Resenha: Call of the Wild – Dezperadoz

Reprodução da capa do álbum (© Drakkar Entertainment)

Uma banda alemã que se veste como caubóis e toca como se o heavy metal tivesse nascido nos saloons do Velho Oeste? Ah, a globalização… O quarteto Dezperadoz conquistou fãs nas duas últimas décadas com sua música que parece um cruzamento de Johnny Cash com o Megadeth. E o quinto filho deste casamento acaba de nascer: Call of the Wild, um álbum inteiro sobre o lendário pistoleiro Billy the Kid.

A obra abre com a arrastada “W. H. Bonney” (presumidamente, William Henry Bonney, nome que Billy adotou nos últimos anos de sua breve vida), instrumental acústico que demora a dar início de fato ao disco. A partir daí, temos o Dezperadoz mais típico – ou quase. “Hell & Back”, uma das melhores, não tem absolutamente nada de velho oeste – ou southern rock, como alguns diriam. O mesmo se pode dizer sobre a faixa título.

Convenientemente, o single “Silver City Shuffle”, que recebeu um vídeo, ressuscita as cordas pistoleiras e recoloca o Dezperadoz lá em cima, onde a banda é mantida pela sucessora “600 Miles (The Escape)” e por outros bons momentos como “Bullets n’ Bones”, “Thirty Silver Dollars” e “Lincoln County War (The Regulators)”.

De diferentonas, temos outros dois instrumentais (o breve “Mexican Standoff” e o mais elaborado “Fandango”) e a balada bonjoviana “All the Long Way Home”, que chega como um balde de água fria bem no meio do disco: melancólica e lenta. O saldo geral, sem dúvidas, é positivo.

Contudo, os pontos altos do lançamento (que não são poucos, aliás) não o tornam o melhor momento dos alemães. Call of the Wild não conseguiu superar aquela maravilha de 2012 chamada Dead Man’s Hand – o álbum quintessencial da banda, na opinião deste que voz escreve. Ainda assim, é um bom trabalho, que recicla a relevância deste singular quarteto.

Nota = 4/5. Referenciando um dos maiores tópicos sobre Velho Oeste e ainda apostando numa fusão de heavy metal, hard rock, música de faroeste e country em geral, o Dezperadoz segue, paradoxalmente, colocando a Alemanha no mapa do chamado southern metal.

Abaixo, o vídeo de “Silver City Shuffle”:

Resenha: The Similitude of a Dream – The Neal Morse Band

Reprodução da capa do álbum (© Radiant Records)

Reprodução da capa do álbum (© Radiant Records)

Esta resenha é escrita com um mês de atraso e na mesma semana que um dos maiores nomes do rock progressivo nos deixa: Greg Lake (King Crimson; Emerson, Lake and Palmer). Mas a morte dele não me fez apenas lamentar que perdemos mais uma lenda. Fez-me pensar quanta coisa boa as pessoas deixam de curtir por quererem sempre uma cópia do passado.

Uma dessas coisas é The Similitude of a Dream, décimo nono álbum do vocalista, tecladista e guitarrista estadunidense Neal Morse, e o segundo lançado sob o nome The Neal Morse Band – um grupo que junta ele, o lendário baterista Mike Portnoy, o antigo parceiro e baixista Randy George e dois músicos relativamente desconhecidos, mas bastante rodados e habilidosos – o tecladista Bill Hubauer e o guitarrista Eric Gillette.

Este disco, conceitual e baseado no livro The Pilgrim’s Progress (John Bunyan), mostra uma evidente evolução em relação ao álbum anterior, The Grand Experiment. Por mais que o lançamento do ano passado já tenha sido feito sob um sistema de banda “de verdade”, e não apenas com os membros se adequando às composições de Neal, ele ainda soava como uma obra solo de Neal Morse.

Em The Similitude of a Dream, contudo, a formação soa muito mais entrosada, com uma forte química entre os membros, concedendo-a um ar mais de “Neal Morse e amigos” – sim, a marca Neal Morse ainda é onipresente, ou a banda não levaria seu nome. E depois que você assiste ao making of do álbum, tudo fica mais claro. Dá para ver com clareza a fluência musical que eles demonstraram em estúdio, a maneira como todos estavam bem à vontade sozinhos com seus instrumentos ou gravando em grupo.

O documentário retratou a concepção do álbum de forma tão honesta que até um desentendimento entre Portnoy e Morse foi tornado público – o baterista era contra fazer um disco duplo porque o Dream Theater, sua ex-banda, já havia lançado um trabalho conceitual duplo no começo do ano (The Astonishing) e ele temia comparações. Um medo um tanto tolo – são duas obras musicalmente bem diferentes, lançadas por grupos que não estão exatamente perdendo a virgindade nessa coisa de disco duplo.

Enfim, falemos da música do álbum em si: The Similitude of a Dream justifica sua calorosa recepção pela crítica. Não o colocaria no pedestal de lançamento do ano como alguns estão fazendo, mas é obviamente um discaço, e todo aquele entrosamento enaltecido parágrafos acima resultou em mais de 20 faixas, totalizando quase duas horas de rock.

Elas variam de breves peças leves e acústicas como a abertura “Long Day” e “The Dream” a trabalhos de média duração com riffs mais pesados e instrumentação mais complexa como “City of Destruction”, “Draw the Line” e “So Far Gone”. Outras faixas trazem seus charmes próprios: o solo de saxofone de Bruce Babad em “Shortcut for Salvation”; os toques country em “Freedom Song”; o solo de baixo em “I’m Runnin”… Sem falar nos instrumentais “Overture”, “The Slough” e “The Battle”.

Mesmo que você não se identifique com todas, certamente encontrará ao menos algum momento de prazer auditivo neste disco. E a banda faz isso tudo sem perder foco e coesão. Você consegue visualizá-los o tempo todo da maneira que foram retratados no making of: livres, leves e soltos.

Graças a Dio, Mike Portnoy foi vencido pelos outros quatro membros e o álbum rendeu os dois discos que sempre foi destinado a render. E como eu não resenhei The Grand Experiment, aproveito para registrar comentários sobre os dois membros novos da banda:

O tecladista Bill Hubauer acaba um pouco ofuscado por Neal Morse, cujo instrumento principal é o próprio teclado, embora nos clipes deste álbum ela seja mais visto empunhando guitarras ou violões. Mas o trabalho apresentado até aqui dirime qualquer dúvida quanto ao seu talento. Soube criar harmonias e melodias que se encaixaram bem em todas as canções.

O jovem guitarrista Eric Gillette teve relativamente mais destaque. No começo do ano passado, antes mesmo do The Grand Experiment, Portnoy comentou o quanto Eric Gillette se parecia com seu “antigo parceiro de crime” – era uma óbvia referência a John Petrucci, seu ex-colega de Dream Theater. A referência se revelou precisa. A influência que o barbudo exerce sobre Eric é grande – às vezes, grande demais. Em alguns momentos o que se houve é uma tentativa de imitar os dedilhados de Petrucci. O solo de “Breath of Angels”, por exemplo, parece uma junção dos solos de “The Best of Times” e “The Ministry of Lost Souls”, ambas do Dream Theater. Por outro lado, recai sobre ele grande parte da responsabilidade da qualidade do disco: especialmente por executar bem todos os riffs e por saber casar o som de sua guitarra com os teclados, que sempre desempenham papel fundamental na música de Neal Morse.

Nota = 5/5. Um exemplo de rock progressivo bem feito, um exemplo de trabalho duplo e conceitual. Uma aula de instrumentação e composição. Podemos até discutir se este é o “álbum progressivo do ano”. Mas não podemos discutir sua beleza, nem sua qualidade.

Abaixo, o vídeo de “The Man in the Iron Cage”:

Resenha: This House Is Not for Sale – Bon Jovi

Reprodução da capa do álbum (© Island Records)

Reprodução da capa do álbum (© Island Records)

Nem a crítica nem os fãs se entendem quando o assunto é Bon Jovi. O quinteto já deu à luz 13 álbuns de estúdio (incluindo este) e você encontrará diferentes grupos defendendo que cada um deles foi o último grande lançamento do quinteto. Alguns diriam até que a banda nunca fez nada que preste!

O que é uma tremenda injustiça, claro. Não reconhecer a importância e a qualidade que eles já tiveram é de uma desonestidade intelectual quase criminosa. Mais desonesto do que isso, só a recusa em reconhecer o quão ruim anda o grupo.

This House Is Not for Sale, décimo terceiro álbum de estúdio dos cinquentões/sessentões, infelizmente confirma o que eu digo. Sem sombra de dúvidas, é um trabalho melhor que os fraquinhos What About Now e Burning Bridges (resenhados neste blog aqui e aqui). Mas ainda deve muito para o último bom disco da banda, The Circle (pronto, já descobrimos a qual facção de fãs do Bon Jovi eu pertenço).

Das pouquíssimas faixas que valem a pena nesta obra, destaco a faixa-título, inspirada pela fotografia que acabou virando a capa do disco; “Labor of Love”, onde Jon Bon Jovi parece estar incorporado pelo conterrâneo Bruce Springsteen; “The Devil’s in the Temple”, uma continuação dos recados à indústria musical que já eram dados em “Burning Bridges”; e “God Bless This Mess”, talvez a letra mais relacionável do álbum.

Aliás, o único legado do Bon Jovi que foi respeitado em This House Is Not For Sale é a diversidade de letras, com as quais todos podem se identificar. Mas confesso envergonhado que este parágrafo é na verdade uma tentativa desesperada de achar alguma coisa boa no álbum, apenas por ser fã da banda.

Quem tiver estômago pode correr atrás de diversas edições especiais, o que pode render até sete faixas bônus – todas igualmente ruins, com exceção da marcante “We Don’t Run”, que já havia sido lançada anteriormente.

Há duas mudanças importantes na formação do grupo neste álbum: pela primeira vez em mais de duas décadas de parceria, o baixista Hugh McDonald é citado como membro oficial. Além disso, e mais notoriamente, temos a entrada definitiva de Phil X no lugar de Richie Sambora. Que diferença isso fez com relação a What About Now? Quase nenhuma. Explico a seguir.

Em primeiro lugar, o verdadeiro guitarrista aqui, segundo declaração do baterista Tico Torres, é o produtor John Shanks, que criou e executou a maior parte dos trabalhos nas seis cordas. Phil X, por incrível que pareça, ficou relegado a um papel de coadjuvante. O outro motivo pelo qual fica difícil comparar ambos os guitarristas é, talvez, culpa de John também. O som do Bon Jovi foi tão pasteurizado nos últimos anos que qualquer guitarrista que posta vídeos no YouTube tocando por cima da música dos outros em seu quarto poderia trabalhar nestes últimos álbuns. Em outras palavras, a produção e os arranjos não deixam muito espaço para alguém mostrar sua cara.

Por essas e por outras, não foi com This House Is Not for Sale que a banda fez jus ao seu passado. E nem adianta vir com os números mágicos de vendas de cópias e entradas para shows para tentar me contradizer. A não ser que seu parâmetro de avaliação artística seja a histeria adolescente demonstrada pelo público nos shows dos caras.

Nota = 2/5. Quando eu analisei Burning Bridges, disse que o álbum nos deixava receosos sobre o futuro do Bon Jovi. Infelizmente, o medo se tornou realidade e eles continuam apenas uma sombra criativa do que um dia já foram. Mas eu sou Brasileiro e não desisto nunca: um dia, o Bon Jovi há de voltar.

Abaixo, o vídeo de “This House Is Not for Sale”: