Resenha: Africa Speaks – Santana

Reprodução da capa do álbum (© Concord Records)

Sem dar sinais de cansaço ou de esgotamento criativo, o guitarrista mexicano-estadunidense Carlos Santana (uma lenda viva e incontestável em seu instrumento) coloca mais um álbum – seu 25º! – no mercado.

Se no último disco (o excelente Santana IV, resenhado neste blog) o músico quis reunir uma formação clássica para revisitar aquele som inigualável do passado, aqui Santana tinha um objetivo bem mais concreto: homenagear a África.

E assim nasceu Africa Speaks, cuja criação foi extremamente focada, com um total de 49 canções gravadas em apenas dez dias. Somente 13 sobreviveram para a lista de faixas final, sendo duas bônus exclusivas da Target (“Mientras Tanto” e “Dios Bendiga Tu Interior”). Muitas delas foram tocadas em apenas uma tomada, reforçando o aspecto imediatista do lançamento.

Como um álbum inspirado no continente-berço da humanidade não poderia deixar de ser, esta obra é bastante rítmica, dando grande importância à bateria, à percussão e ao baixo. Ao ponto que a guitarra de Carlos Santana perde um pouco o protagonismo e fica mais diluída no ensemble cast. Em contrapartida, o baixo (tocado aqui por Benny Rietveld) ganha tamanho papel de liderança que podemos imaginar Flea, do Red Hot Chili Peppers, comandando as quatro cordas.

E isso não chega a ser um problema porque, como sempre acontece, o guitarrista se cerca de vários outros músicos da mais elevada estirpe para entregar um trabalho estupendo de rock.

A abertura autointitulada é uma verdadeira declaração – musical e textual – que vem com a não ortodoxa duração de quase cinco minutos. Mas de “Batonga” em diante, vivenciamos uma jornada sonora mais coesa – daquelas que só Santana consegue criar.

Temos músicas bem dançantes, com um ritmo forte que invade sua cabeça. Falo evidentemente de canções como “Breaking Down the Door” (coescrita por Manu Chao) e “Los Invisibles”. Algumas destas eu classificaria até como “sensuais” – e só quem ouve muito esta banda pode entender como uma batida pode ser sensual.

Outras faixas que merecem destaque são “Yo Me Lo Merezco”, que guarda uma interessante semelhança com “Black”, do Pearl Jam, em termos de progressão de acordes e mesmo linha vocal; a rica “Blue Skies”, que equilibra muito bem todos os seus participantes em pouco mais de nove minutos de música com “M” maiúsculo; e “Bambele”, onde o órgão e o piano dão espaço para um simpático piano elétrico.

Como disse anteriormente, o álbum é guiado pela ala rítmica, especialmente pelo baixo. Palmas para Benny, que carregou a produção nas costas. Palmas também para a esposa de Carlos, Cindy, que beirando os 60 anos encarou o desafio de manejar as baquetas no disco – justamente um em que a percussão é a alma do negócio.

E destaque, é claro, para a vocalista espanhola Buika, que assume praticamente sozinha a missão de dar voz a peças que homenageiam o continente. Seu timbre penetrante não apenas dialoga com os cantos africanos, mas também é bastante adequado para entregar a mensagem das músicas.

Nota = 5/5.

Abaixo, o clipe de “Breaking Down the Door”:

Resenha: RASGACABEZA – Francisco, el Hombre

reprodução da capa do álbum 'rasgacabeza', do francisco el hombre. Trata-se de uma figura humanoide com o busto em chamas ante um céu encoberto, com o nome do disco altamente estilizado acima e ao centro e o nome da banda em fonte convencional ao centro, embaixo

Reprodução da capa do álbum (© Francisco, el Hombre)

Após cravar seu nome no mapa da música brasileira contemporânea com SOLTASBRUXA (2016, resenhado neste blog), o quinteto paulista Francisco, el Hombre voltou ao estúdio, deduzo, cheio de aflições e mensagens que gostaria de colocar para fora artisticamente – em grande parte, novamente deduzo, motivado pela mudança nos paradigmas políticos nacionais – digamos que a simpática faixa de protesto “Bolso Nada”, que figurou no álbum supracitado, pouco adiantou para evitar o desastre das eleições presidenciais de 2018.

Como se isso não bastasse, a banda tinha ainda um desejo de mudar seu som – e o finado produtor Carlos Eduardo Miranda deixou de herança para eles justamente um pedido para que ousassem sonoramente – ousadia, alias, é algo que não lhe faltou ao dizer que o lançamento anterior pecava pela falta de… ousadia.

Assim nasceu RASGACABEZA, um disco em ebulição, fortemente influenciado pela música eletrônica e pelo carnaval, com ritmos cativantes, letras sóbrias, guitarras baianas e um fio de condução bastante perceptível. É quase como se o plano fosse montar uma setlist de um trio elétrico (o que bate com a época em que o trabalho foi lançado), e isso se percebe já desde a abertura “CHAMA ADRENALINA :: gasolina”. Só o título da mesma já nos dá fortes indícios da energia a ser entregue.

Mas há espaço para faixas mais orgânicas como “PARAFUSO SOLTO :: ponto morto”, talvez a que mais dialogue com a fase mais latina da banda, e a belíssima balada “O TEMPO É SUA MORADA :: celebrar”, que aborda o Dia dos Mortos com uma dose de emoção equivalente a “Triste, Louca ou Má”.

A boa notícia é que a guinada sonora empreendida pelo grupo não comprometeu a qualidade do seu som, embora seja, com efeito, uma ruptura considerável. É que eles já atingiram um status artístico em que praticamente qualquer direção é um investimento de baixo risco e alto retorno.

De qualquer forma, fica até difícil acreditar que o disco – cujo único grande defeito é ser curto demais – foi preparado em vários lugares diferentes antes de ser gravado de fato, tamanha a coesão. É como se toda a gravação tivesse sido realizada numa tomada única. O que só nos faz lembrar que o Francisco, el Hombre foi feito para o calor dos palcos, e não para o ar-condicionado dos estúdios.

Nota = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “CHAMA ADRENALINA :: gasolina”:

Resenha: Residente – Residente

Reprodução da capa do álbum (© Fusion Media Group)

Se com o Calle 13 o cantor porto-riquenho Residente nos leva a viagens sonoras pela América Latina com seu meio-irmão Visitante, em sua aventura solo ele decidiu atravessar os oceanos e explorar sons do resto do mundo. Em 13 faixas, o músico nascido como René Perez Joglar vai à Sibéria, à África, à China, ao Cáucaso e a Paris, muitas vezes misturando elementos de outros lugares.

A escolha das etapas desta longa viagem não foi aleatória: Residente realizou um teste de DNA para descobrir as origens de seu código genético e surpreendeu-se ao constatar os locais de suas raízes. Motivado, viajou para todos esses lugares e gravou com músicos locais, desconhecidos em sua maioria.

O resultado da “salada” dialoga diretamente com o clipe de “Somos Anormales” (veja abaixo), primeiro single do trabalho, e cuja mensagem é clara: somos diferentes, mas viemos do mesmo lugar. Os meios utilizados para propagar tal recado podem chocar tanto os mais conservadores (vide o supracitado vídeo) quanto os progressistas de sofá que “estudam” sociologia por meio de posts no Facebook e provavelmente reagiriam com um “ui, apropriassaum cuturau”, mas o que temos é um discaço incontestável.

A tese geral de Residente é didaticamente comentada na abertura “Intro ADN / DNA”, onde o premiadíssimo ator e compositor Lin-Manuel Miranda narra como ele e Residente descobriram serem primos distantes e depois manda um rap com reflexões sobre a genética. Em seguida, chegamos ao primeiro single “Somos Anormales”. A letra tem aquela levada bem humorada típica do porto-riquenho, mas é um caso em que o vídeo fala muito mais que as palavras. Se você não for da turma do “mds uma vajina nunca vi iço”, confira você mesmo ao final da resenha. Musicalmente, é um trabalho dos mais interessantes, misturando um ritmo tribal com a impressionante performance dos cantores difônicos da Ásia Central, capazes de manipular suas vozes de um jeito que deixaria Bobby McFerrin com inveja. A terceira faixa, “Interludio Entre Montañas Siberianas”, dá dois minutos e meio para esses artistas exibirem um pouco mais suas habilidades.

O segundo single, “Desencuentro”, é a faixa menos empolgante do álbum, mesmo com a participação da cantora francesa SoKo, o que é compensado com um belo e divertido clipe – ambos (canção e clipe) têm um final inexplicavelmente abrupto.

A visita à China nos rende duas faixas: uma bela canção chamada “Una Leyenda China”, com um instrumental certeiro que nos transporta imediatamente para o país da Grande Muralha; e outra mais bela ainda, “Apocaliptico”, combinando serenos vocais chineses, os sinistros órgãos da Temple Church de Londres e do Palácio da Música Catalã de Barcelona, e os fortes versos de Residente, no melhor estilo “Respira el Momento” e “Calma Pueblo”.

Antes de “Apocaliptico”, temos um tema parecido em “Guerra”, outro ponto alto do disco com vocais dramáticos e instrumental tenso. Trata-se de um trabalho que causa ainda mais admiração quando você descobre que ele foi gravado em meio a bombas no Azerbaijão e envolveu pessoas dos dois lados do conflito da Ossétia.

Da África, ganhamos “Interludio Haruna Fati”, prelúdio quase a cappella para “Dagombas en Tamale”, em que uma tribo dagomba de Gana acompanha o rap de Residente com uma cativante batucada; “Milo”, homenagem a seu filho também gravada em Gana e introduzida por cordas que nos remetem a “Baile de los Pobres”; e “La Sombra”, funk étnico com aroma de blues criado em Burkina Faso com o icônico guitarrista tuaregue Bombino, cujo trabalho nas seis cordas nos leva a mais um ponto alto do álbum e me deixa curioso para saber o que sairia de uma parceria dele com Carlos Santana.

Encerrando o disco, temos “El Futuro Es Nuestro”, divertida peça de funk/reggaeton cujas letras são uma tentativa cômica de prever um futuro em que baratas serão alimentos e a lua não existirá mais como consequência de uma detonação terrorista; e “Hijos del Cañaveral”, bonita canção sobre o local onde a viagem genética de Residente termina e a viagem de sua vida começa: sua pátria mãe, Porto Rico. A irmã do cantor, que agora atende pelo nome de ILE, participa nos vocais de apoio.

Quanto mais você ouve Residente, mais você quer ouvi-lo de novo. É incrível como apenas 13 faixas de duração normal bastaram para Residente captar e condensar tantas coisas pouco palatáveis para um artista mediano – coisa que ele, sem sombra de dúvidas, está longe de ser.

Nota = 5/5. Se eu fosse escrever tudo o que senti ouvindo Residente, 11 parágrafos não dariam nem para metade do texto. Por isso, convido o leitor a ouvir a experiência que é este projeto – que envolve também um documentário e um livro – e tirar suas próprias conclusões. Você pode até não ficar tão impressionado quanto eu, mas duvido que não se sinta tocado de alguma forma.

Abaixo, o vídeo de “Somos Anormales”: