Resenha: Tripa Seca – Tripa Seca

Reprodução da capa do álbum (© Super Discos)

O que acontece quando você reúne uma trupe de músicos experientes e oriundos das mais diversas vertentes? Se você gosta de música, sabe que a resposta é inexistente por sua imprevisibilidade. Pode sair uma joia ou um chorume.

Nesta resenha, falamos de uma joia. Joia esta que carrega o não tão refinado nome de Tripa Seca – estreia do projeto homônimo. “Projeto” porque os rapazes não querem se ver como banda. E o Tripa Seca soa mesmo mais como um encontro especial, em vez de uma banda no sentido mercadológico da palavra.

Sabe quando você revê os colegas de escola e percebe que os caminhos que cada um escolheu são muito distantes uns dos outros, mas você ainda aprecia cada minuto que passa ao lado deles? É mais ou menos esse o paralelo que posso estabelecer com a sonoridade deste quarteto formado por Renato Martins (vocais, guitarra), André Paixão (vocais, guitarra, teclados), Melvin Ribeiro (baixo) e Marcelo Callado (bateria, percussão) – todos músicos calejados do cenário underground carioca.

A primeira coisa que ouvimos (na abertura “Mil”) é uma garota aparentemente alcoolizada proferindo o nome do grupo como se fosse a coisa mais sensacional do mundo. Esse “sample“, por assim dizer, dita a tônica irreverente do disco.

Mas os acordes e a letra que se seguem – não só nesta primeira faixa, mas também na segunda, “Cicatrizes”, mostram que o álbum também sabe ser maduro. Indie, alternativo, pop e new wave chocam-se da mesma forma que colidiram nos anos 1980 no repertório do rock nacional.

E a banda também consegue ser musicalmente brasileira até dizer chega. E isso já nos fica claro na terceira, “Vai Que Eu Vou”, na qual ritmos caribenhos e nortistas dançam colados. “Never” tira proveito do trocadilho entre as palavras “neve” e “never” (nunca, em inglês). É bonitinha, mas confesso não ter paciência para ouvir a piada sendo repetida ao longo de cinco minutos de música lenta.

Inclusive, é nesta hora que o disco começa a intercalar velocidades. De lentas, temos a eletrônica e psicodélica “Universo Paralelo”, a melancólica “A Paisagem” e o progressivo encerramento “My Saturation”. E do outro lado: “Bipolar”, companheira musical de “Mil” e “Cicatriz”; e as urgentes “Na Palavra” e “Vai Com Deus”, com influências punk.

É em “Bipolar”, gostaria de ressaltar, que percebi o quanto a voz de Renato é parecida com a de Tato, do Falamansa, impressão esta que pode ter sido reforçada pelo acordeão de Fernando Bastos, presença notória nesta peça.

No grande encontro musical promovido pela Tripa Seca – falta só isso *gesto de ‘pouquinho’ com as mãos* para eu chamá-los acidentalmente de Trupe Seca – , quem ganha é todo mundo: os músicos, que nitidamente se divertiram produzindo a obra aos poucos, desde 2015; e os fãs, que ganham uma das melhores estreias nacionais de 2019.

Nota = 5/5.

Abaixo, o clipe de “Vai Que Eu Vou”:

* A resenha foi escrita após sugestão da assessoria de imprensa da banda.

Resenha: Africa Speaks – Santana

Reprodução da capa do álbum (© Concord Records)

Sem dar sinais de cansaço ou de esgotamento criativo, o guitarrista mexicano-estadunidense Carlos Santana (uma lenda viva e incontestável em seu instrumento) coloca mais um álbum – seu 25º! – no mercado.

Se no último disco (o excelente Santana IV, resenhado neste blog) o músico quis reunir uma formação clássica para revisitar aquele som inigualável do passado, aqui Santana tinha um objetivo bem mais concreto: homenagear a África.

E assim nasceu Africa Speaks, cuja criação foi extremamente focada, com um total de 49 canções gravadas em apenas dez dias. Somente 13 sobreviveram para a lista de faixas final, sendo duas bônus exclusivas da Target (“Mientras Tanto” e “Dios Bendiga Tu Interior”). Muitas delas foram tocadas em apenas uma tomada, reforçando o aspecto imediatista do lançamento.

Como um álbum inspirado no continente-berço da humanidade não poderia deixar de ser, esta obra é bastante rítmica, dando grande importância à bateria, à percussão e ao baixo. Ao ponto que a guitarra de Carlos Santana perde um pouco o protagonismo e fica mais diluída no ensemble cast. Em contrapartida, o baixo (tocado aqui por Benny Rietveld) ganha tamanho papel de liderança que podemos imaginar Flea, do Red Hot Chili Peppers, comandando as quatro cordas.

E isso não chega a ser um problema porque, como sempre acontece, o guitarrista se cerca de vários outros músicos da mais elevada estirpe para entregar um trabalho estupendo de rock.

A abertura autointitulada é uma verdadeira declaração – musical e textual – que vem com a não ortodoxa duração de quase cinco minutos. Mas de “Batonga” em diante, vivenciamos uma jornada sonora mais coesa – daquelas que só Santana consegue criar.

Temos músicas bem dançantes, com um ritmo forte que invade sua cabeça. Falo evidentemente de canções como “Breaking Down the Door” (coescrita por Manu Chao) e “Los Invisibles”. Algumas destas eu classificaria até como “sensuais” – e só quem ouve muito esta banda pode entender como uma batida pode ser sensual.

Outras faixas que merecem destaque são “Yo Me Lo Merezco”, que guarda uma interessante semelhança com “Black”, do Pearl Jam, em termos de progressão de acordes e mesmo linha vocal; a rica “Blue Skies”, que equilibra muito bem todos os seus participantes em pouco mais de nove minutos de música com “M” maiúsculo; e “Bambele”, onde o órgão e o piano dão espaço para um simpático piano elétrico.

Como disse anteriormente, o álbum é guiado pela ala rítmica, especialmente pelo baixo. Palmas para Benny, que carregou a produção nas costas. Palmas também para a esposa de Carlos, Cindy, que beirando os 60 anos encarou o desafio de manejar as baquetas no disco – justamente um em que a percussão é a alma do negócio.

E destaque, é claro, para a vocalista espanhola Buika, que assume praticamente sozinha a missão de dar voz a peças que homenageiam o continente. Seu timbre penetrante não apenas dialoga com os cantos africanos, mas também é bastante adequado para entregar a mensagem das músicas.

Nota = 5/5.

Abaixo, o clipe de “Breaking Down the Door”:

Resenha: RASGACABEZA – Francisco, el Hombre

reprodução da capa do álbum 'rasgacabeza', do francisco el hombre. Trata-se de uma figura humanoide com o busto em chamas ante um céu encoberto, com o nome do disco altamente estilizado acima e ao centro e o nome da banda em fonte convencional ao centro, embaixo

Reprodução da capa do álbum (© Francisco, el Hombre)

Após cravar seu nome no mapa da música brasileira contemporânea com SOLTASBRUXA (2016, resenhado neste blog), o quinteto paulista Francisco, el Hombre voltou ao estúdio, deduzo, cheio de aflições e mensagens que gostaria de colocar para fora artisticamente – em grande parte, novamente deduzo, motivado pela mudança nos paradigmas políticos nacionais – digamos que a simpática faixa de protesto “Bolso Nada”, que figurou no álbum supracitado, pouco adiantou para evitar o desastre das eleições presidenciais de 2018.

Como se isso não bastasse, a banda tinha ainda um desejo de mudar seu som – e o finado produtor Carlos Eduardo Miranda deixou de herança para eles justamente um pedido para que ousassem sonoramente – ousadia, alias, é algo que não lhe faltou ao dizer que o lançamento anterior pecava pela falta de… ousadia.

Assim nasceu RASGACABEZA, um disco em ebulição, fortemente influenciado pela música eletrônica e pelo carnaval, com ritmos cativantes, letras sóbrias, guitarras baianas e um fio de condução bastante perceptível. É quase como se o plano fosse montar uma setlist de um trio elétrico (o que bate com a época em que o trabalho foi lançado), e isso se percebe já desde a abertura “CHAMA ADRENALINA :: gasolina”. Só o título da mesma já nos dá fortes indícios da energia a ser entregue.

Mas há espaço para faixas mais orgânicas como “PARAFUSO SOLTO :: ponto morto”, talvez a que mais dialogue com a fase mais latina da banda, e a belíssima balada “O TEMPO É SUA MORADA :: celebrar”, que aborda o Dia dos Mortos com uma dose de emoção equivalente a “Triste, Louca ou Má”.

A boa notícia é que a guinada sonora empreendida pelo grupo não comprometeu a qualidade do seu som, embora seja, com efeito, uma ruptura considerável. É que eles já atingiram um status artístico em que praticamente qualquer direção é um investimento de baixo risco e alto retorno.

De qualquer forma, fica até difícil acreditar que o disco – cujo único grande defeito é ser curto demais – foi preparado em vários lugares diferentes antes de ser gravado de fato, tamanha a coesão. É como se toda a gravação tivesse sido realizada numa tomada única. O que só nos faz lembrar que o Francisco, el Hombre foi feito para o calor dos palcos, e não para o ar-condicionado dos estúdios.

Nota = 5/5.

Abaixo, o vídeo de “CHAMA ADRENALINA :: gasolina”: