Resenha: Virus – Haken

capa do álbum 'Virus', de Haken. Trata-se do desenho de um vírus preto com o nome da banda e o nome do álbum centralizados e na parte de cima, ante um fundo amarelo mostarda

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music; arte por Blacklake)

Nossos cérebros mal haviam se recuperado do sacolejo a que foram submetidos em 2018 com Vector (clique aqui para conferir minha resenha a respeito), e o sexteto inglês de metal progressivo Haken já reaparece com sua continuação: Virus, que teria sido lançada até antes, não fosse uma série de adiamentos provavelmente causados pelas limitações que a pandemia de COVID-19 impôs ao mundo.

E falando na doença, antes de iniciar uma campanha no Twitter para “cancelar” a banda por usar um título desse num momento em que todos os países do mundo (exceto o Brasil, aparentemente) lutam justamente contra um vírus, é interessante saber que, não só estava a obra praticamente pronta antes da pandemia, mas ela versa sobre os mesmos temas sanitários de seu antecessor, tornando seu nome algo convincentemente inocente.

A ideia da “dobradinha” é desenvolver o conceito de “Cockroach King”, um dos destaques do clássico terceiro disco deles The Mountain (clique aqui para conferir minha resenha a respeito). Assim, Virus é uma evolução bem natural do seu antecessor, tanto nas letras quanto no instrumental. As faixas variam em termos de duração, mas a maioria é bem pesada e crua – tão crua que relegou o tecladista Diego Tejeida a um pano de fundo que não lhe é costumaz em boa parte do tempo.

As comparações com Vector serão inevitáveis, especialmente porque é a primeira vez que o sexteto realiza dois lançamentos claramente conectados um ao outro.

As quatro primeiras faixas… não tenho nem o que falar, só sentir. “Prosthetic” é uma paulada do começo ao fim, com direito a passagens aos 3:45 que remetem a “The Count of Tuscany”, do Dream Theater. As três seguintes (“Invasion”, “Carousel”, “The Strain”) mantêm a peteca lá no alto, incursionando em facetas mais pop e atmosféricas vez ou outra (por exemplo, o refrão de “Carousel”).

“Canary Yellow” é um trabalho bem sui generis, abandonando o peso em favor da melodia e da atmosfera envolvente. É a que recebeu o vídeo mais interessante, diga-se de passagem.

A música épica desta vez, “Messiah Complex”, foi dividida em cinco canções menores (“covardes!”, gritei mentalmente ao perceber que tinham “fatiado” a peça). Cada uma remete a um momento musical obviamente diferente dos demais.

A primeira parte (“Ivory Tower”) tem um apelo relativamente mais pop, com vocais bem melódicos. A sua sucessora, porém (“A Glutton for Punishment”), inverte o jogo e vem com as pauladas mais fortes do disco inteiro. A sequência “Marigold” equilibra esses dois universos. “The Sect” recupera linhas e riffs de “Cockroach King” e é o momento em que Diego finalmente ganha um espaço mais digno – ele conseguiu até me enganar com um solo de teclado cujo timbre é tão fiel a um saxofone que eu tive de procurar quem era o suposto instrumentista convidado, até descobrir que era o próprio Diego.

E tudo se encerra na subfaixa principal, “Ectobius Rex”. Com praticamente cinco minutos de duração, ela parece ser o lugar aonde as quatro outras queriam chegar, recuperando, de novo, temas de “Cockroach King” e o riff aparentemente inspirado em “The Count of Tuscany” que ouvimos em “Prosthetic”.

Sobre as inevitáveis comparações com Vector, só posso dizer que este trabalho é, sim, melhor que seu “irmão mais velho”, mas por uma margem bem apertada, e somente porque é mais diverso e mais longo.

E falando em duração, se o provável único defeito do quinto disco deles era ser curto demais, ele meio que acaba de perdê-lo agora que o sexto foi dado à luz; juntas, as obras estabelecem um diálogo musical sem ruídos na comunicação e somam mais de uma hora e meia do melhor do metal progressivo contemporâneo, feito pelo nome que caminha para assumir o lugar do Dream Theater como rei do gênero – se bobear, antes mesmo que o quinteto estadunidense encerre suas atividades.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo de “Prosthetic”:

Resenha: The Cocoon – Richard Henshall

Reprodução da capa do álbum (© Hen Music)

Foram quatro anos de criação até que o guitarrista e tecladista inglês Richard Henshall, famoso por suas contribuições no Haken, To Mera, Nova Collective e Mike Portnoy’s The Shattered Fortress, deu à luz seu primeiro álbum solo, The Cocoon. Para completar a formação principal, ele conta com seus colegas de banda Conner Green (Haken) no baixo e Matthew Lynch (Nova Collective, Cynic) na bateria.

Este trio acima de qualquer suspeita ajuda o músico a fazer uma estreia sólida e segura, mesmo para quem já havia provado noutras ocasiões que merecia lugar de destaque na nova geração de guitarristas do heavy metal.

É verdade que menos de 50 minutos de música distribuídos em apenas sete faixas parecem um rendimento pífio para quatro anos de maturação. Mas podemos dizer que ser curto é o único defeito relevante do excelente The Cocoon.

A abertura “Pupa” é um ótimo cartão de visitas por resumir em dois minutos e meio a proposta musical do disco: instrumental técnico com direito a passagens serenas. Exceto que o álbum não é todo instrumental, e quem garante isso é o próprio Richard, que demonstra ser um vocalista à altura de sua própria música – e também dono de um timbre curiosamente parecido com o de seu colega de Haken, Ross Jennings, mas notadamente mais baixo.

Falando no sexteto de metal progressivo, não dá para não perceber uns toques de Haken no som de Richard. Pudera, ele é o guitarrista, segundo tecladista e, por muito tempo, principal compositor do grupo. A primeira música de fato, a faixa título, reafirma este parágrafo e o anterior por dez minutos – a mais longa da obra. Dentre seus destaques, temos o solo de saxofone de Adam Carrillo.

“Silken Chains”, com a participação do multi-instrumentista David Maxim Micic, valoriza mais o lado leve do guitarrista. É altamente técnica, mas com pouca distorção. “Limbo” leva isto para outro nível e se revela um trabalho com fortes toques de música ambiente – tanto que chega a ser monótona em comparação às suas companheiras.

“Lunar Room”, com Marco Sfogli, Ben Levin, Jessica Kion (os dois últimos do Bent Knee) e “Twisted Shadows” (com Jordan Rudess (Dream Theater) e o já mencionado Ross) repetem “Cocoon” e são os momentos mais técnicos – e melhores – do álbum.

Outro membro do Bent Knee, o violinista Chris Baum, deixa sua marca no disco, agora no encerramento “Afterglow”, que também equilibra bem os lados leve e pesado do trabalho.

A curta duração de The Cocoon faz com que ele pareça ter sido pouco para tudo que o músico tinha a oferecer. O que ao menos deixa espaço de sobra para um sucessor igualmente bom, quiçá até melhor. É, Richard… Você se deu uma missão tão difícil quanto a de outro grande guitarrista inglês da nova leva do metal progressivo, Lee Luland, do Prospekt (veja aqui minha resenha a respeito de sua estreia solo, realizada há pouco tempo) – superar um produto que já é de altíssimo nível.

Nota = 5/5

Abaixo, o playthrough de “Twisted Shadows”:

Resenha: Vector – Haken

capa do álbum 'Vector', de Haken. Trata-se de um desenho no estilo do teste de Rorschach, com o nome da banda e o nome do álbum centralizados e na parte de cima, ante um fundo rosa escuro

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

Eu já resenhei muitos discos que não tinham nenhuma música ruim. Mas poucos foram os que não tinham nenhuma que não fosse ao menos ótima. Também foram poucos os que fizeram minhas pernas se agitarem freneticamente do começo ao fim e logo na primeira audição.

São sinais de que Vector, quinto lançamento de estúdio do sexteto inglês de metal progressivo Haken, é um item muito especial do catálogo nada fraco do grupo. É, ao menos, e sem dúvidas, o trabalho mais pesado deles.

Conforme prometido pelos membros, o disco é centrado em riffs. Exceto pela misteriosa introdução eletrônica “Clear” e por boa parte da charmosa “Host”, o álbum é uma pancadaria do começo ao fim que leva qualquer fã do progressivo a um orgasmo auditivo instantâneo.

Um dos fatores que podem ter contribuído para esse direcionamento musical foi a turnê The Shattered Fortress, realizada em 2017 pelo ex-baterista do quinteto estadunidense de metal progressivo Dream Theater, Mike Portnoy, em parceria com os integrantes do Haken (exceto, obviamente, o baterista Raymond Hearne, embora ele tenha feito algumas participações especiais esporádicas) e o guitarrista do The Neal Morse Band (cuja formação atual inclui Mike), Eric Gillette.

Os shows traziam para o palco as cinco músicas do Dream Theater que compunham a Twelve-Step Suite, uma série de canções sobre a batalha de Mike contra o alcoolismo. Elas reúnem alguns dos riffs mais matadores e solos mais memoráveis já criados por essa lenda do progressivo. Vector tem muito desse peso, mesmo que ao estilo mais melódico desses rapazes.

As guitarras de Richard Henshall e Charlie Griffiths estão no auge de sua sintonia com a ala rítmica da banda (a saber, a bateria de Raymond e o baixo de Conner Green). Incorporando elementos de metalcore e djent, o sexteto faz a base de todas as faixas acontecer em esplêndida sintonia.

No que diz respeito às melodias, temos como destaque, pela segunda vez consecutiva, o tecladista Diego Tejeida. Se em Affinity (antecessor de Vector, resenhado neste blog) ele foi o grande responsável por prover o jeitão eletrônico que o conceito do disco pedia, aqui ele mostra uma grande evolução com relação aos álbuns anteriores, ganhando ainda mais protagonismo e arriscando-se em solos jordanrudessianos, algo incomum para ele – e mais uma evidência da provável influência da turnê com Mike Portnoy.

Já o vocalista Ross Jennings sua para fazer jus aos colegas. Mas, pela quinta vez consecutiva, ele mostrou que sua voz doce e despretensiosa vive um casamento feliz com o som pesado e complexo do grupo.

Chamar Vector de “melhor álbum do Haken” é uma afirmação precipitada. Cada lançamento deles, ainda que retendo as características básicas da banda, é um pequeno universo particular de climas e atmosferas. Este trabalho tem uma pegada bem diferente do orgânico The Mountain (resenhado neste blog) e do oitentista Affinity, portanto, comparações exigem cautela e um certo tempo de absorção que uma resenha não pode esperar.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo de “Puzzle Box”: