Resenha: Dinosaur – B’z

Reprodução da capa do álbum (© Vermillion Records)

Depois de dois projetos solo colaborativos (Chubby Groove, do vocalista Koshi Inaba com o músico Stevie Salas; e Electric Island, Acoustic Sea, do guitarrista Tak Matsumoto com o multi-instrumentista Daniel Ho), a dupla japonesa de hard/pop rock B’z voltou ao estúdio para gravar seu vigésimo álbum, Dinosaur e encerrar um frutífero 2017.

O lançamento vem como sucessor do ótimo Epic Day (resenhado neste blog), que, por sua vez, já vinha após uma sequência de discos que eram apenas razoáveis. E o resultado é: voltamos aos tempos do razoável.

A abertura autointitulada e a sucessora “Champ” até nos deixam esperançosos de que algo grandioso virá, mas de “Still Alive” em diante temos poucos momentos marcantes: o riff da própria terceira faixa, o trabalho instrumental aparentemente inspirado pela carreira solo de Tak em “Queen of the Night”; e a gostosa combinação de piano elétrico e saxofone em “Yowai Otoko”.

De resto, temos faixas que, no máximo, atingem a média do grupo. É verdade que o B’z já cravou seu nome definitivamente na história do rock japonês e, por que não, na do rock mundial também, por meio de suas colaborações com nomes consagrados. Mais verdadeiro ainda é o sucesso comercial da banda, que há quase três décadas vê seus álbuns e singles sempre chegando ao topo da Oricon, principal parada japonesa. Mas isso não lhes permitirá o luxo de ter seus trabalhos sempre recebidos com análises “camaradas”.

O que incomoda no B’z de atualmente é saber que Koshi e Tak são músicos muito talentosos e, embora cinquentões, estão em plena forma, mas mesmo assim parecem incapazes de voltar a fazer álbuns do mesmo nível que aqueles lançados entre o final dos anos 1990 e a metade dos anos 2000. Aqueles eram discos com grandes riffs, solos inspirados e refrãos memoráveis. Mesmo Epic Day não passou de uma aproximação destes tempos áureos. Aliás, ele era merecedor muito maior de marcar o vigésimo lançamento da dupla.

Nota = 3/5

Abaixo, o vídeo de “Dinosaur”:

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Resenha: Psychotic Symphony – Sons of Apollo

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music/Sony)

Nesta vida, só temos três certezas: a morte, o especial Roberto Carlos de final de ano na Globo e que o baterista Mike Portnoy montará alguma banda (geralmente, um supergrupo). Em 2017, o nome da vez é Sons of Apollo, no qual ele se junta ao vocalista Jeff Scott Soto (Trans Siberian Orchestra, Talisman, ex-Journey, ex-Yngwie Malmsteen, ex-Axel Rudi Pell); o guitarrista Ron “Bumblefoot” Thal (Art of Anarchy, ex-Guns N’ Roses); o baixista Billy Sheehan (The Winery Dogs, Mr. Big, ex-David Lee Roth, B’z); e o tecladista Derek Sherinian (Black Country Communion, ex-Dream Theater, ex-Alice Cooper, ex-Platypus, ex-Yngwie Malmsteen, ex-Kiss).

Eles nasceram como uma promessa do metal progressivo, mas acabaram se revelando a melhor mistura de progressivo com hard desde os tempos áureos do Rush. Não chega a ser uma surpresa, vide o currículo dos membros. E se o álbum de estreia deles, Psychotic Symphony, não é uma joia histórica como algumas críticas vêm pintando, também está longe de ser chato ou repetitivo como as resenhas mais negativas acusam.

Cada um dos cinco integrantes está bem dosado ao longo do disco, sem que houvesse uma disputa irracional por destaque, especialmente por parte de Bumblefoot, Billy e Derek. O bom entrosamento entre eles é parcialmente explicado pelo fato de muitos já terem trabalhado juntos: Mike e Derek no Dream Theater; Mike, Derek e Billy no P.S.M.S.; Mike e Billy no The Winery Dogs; Mike e Bumblefoot no Metal Allegiance. E o legal é poder ouvir cada um deles em ação e reconhecer logo de cara seus timbres e estilos característicos.

Após ouvir a faixa de abertura, a épica “God of the Sun”, você pode até se perguntar onde está o tal do hard rock. Mas você já encontrará elementos do dito-cujo em “Coming Home”, que recebeu um vídeo. Ou em “Signs of the Time”, que por mais que abra com um riff à la Sepultura e tenha uma passagem instrumental longa e bem fritada, abraça fortemente o rock clássico em seu refrão. E ainda na radiofônica (conforme os próprios membros admitem) “Alive”, na qual temos um riff que parece extraído de alguma banda de rock alternativo do início do século. E por fim, cito “Divine Addiction”, que escancara a influência que Derek sofre do saudoso Jon Lord. Ela é precedida pelo breve prelúdio “Figaro’s Whore”, um “momento Eruption” do tecladista.

Mas sim, é um álbum essencialmente progressivo. Além da abertura supracitada, também fazem questão de deixar isso bem claro a épica “Labyrinth”, na qual Derek finalmente amplia o leque de possibilidades que seu instrumento lhe proporciona, e “Lost in Oblivion”, em que Jeff parece estar numa outra dimensão com seu vocal hard rock colocado em cima de um instrumental prog bem fritado. Mas, ei, é disso que se trata o supergrupo, não é mesmo?

A faixa de encerramento, segunda mais longa e batizada com o pomposo título “Opus Maximus”, dá um descanso a Jeff e põe os quatro instrumentistas para trabalhar ininterruptamente por 10 minutos e 30 segundos. A despeito do nome que lhe foi dado, não supera as outras duas épicas, o que não a torna ruim de forma alguma – nada neste disco é ruim. Aliás, o que é aquela linha de baixo aos 4:40? Billy parece incorporar plenamente a alma de Geddy Lee, que nem morto está (graças a Dio).

Psychotic Symphony é aquilo que você espera dele: uma demonstração de potência por parte de seu estrondoso time que resultou em nove ótimas peças. Mas não há nada aqui que o torne um candidato a “disco da década” ou algo assim. Talvez num próximo lançamento, já com uma comunidade sólida de fãs e com uma química ainda melhor, o quinteto ouse mais e fuja dos clichês dos gêneros – aqueles que motivaram as críticas negativas.

Nota = 4/5. Por que dar nota alta a um trabalho que não é uma joia, um clássico instantâneo? Porque eu, pelo menos, não vi nenhum membro prometendo isto. Vi cinco “tiozões” do rock/metal aceitando o desafio de se juntarem numa empreitada que exigiu foco e dedicação e, por esse exato motivo, não é chamado de “projeto” por eles, já que o termo normalmente é usado para iniciativas paralelas a algo maior. Sons of Apollo foi criado com a promessa de ser uma banda de tempo integral e isso abre a possibilidade de álbuns melhores chegando antes do que esperamos.

Abaixo, o vídeo de “Lost in Oblivion”:

Resenha: Cartélico Vol. 1: Fronteira, Trago e Querência – Cartel da Cevada

Reprodução da capa do álbum (© Cartel da Cevada)

Uma campanha de financiamento coletivo depois, e o Cartel da Cevada – mais um filho da usina de bandas de rock que o Rio Grande do Sul se revelou nas décadas recentes – deu à luz seu segundo disco de estúdio, Cartélico Vol. 1: Fronteira, Trago e Querência. Com a obra, conseguiram o que muitas bandas novas de rock nacional tentam, mas fracassam miseravelmente: fazer rock and roll em português sobre cerveja, churrasco e mulher sem ficar forçado.

Em forma de rock opera, o lançamento aborda a história de um gaúcho em sua jornada do interior do mais meridional dos estados brasileiros para a sua capital Porto Alegre. As aventuras rendem faixas sobre assuntos banais como churrasco (“O Assador”) e cerveja (“Enquanto a Ceva Não Gela”); poemas pornográficos com requintes de escatologia (“O Ginete do 4º Distrito”); impressões sobre a capital (“Porto Alegre Pelamor”) e até um bate-papo com um extraterrestre vem parar no meio da história (“Bacontato”).

Para dar voz aos personagens, além do próprio vocalista Igor Assunção, que lembra de longe o finado Chris Cornell, um grande time de convidados especiais foi chamado: Cristiano Wortmann (Hangar/ZeroDoze), Carlos Carneiro (Bidê ou Balde/Império da Lã), Jacques Maciel (Rosa Tattooada), Iuri Sanson (Hibria), entre outros.

No campo instrumental, o rendimento foi farto. “A Barbada” e “Minuano” abrem com riffs iommíticos. “Porto Alegre Pelamor” nos leva a uma deliciosa viagem instrumental tecladística com aromas de Deep Purple. “Vermelho na Prata” entrega um dos melhores solos do álbum numa base à la Megadeth. E será que o acordeão em “O Assador”, na abertura “Fronteira”, no encerramento “Timbuka e Querência” e nos interlúdios nos permitem atribuir-lhes o rótulo de folk rock? Tal instrumento, junto com as letras, deu o mais óbvio toque de regionalismo ao trabalho, que é no geral bem puxado para a cultura gaúcha.

E foi assim, com letras bem elaboradas e uma instrumentação de primeira, que o Cartel da Cevada construiu um disco de “música séria” com temas leves. É o Rio Grande do Sul mais uma vez dando uma aula de rock independente.

Nota = 5/5. Segundo seu site oficial, a banda queria “fazer um disco ao mesmo tempo inovador e audacioso no cenário musical gaúcho e brasileiro”. Conseguiram. O lançamento pode ser baixado por apenas R$ 15 no site, embora essa versão lamentavelmente omita a introdução e os três interlúdios, em que regionalismo aflora como nunca. Vamos apoiar o rock nacional de qualidade?

Abaixo, o vídeo da faixa “Enquanto a Ceva Não Gela”: