Resenha: Cartélico Vol. 1: Fronteira, Trago e Querência – Cartel da Cevada

Reprodução da capa do álbum (© Cartel da Cevada)

Uma campanha de financiamento coletivo depois, e o Cartel da Cevada – mais um filho da usina de bandas de rock que o Rio Grande do Sul se revelou nas décadas recentes – deu à luz seu segundo disco de estúdio, Cartélico Vol. 1: Fronteira, Trago e Querência. Com a obra, conseguiram o que muitas bandas novas de rock nacional tentam, mas fracassam miseravelmente: fazer rock and roll em português sobre cerveja, churrasco e mulher sem ficar forçado.

Em forma de rock opera, o lançamento aborda a história de um gaúcho em sua jornada do interior do mais meridional dos estados brasileiros para a sua capital Porto Alegre. As aventuras rendem faixas sobre assuntos banais como churrasco (“O Assador”) e cerveja (“Enquanto a Ceva Não Gela”); poemas pornográficos com requintes de escatologia (“O Ginete do 4º Distrito”); impressões sobre a capital (“Porto Alegre Pelamor”) e até um bate-papo com um extraterrestre vem parar no meio da história (“Bacontato”).

Para dar voz aos personagens, além do próprio vocalista Igor Assunção, que lembra de longe o finado Chris Cornell, um grande time de convidados especiais foi chamado: Cristiano Wortmann (Hangar/ZeroDoze), Carlos Carneiro (Bidê ou Balde/Império da Lã), Jacques Maciel (Rosa Tattooada), Iuri Sanson (Hibria), entre outros.

No campo instrumental, o rendimento foi farto. “A Barbada” e “Minuano” abrem com riffs iommíticos. “Porto Alegre Pelamor” nos leva a uma deliciosa viagem instrumental tecladística com aromas de Deep Purple. “Vermelho na Prata” entrega um dos melhores solos do álbum numa base à la Megadeth. E será que o acordeão em “O Assador”, na abertura “Fronteira”, no encerramento “Timbuka e Querência” e nos interlúdios nos permitem atribuir-lhes o rótulo de folk rock? Tal instrumento, junto com as letras, deu o mais óbvio toque de regionalismo ao trabalho, que é no geral bem puxado para a cultura gaúcha.

E foi assim, com letras bem elaboradas e uma instrumentação de primeira, que o Cartel da Cevada construiu um disco de “música séria” com temas leves. É o Rio Grande do Sul mais uma vez dando uma aula de rock independente.

Nota = 5/5. Segundo seu site oficial, a banda queria “fazer um disco ao mesmo tempo inovador e audacioso no cenário musical gaúcho e brasileiro”. Conseguiram. O lançamento pode ser baixado por apenas R$ 15 no site, embora essa versão lamentavelmente omita a introdução e os três interlúdios, em que regionalismo aflora como nunca. Vamos apoiar o rock nacional de qualidade?

Abaixo, o vídeo da faixa “Enquanto a Ceva Não Gela”:

Resenha: The Illuminated Sky – Prospekt

Reprodução da capa do álbum (© Laser’s Edge)

Com duas importantes mudanças na formação (saem o vocalista Matt Wichester e o tecladista Richard Marshall e entram em seus lugares, respectivamente, Rox Capriotti e Michael Morris), o quinteto inglês de metal progressivo Prospekt retorna com seu segundo álbum após figurar em listas de melhores lançamentos prog do ano de 2013 com sua estreia The Colourless Sunrise.

The Illuminated Sky é notavelmente superior a seu predecessor, que já não era ruim. Nota-se uma produção mais madura, uma química mais desenvolvida, uma música mais intrincada, poderosa e direta. Os rapazes de certa forma reproduziram a grandiosidade, complexidade e melodia de outras bandas da nova geração do gênero como Haken e Circus Maximus.

Na lista de faixas, vemos uma predileção por trabalhos relativamente longos. Metade deles passa dos 6 minutos. Dentre os outras cinco, temos uma introdução e um interlúdio, dos quais normalmente são se espera delongas mesmo. E não pense que as músicas longas foram inchadas com passagens calmas: é tudo 80% pauleira.

Tal característica se repete em basicamente todo o disco, de forma que não faz sentido falar de cada uma das dez faixas. O que não significa que não tenham seus charmes individuais: a introdução neoclássica em “Cosmic Emissary”, o vocal em “Akaibara” que parece incorporar Michael Kiske, o inspirado solo do calejado Greg Howe em “Alien Makers of Discord” e até mesmo a tímida participação de Marc Hudson (do DragonForce) em “Where Masters Fall”.

Faz falta aquela vozinha enjoada de Matt, mas Rox é dono de ótima técnica que permite à banda alçar voos mais ousados. O mesmo se pode dizer de Michael, que elevou a ala das teclas da banda a um novo patamar por meio de arranjos e intervenções bem pensadas e dosadas.

Nota = 5/5. É obrigação de qualquer banda superar seu lançamento de estreia no segundo álbum, mas o Prospekt foi além e definiu para si mesmo uma referência bem mais elevada para os trabalhos futuros. Se eles darão conta do recado, o tempo dirá, mas por enquanto, já fizeram bonito.

Abaixo, a faixa “In the Shadows of the Earth”:

Resenha: Phases – Next to None

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

A quantidade e a importância das mudanças pelas quais uma pessoa normalmente passa ao longo de dois anos dentro da adolescência são gigantemente superiores àquelas que vivemos no mesmo período na idade adulta. O que diabos isto tem a ver com o texto?

Bom, falamos aqui de uma banda de jovens: o Next to None, cujo baterista é Max Portnoy (sim, filho do lendário Mike Portnoy). Mas é injusto reduzir a banda a isto, dada a qualidade dos demais integrantes. O parágrafo introdutório? Uma rasa filosofada para comentar a “guinada” que este álbum traz.

Se a estreia do quarteto, A Light in the Dark (resenhado neste blog), foi marcada por um metal progressivo “típico” e muito bem executado para um grupo de garotos, o sucessor Phases adota um tom bem mais puxado para o metalcore.

A abertura “Answer Me”, precedida pela introdução “13”, deixa clara essa guinada, embora ainda mantenha elementos progressivos. O single “Apple”, por sua vez, chocou alguns fãs – para o bem e para o mal. Aqui sim, temos um metalcore bem típico. Ao menos ela impõe mais respeito. Assim como “Beg”, uma das mais pesadas e com vocal mais convincente.

O progressivo finalmente chega numa sequência de 20 minutos divididos quase igualitariamente entre “Alone” e “Kek”. E chega muito bem! No caso da primeira, temos uma ótima peça do gênero, com tudo que pede o manual: um começo sereno, um peso que vai sendo construído aos poucos, variações de andamento e muitos solos. O metalcore ainda está presente na forma de guturais e acordes staccatos, mas somente como coadjuvante. A segunda é menos ortodoxa e não impressiona tanto, mas mantém a peteca lá no alto.

De “Clarity” a “Mr. Mime”, passando por “Pause”, temos uma espécie de “desaquecimento” do progressivo de volta para o metalcore, com as faixas lentamente encurtando de duração e ficando com aquela cara mais “moderninha”. Vem então o breve interlúdio instrumental “Isolation” para emendar em mais uma boa peça progressiva, “Denial”.

E chegamos ao fim nos quase 20 minutos de “The Wanderer”. É admirável o esforço dos meninos em preenchê-los de forma entusiasmante, mas a verdade é que a faixa é uma espécie de “Empire of the Clouds”, ou seja, ou seja, foi esticada para parecer superlonga. Uma boa produção teria aparado-a um pouco para caber talvez em 15 minutos. Falando em produção, o pai de Max desocupou esta função no disco e a própria banda a assumiu, o que ajuda a explicar o rejuvenescimento do som.

Posso comentar aqui sobre cada um dos membros individualmente, a começar por Max. Ao mesmo tempo em que sua habilidade mostra clara evolução e ele dá mais sinais de ter herdado a destreza do pai, percebemos uma configuração nas caixas que se aproxima daquilo que Lars Ulrich, do Metallica, fez em St. Anger e que até hoje é motivo de debate. Prevejo debates aqui também, mas em nível bem menor, proporcional à relevância da banda.

Thomas Cuce impôs muito mais respeito com seus guturais do que com sua voz limpa. Resta saber se conseguirá reproduzi-los decentemente ao vivo. E já que ele comanda satisfatoriamente os teclados, não seria o caso de chamar um vocalista para cada um focar em uma função?

E o estreante Derrick Schneider, que entra no lugar de Ryland Holland por recomendação de ninguém menos que Ron “Bumblefoot” Thal (que fez uma participação em A Light in the Dark e hoje integra o supergrupo Sons of Apollo com Mike Portnoy)? Ele sem dúvida é um dos responsáveis diretos pela mudança no direcionamento da banda, sendo sua guitarra a nave-mãe desse novo som que a banda apresenta, e ele ficou totalmente à altura da nova responsabilidade.

Nota = 4/5. Apostar no metalcore se mostrará uma faca de dois gumes: por um lado, afastará headbangers mais conservadores, que desprezam a vertente como coisa de adolescente. Por outro lado, faz a banda surfar na onda do gênero, que tem se mostrado muito popular nos Estados Unidos, criando uma possibilidade para aproximar esse público do progressivo. De qualquer forma, do ponto de vista estritamente musical, o álbum é quase impecável. E o bom de ser uma banda tão jovem é que ainda tem muito, mas muito espaço para evoluir.

Abaixo, o lyric video de “Apple”: