Resenha: Zodiac – Lee Luland

Reprodução da capa do álbum (© Enriya Records)

Como se os dois ótimos primeiros álbuns do quinteto inglês de metal progressivo Prospekt (The Colourless Sunrise e The Illuminated Sky; veja aqui minha resenha deste último) não bastassem, o guitarrista deles, Lee Luland, precisou de um trabalho solo para mostrar por que é um dos melhores nomes de sua geração no instrumento, equiparável a Eric Gillette (The Neal Morse Band) e Richard Henshall (Haken; prestes a lançar sua estreia solo também).

Para isso, ele deu à luz Zodiac, um disco relativamente breve (pouco mais de 40 minutos), mas com muito recheio musical, ainda que só instrumental. Sendo ele um guitarrista, é de se esperar que tenhamos em mãos uma obra focada em riffs, solos e licks nas seis cordas.

A abertura “Mortal” bebe bastante de lendas neoclássicas como Yngwie Malmsteen e Michael Romeo, mas não a ponto de ofuscar a identidade de Lee. Esta se manifesta melhor na sequência “Aquarius Rising”, que desacelera um pouco a fritação e já começa a adotar mais elementos progressivos, como andamentos diversos e mudanças abruptas de climas. O mesmo ocorre na ótima “The Sapphire King”.

“Prophecy” é apenas um interlúdio que nos leva a “Eyes of Orpheus” – a faixa que podemos classificar de “épica”, apesar de bater apenas nos sete minutos e meio. Combinando elementos orquestrais com os já explorados toques progressivos e neoclássicos, temos aqui uma música que deixaria qualquer fã de Symphony X com um sorriso no rosto. O mesmo vale para “Sagittarius A*”.

“The Last Star”, apesar de começar matadora, vem para nos mostrar que também de momentos serenos se faz este álbum. É uma boa oportunidade para calar os insuportáveis fiscais de feeling, que costumam atacar música mais focada em técnica. E a jornada de 40 minutos se encerra na curta peça convenientemente batizada como “Epilogue”.

Não são todos que conseguem estrear já com uma obra prima, mas assim Lee Luland fez em 2019, com este trabalho cheio de riffs empolgantes e composições inspiradas. A boa notícia é que isso o coloca já de cara no mesmo patamar de algumas lendas contemporâneas. A má (má?) é que o nível a ser superado num possível segundo lançamento é alto, bastante alto. Poderá o britânico fazer jus a esta estreia futuramente? Eu aposto que sim.

Nota = 5/5

Abaixo, o playthrough da faixa “The Sapphire King”:

Resenha: War of the Worlds, Pt. 1 – Michael Romeo

reprodução da capa do álbum 'War of the Worlds, Pt. 1'

Reprodução da capa do álbum (© Mascot Label Group)

Um ano após sofrer uma segunda tragédia com o Adrenaline Mob, o vocalista do quinteto estadunidense de metal progressivo Symphony X, Russell Allen, ainda se recupera do baque. Enquanto isso, o guitarrista do grupo, Michael Romeo, na impossibilidade de seguir com os trabalhos, passou o último um ano e meio preparando seu segundo lançamento solo, o primeiro desde o protótipo do Symphony X de 24 anos atrás The Dark Chapter.

É bastante óbvio que War of the Worlds, Pt. 1 foi a válvula de escape que Michael encontrou para dar vazão à sua criatividade num momento em que Symphony X não está disponível para isso.

Talvez por isso, para o ouvido desatento, este pode parecer apenas um mero “Symphony X sem Russell Allen”. Ledo engano. É verdade, por um lado, que após duas décadas de convivência, as guitarras de Michael “pedem” a voz de Russell. Mas quem canta aqui é Rick Castellano (não confundir com o Richie Castellano do Blue Öyster Cult), um ilustre desconhecido que o guitarrista foi encontrar sabe-se lá onde e que carece da versatilidade do vocalista do Symphony X, mas não faz feio na obra.

Para mostrar a que veio, War of the Worlds, Pt. 1 abre com uma introdução instrumental bastante orquestrada que segue em uma faixa avassaladora, “Fear of the Unknown”, que por sua vez é sucedida por outra paulada, “Black”. E aí vem “F*cking Robots”, a mais interessante do ponto de vista musical, por sua incorporação de elementos eletrônicos que acabam lhe dando um tempero dubstep.

Após mais uma paulada (“Djinn”, cuja abertura remete à introdução de “The Shattered Fortress”, do Dream Theater), temos o primeiro respiro em “Believe”, a mais longa, com mais de oito minutos. Quase uma balada se comparada a suas companheiras, ela não preenche seu longo espaço com uma sequência concentrada de riffs matadores. Surpreendentemente, é aqui que Michael põe o pé no freio. Tática que poucos usariam numa obra do gênero, mas que dá certo aqui simplesmente porque a faixa está longe de ser ruim.

“Differences” recupera a agressividade e é separada da também ótima “Oblivion” pelo interlúdio cinematográfico “War Machine” – o próprio Michael reconhece que compositores de trilhas sonoras foram uma inspiração para compor a música do disco. E War of the Worlds, Pt. 1 chega ao fim em “Constellations”, a faixa que mais eficientemente mistura o lado metal com o lado sinfônico do trabalho.

Afora o já mencionado Rick Castellano, o álbum conta com as brilhantes performances de John “JD” DeServio (Black Label Society) no baixo e John Macaluso (ex-Yngwie Malmsteen) na bateria. Enquanto que o primeiro às vezes se faz ouvir até sobre as dominantes guitarras de Michael, o segundo bate nos componentes de seu instrumento como se este fosse o item mais importante de sua imensa discografia.

Quanto a Michael Romeo, não há muito o que dizer sem chover no molhado: ele domina a música do começo ao fim, seja nas seis cordas, seja nas orquestrações configuradas por ele, empolgando a todo momento e demonstrando grande competência. Uma comparação entre este álbum e qualquer item recente da discografia do Symphony X serve de excelente exemplo da diferença que pode existir entre um grupo em que você é dono e outro em que você é “apenas” líder.

War of the Worlds, Pt. 1 mata dois coelhos numa cajadada só: engana o estômago dos fãs famintos por alguma novidade do Symphony X e faz também o mais importante: mostra Michael em grande forma em todos os sentidos possíveis: riffagem, solos, composição, direcionamento artístico, etc.

E considerando que os últimos trabalhos do quinteto novajersiano, embora todos ótimos, dão sinais de que a banda encontrou uma nova zona de conforto, podemos torcer que Michael Romeo tenha encontrado inspiração para algo diferente neste projeto solo cujo único grande defeito é ser curto demais, a despeito do fato de War of the Worlds, Pt. 2 já estar quase pronto, segundo o músico.

Nota = 5/5.

Abaixo, o lyric video de “Djinn”:

Resenha: Pacifisticuffs – Diablo Swing Orchestra

Reprodução da capa do álbum (© Spinefarm Records)

Depois de passar com louvor no teste de agradar fãs e crítica com sua mistura única de metal, rock, swing, jazz, música erudita e outros gêneros, o octeto sueco Diablo Swing Orchestra enfrenta agora o teste da troca de vocalistas, com Kristin Evegård entrando no lugar da gabaritada AnnLouice Lögdlund para o quarto álbum da banda, Pacifisticuffs.

Originalmente previsto para acontecer em 2016, o “teste” acabou sendo adiado até o final deste ano. E a espera valeu (muito) a pena: eles não apenas tiraram de letra a questão da troca das vocalistas femininas, como entregaram simplesmente um dos melhores discos do ano.

A levada descontraída e direta ao ponto de “Knucklehugs (Arm Yourself with Love)” a torna uma ótima opção para abrir o álbum, mas é em “The Age of Vulture Culture” que o grupo começa a se mostrar de verdade, especialmente a nova vocalista, que deixa claro que usará um canto mais pop em vez da voz operática de sua antecessora. O ritmo reggaeton característico da faixa parece um sample do Calle 13 e temos aqui um dos melhores refrãos do disco.

“Superhero Jagganath” mantém o nível lá em cima e entrega mais um grande refrão, já pedindo um coro dos fãs nos shows. A quase sem vida “Vision of the Purblind” é o primeiro de quatro breves instrumentais e prepara o terreno para o ótimo jazz dançante “Lady Clandestine Chainbreaker”, que explora um pouco mais os vocais de Kristin e termina com alguns toques de dubstep, gênero que a banda explorou sem receios no encerramento de sua obra-prima “Justice for Saint Mary”, lançada em 2012 no álbum anterior, Pandora’s Piñata.

“Jigsaw Hustle”, single divulgado lá em 2014 para apresentar a nova vocalista, reaparece aqui totalmente retrabalhado numa versão mais pesada que lembra a trilha sonora do jogo SEGA: Rally Revo. Mais um interlúdio quase sem vida (“Pulse of the Incipient”) depois e chegamos à relativamente básica “Ode to the Innocent”, levada apenas nas cordas e na voz de Kristin.

“Interruption” é mais um destaque, um belo jazz metal em compasso ternário que vê a banda misturando a ala de cordas e metais com bastante peso. Ela é sucedida pelo melhor interlúdio, a peça erudita contemporânea e também ternária “Cul-de-Sac Semantics”.

Na reta final, temos “Karma Bonfire”, uma faixa forte que é a cara do Diablo Swing Orchestra; e “Climbing the Eyewall”, um trabalho mais “sério” e com elementos de metal progressivo que emenda no outro “Porch of Perception”, um curto e belo dueto de violão e banjo com sons de fazenda e natureza ao fundo que só peca por não se estender e mostrar o que o grupo poderia fazer com esse tipo de som.

Para uma banda que mistura tantas coisas diferentes, é surpreendente poder dizer que Pacifisticuffs soa coeso, a despeito dos interlúdios, e acessível, a despeito da excentricidade. Dá até para imaginar o álbum sendo executado na íntegra, com todos os membros tocando ao mesmo tempo em estúdio, o que parece impossível para um time de tantos músicos. Acredito que isto seja o que alguns chamam de “band-oriented album”.

É verdade que o estilo vocal de Kristin mudou alguns paradigmas para o octeto, mas a essência deles continua aqui: guitarras fortes; muitos sopros, metais e cordas intercalando momentos de destaque e de acompanhamento; constante atmosfera de cabaré com câmara; e um clima em geral bem humorado. Sem falar que a nova integrante teve um desempenho extremamente satisfatório, deixando-nos mais ansiosos para o que esses suecos farão no futuro do que receosos de como ela lidará com o material antigo, cantado por AnnLouice.

Nota = 5/5. Um dos destaques de 2017, que infelizmente chegou tarde demais para as listas de fim de ano, que costumam sair já em novembro. Se bem que o som particular do Diablo Swing Orchestra possivelmente o faria ficar de fora dessas compilações, que geralmente favorecem lançamentos mais acessíveis. Mas repito: para um disco de uma banda tão extravagante sonoramente, não estamos diante de um material de difícil digestão.

Com ainda não há vídeos do álbum, fique com a sua íntegra abaixo: