo inspirado e gritos arrepiantes do ex-vocalista do Angra e do Shaman.

“Farewell” – Apocalyptica
O violoncelo é um instrumento de som bastante emocionante – ele praticamente fala. Leva o público do conforto às lágrimas. Aproveitando-se das qualidades desse nobre instrumento, quatro amigos violoncelistas decidiram fundar em 1993 o Apocalyptica, até hoje um dos grupos mais notórios da Finlândia. Destaca-se por não conter vocalistas (exceto convidados ocasionais), baixistas ou guitarristas, somente violoncelistas e, a partir de 2003, um baterista. No último minuto desta faixa advinda do álbum homônimo do grupo, uma música que é melancólica do começo ao fim entra numa reta final arrepiante, comandada por uma melodia tocante e relativamente simples.

“Farewell” – Avantasia
Pura coincidência, mas outra faixa intitulada “Farewell” foi selecionada para esta lista. Marcando a única participação de Sharon den Adel (Within Temptation) no primeiro dos dois álbuns The Metal Opera, “Farewell” traz ainda Tobias Sammet (Edguy), líder, baixista e principal vocalista do Avantasia, projeto que deu vida a esta música; e Michael Kiske (ex-Helloween, Unisonic), um dos nomes-chave do power metal e presença constante nos álbuns do Avantasia. É ele o responsável por tornar o encerramento desta balada um momento arrepiante a partir dos 5:28, com dois versos cantados repetidamente em cruzamento com o refrão de Tobias.

“I Want You (She’s So Heavy)” – The Beatles
Não é bem uma música emocionante, mas está aqui como reconhecimento a uma das maiores bandas que já existiram. Tudo bem que esta faixa não é típica dos Beatles – é longa e de vocabulário enxuto. Mas é emblemática, considerada por alguns até como uma forma embrionária do heavy metal. O acorde tocado em arpejos que se repete por três minutos ao final vai ganhando corpo até o fim e faz deste encerramento um dos melhores da carreira deles, ainda que a música termine de forma estranhamento abrupta.

“The Ghost of Tom Joad” – Bruce Springsteen (com Tom Morello)
Pra não dizer que não há faixas ao vivo aqui, trago a primeira parceria de Bruce Springsteen com Tom Morello (Rage Against the Machine), uma combinação de muita química musical (e ideológica, posto que os dois são porta-vozes da esquerda estadunidense) que culminou na gravação do álbum mais recente do The Boss, High Hopes (resenhado neste blog). Neste que é basicamente um álbum de autorregravações, Tom participa de metade das faixas, incluindo esta. Foi lançada pela primeira vez como faixa-título e de abertura do décimo primeiro disco do guitarrista/vocalista de Nova Jérsei. O solo de encerramento que Tom fez em estúdio é praticamente o mesmo que fazia ao vivo: pessoal, marcante e cheio de efeitos, como pode ser conferido abaixo.

“White Shadows” – Coldplay
Fazer músicas arrepiantes é a especialidade do Coldplay, e não importa o quanto os chatos tr00 4life tentem diminuir a banda, o quarteto britânico é um nome que será sempre obrigatoriamente abordado por quem estuda a cultura ocidental da primeira década deste século. “Politik” quase entrou no lugar desta, mas como seu encerramento é mais longo e marca praticamente um segundo momento da música, optei por “White Shadows”, que traz a participação de Brian Eno nos sintetizadores e um encerramento mais “repentino”, que, aos 4:20, dá fim digníssimo para uma das melhores faixas do terceiro álbum do grupo, X&Y.

“Justice for Saint Mary” – Diablo Swing Orchestra
O Diablo Swing Orchestra é uma das mais gratas surpresas do metal neste início de século. Talvez os primeiros a se atreverem a misturar heavy metal com jazz e swing, o grupo vem conquistando os fãs do chamado avant-guarde metal. Nesta faixa, a última de seu mais recente disco Pandora’s Piñata, um belo instrumental com cordas e metais fecha este trabalho guiado por melodias e letras tensas com chave de ouro – ainda que eu, particularmente, teria deixado de fora os efeitos sonoros que chegam depois.

“The Ministry of Lost Souls” – Dream Theater
Uma bela história em forma de canção pede um belo trabalho musical – o que, no caso destas lendas do metal progressivo, não é pedir muito. Escrita por John Petrucci, a faixa nos transporta para a história de uma mulher que é salva do afogamento por um herói anônimo que acaba morrendo no resgate, o que a deixa cheia de remorsos até conseguir reencontrar seu salvador. O solo de guitarra a partir dos 12:44 é, sinceramente, um dos trabalhos musicais mais belos que já ouvi na vida.

“Hotel California” – Eagles
E falando em solos de encerramento na guitarra, destaco aqui um dos mais emblemáticos de todos os tempos: “Hotel California”, presença constante nas listas de melhores solos da história do rock. E não é para menos: este brilhante duelo de Don Felder com Joe Walsh, acompanhados no violão de doze cordas de Glenn Frey e no baixo de Randy Meisner, é um verdadeiro acontecimento do rock setentista.

“Let It Grow” – Eric Clapton
E vamos para mais um solo de guitarra utilizado para fechar músicas (lembrando que a lista está na ordem alfabética dos artistas). Aqui, o mestre do blues Eric Clapton dá uma aula de arpejos, ainda que alguns digam que a melodia principal do solo tenha sido chupada da introdução de “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin.

“Visions” – Haken
Talvez o carro chefe de uma nova leva de bandas de metal progressivo, o Haken vem arrancando elogios da crítica especializada e já conquistaram até os supracitados Dream Theater com suas letras melódicas e instrumentais impecáveis. A música mais longa da carreira do sexteto britânico é “Visions”, faixa de encerramento de seu segundo álbum (de mesmo nome). Após mais de vinte minutos do mais bem executado metal progressivo enfeitado com toques sinfônicos e eletrônicos, a banda dá lugar a um belo “epílogo musical” de cordas.

“The Saints” – Helloween
Fundadores do power metal e com três décadas de estrada, o Helloween não é bem uma banda acostumada a belas melodias: seu negócio é agressividade nos riffs, no ritmo e no vocal – apesar de já terem se acostumado a uma balada aqui e outra ali. Talvez por isso o breve encerramento de “The Saints” seja uma grata surpresa: ninguém esperaria que uma banda tão 666 resolvesse acabar uma música com um solo de cordas, sintetizado pelo tecladista contratado Matthias Ulmer.

“Beauty of the Beast” – Nightwish
Quase que outra música de nome parecidíssimo veio aqui no lugar desta: “Beauty and the Beast”, do disco de estreia Angels Fall First. Por que a opção por esta, então? Porque “Beauty of the Beast” é mais longa e mais bem produzida, o que valoriza o som do grupo que, nesta época, apresentava sua formação mais popular (Marco Hietala, presente aqui, ainda não tocava com a banda no primeiro disco). O poderoso encerramento combina todos os membros da banda: Jukka, Emppu e Marco aliados em um ritmo e um riff que lembra uma marcha militar; Tuomas e seu brilhante trabalho sinfônico ao fundo; e Tarja com belos “ohs” da vida.

“Mulher de Fases” – Raimundos
E pra ninguém dizer que a lista não tem representantes brasileiros que cantam em português, aí está um dos maiores nomes do nosso punk. “Poxa, mas tinha tanta música brasileira com encerramentos mais bacanas!” Sim, mas como deixei claro lá em cima, a lista não é uma Top 15. Enfim, aos fatos: na mesma linha de “The Saints”, temos aqui outra faixa pesada encerrada com cordas, e de maneira inesperada – cordas não são bem os instrumentos que você espera ouvir ao adquirir um álbum de punk. Mas elas estão aí, marcando presença na música inteira, e ganhando destaque ao final, dando um toque paradisíaco a um dos maiores hits do quarteto.

“The Eye of Ra” – Star One

O que aconteceria se Russell Allen (Symphony X, Adrenaline Mob), Damian Wilson (Threshold), Floor Jansesn (ex-After Forever, ReVamp, Nightwish) e Dan Swanö (Nightingale) cantassem na mesma música? Ou no mesmo álbum? O gênio holandês Arjen Anthony Lucasen já respondeu a esta pergunta por diversas vezes ao longo dos dois álbuns de seu projeto Star One, que faz músicas de “space metal” com letras inspiradas em filmes de ficção científica. A letra da faixa abaixo, “The Eye of Ra”, dialoga com o clássico Stargate, de 1994. E o encerramento fica por conta dos quatro gigantes cantando os mesmos versos, primeiro acompanhados pelos instrumentos, e lentamente deixados quase que a cappella.

Resenha: Music Inspired by the Life and Times of Scrooge – Tuomas Holopainen

Breve histórico: Tecladista, fundador, líder e principal compositor e letrista do sexteto de metal sinfônico Nightwish, Tuomas Holopainen alcançou fama e consagração invejáveis para alguém que ainda nem chegou aos 40. Finlandês de Kitee, alguns torcem o nariz para o seu jeito “Roberto Justus” de ser, demitindo vocalistas ao menor sinal de descontentamento, mas a verdade é que ele é um músico muito talentoso que presenteou o mundo com obras memoráveis.

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Fazer música inspirada pelo Tio Patinhas é, no mínimo, curioso. Um tema inusitado, por assim dizer. Baseado no livro citado no título do disco (traduzido como A Saga do Tio Patinhas no Brasil), o álbum marca a primeira empreitada solo de Tuomas (apesar de ele compor, escrever e produzir os trabalhos do Nightwish praticamente sozinho).

O disco não destoa muito do que o sexteto finlandês faz. Na verdade, é uma espécie de Nightwish sem heavy metal, apesar de que o ouvido acostumado à banda ficará em muitos momentos “esperando” a entrada dos riffs de Emppu Vuorinen, guitarrista da banda sinfônica. Mas não, aqui a orquestração segue “pura” do começo ao fim, com a louvável exceção de um solo de Mikko Iivanainen no single “A Lifetime of Adventure”. Vale notar que quem contribuiu no disco foi a Orquestra Filarmônica de Londres, a mesma que tocou nos últimos três trabalhos do Nightwish sob a batuta de Pip Williams, que também a comanda aqui.

O trabalho tem direito a faixas cinematográficas como a abertura “Glasgow 1877” e “Duel & Cloudscapes”; e trabalhos exóticos como “Into the West”, com um banjo que caiu como uma luva; e “Dreamtime”, com direito a um didgeridoo.

Entre os destaques, temos “Cold Heart of the Klondike”, na qual um velho amigo do Nightwish faz uma breve participação: Tony Kakko, vocalista, tecladista e principal compositor e letrista dos conterrâneos Sonata Arctica. E também o single “A Lifetime of Adventure”, que vem em duas versões: a regular, que recebeu um vídeo (veja abaixo), e a alternativa, um pouco mais orquestrada e sem o solo de guitarra.

Curioso notar também que o álbum tem muito mais passagens instrumentais do que cantadas. Algumas faixas nem sequer apresentam letra. O próprio Tio Patinhas, interpretado pelo escocês Alan Reid, aparece em apenas três faixas. É nitidamente uma obra focada na ambientação que a música pode proporcionar. Muitas faixas se alongam em repetições das mesmas frases musicais, que evoluem e ficam cada vez mais densas. Em outras palavras, um trabalho de música feito por quem entende de música. Tocante, instigante e agradabilíssimo.

Há outros convidados que precisam ser citados antes do fim da resenha: o colega de Nightwish Troy Donockley deixou sua marca com seus belos sopros na gaita de foles e nos low whistles, enquanto que Jon Burr usou sua gaita para fazer da segunda faixa uma das melhores do disco. A vocalista principal, Johanna Kurkela, interpretou Dora Cintilante e se mostrou uma excelente e talentosa cantora – uma grata surpresa para quem não é muito ligado na música da Finlândia, onde ela faz sucesso.

Nota = 9. Tuomas é um dos poucos músicos vivos que merecem o título de “gênio musical”. E neste álbum ele dá mais uma amostra disso. Um verdadeiro trabalho de música, com “m” maiúsculo. Algo que foi alcançado com a ajuda dos convidados, é claro, o que não tira o mérito do tecladista, absolutamente.

Abaixo, o vídeo do single “A Lifetime of Adventure”, com as impagáveis caras e bocas do renomado escritor e desenhista Don Rosa (autor do livro que inspirou o álbum):