Resenha: Dawn of the Dragonstar – Twilight Force

Reprodução da capa do álbum (© Black Lo dge Records)

Ao escrever esta resenha, eu tive a impressão de estar resenhando um trabalho do Rhapsody pela terceira vez este ano. Pudera, estamos falando do Twilight Force – uma banda sueca do power metal fantasioso/medieval mais clichê possível que vem sendo inexplicavelmente incensada pela imprensa especializada apesar de não oferecer nada de novo – muito embora sejam bons, não dá para negar.

Outro fator que contribui para a comparação é que o novo vocalista do sexteto, Alessandro Conti, ou “Allyon” (sim, eles chegam ao ponto de criarem pseudônimos épicos para eles mesmos), já se envolveu com o Rhapsody – no caso, na versão batizada de “Luca Turilli’s Rhapsody”, que rendeu dois álbuns e algumas turnês. Ele é conhecido também pelas contribuições à frente de sua principal banda, o Trick or Treat, além de uma recente colaboração com Fabio Lione (clique aqui para conferir minha resenha da estreia deles).

O vocalista anterior, Christian Eriksson, foi dispensado sob a afirmação de que “suas contribuições musicais e composicionais para o Twilight Force sempre foram inexistentes”. Não sei até que ponto Alessandro foi diferente do seu antecessor e, portanto, até onde ele tem dedo nisso que afirmarei a seguir, mas… Dawn of the Dragonstar é o melhor trabalho dos suecos até agora.

Por mais clichê que ele seja, não podemos chamá-lo de previsível – adjetivo que se aplica à grande maioria dos discos de power metal, independentemente da qualidade. A abertura autointitulada não corrobora de forma alguma essa afirmação, mas a sequência “Thundersword” já incorpora elementos orquestrais bastante cinematográficos, divergindo um tanto das roupagens mais medievais adotadas normalmente pelas bandas do gênero.

E como se não bastasse, ouvimos ainda uma rabeca e um banjo aleatórios em alguns momentos. São aromas inesperados que a tornam muito divertida, mas o fato destes instrumentos só aparecerem timidamente deixa o ouvinte sem entender o sentido deles.

“Long Live the King” volta aos padrões, mas é sucedida pela ótima “With the Light of a Thousand Suns”, com toques árabes e mediterrâneos em certos momentos. Uma das faixas bônus, diga-se de passagem, é uma versão orquestral dela.

“Winds of Wisdom”, “Queen of Eternity” “Valley of the Vale”, “Hydra” e “Night of Winterlight” fazem um meio de campo clichê até a chegada do encerramento épico “Blade of Immortal Steel”, com doze minutos e meio de power metal dinâmico, sinfônico e com alguns dos toques especiais que marcaram a primeira metade do disco.

Além da já mencionada versão orquestral de “With the Light of a Thousand Suns”, Dawn of the Dragonstar traz como faixas bônus também uma versão ao piano de “The Power of the Ancient Force” com a voz da cantora pop sueca Hanna Turi e as versões demo de “Enchanted Dragon of Wisdom” e “Forest of Destiny”; as três foram originalmente lançadas na estreia deles, Tales of Ancient Prophecies (2014).

No fim, os temperos diferentes que diminuem a previsibilidade do trabalho são apenas isso: temperos. O que ajuda a destacar a obra é, em primeiro lugar, a qualidade ímpar de sua execução e produção.

Tem papel importante também o fato da banda abraçar com todas as forças os clichês do gênero, a ponto de transformar os tradicionais vídeos de comentários faixa-a-faixa em uma cômica apresentação cheia de teatralidade e recheada de todos os adjetivos épicos possíveis. Eles levam a brincadeira tão a sério que fica difícil achá-los ruins. E este álbum, com certeza, não é.

Nota: 4/5

Abaixo, o vídeo de “Dawn of the Dragonstar”:

Resenha: Renegades – Equilibrium

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Foi com bastante ceticismo e ressentimento que a comunidade de fãs do sexteto alemão Equilibrium recebeu os primeiros singles do sexto disco de estúdio deles, Renegades.

Pudera, logo de cara, sem anestesia, a banda mandou uma faixa (“Path of Destiny”) quase totalmente desprovida dos elementos folclóricos e sinfônicos que consistiam em seus diferenciais; marcada por inéditos vocais limpos; e que ainda por cima trazia a participação especial do grupo de rapcore The Butcher Sisters. Tem fã que deve estar em coma até agora.

A má notícia é que o folk foi assumidamente chutado para escanteio e substituído por algo próximo do new metal, numa tentativa deliberada de se modernizar o som, nas palavras do guitarrista e líder René Berthiaume. E o álbum tem alguns problemas pontuais que discutirei mais abaixo. A boa notícia é que eles ainda são bons – eu, pelo menos, ainda compraria um ingresso para assisti-los ao vivo.

A jornada começa com a poderosa “Renegades – A Lost Generation”, cujo riff deixa claro que a banda está, definitivamente, de olho em outros estilos que não sejam o folk ou o black metal. Eu diria que foi um claríssimo cartão de visitas para esta nova fase.

Exceto pelo fato de que é na sequência “Tornado” que temos outra novidade relevante desta nova fase do Equilibrium: os supramencionados vocais limpos, alternados com os tradicionais guturais. Cortesia do baixista Martin “Skar” Berger, um dos membros estreantes aqui.

“Himmel und Feuer” é um dos destaques. Por quê? É a única totalmente na língua materna deles; evolui a partir dum riff que parece ter saído dum lançamento qualquer de pop punk; brinca com compassos não-ortodoxos; e é toda cantada em gutural.

Sobre a já mencionada “Path of Destiny”, só acrescento que a adoção de rap no heavy metal pode funcionar muito bem, a despeito dos chiliques dos insuportáveis “puro sangue”, mas neste caso a decisão foi simplesmente nada a ver e o trecho sobra no meio da canção.

“Kawaakari – The Periphery of the Mind” surpreende mais uma vez, desta vez com riffs que liberam um leve aroma metalcore. E as definições de “aleatório” são novamente atualizadas no cover inesperado de “Johnny B”, do The Hooters. E tirando a participação da cantora Julie Even, cujo timbre é assustadoramente parecido com o da nossa Zélia Duncan, “Hype Train” não acrescenta muito ao disco.

Apesar de tudo que estou dizendo, é fato que Renegades ainda reserva algumas homenagens às origens dos rapazes (e rapariga). Falo de “Moonlight”, menos impactada pela adoção de toques moderninhos e enriquecida com uma (agora rara) flauta; “Final Tear”, a que melhor se aproxima do passado, mas sem demonstrar muita intimidade com o mesmo (embora eu aplauda a aparente tentativa de fazer uma continuação para a magnífica “Eternal Destination”, do disco anterior (clique aqui para ver minha resenha sobre ele)); e o encerramento “Rise of the Phoenix”, cujo conteúdo pouco inspirado não faz jus ao nome e à duração.

Outra nova adição à banda é a tecladista Skadi Rosehurst, cuja entrada fez do grupo um sexteto e fez os fãs esperarem que os elementos folclóricos e sinfônicos ganhassem um destaque sem precedentes. Mas o que aconteceu foi justamente o inverso. Tímida, sua participação fica limitada a alguns panos de fundo e um punhado de riffs moderninhos – nada muito superior ao que já era feito antes, sem um membro exclusivo para isso.

Não vou abrir espaço para a eterna discussão “manter a fórmula vs. mudar”, até porque não existe resposta fixa para isso. No caso do Equilibrium, a decisão foi simplesmente errada, pois eles estão abrindo mão daquilo que os consolidou – e o fazem de maneira tão abrupta que soa artificial. A escapatória deles, no caso, foi que mesmo se aventurando num novo estilo, eles foram felizes e entregaram um bom trabalho. Pesando as duas coisas numa balança, ele pende levemente para o lado positivo. E o tempo dirá se a guinada sonora valeu a pena.

Nota: 3/5

Abaixo, o vídeo de “Path of Destiny”:

Resenha: Zero Gravity: Rebirth and Evolution – Turilli/Lione Rhapsody

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

A sandice em torno do nome “Rhapsody”, lenda italiana do power metal sinfônico, está mais absurda que aquela vez em que duas diferentes versões do Queensrÿche lançaram dois discos no mesmo ano (2013). Após deixar o grupo principal em 2011, o guitarrista Luca Turilli formou sua própria versão de Rhapsody. Depois, ele a encerrou para formar uma terceira versão (!) só com ex-membros do próprio Rhapsody of Fire (??). Enquanto isso, o que sobrou da banda original tocou a vida e já fez sua estreia em estúdio neste mesmo ano de 2019.

Se você, meu leitor assíduo, achou o início deste texto familiar, provavelmente é porque estou abrindo-o mais ou menos da mesma forma que abri a resenha de The Eighth Mountain (confira-a aqui), o primeiro álbum do Rhapsody of Fire com sua formação atual. Aliás, eu poderia fazer um post inteiro comparando a situação deles ao paradoxo do navio de Teseu, sobre o qual escrevi para a saudosa revista Mundo Estranho, mas vamos focar na música da estreia desta versão do Rhapsody – devidamente intitulada Turilli/Lione Rhapsody, por ser liderada também pelo consagrado vocalista Fabio Lione.

É com Zero Gravity: Rebirth and Evolution que esta formação (que, lembrando, envolve ainda Dominique Leurquin (guitarras), Patrice Guers (baixo) e Alex Holzwarth (bateria), também remanescentes da era clássica da banda) faz seu primeiro aceno para o mundo, após uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo. Se o lançamento dos dois trabalhos fosse uma partida de futebol, eu poderia descrevê-la como uma goleada ou um passeio. Porque isto aqui é muito melhor do que The Eighth Mountain – que já não foi ruim, vale ressaltar.

E a superioridade não é simplesmente pela qualidade da produção, pela química entre os integrantes e pelo talento individual dos mesmos – para as quais aliás eu nem vou dedicar muitas palavras para não chover no molhado.

Ela se dá também pela criatividade nas composições. Isso mesmo: um grupo que se tornou conhecido por criar um dos sons mais clichês do power metal aproveitou o último ano desta década para desfazer a imagem de repetitivos. Com Zero Gravity: Rebirth and Evolution, eles se mostram dispostos a modernizar o som e torná-lo menos óbvio, tal como o DragonForce e o Sonata Arctica vêm fazendo recentemente.

Por exemplo, a abertura “Phoenix Rising” tem alguns toques étnicos inesperados em seu interlúdio. A faixa título faz o mesmo, desta vez com elementos árabes. “D.N.A. (Demon and Angel)”, por sua vez, incorpora alguns temperos eletrônicos que deixariam Jens Johansson (do Stratovarius) com um sorriso no rosto. Aqui, a convidada Elize Ryd (Amaranthe) faz um bonito contraste com Fabio.

Outro convidado que empresta sua voz é Mark Basile, do DGM. Em “I Am”, ele nos encanta com seu timbre que parece uma média entre Bob Catley e Demis Roussos. O solo de “Fast Radio Burst” também surpreende ao trocar o ritmo frenético típico destes momentos em músicas de power metal por um um andamento mais contido e cativante.

O disco é bem sucedido também em outro aspecto: a harmonização do lado metal com os toques modernos. “Decoding the Multiverse” serve de exemplo: temos nela linhas ao piano e cordas (típicas daquelas músicas mais comerciais e que ganham clipes) dividindo espaço com riffs graves e pesados na guitarra.

Zero Gravity: Rebirth and Evolution tem espaço até para ópera: “Amata Immortale” e “Oceano” são ambas cantadas inteiramente em italiano, sem guitarras e alternando diferentes tipos de voz. A segunda é uma faixa bônus exclusiva das versões digipak e vinil duplo e conta ainda com Sascha Paeth no baixo, Arne Wiegand nas guitarras, bandolim e piano e Joost van den Broek nos teclados. E se ópera por si só não funciona muito para você, tome “Arcanum (Da Vinci’s Enigma)”, que a mistura com metal.

É muito cedo para dizer quem levou a melhor na divisão do Rhapsody, mas sem dúvidas Turilli e Lione já começaram a “disputa” com ampla vantagem sobre Alex Strapoli, tecladista e líder da versão original do grupo. Alguns talvez se incomodem com minha tentativa de estabelecer algum tipo de rixa entre ambos, mas quando duas versões de um mesmo nome escolhem o mesmo ano para estrear, a natureza competitiva dos lançamentos fica óbvia até demais.

Nota: 5/5

Abaixo, o vídeo de “Zero Gravity”: