Guitarra: Meus 51 solos favoritos

Foto: Victor de Andrade Lopes

O instrumento-símbolo do rock ‘n’ roll, quando operado pelas mãos certas, é capaz de produzir coisas as quais somos incapazes de colocar em palavras (com todo respeito ao van Canto).

Um dos elementos mais importantes do rock e de outros gêneros é o solo, momento em que o instrumento brilha com destaque e ajuda a escrever a história da música. Inspirado por aqueles que mais me marcaram, decidir compilar uma lista com os meus 51 favoritos.

Metodologia e curadoria


Por que 51? Bem, falemos um pouco de como surgiu e foi montado este ranking. Ele é totalmente pessoal – termo que aqui significa “criado a partir do meu gosto como fã e não com base numa análise jornalística fria, muito menos com a pretensão de fazer média com fãs e gravadoras”. Assim, muita coisa boa ficou de fora. Muita coisa mesmo. Só pra dar dois exemplos, Eric Clapton e Tak Matsumoto entrariam facilmente no meu top 10 guitarristas, mas não constam na lista.

A lista preliminar continha quase 200 solos, mas cheguei à acertada conclusão de que se 200 coisas são consideradas “especiais”, então nenhuma delas é, de fato, especial. Fui lentamente reduzindo tendo míseros dez solos como meta, mas o número era insanamente restritivo e “travei” bem antes, na quantidade definitiva de 51. Simplesmente não consegui descartar mais nenhum. Era o sinal de que a seleção estava finalizada.

De modo a facilitar a tarefa de curadoria, e evidentemente com muita dor no coração, deixei de fora solos em faixas instrumentais e também solos que são músicas inteiras, como o clássico “Eruption”, do Van Halen.

Com mais um tanto de dor, excluí solos que são na verdade apenas frases em loop, como o belíssimo encerramento de “Let It Grow” do já mencionado Eric Clapton, ou a inconfundível abertura de “Sweet Child O’ Mine”, do Guns ‘N’ Roses (executada por Slash).

Descartei, por fim (desta vez sem dor nenhuma), solos que eu gosto por fazerem parte de algum duelo com teclados – uma lista separada será compilada um dia para estes casos. Até tem um ou outro duelo nesta lista aqui, mas aí é porque a parte de guitarra me marcou muito mais que a de teclado.

Por fim, vale dizer que as escolhas podem ter sido “contaminadas” por outros fatores. Por exemplo, esforcei-me para deixar de fora solos que eu senti gostar apenas por fazerem parte de músicas que eu gosto muito como um todo.

Mas também fica a pergunta: o que faz um bom solo? É só o solo em si? Ou um bom pano de fundo é necessário, especialmente na forma de um bom riff? Foi nesse sentido que retirei mais alguns infelizes: o que mais me fisgava neles eram os riffs da base, não o solo em si…

Pois bem, aqui está a lista, com solos de todos os tipos. Aqueles fritados que criam bolhas nos dedos de quem se atreve a tocá-los, e outros bem lentos. Alguns tão curtos que podemos apelidá-los de “ejaculação precoce”, e outros tão longos que superam a duração de uma música convencional. Os bem crus de bandas “sem frescura”, como dizem por aí, e outros que se destacam em meio a camadas e mais camadas de vozes simultâneas. Alguns são executados por artistas solo, outros por membros oficiais de uma banda, outros por músicos de apoio, outros por convidados especiais e, pasmem, aqui vai ter até solo que eu sequer sei quem toca por não ter encontrado fontes confiáveis que atestassem a informação. Se algum(a) leitor(a) iluminado(a) quiser contribuir, faça as honras! 😉

O formato da lista é o seguinte: A hashtag indica a colocação do solo neste ranking. Entre aspas, o nome da música. Após o traço, o nome do guitarrista e, entre parênteses, o artista da música (se não for o próprio guitarrista) e, se for o caso, a indicação de que é músico contratado ou convidado. Os vídeos estão configurados para começarem exatamente no solo ao se apertar o “play”, já que eles são o objeto de discussão deste post, mas todos sabemos que para a experiência ser completa, é preciso ouvir as músicas desde o início – inclusive aquelas bem longas. Combinado?

#51: “Lá Vou Eu” — Paulo Rafael (Zélia Duncan; músico de apoio)
Em 1994, ainda não muito conhecida, Zélia Duncan lançava um disco de inéditas e alguns covers. Um deles é “Lá Vou Eu”, uma das músicas mais paulistanas da história e gravada originalmente por Rita Lee e sua banda Tutti Frutti 18 anos antes. Quem executa o solo “rebelde” (por fazer a lista ficar com 51 itens) é Paulo Rafael, guitarrista de apoio bastante gabaritado. Seu currículo soma trabalhos com inúmeros artistas nacionais consagrados como Elba Ramalho, Cássia Eller, Gal Costa, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, entre outros. A versão original traz outro solo, mais ao final da música, mas bem menos marcante.

#50: “Bright Lights” — Gary Clark Jr.
Quanto tempo leva para a polícia vir aqui me buscar pelo crime de deixar esta jovem lenda numa posição tão baixa nesta lista? Brincadeiras à parte, não discutiria com alguém que dissesse que ele tem solos melhores. A verdade é que esta música foi a primeira que eu ouvi dele (valeu, Luke Cage!) e mesmo após passar por toda a sua discografia, continua sendo minha favorita. E é claro que isso influenciou muito na escolha…

#49: “A Lenda” — Junior (Sandy & Junior)
Parece piada, mas não é. Esta que é uma das mais belas canções brasileiras de todos os tempos (composta por integrantes do Roupa Nova e regravada mais tarde pelos próprios) recebeu uma rica roupagem com direito a solo de violão, solo de guitarra (o assunto deste parágrafo), cordas e clipe romântico à beira do mar. Brega até dizer chega, mas who yes door? O solo obviamente não é nada espetacular e ainda por cima Junior sequer o executava na recente turnê de reunião da dupla. Mas continua sendo um elemento que marcou este grande sucesso de 20 anos atrás…

#48: “Lanterna dos Afogados” — Herbert Vianna (Os Paralamas do Sucesso)
Não está entre os hits absolutos d’Os Paralamas do Sucesso, mas além de figurar aqui, esta faixa foi selecionada também para constar entre “As 100 melhores músicas do século e as 14 mais”, por Ricardo Cravo Albin – e isto não é pouca bosta! O solo encerra com bastante vigor um dos mais tocantes itens do catálogo desta que é uma das maiores bandas nacionais. A versão precisa que deveria constar aqui é a do CD Sempre Livre Mix, um disco ao vivo em conjunto com os Titãs, mas como não está disponível no YouTube, fiquemos com esta, quase tão boa quanto.

PS: Inacreditavelmente, acabam aqui os solos de músicas em língua portuguesa desta lista – mas não será o último executado por um brasileiro…

#47: “Sleeping Sun” — Emppu Vuorinen (Nightwish)
Do ponto de vista técnico, dá para pinçar vários outros solos melhores na discografia do Nightwish: “End of All Hope”, “Wishmaster”, “Over the Hills and Far Away”, “Shudder Before the Beautiful”, “Eva”, entre outros. Mas “Sleeping Sun”, do alto de seus meros 15 segundos, conseguiu me conquistar pela emoção e simplicidade – repare que boa parte dele é apenas uma variação da melodia do refrão. E o fato de ser uma das melhores baladas do Nightwish, claro, só ajuda.

#46: “Corazón Espinado” — Carlos Santana (Santana)
Difícil pinçar um solo desta lenda viva que “fala” por meio de sua guitarra de timbre inconfundível. “Corazón Espinado” acabou sendo a única selecionada (apesar do mexicano ser um dos meus guitarristas favoritos) por motivos bem pessoais. Anos atrás (por volta de 2010, deduzo), fui a um bar em São Paulo conferir o show da banda de um amigo que era tecladista e saxofonista. Dentre as peças executadas, estava esta, e o guitarrista (cujo nome, infelizmente, eu sequer me lembro) hipnotizou a todos com sua performance, que continuou arrebatadora em outros hits como “Bad Love” e o tema de abertura de Peter Gunn.

#45: “Back in Black” — Angus Young (AC/DC)
Outra lenda difícil para pinçar um solo – e estamos falando de um dos guitarristas mais influentes de todos os tempos. Fiquemos então com esta pedrada que é um clássico absoluto não só do AC/DC, mas do rock em geral. Uma variação do icônico riff de abertura é usada como pano de fundo para Angus nos deliciar com esta performance abrasadora, que tem direito a uma continuação a partir dos 3:29, num encerramento cujo volume é a única coisa que se esvai.

#44: “Dani California” — John Frusciante (Red Hot Chili Peppers)
No momento, John está iniciando sua terceira passagem pelo Red Hot Chili Peppers. Em sua segunda, ele participou “apenas” dos três discos mais importantes e populares da banda, a trilogia arrebatadora Californication, By the Way e Stadium Arcadium. Este último é o disco mais encorpado, sofisticado e maduro que a banda já fez, e disputa com Blood Sugar Sex Magic o posto de melhor item da discografia do grupo. Dentre as várias pérolas que a produção dupla nos trouxe, está o primeiro single, o clássico “Dani California”. O solo que abordo aqui é um trabalho bem cru e visceral para os padrões da banda, encerrando esta música que trouxe também um riff e um refrão bem marcantes. Antes de fechar este parágrafo, gostaria de ressaltar que o quarteto possui outros dois grandes trabalhos guitarrísticos com Frusiante: “Lyon 06.06.06” e “Permutation”, lançadas como lados B de “Tell Me Baby” e “Snow ((Hey Oh))”, respectivamente. Nenhum dos dois figurou nesta lista por serem instrumentais, contudo.

#43: “New Math” — ??? (Mackenzie Phillips)
A primeira de razoavelmente várias faixas desta lista cujo guitarrista eu sequer sei o nome. Esta música é parte da excelente trilha sonora de So Weird, exibida como Sinistro aqui no Brasil 20 anos atrás, no saudoso Fox Kids. Esta série, juntamente a Ciência Travessa e O Colégio do Buraco Negro, marcaram minha pré-adolescência. No caso de Sinistro, a história girava em torno de uma cantora, interpretada pela talentosíssima Mackenzie Phillips (filha de John Phillips, do The Mamas & the Papas), que sai em turnê pelos Estados Unidos com sua filha e sua equipe e vivencia acontecimentos sobrenaturais na jornada. Recomendo fortemente outras músicas que integram a trilha sonora da série, como “She Sells”, “Rebecca”, “Origami” e o tema de abertura, “In the Darkness”.

#42: “Let’s Go Beybladers” — ??? (Krystal Band)
Dobradinha de guitarristas “anônimos”. Esta tal de Krystal Band parece ter existido somente para executar esta música que integrou a dublagem em inglês americano da primeira temporada de Beyblade, também uns 20 anos atrás. Estas peças, que depois foram redubladas para outras línguas que usaram a versão estadunidense como base, foram a única coisa boa que os yankees fizeram, uma vez que eles deturparam várias coisas no anime, que tinha tom sensivelmente mais maduro e sério na dublagem original japonesa. Nesta peça aqui, temos um pop punk basicão e de letra infantiloide, mas com um solo relativamente inspirado. Quem quiser, pode arriscar buscar no YouTube a versão brasileira da faixa, cujo nível final ficou inferior a esta.

#41: “At Wit’s End” — John Petrucci (Dream Theater)
Acostume-se com esta lenda, pois ela ainda vai aparecer muito nesta lista. O que me fisgou na faixa mais longa do mais recente álbum deles, Distance Over Time, não foi o duelo insano com o continuum do tecladista Jordan Rudess aos 3:44 – guardarei este tipo de momento para minha lista de duelos favoritos. A cereja do bolo aqui é o belíssimo solo de encerramento, inicialmente contraposto com os versos “don’t leave me now”. Quase não inclui este solo por considerá-lo algo muito próximo de “solos que são na verdade apenas frases em loop”, mas John faz variações suficientes para me impedir de classificar essa passagem desta forma.

#40: “La Vita È Adesso” — presumidamente, Paulo Lourenço (Renato Russo; músico de apoio)
Um mistério ronda este solo e esta faixa como um todo. A música não consta nos streamings oficiais deste ótimo disco solo de Renato Russo. No encarte do álbum, por sua vez, ninguém aparece como responsável pelas guitarras nesta música. Deduzi Paulo Lourenço como o músico em questão por ele constar como guitarrista no resto do álbum, mas não ponho minha mão no fogo por esta informação. A falta de clareza não nos impede, porém, de apreciar esta maravilha…

#39: “E=mc²” — Michael Romeo (Ayreon; participação especial)
A segunda colaboração do virtuoso guitarrista estadunidense Michael Romeo na metal opera Ayreon (que reaparecerá na lista algumas vezes), do gênio holandês Arjen Anthony Lucassen, é quase tão magnífica quanto a primeira, que ganhou colocação mais alta. Esta faixa aborda um trecho do enredo do álbum em que um casal de cientistas de 2085 tenta enviar a equação mais famosa de Albert Einstein para o passado de modo a alertar a humanidade dos perigos que virão. Eles fracassam no final, mas eu gosto de pensar que o solo é o clímax da história, ou seja, a última tentativa.

#38: “Candy” — Charlie Singleton (Cameo)
O solo mais “ejaculação precoce” desta lista, com menos de dez segundos. Quem realmente é lembrado por esta canção, porém, é Michael Brecker, que também entrega um solo, mas de saxofone. Nem o fato dela ter figurado na trilha sonora do inesquecível Grand Theft Auto San Andreas, nem o fato de ser comumente sampleada por aí garantiram que o solo de guitarra de (presumidamente) Charlie Singleton se tornasse tão lendário quanto a própria faixa. Admito que temos aqui um funk pop de qualidade questionável, mas eu simplesmente amo esse solo nada a ver que irrompe no começo do terceiro minuto e vai embora como se nunca tivesse existido.

#37: “Rise Above the Storm” — ??? (Daniel LeBlanc and Creighton Doane)
Mais um solo de artistas absolutamente desconhecidos que parecem ter existido somente para registrar um item da trilha sonora de Beyblade. Esta música aqui só foi usada na terceira e melhor temporada (G-Revolution). Mais uma cortesia da dublagem estadunidense, como se para compensar o tamanho do estrago que causaram na tradução infantiloide. A boa notícia é que esta faixa tem letra “neutra”, isto é, não precisa ser necessariamente só sobre Beyblade, diferentemente da “Let’s Go Beybladers” mais acima.

#36: “Innocence” — Hugo Mariutti (Shaman)
Uma das mais belas baladas já criadas por nosso eterno e saudoso Andre Matos, cantor e pianista cuja morte acaba de completar um ano. Esta aqui, ele fez para o segundo disco do Shaman, grupo que montou com os ex-integrantes do Angra que levou consigo após romper com o dito-cujo. Nesta peça, apresentada a mim por um amigo de escola, temos um belíssimo solo de Hugo Mariutti.

#35: “The Piper at the Gates of Dawn” — Sascha Paeth (Avantasia)
Um dos solos mais recentes desta lista, oriundo de um álbum do início de 2019. Sascha Paeth virou o guitarrista de praxe do Avantasia há um bom tempo e também em 2019 realizou enfim sua estreia solo. Aqui, ele entrega uma perfomance das mais inspiradas de sua vasta lista de contribuições para a metal opera. Não se deixe enganar pelo começo relativamente apático e repetitivo, pois o solo se libera de si mesmo na segunda metade ao adquirir uma alma mais própria e acelerada. É Sascha duelando consigo mesmo!

#34: “The Parting” — Steve Hackett (Ayreon; participação especial)
“Infelizmente”, este solo vem pouco depois de um dos berros mais épicos da história do metal mundial (1:29), o que pode ofuscá-lo injustamente. Mas fato é que Steve Hackett, o único guitarrista convidado deste maravilhoso disco do Ayreon que foi mais focado nos teclados, deixou aqui um trabalho da mais alta estirpe.

#33: “Amoeba” — Rikk Agnew (ou talvez Frank Agnew) (Adolescents)
Uma das músicas mais famosas deste lendário supergrupo punk, cuja popularidade foi impulsionada pela inclusão da mesma nas trilhas sonoras de Tony Hawk’s Pro Skater 3 e Grand Theft Auto V. Há dois solos aqui: o que motivou a inclusão desta canção nesta lista e o solo de encerramento (aos 2:20), que vale tanto a pena quanto. Não sei exatamente qual dos dois irmãos faz a guitarra solo aqui, mas analisando vídeos da época em que tocavam no grupo, é mais provável que seja Rikk.

#32: “Beloved” — Hisashi (GLAY)
O GLAY, uma das melhores bandas do rock japonês, nunca fez assim, digamos, um rock pesadão e malvado, mas nem por isso são menos respeitáveis quando se fala do que fazem com as guitarras. E em “Beloved”, balada dos primórdios deles, o guitarrista solo Hisashi mostra por que é uma peça essencial nesta formação que praticamente nunca mudou.

#31: “Carolina IV” — Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt (Angra)
O primeiro duelo de fato da lista. Atual guitarrista solo do gigante Megadeth, o brasileiro Kiko Loureiro há muito já mostrava ser um músico acima da média. Com o Angra, banda que formou com o guitarrista igualmente talentoso Rafael Bittencourt (com quem divide este solo) e o já mencionado Andre Matos, Kiko e os colegas puderam pôr para fora uma música única que unia as influências eruditas, metálicas e nacionais que eles tanto apreciavam. “Carolina IV” não só é um dos melhores exemplos disso como traz um dos melhores solos da discografia deles.

#30: “Dawn of a Million Souls” — Michael Romeo (Ayreon; participação especial)
Em sua primeira colaboração com o Ayreon, Michael Romeo mandou não só um, mas dois solos em seguida. Quer dizer, tecnicamente é um solo só, pois trata-se do mesmo músico e um emenda no outro, mas a mudança de atmosfera e até do timbre meio que nos dá o direito de considerar que se trata de um solo dividido em dois. Enfim, neste aqui, ele se sente em casa, afinal, está participando de uma música que já conta com vocais do seu colega de Symphony X, o estupendo Russell Allen.

#29: “Elysium” — Matias Kupiainen (Stratovarius)
Alguns me incluirão em suas respectivas listas negras por mencionar o atual guitarrista do Stratovarius, mas não o antigo – o lendário Timo Tolkki. Bem, Timo até tem muitos solos bons, mas ele é um shredder e eu tenho um gosto um tanto particular para esta modalidade. Acredito que o jovem Matias imprime muito mais emoção em suas notas, e a obra-prima da banda que recebeu o mesmo nome do disco em que foi lançada foi uma oportunidade de quase 20 minutos para ele mostrar isso. O foco deste parágrafo é o solo de encerramento, mas não deixe de conferir também o empolgante duelo com o tecladista Jens Johansson aos 9:27.

#28: “Star of Sirrah” — Paul Gilbert (Ayreon; participação especial)
Parece incrível que um solo tenha se destacado numa faixa que tem um dos riffs mais matadores da história do Ayreon e ainda traz a participação de James LaBrie, Russell Allen, Hansi Kürsch, Tobias Sammet, Nils K. Rue, Tommy Rogers, Michael Eriksen e Floor Jansen (ufa!). Bem, é que o solo ficou sob os cuidados de uma lenda igualmente gigante: o estadunidense Paul Gilbert. Infelizmente, tive de puxar um vídeo “pirata” para esta faixa porque o oficial é um lyric video que criminosamente cortou parte do solo.

#27: “The Count of Tuscany” — John Petrucci (Dream Theater)
Olha só quem apareceu de novo. E desta vez com um dos solos mais especiais e diferentes desta lista. Acostumado a fazer com suas mãos coisas que os humanos ainda não conseguem, John Petrucci entrega nesta faixa sobre um encontro que ele teve na Toscânia (Itália) um longo solo carregado de emoção e abusando da técnica do swell, que consiste em usar pedais para “atrasar” o som da guitarra e assim omitir o primeiríssimo ruído que se faz (o barulho do “ataque” à corda).

#26: “Wind of Change” — Matthias Jabs (Scorpions)
Este clássico alemão com uma letra emblemática sobre o fim da União Soviética ficou ainda melhor quando os Scorpions decidiram contemplá-lo no álbum Moment of Glory, lançado em 2000 em parceria com a Orquestra Filarmônica de Berlim. Se este solo de Matthias Jabs já era carregado de emoção na versão original, olhem só como fica com todas as cordas e sopros ao fundo:

#25: “The Dream Dissolves” — Marcel Coenen (Ayreon; participação especial)
Ayreon de novo, e com o mesmo álbum do último solo em que foi mencionado. Desta vez, o time de vocalistas participantes é mais enxuto, trazendo “apenas” Nils K. Rue, Michael Eriksen, Floor Jansen e Simone Simons. Por outro lado, o guitarrista que deixou sua marca aqui (Marcel Coenen, do Sun Caged) teve de fazê-lo logo após um tecladista dos grandes: Mark Kelly, do Marillion. Quem ganha é o fã, que fica com dois solos monstruosos em sequência. Uma curiosidade: o primeiro solo que Marcel mandou para Arjen foi rejeitado. Ele fez este outro na força do ódio (mentira, nem foi assim) e agradeceu à mente por trás do Ayreon por tê-lo estimulado a ir além. De novo, quem ganhou foi o fã.

#24: “Butter-Fly” — ??? (Wada Kouji)
Dentre as muitas contribuições que o saudoso Wada Kouji deixou para a música japonesa, está a abertura da primeira temporada de Digimon, “Butter-Fly”. O clássico anime deu à luz outras memoráveis canções, mas esta aqui traz um solo dos mais inspirados e empolgantes, executado por um ilustre desconhecido. E mais tarde o cantor prepararia outra música de Digimon com um solo ainda melhor, que guardei para uma colocação mais alta nesta lista…

#23: “Over” — Lori Linstruth (Guilt Machine)
Quando George Harrison escreveu aquela famosa música sobre sua guitarra chorar, ele provavelmente não imaginava que um dia alguém haveria de se especializar em solos que parecem fazer exatamente isso. Chegamos à – infelizmente – única mulher na lista: Lori Linstruth. Aqui, mostramos um solo extremamente tocante que ela deixou no Guilt Machine, projeto paralelo ao Ayreon (ou seja, tome Arjen de novo) que até o momento rendeu um único disco. A faixa, como todas do lançamento, traz letras bem “deprê” e o solo “chorão” só vem somar à atmosfera entristecida da música. Aos 5:10, Lori até se junta ao vocalista Jasper Steverlinck num “duelo de choros”!

#22: “The Shattered Fortress” — John Petrucci (Dream Theater)
E lá vem John de novo. “The Shattered Fortress” é a última das cinco canções que o ex-baterista do Dream Theater, Mike Portnoy, escreveu sobre sua luta contra o alcoolismo. Ela faz uma espécie de pout pourri de riffs, melodias e versos das peças anteriores e, como não poderia deixar de ser, é carregada de muita emoção. Contrariando tendências da banda, os solos de John e de Jordan ficam em momentos separados da música. O tecladista vem primeiro com seu continuum, e executando um solo igualmente matador que se inicia aos 5:32.

#21: “Heroes of Our Time” — Herman Li & Sam Totman (DragonForce)
Claro que, quando se pensa em “DragonForce” e “solo” na mesma frase, ela parece incompleta se não contiver “Through the Fire and Flames”, o grande clássico da banda e a última música de metal & derivados que podemos chamar de “hit”. O próprio solo, que impressionou a todos por sua virtuosidade e ganhou câmera em foco no clipe, ajudou a alavancar a fama da peça. Mas meu coração bate mais por “Heroes of Our Time” e alguns outros solos do grupo britânico – que guardarei para a lista de duelos favoritos por serem intercalados com solos de teclado também.

#20: “Sorrow” — David Gilmour (Pink Floyd)
O lendário David Gilmour aparecerá três vezes nesta lista, e a primeira já é logo na 20ª colocação. “Sorrow” foi inteiramente escrita pelo próprio guitarrista ao longo de um fim de semana no Astoria, seu estúdio flutuante. O solo é executado em sua Steinberger GL (uma guitarra “sem cabeça”) com um amplificador Gallien-Krueger (na época, a empresa ainda não havia focado totalmente sua produção em amplificadores de baixo). Não deixe de conferir também as versões ao vivo desta beleza!

#19: “Wisdom and the Cage” — Kristian Niemann (Therion)
Depois de uma faixa inteira dedicada a Sofia, a personificação da sabedoria, o que ainda poderíamos esperar destes pioneiros do metal sinfônico? Kristian Niemann duelando consigo mesmo, é claro! Os dois solos são separados por uma melodia ao teclado e o foco do parágrafo é o segundo, que encerra a faixa com chave de ouro.

#18: “Silent Jealousy” — hide & Pata (X Japan)
Outros guitarristas que aparecerão três vezes, todas no top 20, são hide e Pata, a dupla de ouro do X Japan – o grupo japonês criminosamente ignorado pela mídia ao falar de power metal. Quando a maioria das bandas do gênero ainda tentava se livrar das fortes influências thrash, o X Japan já estava lá, pleníssimo, fazendo power metal limpo, agudo e cheio de elementos sinfônicos. “Silent Jealousy” é uma das melhores músicas que eles já fizeram, e um exemplo de como fazer power metal. O solo em questão, devo adicionar, vem após um solo de baixo, um solo de piano e, depois de alguns refrãos, ainda é sucedido por um solo de bateria.

#17: “Art of Life” — hide & Pata (X Japan)
Dobradinha de X Japan. Vamos agora para esta que é uma das melhores obras musicais da história da humanidade: “Art of Life”, faixa que ocupa sozinha a totalidade do quarto disco dos japoneses. Dentre as várias passagens que compõem a obra-prima deles, temos dois grandes solos de guitarra, isso sem considerar as linhas de abertura e alguns licks em loop pouco antes do encerramento. O solo em foco aqui é o do meio, que dura pouco mais de três minutos. Mas não deixe de conferir também o primeiro, que se inicia aos 5:56.

#16: “Another Brick in the Wall, Part II” — David Gilmour & Tim Renwick (Pink Floyd; membro oficial e músico de apoio, respectivamente)
Sim, já temos David Gilmour de novo, naquela que na minha opinião é a melhor versão da segunda parte de “Another Brick in the Wall”, ainda que sem Roger Waters. Aqui, David duela com o músico de apoio Tim Rendwick, e quem ganha somos nós. Ao fundo, uma das linhas de baixo mais marcantes da história do rock, só que nos dedos do também contratado Guy Pratt, já que Roger não mais estava no grupo.

#15: “Nova Era” — Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt (Angra)
Primeiro, ela foi plagiada pelo Parangolé. Depois, caiu de paraquedas num pouco conhecido meme pró-Bolsonaro. “Nova Era”, uma das primeiras músicas do Angra que me apresentaram, é um destaque na discografia do quinteto e acabou ficando famosa pelos motivos errados. Querem razões melhores, além da óbvia qualidade? O solo de Kiko e Rafael, um dos primeiros que me marcaram na vida.

#14: “Stairway to Heaven” — Jimmy Page (Led Zeppelin)
Com certeza o solo mais manjado e “modinha” desta lista, mas ainda assim o mais lendário da história do rock. Executado pelo mestre Jimmy Page (coautor da faixa) em uma Fender Telecaster recebida das mãos de Jeff Beck (que, como ele, tocou no The Yardbirds) e plugada em um amplificador que ele não recorda se era um Supro ou um Marshall. Ao vivo, e usando sua icônica Gibson de dois braços, Jimmy normalmente estendia o solo, motivo pelo qual há versões desta música que ultrapassam (às vezes muito) a marca dos dez minutos.

#13: “Free Bird” — Allen Collins (Lynyrd Skynyrd)
Dobradinha de solos manjados e “modinhas”. Este aqui, receio, deve ter sofrido uma certa banalização por sua presença em dois jogos muito populares (Guitar Hero II e Grand Theft Auto San Andreas (embora neste último ele seja criminosamente cortado)) e também porque “toca Free Bird!” é o “toca Raul!” dos estadunidenses. Mas tudo bem, um solo que ocupa metade de uma música de dez minutos (o mais longo da lista!) que nem se trata de rock progressivo e que se tornou motivo de louvação à parte da própria faixa com certeza é um solo que me chamaria a atenção.

#12: “Peruvian Skies” — John Petrucci (Dream Theater)
E lá vem ele de novo. Desta vez, com um solo que teve o azar de ser lançado no disco mais injustiçado do Dream Theater, o inofensivo Falling into Infinity. Curiosamente, esta foi uma das primeiras músicas que eu ouvi do Dream Theater, mais ou menos em 2005, mas levou anos para eu perceber o quanto ela era boa, e somente um pouco depois eu notei o quanto este solo era maravilhoso. Tudo só melhorou quando eu comprei uma partitura digital oficial para aprender as partes de órgão que tocam ao fundo, mas lamentavelmente o aplicativo simplesmente saiu do ar sem explicações e eu fiquei na mão. Fuén…

#11: “Crawl” — Steve Morse (Flying Colors)
Pra mim, este é o melhor grupo de rock surgido nos anos 2010 – ainda que eu admita haver certa dose de covardia em colocar um supergrupo nesse posto. Nas guitarras, temos Steve Morse (o incontestável membro do Deep Purple e do Dixie Dregs), com o vocalista Casey McPherson apoiando na base e o tecladista/vocalista Neal Morse (sem parentesco) dando um eventual suporte adicional no violão. E nesta faixa, ele entrega um solo daqueles que até arrepia. Não deixe de conferir também o solo igualmente bom que serve de encerramento da faixa, além, é claro, de toda a discografia desta grande banda de rock progressivo, pop e hard.

#10: “Comfortably Numb” — David Gilmour (Pink Floyd)
Abrimos o top 10 com a última aparição de David nesta lista, e também com o último solo que considero manjado e “modinha”. Mas fazer o quê, o danado é uma obra-prima mesmo, ué. Aliás, os danados – apesar de ocorrerem em momentos diferentes, os dois solos desta música muitas vezes aparecem como um só em listas do tipo. O primeiro é bem simples, mas extremamente tocante (sem trocadilhos). O segundo demonstra mais poder de fogo, assemelhando-se ao que David desenvolveria mais tarde tanto em carreira solo quanto nos discos da banda sem Roger Waters.

#9: “Tears” — hide & Pata (X Japan)
Um dos primeiros solos de guitarra que me marcou na vida, uma das primeiras músicas do X-Japan que eu ouvi, e uma das baladas de rock/metal mais lindas já feitas pelo homem. É só isso que tenho a dizer sobre esta obra divina.

#8: “Chalice of Agony” — Henjo Richter (Avantasia; participação especial)
Numa faixa em que Tobias Sammet faz “trieto” com Andre Matos e Kai Hansen, quem se destaca é Henjo Richter (colega de Kai no Gamma Ray). A exemplo do solo de Sascha, este também começa inofensivo, só com uns arpeggios, mas na segunda metade as notas ganham mais independência e, bem, viram essa maravilha aí embaixo.

#7: “The Watchmaker’s Dream” — Arjen Anthony Lucassen (Avantasia; participação especial)
Dobradinha de Avantasia, e a última ocorrência da maior metal opera de todos os tempos nesta lista. Chega a soar ofensivo que Arjen apareça neste lista como “visitante” em outro grupo e não no seu próprio projeto (que é a melhor metal opera de todos os tempos), mas… este solo dele é simplesmente incrível. No Ayreon, ele acaba cedendo espaço para outros guitarristas brilharem em solos, e não por um acaso muitos vieram parar aqui. Para alguém que assumidamente não gosta de praticar e por isso não é virtuoso, Arjen conseguiu um posto bem elevado nesta lista…

#6: “Innocent” — ??? (Wada Kouji)
Ao falar de “Butter-Fly”, a 24ª da lista, eu disse que Wada Kouji tinha uma música de Digimon com um solo ainda melhor, reservado para uma colocação mais alta nesta lista. Pois aqui está: o encerramento para a quarta temporada, Digimon Frontiers. Se por um lado foi a partir daqui que a qualidade do anime começou a decair, musicalmente falando o nível permaneceu bem alto. A presença desta música na lista – e numa posição tão nobre – é muito provavelmente influência do fato dela ter uma das linhas de baixo mais incríveis que eu já ouvi em toda a minha vida. Mas… o solo é bom mesmo, pode ouvir sem medo. E tome mais um “anônimo involuntário”!

PS: Qual era a chance de duas músicas com quase o mesmo nome (“Innocence” (a 36ª) e “Innocent”) acabarem nesta lista?

#5: “Hold the Line” — Steve Lukather (Toto)
Não é o clássico riff de piano de David Paich. Não é a voz aguda de Bobby Kimball. Não é a bateria marchante de Jeff Porcaro. O que mais me agrada nesta música é o ótimo solo de Steve Lukather. Talvez você nunca tenha ouvido esta canção (apesar de fazer parte da tríade de ouro do Toto, junto com “Africa” e “Rosanna”), ou talvez não conheça nada desta banda, mas é virtualmente impossível não ter ouvido Steve – ele já participou de literalmente milhares de álbuns de uma gama muito ampla de gêneros e artistas diferentes – incluindo o brasileiro Gilberto Gil.

PS: Mais uma música sob a qual milhares de jovens felizes fizeram miséria no Grand Theft Auto San Andreas

#4: “Another Day” — John Petrucci (Dream Theater)
Sim, lá vem ele de novo. E esta nem é a última aparição de Petrucci nesta lista, o que significa que sim, ele estará no pódio! Nesta faixa dos primórdios do Dream Theater – repare no vídeo como o quinteto ainda era super jovem -, John reflete sobre a vida com o pai, que acabara de ser diagnosticado com câncer na época. Alguns anos depois, ele morreria e o evento renderia “Take Away My Pain”, do já mencionado Falling into Infinity. Seria imperdoável não mencionar também os dois solos de Jay Beckenstein, saxofonista soprano que deu um toque inesquecível a este grande momento dos deuses do metal progressivo.

#3: “Hotel California” — Don Felder & Joe Walsh (Eagles)
Eu só não digo que o pódio vai abrir com mais um solo manjado/”modinha” porque esta música é famosa como um todo, e possivelmente seu refrão é mais lembrado que o solo de mais de dois minutos que a encerra. Não vou falar da letra porque os próprios integrantes e ex-integrantes não conseguem chegar a um consenso sobre o que diabos ela significa. Vale dizer que a faixa se utiliza de uma progressão harmônica não usual para o rock, mas comum na música espanhola (especialmente a flaminca), o que lhe confere uma boa dose de autenticidade. Sobre o solo em si, ao tentar descrevê-lo, sinto-me como um oceanógrafo tentando falar de um tsunami ao vivo. Ele pode proferir as palavras que quiser, mas a onda simplesmente chega e o leva, junto com tudo o que houver ao seu redor.

#2: “The Ghost of Tom Joad” — Tom Morello (Bruce Springsteen; membro de apoio)
Muitos acusam Tom Morello, famoso por seu trabalho no Rage Against the Machine e no Audioslave, de ser “só pedais e efeitos”. Ele obviamente faz extenso uso desses apetrechos, mas… até para usá-los, você precisa entender o que está fazendo. E Tom com certeza entende. O tecladista Jens Johansson (do Stravovarius; mencionado lá em cima no solo nº 29) diz que quando você usa o pitch bend do seu teclado, você precisa ter uma nota específica em mente. Apesar de ser tecladista e não guitarrista, creio que o mesmo se aplica aos efeitos de uma guitarra. Neste solo estupendo, Tom Morello encerra de forma magistral uma faixa retrabalhada do grande Bruce Springsteen – cuja versão original já era ótima. Uma curiosidade é que logo antes da passagem de som para o show em que ela seria apresentada pela primeira vez com o ex-RATM na guitarra e também nos vocais, Bruce decidiu subir o tom da música – literalmente. Em seu curso de guitarra na plataforma MasterClass, Tom explica que não sabia se conseguiria alcançar as novas notas (oito tons acima), tampouco se soaria convincente – e para ele, que é politizado até o osso, soar convincente numa faixa cuja letra faz um protesto tão poético era vital. No fim, ele entregou uma das coisas mais lindas já feitas pela mão do homem. Não deixe de conferir também o solo intermediário, um duelo com o próprio Bruce, aos 2:38. Vale lembrar que esta música foi executada várias vezes no palco desde 2008 e só em 2013 foi registrada em estúdio para um lançamento no começo do ano seguinte. Vale correr atrás dessas versões ao vivo e conferir as primeiras variações da obra.

#1: “The Ministry of Lost Souls” — John Petrucci (Dream Theater)
E o guitarrista que mais pareceu nesta lista é também o que a lidera. Agora, permitam-me admitir que este final foi um tanto “anti-climax”. O solo em questão é até bastante simples comparado à maioria dos outros e principalmente levando em conta um solo típico de Petrucci, sem falar que ele flerta muito perigosamente com a definição “solos que são na verdade apenas frases em loop”, que usei como critério de exclusão no meu processo de curadoria. Mas ele te atinge em cheio na alma – se me permitem o trocadilho com o título – especialmente se você ouve a faixa inteira e ainda por cima prestando atenção na letra. Vale lembrar que ele é somente o terceiro de três solos que John entrega aqui. O primeiro (3:21) é um “aperitivo” do final e o segundo (9:00) é um duelo enfurecido com Jordan.

Menções honrosas
Alguns solos que não figuraram aqui, mas me agradam muito e eu recomendo (em ordem aleatória):

  • “Strutter” – Kiss
  • “Lugar Nenhum” – Titãs; versão Volume Dois
  • “End of All Hope” – Nightwish
  • “Eva” – Nightwish
  • “Wishmaster” – Nightwish
  • “The Day That Never Comes” – Metallica
  • “Dictatorshit” – Sepultura
  • “Dahlia” – X Japan

Andre Matos: a voz que orgulhava um país que não a merecia

andre matos ao vivo em um palco cantando ao microfone

Andre Matos em 2009 (Foto: Raúl Ranz, sob licença CC-BY-SA)


O segundo sábado de junho de 2019 reservou uma desagradável surpresa para a comunidade heavy metal: a morte do cantor e pianista Andre Coelho Matos, mais conhecido pelo primeiro e último nomes. As notícias sempre o resumirão como “ex-vocalista do Angra”, mas nós todos sabemos que ele foi muito mais do que isso.

Andre era uma referência no metal internacional, e isso ficou óbvio pela quantidade de músicos e bandas das mais diversas vertentes do heavy metal e dos mais diversos países que manifestaram pesar pela sua morte. Todos unânimes em reconhecer seu talento, seu profissionalismo e sua relevância.

Pioneirismo, Iron Maiden e múltiplas bandas


Ainda adolescente, Andre Matos fundou o Viper, um dos grupos mais importantes do metal nacional. Dois álbuns e alguns anos depois, conforme a banda se aventurava no thrash metal, ele foi se aventurar em música clássica e conquistou uma graduação no ramo. No início dos anos 1990, formou o Angra, que viria a ser a segunda banda mais relevante do heavy metal brasileiro, e pôde dar vazão simultânea aos dois gêneros musicais aparentemente antagônicos que ele tanto apreciava.

Poucas pessoas percebem, mas a mistura de heavy metal com música erudita que o Angra fazia já em sua estreia, Angels Cry (1993), ainda podia ser considerada revolucionária para a época, e certamente ninguém esperava que uma banda fora da Europa empreendesse isso. Mas o Angra o fez – e não recebe o devido crédito por seu pioneirismo, devo adicionar.

Já com o disco seguinte, o Angra lançou um grande clássico: Holy Land (1996), em que o heavy metal colidia não apenas com o erudito, mas também com a própria música brasileira. Novamente, temos aqui Andre Matos em cada nota musical. O único grande defeito do álbum foi ter sido lançado pouco depois de Roots, a revolucionária joia musical com a qual o Sepultura abalou as estruturas do thrash metal e eclipsou totalmente o trabalho do grupo paulista.

Do Brasil para o outro lado do Atlântico agora. Quando Bruce Dickinson deixou o Iron Maiden em 1993, Andre foi um dos mais cotados para substituí-lo. Na verdade, ele só não entrou por ser latino-americano. O então quarteto britânico optou pelo conterrâneo Blaze Bayley, com quem ficariam por meia década. De qualquer forma, fica o exemplo do quanto Andre já era consagrado fora do Brasil em tão pouco tempo de carreira. Isso mais de 20 anos antes de Kiko Loureiro entrar para o Megadeth e deixar toda a comunidade headbanger nacional cheia de orgulho – gostando dele ou não.

As aventuras musicais no Angra renderam apenas mais um lançamento: Fireworks (1998). Conflitos com outros membros e principalmente com o empresário da banda levaram o cantor a largar o grupo e ainda levar junto o baixista Luis Mariutti e o baterista
Ricardo Confessori, com quem ele formou o Shaman – outra banda de grande relevância no metal nacional. Sua história no grupo rendeu dois álbuns, sendo o primeiro deles (Ritual, 2002) quase tão fora da caixa quanto Angels Cry foi.

Foi nessa época também que ele iniciou sua participação no Avantasia, metal opera encabeçada pelo amigo Tobias Sammet, do Edguy. Andre deixou sua marca em algumas faixas de The Metal Opera I e II (os dois primeiros álbuns do projeto) e depois apareceu em apenas mais uma música: “Blizzard on a Broken Mirror”, do The Wicked Symphony (2010). Por outro lado, ele fez diversas aparições ao vivo com o projeto. Um de seus últimos shows foi justamente na etapa brasileira da turnê do Moonglow (2019, resenhado neste blog), poucos dias antes de sua morte.

Com seu falecimento, apaga-se também o sonho de um dia vê-lo no Ayreon, outra grande metal opera, cujo líder (Arjen Anthony Lucassen) já havia declarado que tanto ele quanto Edu Falaschi (seu sucessor no Angra) estavam na “wish list” de vocalistas para o projeto – juntamente a centenas de outros nomes.

Outras parcerias notórias incluem “Prince with a 1000 Enemies”, em Rabbits’ Hill, Pt. 1 (2012, resenhado neste blog), do Trick or Treat, grata surpresa do power metal italiano na última década; e sua participação no coral de Consign to Oblivion (2005), do Epica.

No início de sua última década de vida, Andre formou com Timo Tolkki (ex-Stratovarius) o Symfonia, supergrupo de power metal que contava ainda com Mikko Härkin, Jari Kainulainen e Uli Kusch. O que era para ser um álbum estupendo acabou sendo um lançamento genérico que não agradou a crítica e empolgou apenas um punhado de fãs mais apaixonados. A banda encerrou suas atividades em cerca de um ano após mais um surto do instável Timo.

Como artista solo, Andre lançou três discos. Apesar da qualidade da banda de apoio e de faixas memoráveis como “How Long (Unleashed Away)” e “Endeavour”, sua carreira solo nunca realmente alcançou o mesmo nível de relevância e sucesso que sua história em outras bandas, mas não deixa de ser parada obrigatória para quem quer conhecer a obra dessa lenda.

Vegetariano, corintiano, discreto… ignorado


Andre era vegano convicto e falava orgulhosamente de sua opção de vida, que o levou a um calendário especial ilustrado com imagens de outras personalidades veganas ao lado de animais.


Uma qualidade ainda maior sua é a de corintiano. Quando o Timão foi em busca do bicampeonato mundial em 2012, Andre foi flagrado cantando uma versão em japonês do hino do clube paulistano. Certos privilégios, só quem faz parte do bando de loucos tem.

Andre era um sujeito discreto e, logicamente, seu velório foi reservado, longe das lentes das câmeras e do assédio dos fãs. Seus parentes demoraram a falar com a imprensa sobre sua morte e só o fizeram em consideração aos fãs. Pouco se sabia de sua família, exceto que ele tinha um filho na Suécia.

Apesar disso, fiquei surpreso negativamente que o Jornal Nacional, telejornal mais assistido do Brasil, não se dignou a sequer mencioná-lo na edição do dia de sua morte. Não que eu esperasse cobertura ao vivo do funeral, uma longa reportagem biográfica ou algum outro privilégio normalmente reservado apenas aos enlatados promovidos pela emissora.

Mas simplesmente ignorar a morte de um músico tão reconhecido lá fora pode não ser mero desdém pela cultura não-hegemônica. É talvez sintoma de algo mais grave, como o repertório cultural deficiente dos novos jornalistas. Quer dizer, muitos naquela redação talvez nem soubessem quem Andre Matos era, ou talvez não tivessem discernimento suficiente para determinar a importância de noticiar sua morte.

A maneira fria ou meramente nula com que a morte de Andre Matos foi recebida pela imprensa em geral, bem como o fato de sua música ser negligenciada em favor das bobajadas costumazes, são motivos mais que suficientes para dizermos que ele era um talento que o Brasil não merecia – como tantos outros, de tantas áreas diferentes. Mesmo cantando quase sempre em inglês, Andre contribuiu mais para a cultura brasileira (dentro e fora daqui) do que mil desses nomes efêmeros que poluem as rádios.

E só para justificar o “quase” usado no parágrafo anterior, encerremos este post com um registro dele cantando em português:

Resenha: Moonglow – Avantasia

Reprodução da capa do álbum 'Moonglow', do Avantasia. Trata-se de uma ilustração fantasiosa de um garoto visto de costas contemplando uma paisagem surreal noturna de diversas cores e cercado de árvores

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast Records)

Apesar de dever muito para a discografia do Avantasia, o sétimo disco de estúdio da metal opera do vocalista, baixista e tecladista Tobias Sammet, Ghostlights (resenhado neste blog), conseguiu boas colocações nas paradas e foi sucedido por uma turnê, alcançando o sucesso comercial que já é característico do projeto.

Isso garantiu sobrevida a esta banda que Tobias praticamente tinha dado como encerrada em 2014 e garantiu um oitavo lançamento, este Moonglow. Como seus dois antecessores (The Mystery of Time (também resenhado neste blog) e o já mencionado Ghostlights), ele tem um time relativamente enxuto. São nove vocalistas convidados (fora o próprio Tobias) e apenas quatro instrumentistas, sem convidados para solos: Tobias no baixo e nos teclados, Sascha Paeth nas guitarras e no baixo, Michael “Miro” Rodenberg nos teclados e Felix Bohnke (colega de Tobias no Edguy) na bateria.

Mesmo assim, o rockstar alemão conseguiu produzir uma obra que não é apenas melhor que suas duas antecessoras. Ela é simplesmente o melhor trabalho do projeto desde as aparentemente insuperáveis The Metal Opera I & II, lá do começo do século.

Iniciando a jornada musical de 70 minutos, Tobias inexplicavelmente carrega a abertura “Ghost in the Moon” nas costas, frase que aqui significa “ele cantou sozinho numa faixa de quase dez minutos mesmo tendo nove ótimos convidados disponíveis”. É uma faixa boa, mas o disco ainda tem coisas muito melhores a oferecer.

E esta minha afirmação já se comprova logo na sequência, “Book of Shallow”, uma faixa relativamente agressiva, ainda que sem perder o clima fantasioso. Quase metade dos convidados já dá as caras (ou melhor, as vozes) aqui: Hansi Kürsch (Blind Guardian), Ronnie Atkins (Pretty Maids), Jørn Lande (Lande, ex-Masterplan) e Mille Petrozza (Kreator). Este último, diga-se de passagem, não cantou em mais nenhuma, mas não tem problema, pois soube valorizar cada um dos poucos segundos que lhe foram reservados.

A faixa título tem a participação de ninguém menos que Candice Night. Quem acha que a doce voz empregada por ela no Blackmore’s Night não caberia no Avantasia se enganou tanto quanto quem achou que a faixa seria necessariamente a mais comercial. É verdade que ela está entre as menos pesadas, mas Candice cantou como qualquer outra vocalista de heavy metal – e ela já está beirando os 50, vale lembrar.

Outra grata surpresa de Moonglow é “The Raven Child”. Nem tanto pela faixa em si (que é excelente, regada a suaves toques exóticos como harpas e sutis aromas celtas), mas pelo fato de, mesmo sendo a mais longa (mais de 11 minutos), foi a escolhida para divulgar o trabalho, com lyric video e tudo, numa aposta similar à feita pelo holandês Arjen Anthony Lucassen em 2017, quando escolheu “The Day That the World Breaks Down” para apresentar The Source (resenhado neste blog), então novo disco de sua metal opera Ayreon, ao mundo.

“Starlight” e “The Piper at the Gates of Dawn” têm em comum o fato de apostarem em introduções com melodias sintéticas que lembram uma mistura de “Crestfallen”, do The Wicked Symphony (2010) e “Breathe”, do Age of the Joker (resenhado neste blog), lançado em 2011 pelo Edguy, banda principal de Tobias. Apesar disso, é uma covardia comparar a primeira, curta e contando apenas com a participação de Ronnie, com a segunda, longa, dinâmica e adoçada não apenas com o próprio Ronnie, mas também com Geoff Tate (Operation: Mindcrime, ex-Queensrÿche), Jørn, Eric Martin (Mr. Big) e Bob Catley (Magnum), sem falar num ótimo duelo de guitarras de… Sascha com ele mesmo?

Entre uma e outra, temos “Invincible”, balada orgânica e puramente sinfônica que cede todo o espaço possível para Tobias demonstrar seus talentos vocais com Tate e prepara o terreno para um dos destaques do álbum, “Alchemy”, novo dueto com Tate, agora sustentado por um poderoso heavy metal.

“Lavander” é talvez a faixa menos interessante, em que pese ter Bob como convidado. Aliás, fico até surpreso de Tobias não ter selecionado esta com single de divulgação. Os grupos do gênero quase sempre pegam a faixa mais chinfrim para isso…

Antes mesmo de ouvir “Requiem for a Dream”, eu já sabia que seria outro ponto alto, pois Tobias sempre reserva a nata para seu parceiro de longa data Michael Kiske (Helloween, Unisonic), o único cantor convidado a aparecer em toda a discografia do Avantasia até agora.

O fechamento da obra nos traz um cover de “Maniac”, de Michael Sembello, cantado por Eric, apenas porque sim. Só os recém iniciados no mundo de Tobias Sammet estranhariam uma música dessas num álbum dele, mas ainda fica a dúvida sobre como exatamente esta faixa se relaciona com o enredo…

Há ainda uma faixa bônus, “Heart”, outra em que Tobias canta sozinho. Ela não tem nem metade do encanto de suas companheiras e a decisão de deixá-la de fora acabou se mostrando acertada.

O maior êxito de Moonglow é ser atraente para fãs tanto da fase antiga quanto da fase nova do Avantasia. Ele traz fartas doses de power metal sinfônico com participações memoráveis de seus convidados, tal como acontecia nas Metal Operas. Por outro lado, mantém o apelo mais comercial e pé no chão dos lançamentos recentes, que tornaram mais fácil a tarefa de reproduzi-los ao vivo.

Nota = 5/5.

Abaixo, o lyric video de “The Raven Child”:

Nota: um rascunho desta resenha foi publicado por engano no dia 15 de fevereiro de 2019 e os assinantes do blog receberam um e-mail avisando da nova postagem. O Sinfonia de Ideias pede desculpas pelo inconveniente.