Resenha: Trust in Rust – van Canto

capa do álbum Trust in Rust; o nome da banda aparece em cima, ao centro, e o nome do disco em baixo, também ao centro; bem no meio da capa, o logo da banda em forma de ferradura; o fundo parece um recorte de uma muralha, com a metade inferior aparentemente iluminada por uma chama

Reprodução da capa do álbum (© Napalm Records)

Que a fórmula musical do van Canto vem dando sinais de desgaste há alguns anos, todos já sabem. Mas a banda conseguiu disfarçar o problema em seu último lançamento, Voices of Fire (resenhado neste blog), um álbum conceitual com narrações de John Rhys-Davies – novidades suficientes para os fãs esquecerem o problema.

No trabalho subsequente (este Trust in Rust), a questão se manifesta mais uma vez, mas acaba de novo ofuscada por outras novidades. Uma delas é Hagen “Hagel” Hirschmann, o novo vocalista masculino, que substitui o membro fundador Dennis “Sly” Schunke.

O novo integrante tem um timbre razoavelmente parecido com o de seu antecessor. Mesmo assim, a combinação de sua voz com a de Inga Scharf (a vocalista feminina) ainda não demonstra a mesma química ouvida na formação anterior. Aliás, ele ainda sequer se encaixa na banda em si. Parece estar sempre se esforçando muito para cantar e seus vocais gritados parecem uma tentativa de confirmar se dá mesmo para matar uma formiga a grito.

A situação fica ainda mais preocupante quando nos damos conta de que o ponto alto de Hagel no van Canto, por enquanto, ainda é a faixa “Voice Number Seven”, uma quase-vinheta gravada apenas para apresentá-lo ao mundo e que não figurou no disco. A equipe ainda precisará de muitos ensaios para fazer a voz dele se dissolver apropriadamente no caldo.

Mas as novidades não param por aí: Trust in Rust é o primeiro trabalho dos alemães como septeto, pois com a volta do brasileiro Ingo “Ike” Sterzinger como membro de estúdio e ocasionalmente de palco, o grupo passa a contar com dois “baixistas”. O problema: em nenhum momento parece que temos, de fato, duas pessoas diferentes desempenhando o papel. Isso é compensado pelo fato (consequente ou não) de que nunca o van Canto apresentou linhas de baixo tão audíveis e criativas.

No que concerne à música em si, Trust in Rust é, como quase todos os seus antecessores, um ótimo álbum para apresentar a banda a quem não a conhece, mas que terá efeito limitado nos fãs de longa data.

Da piscina de faixas mornas que ele nos traz, podemos pinçar destaques como “Javelin”, o cover de “Ride the Sky” do Helloween (com a tímida participação de Kai Hansen), “Melody” (na qual a gente finge não ouvir a referência a “Bailando”, de Julio Iglesias, a partir dos 3:38), o cover de “Hells Bells” do AC/DC (o único momento em que os vocais gritados de Hagel fazem algum sentido) e o encerramento “Heading Home” (uma faixa 100% a cappella (termo que aqui significa “sem a bateria de Bastian Emig”) que traz outra boa performance do cantor estreante).

Outra coisa que ajuda a tornar o disco interessante é o CD bônus com regravações orquestrais de canções variadas do repertório dos alemães, como “The Mission”, “Hero” e “The Higher Flight”. Mas notícia velha não faz jornal e essas versões diferentes conseguem no máximo preencher a estante de um colecionador.

Se por um lado Trust in Rust trouxe um punhado de faixas empolgantes, por outro se mostrou um álbum em geral morno demais, especialmente para um trabalho que marca a estreia de um novo vocalista que ainda não ganhou os corações dos fãs e da crítica.

A intenção do nome do disco (“confie na ferrugem”, em tradução livre) era transmitir a ideia de que ferrugem é um indicativo de experiência e, portanto, um bom sinal. A mensagem que a obra transmitiu, contudo, foi oposta: a ferrugem que constatamos aqui é sinal de puro desgaste mesmo, embora o problema acabe mascarado pelo ineditismo da nova formação.

Nota = 3/5

Abaixo, o vídeo de “Melody”:

Resenha: Voices of Fire – van Canto

Breve histórico: único exemplar de sua “espécie”, o van Canto é um sexteto alemão formado em 2006 que dispensa guitarras, baixos e teclados. O único instrumento é a bateria. Os outros cinco membros cantam, três deles imitando o que seriam guitarras e baixos, com direito a solos e distorções. Já é um nome estabelecido e com uma sólida e fiel comunidade de fãs.

Reprodução da capa do álbum (© earMUSIC)

Reprodução da capa do álbum (© earMUSIC)

Após cinco álbuns apostando na não mais tão inovadora fórmula do metal a cappella, o van Canto resolveu sair um pouco da sua zona de conforto. Dispensou participações especiais de músicos consagrados do metal pela segunda vez seguida, deixou os covers de lado (um fato inédito) e apostou numa metal opera, ou “musical” como eles preferem.

O projeto resultou em uma participação mais significativa de corais (trazidos pelo London Metro Voices e pelo coral infantil da Chorakademie Dortmund), o que aproximou o grupo do metal sinfônico. O som está mais épico e poderoso, fazendo jus à proposta mais teatral do álbum.

Voices of Fire não escapa de incorrer em alguns clichês. Como o Rhapsody of Fire fazia com o ator britânico Chistopher Lee, o van Canto também pegou emprestada a voz de outra estrela da trilogia Senhor dos Anéis: John Rhys-Davies, que fez o papel do anão Grimli. Ao final de quase todas as faixas, ele aparece para narrar os acontecimentos. Quanto à história fantasiosa, só não digo que foi inspirada em The Astonishing do Dream Theater (resenhado neste blog) porque este foi lançado menos de dois meses antes.

As novas influências não ofuscaram as manobras vocais típicas da banda. Os riffs “rakkatakka” e os solos “wah-wah” dividem espaço com os pedais duplos nervosos e as múltiplas camadas vocais, criando aquela atmosfera inconfundível vancantoniana.

Embora o álbum empolgue menos do que todo o marketing feito em torno dele poderia sugerir, ainda é preciso elogiar a ousadia do sexteto em sair um pouco da mesmice na qual insistia em se esconder.

Nota = 8. O desgaste da fórmula da banda causa menos impacto aqui do que causaria se este fosse um lançamento convencional. A novidade da metal opera é o suficiente para dizer que conseguiram se reinventar, estes alemães – que agora estão mais alemães ainda, com a saída do membro brasileiro Ike, substituído por Jan Moritz.

Abaixo, o vídeo de “The Bardcall”:

Resenha: Dawn of the Brave – van Canto

Breve histórico: único exemplar de sua “espécie”, o van Canto é um sexteto alemão formado em 2006 que dispensa guitarras, baixos e teclados. O único instrumento é a bateria. Os outros cinco membros cantam, três deles imitando o que seriam guitarras e baixos. Com direito a solos e distorções. Desprezados por uns, amados por outros, é certo que o grupo já conquistou seu espaço no mercado e na comunidade do metal e agora se preocupa apenas em continuar relevante.

Reprodução da capa do álbum (© Napalm Death)

Reprodução da capa do álbum (© Napalm Death)

Apostando em sua velha fórmula, o van Canto chega a seu quinto álbum com as mesmas letras oriundas de um cruzamento do Manowar com o DragonForce, e o mesmo esquema de fazer vários covers a cappella com clássicos da música. O que muda são os riffs, agora mais ousados. Outra mudança marcante é a ausência de músicos convidados, como constaram nos últimos três discos. Ou melhor: há convidados, mas são os próprios fãs: cerca de 200 admiradores do sexteto tiveram a oportunidade de gravar um coral para o disco.

E o que a banda mais vocal do metal tem para nos dizer em 2014? Algo que vale a pena ser ouvido, sem dúvidas. Pela primeira vez desde seu álbum de estreia, o grupo investiu em uma introdução, o que foi um tiro certo: épica e empolgante, a faixa-título cumpre seu dever de abertura. Mas segue para uma faixa mais morna, “Fight for Your Rights”.

No decorrer do álbum, alternam faixas mornas e alguns grandes momentos, como “To the Mountains”, com um ótimo riff e solo; “Badaboom”, faixa poderosa que foi lançada como single com direto a um bem-humorado clipe; “Steel Breaker”, com um dos melhores trabalhos “instrumentais” apresentados pela banda até hoje; e “Into the West”, velha conhecida dos fãs de Senhor dos Anéis, que recebe aqui uma versão de tirar o fôlego.

De resto, as faixas são mais mornas, mas cada qual com seu charme e com total capacidade de fazer os fãs sorrirem. Por ser uma banda muito particular, o van Canto criou uma comunidade de admiradores, e tem conseguido agradá-la a cada disco lançado. Ponto para eles.

Não podemos deixar de mencionar os outros covers, responsáveis por quase um quarto do disco. O mais notório deles talvez seja o do hit “Paranoid”, do Black Sabbath. Mas não chega a ofuscar a versão improvável de “The Final Countdown” e “Holding Out for a Hero”.

Nota = 8. Apesar de a fórmula do van Canto estar começando a dar sinais de esgotamento, é fato que a banda, ciente disso ou não, está sempre buscando novos caminhos em cada disco, e isto precisa ser louvado. A despeito de metaleiros chatos e conservadores que se recusam a respeitar uma banda que não leva guitarras para o palco, o van Canto mostra mais uma vez que veio para ficar.

Abaixo, o vídeo de “Badaboom”, com direito a sósias de Ozzy Osbourne, Lars Ulrich e Joakim Brodén: