Resenha: Waves of Destruction – Alarion

Reprodução da capa do álbum (© Freia Music)

Reprodução da capa do álbum (© Freia Music)

E temos aqui mais uma metal opera holandesa, desta vez comandada por Bas Willemsen (guitarra base e rítmica, violão, teclados, orquestrações e – ufa! – baixo). Um projeto com uma formação relativamente enxuta e desconhecida: de relevantes, temos os vocalistas Damian Wilson (Threshold, Headspace, Star One) e Irene Jansen (Ayreon, Gary Hughes, Star One, irmã de Floor Jansen); e o violinista Ben Mathot (Epica, Revamp, Ayreon).

Seu cartão de visitas atende pelo nome de Waves of Destruction: como o título e a capa sugerem, um álbum com toques épicos e explosivos – mas nem tanto quando se esperaria. Começamos bem com “Chains of the Collective” e as duas partes da faixa título, com Damian Wilson mostrando novamente por que é sempre uma boa pedida para uma participação especial, seja ela serena ou agressiva.

“Estrangement” parece dar sinais de desaceleração, mas era só a preparação do terreno para as duas melhores faixas: “Turn of Fate” e “Colourblind”. Pesadas, densas e marcantes. Vamos da água para o vinho em “Clash With Eternity”, tocada e cantada com a emoção de quem aguarda um ônibus lotado numa manhã de segunda-feira.

Voltamos ao alto nível com a forte “A Life Less Ordinary” e as duas partes de “The Whistleblower”, sendo a segunda a mais longa canção do álbum, enaltecendo os elementos power e sinfônicos do projeto, com um tempero progressivo muito bem vindo. Por fim, uma agradável versão acústica de “Turn of Fate” encerra Waves of Destruction.

A sensação que fica ao encerrar uma audição do primeiro lançamento do Alarion é a de que eles são bons, mas não espetaculares. Para se destacarem no mar de metal operas que estamos vivenciando hoje, precisarão oferecer algo mais. Talvez revelem-se o achado do ano para alguns , mas para quem já é calejado nos gêneros, não traz muitas novidades, nem muitos medalhões.

Nota: 3/5. O começo satisfatório do Alarion faz dele um projeto merecedor de uma continuação, mas ela terá a obrigação de soar mais marcante que Waves of Destruction. O caminho está certo e estou confiante de que eles chegam lá.

Abaixo, o lyric video de “Chains of the Collective”:

Resenha: Armageddon – Equilibrium

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Após a saída de dois membros fundadores (o guitarrista Andreas Völkl e a baixista Sandra Van Eldik), o quinteto alemão de folk/black metal sinfônico Equilibrium não tardou a lançar seu quinto álbum, Armageddon. Ainda mantendo as marcas registradas do grupo (instrumentos exóticos, guturais e “epicidade”), o trabalho traz uma saudável novidade: letras que tratam de temas relevantes e muito realistas para uma banda que até outro dia falava de Thor & cia.

A citação de Albert Einstein no início da abertura “Sehnsucht” dita a tônica do álbum. Seria um instrumental, não fosse a fala. O trabalho toma mais corpo nas três seguintes. Sem desmerecê-las, mas Armageddon só começa a surpreender mesmo a partir de “Born to Be Epic”, uma música que soa boba de início, mas você logo percebe que ela é como um hino para a banda. Vale notar também que ela será apenas a primeira de algumas faixas em inglês, uma nova postura adotada pelo grupo para tornar ao menos parte de seu repertório mais universalmente compreensível.

Em “Zum Horizont”, temos um poderosíssimo início. Juntamente a “Rise Again”, promove um resgate das raízes do quinteto. Não por um acaso, esta última foi concebida logo após o lançamento do segundo álbum deles, Sagas (2009), mas não tinha visto a luz do Sol até agora. Ela traz a participação especial (e muito feliz) de um músico de rua equatoriano que a banda conheceu em Munique. Faixas indicadas para quem quer mesmo é velocidade e agressividade.

“Helden” é outra grata surpresa do álbum. Uma homenagem aos videogames, traz alguns sons eletrônicos no melhor estilo DragonForce e uma introdução vocal que lembra muito a voz de Till Lindemann, do Rammstein.

“Koyaaniskatsi” segue os moldes da abertura: trata de tema sério e a voz só vem na forma de gravações de narrações retiradas do audiolivro Wenn der Wald Spricht (Quando a Floresta Fala). A faixa tem como objetivo conscientizar as pessoas sobre o uso de animais na indústria. Em entrevista para o canal oficial da Nuclear Blast no YouTube, o guitarrista, produtor e compositor René Berthiaume deixou claro que a banda não pretende fingir que não contribui para esta realidade, e que a intenção é somente fazer as pessoas refletirem.

Encerra o álbum a maravilhosa “Eternal Destination”, que, segundo René, traz críticas à humanidade pelo estado em que deixou o planeta, o meio ambiente e a si mesma, ao mesmo tempo em que expressa a esperança de tempos melhores. Melhor do que ela, só o clipe feito para a própria (veja abaixo). Ambos (música e vídeo) têm a participação de Charly, filha do vocalista Robert Dahn, que narra alguns versos, finalizando a mensagem com um incômodo “você precisa da sua Terra, mas a Terra não precisa de você”. O resultado audiovisual é simplesmente um dos trabalhos mais fortes do metal recente, e um dos mais ousados, numa era em que as bandas só investem em lyric videos ou clipes monótonos em galpões e afins.

Ao adotar discursos mais “sérios”, a banda quase pôs em risco sua comunidade de fãs, mas soube dosar bem a hora de manter os pés no chão e a hora de fantasiar. Os alemães se saíram muito bem se colocando como porta-vozes de mensagens apocalípticas, ecológicas e sociais, inaugurando talvez uma nova fase para eles.

Nota: 4/5. Com algumas faixas memoráveis e outras mais mornas, Armageddon é um ótimo passo do Equilibrium em direção a um som mais rico, com letras mais diversificadas e, principalmente, mais acessíveis – tanto pela temática quanto pelo idioma. Quem sabe assim eles comecem ao menos a se apresentar fora da Europa e ganhem um mundo que ainda pouco conhece este excelente quinteto.

Abaixo, o vídeo de “Eternal Destination”:

Resenha: The Aspie Project – Computer Mind

Breve histórico: Metal opera capitaneada pelo desconhecido baixista Mike van den Heuvel, o Computer Mind foi formado com o objetivo de criar um álbum que abordasse a Síndrome de Asperger, um distúrbio que faz parte do espectro do autismo e com o qual o músico convive. A história, autobiográfica, ganhou voz com um time de músicos que mistura lendas com nomes mais anônimos.

Reprodução da capa do álbum (© Computer Mind)

Reprodução da capa do álbum (© Computer Mind)

Muito além de Ayreon e Avantasia, as metal operas viraram praticamente um nicho de mercado, o que nos traz coisas boas e ruins. Felizmente, hoje falaremos de coisa boa. O projeto Computer Mind foi montado tendo como base músicos pouco conhecidos: o líder e baixista Mike van den Heuvel, o guitarrista solo Edwin Kraft van Ermel, o guitarrista rítmico Berry Lakerveld, o tecladista Koen van Amerongen e o baterista David Mulder.

Já o time de vozes parece retirado de um álbum qualquer do Ayreon: o próprio Arjen Anthony Lucassen (líder do supracitado projeto) aparece, fazendo o papel do Doutor, embora ele só narre, e não cante. O protagonista, inspirado no próprio Mike, é chamado de “O Filho” e interpretado por Wilmer Waarbroek. Não se lembra dele? Ele fez os backing vocals do mais recente disco solo do Arjen, Lost in the New Real (resenhado neste blog), e também gravou todos os vocais da versão demo do álbum mais recente do Ayreon, The Theory of Everything (também resenhado neste blog). O time é complementado por Damian Wilson (Threshold, Headspace), Marcela Bovio (Elfonía, Stream of Passion) e Marjan Welman (Autumn), que fazem o papel de O Pai, A Mãe e A Namorada, respectivamente.

O álbum conta ainda com alguns instrumentistas convidados, incluindo violinistas e violoncelistas (veja a equipe completa aqui). À primeira escutada, o resultado final parece uma tentativa de copiar o Ayreon, mas o disco vai sendo digerido com mais audições e logo percebe-se uma identidade mais própria.

Além das faixas convencionais, há uma introdução e quatro interlúdios narrados por Arjen, além de um encerramento instrumental que reprisa o fundo do primeiro interlúdio. As narrações explicam como os portadores da Síndrome de Asperger lidam com as situações do dia a dia. As demais canções descrevem tais situações, incluindo escola, divórcio dos pais, relacionamentos, etc. Os diálogos, embora previsíveis, expressam com honestidade as aflições do personagem e daqueles próximos a ele.

O instrumental chama a atenção pelos arranjos dinâmicos e esmerados, ambientando fúria, medo e angústia de acordo com a temática. Os vocais foram muito bem interpretados, transmitindo emoção verdadeira. Destaque para as dramatizações de Marcela e Damian no vídeo de “Divorce” (veja ao final do texto).

O Ayreon foi uma influência óbvia e talvez até demasiada. Além do elenco, a narrativa e a organização do álbum lembram muito lançamentos recentes do projeto holandês – existem até frases inteiras que parecem extraídas de The Human Equation e The Thoery of Everything. Faltou um pouco mais de originalidade na criação das letras.

Apesar disso, fica o elogio para a ótima instrumentação, e principalmente para a iniciativa de Mike em tratar de um tema tão sério. O metal muitas vezes se esquiva de lidar com problemas gerais, preferindo a fantasia ou aflições pessoais. Que tal um trabalho inteiro dedicado a um distúrbio que afeta muitas pessoas pelo mundo?

Nota: 8,0. O Computer Mind é um projeto bem promissor, que se apresenta ao mundo com uma mensagem de conscientização. Precisa correr atrás de uma proposta e de um estilo de narrativa mais originais, com diálogos menos superficiais. Se o fizerem, já terão alcançado um nível maior.

Abaixo, o vídeo de “Divorce”: