Resenha: Pacifisticuffs – Diablo Swing Orchestra

Reprodução da capa do álbum (© Spinefarm Records)

Depois de passar com louvor no teste de agradar fãs e crítica com sua mistura única de metal, rock, swing, jazz, música erudita e outros gêneros, o octeto sueco Diablo Swing Orchestra enfrenta agora o teste da troca de vocalistas, com Kristin Evegård entrando no lugar da gabaritada AnnLouice Lögdlund para o quarto álbum da banda, Pacifisticuffs.

Originalmente previsto para acontecer em 2016, o “teste” acabou sendo adiado até o final deste ano. E a espera valeu (muito) a pena: eles não apenas tiraram de letra a questão da troca das vocalistas femininas, como entregaram simplesmente um dos melhores discos do ano.

A levada descontraída e direta ao ponto de “Knucklehugs (Arm Yourself with Love)” a torna uma ótima opção para abrir o álbum, mas é em “The Age of Vulture Culture” que o grupo começa a se mostrar de verdade, especialmente a nova vocalista, que deixa claro que usará um canto mais pop em vez da voz operática de sua antecessora. O ritmo reggaeton característico da faixa parece um sample do Calle 13 e temos aqui um dos melhores refrãos do disco.

“Superhero Jagganath” mantém o nível lá em cima e entrega mais um grande refrão, já pedindo um coro dos fãs nos shows. A quase sem vida “Vision of the Purblind” é o primeiro de quatro breves instrumentais e prepara o terreno para o ótimo jazz dançante “Lady Clandestine Chainbreaker”, que explora um pouco mais os vocais de Kristin e termina com alguns toques de dubstep, gênero que a banda explorou sem receios no encerramento de sua obra-prima “Justice for Saint Mary”, lançada em 2012 no álbum anterior, Pandora’s Piñata.

“Jigsaw Hustle”, single divulgado lá em 2014 para apresentar a nova vocalista, reaparece aqui totalmente retrabalhado numa versão mais pesada que lembra a trilha sonora do jogo SEGA: Rally Revo. Mais um interlúdio quase sem vida (“Pulse of the Incipient”) depois e chegamos à relativamente básica “Ode to the Innocent”, levada apenas nas cordas e na voz de Kristin.

“Interruption” é mais um destaque, um belo jazz metal em compasso ternário que vê a banda misturando a ala de cordas e metais com bastante peso. Ela é sucedida pelo melhor interlúdio, a peça erudita contemporânea e também ternária “Cul-de-Sac Semantics”.

Na reta final, temos “Karma Bonfire”, uma faixa forte que é a cara do Diablo Swing Orchestra; e “Climbing the Eyewall”, um trabalho mais “sério” e com elementos de metal progressivo que emenda no outro “Porch of Perception”, um curto e belo dueto de violão e banjo com sons de fazenda e natureza ao fundo que só peca por não se estender e mostrar o que o grupo poderia fazer com esse tipo de som.

Para uma banda que mistura tantas coisas diferentes, é surpreendente poder dizer que Pacifisticuffs soa coeso, a despeito dos interlúdios, e acessível, a despeito da excentricidade. Dá até para imaginar o álbum sendo executado na íntegra, com todos os membros tocando ao mesmo tempo em estúdio, o que parece impossível para um time de tantos músicos. Acredito que isto seja o que alguns chamam de “band-oriented album”.

É verdade que o estilo vocal de Kristin mudou alguns paradigmas para o octeto, mas a essência deles continua aqui: guitarras fortes; muitos sopros, metais e cordas intercalando momentos de destaque e de acompanhamento; constante atmosfera de cabaré com câmara; e um clima em geral bem humorado. Sem falar que a nova integrante teve um desempenho extremamente satisfatório, deixando-nos mais ansiosos para o que esses suecos farão no futuro do que receosos de como ela lidará com o material antigo, cantado por AnnLouice.

Nota = 5/5. Um dos destaques de 2017, que infelizmente chegou tarde demais para as listas de fim de ano, que costumam sair já em novembro. Se bem que o som particular do Diablo Swing Orchestra possivelmente o faria ficar de fora dessas compilações, que geralmente favorecem lançamentos mais acessíveis. Mas repito: para um disco de uma banda tão extravagante sonoramente, não estamos diante de um material de difícil digestão.

Com ainda não há vídeos do álbum, fique com a sua íntegra abaixo:

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Resenha: Underworld – Symphony X

Breve histórico: Symphony X é uma banda estadunidense de metal progressivo/neoclássico formada em 1994. Considerados expoentes dos dois gêneros, são reconhecidos por aliar peso, técnica, elementos orquestrais, passagens melódicas e letras místicas em suas composições.

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

A fim de buscar inspiração para seu nono álbum, o Symphony X foi pro inferno. Quer dizer, o Inferno de Dante Alighieri, talvez a passagem mais famosa de sua obra prima A Divina Comédia. Criar com base na trilogia já é quase um clichê no meio artístico. O romance mais recente de Dan Brown também faz referência a essa mesma terça parte, tanto que leva o nome dela. Mesmo no universo do metal, há o notório exemplo do décimo disco do Sepultura, Dante XXI.

O conceito todo é trabalhado de forma inteligente, com letras que descrevem as agonias da um personagem anônimo em sua jornada pelo inferno dantesco. Contribuindo para esse imaginário, temos as artes impecáveis do encarte, que retratam o herói como um rapaz aparentemente “comum”, com roupas dos dias de hoje. E claro que tudo é capitaneado pelo mais importante: a música do quinteto, que ficou definitivamente infernal a partir do excelente Paradise Lost.

Como um todo, não há surpresas aqui. Tudo o que você ouviu nos dois álbuns anteriores, ouvirá novamente nessas 11 faixas – e isto poderá desagradar aos fãs que ainda se prendem ao passado mais melódico e menos “loudness war” do grupo. Quase todas as músicas são pauladas do começo ao fim. As exceções são a abertura instrumental “Overture” e as baladas “Without You” e “Swan Song”. Pra quem gosta, o álbum é um prato cheio. Destaque para “Kiss of Fire”, com toques de thrash; a épica “To Hell and Back”; e a faixa-título – dá até para visualizar o público cantando junto o seu refrão.

O único deslize da banda aqui foi ter prometido o que, no fim, não entregou. Alguns membros haviam sugerido em entrevistas anteriores que o álbum traria elementos melódicos. Mas, na verdade, o que Underworld faz é enterrar de vez a esperança de alguns sinphomaníacos de ouvir novamente algo próximo de um The Divine Wings of Tragedy. Até existem faixas preparadas mais ou menos com esse fim, mas o grosso aqui é pra quem tem pescoço de aço para banguear por mais de uma hora. Os fãs mais sedentos por sangue agradecem.

Além disso, o quinteto parece ter encontrado uma nova zona de conforto. Até aí, nada de errado por si só. Mas um time de músicos conhecidos por surpreenderem nem sempre pode se dar esse luxo. Começa a se fazer necessário um álbum que seja tão surpreendente quanto Paradise Lost foi quando veio ao mundo.

Nota = 8,0. Com uma temática muito bem trabalhada e uma música ainda mais empolgante que Iconoclast, Underworld conquista mesmo sem mostrar nenhuma evolução musical. A pontuação alta se justifica porque o Symphony X é um dos grupos que mais faz jus ao seu passado atualmente. Um lançamento candidato a constar em lista de melhores do ano.

Abaixo, o lyric video da faixa “Nevermore”:

Resenha: “Iconoclast” veio para mostrar do que o Symphony X é feito

Breve histórico: Symphony X é uma banda estadunidense de metal progressivo/neoclássico formada em 1994. É um dos grandes nomes dos gêneros atualmente, e possui em sua formação o guitarrista Michael Romeo e o vocalista Russel Allen, duas figuras muito reconhecidas no mundo do metal.

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

O álbum Iconoclast é lançado em meio a uma turnê mundial da banda, que passou pelo Brasil há poucos dias (confira fotos do show no Rio aqui). O oitavo disco do grupo dá continuidade à pegada mais agressiva que ele vem demonstrando desde o antecessor de Iconoclast, Paradise Lost. Todas as faixas são agressivas e poderosas.

Como o vocalista já havia mencionado anteriormente, o álbum apresenta um tema que combina todas as suas faixas: a dominação do mundo pelas máquinas e o problema da tecnologia a que estamos submetendo nossa sociedade. Isso contribuiu para que a musicalidade de Iconoclast seja mais sombria que a dos álbuns anteriores.

O resultado da produção foi um álbum agressivo, técnico e “dark”. Talvez tenha pecado por ser um tanto repetitivo, mas é um grande lançamento. Todos os membros da banda aproveitaram a chance para mostrar por que o Symphony X é um dos grupos de metal mais reverenciados atualmente. Destaque para as faixas “Iconoclast”, a mais longa do disco; “Bastards of the Machine” e “Prometheus (I Am Alive)”, bem pesadas; e “When All Is Lost”, que lembra a fase antiga do grupo.

Nota final = 8,0. Sem dúvida um dos melhores do Symphony X. Sobrou dedicação e preocupação à produção e à composição. As músicas podem até ser repetitivas, mas todas trazem aquilo de que a banda é feita: peso, técnica e qualidade.

Abaixo, a faixa “Prometheus (I Am Alive)”, uma das melhores do disco: