Resenha: Doze Flores Amarelas – Titãs

Capa do álbum Doze Flores Amarelas, dos Titãs

Reprodução da capa do álbum (© Universal Music Brasil)

Doze Flores Amarelas tinha tudo para ser um grande fracasso. Os Titãs, que começaram com nove integrantes, estão hoje reduzidos a três, com dois membros de apoio completando a formação. São um trio de cinquentões, beirando a terceira idade, e que sempre teve formações 100% masculinas. Para coroar, perderam em 2016 Paulo Miklos, vocalista, guitarrista, membro fundador e ainda por cima ator – sua vaga foi preenchida pelo guitarrista de apoio Beto Lee, filho da Rainha do Rock.

Os caras decidiram estrear sua nova fase com uma ópera rock (termo que sugere algo encorpado) sobre três jovens estupradas (protagonismo feminino) e temas juvenis (protagonismo… juvenil) que vem sendo apresentada ao vivo num espetáculo de teatro (um integrante com experiência em atuação teria sido uma carta na manga). Era praticamente como ter de passar um rolo compressor sobre mil ovos sem quebrar nenhum – e eles quase conseguiram.

Doze Flores Amarelas chegou em doses homeopáticas, com os três atos que compõem o disco sendo liberados com mais ou menos uma semana de diferença. E chegou já como um dos grandes lançamentos do rock nacional não só do ano, mas talvez da década, especialmente se levarmos em conta o conjunto da obra (espetáculo, argumento, etc.). Teve seus tropeços, mas eles não comprometem o resultado final.

Especialmente porque um deles ocorreu fora do âmbito estritamente musical: o trabalho vem sendo erroneamente divulgado como a primeira ópera rock de uma banda brasileira, mas nós sabemos que isso é balela. Bigorna, do Cartoon; e Cartélico Vol.1 – Fronteira, Trago & Querência (resenhada neste blog), do Cartel da Cevada, que o digam. Isso pra não entrar no mérito das metal operas.

Enfim, do ponto de vista instrumental, temos uma das atuações mais empolgantes da história dos Titãs. O álbum dá prosseguimento àquela crueza retomada em Nheengatu (resenhado neste blog) e a tempera com a densidade de projetos mais ambiciosos, como Volume Dois, resultando em quase 30 inéditas de alta qualidade.

O disco bebe principalmente do punk rock, abrindo espaço também para rockabilly (“O Facilitador”), baladinhas (“Nossa Bela Vida”), rock alternativo (“Mesmo Assim”), eletrônico (“Me Chamem de Veneno”) e sinfônico (“Pacto de Sangue”, “É Você” e “Sei Que Seremos”), entre outros.

O grupo só foge do rock na abertura e nos três interlúdios, que trazem a narração mais que especial de Rita Lee. São todas peças eruditas com toques de Villa-Lobos e Beethoven, exceto pelo “Interlúdio 1”, tocado só no órgão, um momento Terry Riley do vocalista, tecladista e baixista Sérgio Britto e a passagem que mais se aproxima do rock progressivo, que deu à luz algumas das óperas rock mais importantes, como Quadrophenia (The Who) e The Wall (Pink Floyd).

O que fica claro após algumas audições é que a chegada de Beto Lee fez um bem danado aos paulistas, que ganharam peso nas seis cordas e uma bem-vinda lufada de renovação na riffagem. Boa parte do sucesso do álbum passa pelas mãos dele, consagrando-o como um substituto mais do que acertado.

As letras conseguem ser diretas sem soarem bobas, retendo certa poesia. Pontos altos incluem “Fim de Festa”, que nos permite visualizar os estupradores cercando suas vítimas como presas; “Me Estuprem”, que, apesar da crítica que faço mais abaixo, é de uma franqueza perturbadora; a viagem filosófica que transforma um coveiro num jardineiro de mortos em “O Jardineiro”; e a despedida de vida “Réquiem”.

E, ainda bem, mulheres aparecem ocasionalmente para cantar, evitando assim o que teria sido um erro imperdoável da banda na era do empoderamento feminino e do lugar de fala. São elas: Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yás Werneck, cada uma dando voz a uma das três Marias que protagonizam a trama assinada por Hugo Possolo e Marcelo Rubens Paiva.

Mas isso não evitou que Doze Flores Amarelas cometesse uma falta grave. Alguns dos momentos-chave do enredo, como o estupro, são cantados por Sérgio Britto. Ora, se havia não uma, não duas, mas três mulheres disponíveis, por que não foram elas as escolhidas? Ficaram relegadas a meros vocais de apoio na faixa em questão (“Me Estuprem”). O erro se repete parcialmente em “Eu Sou Maria”, por exemplo.

Outra característica singular da ópera rock é que a média das músicas cantadas pelo baixista Branco Mello é notavelmente superior à média das cantadas por Sérgio. E isso nada tem a ver com composição, uma vez que Sérgio assina quase todas. Com tantos vocalistas a menos – já foram seis! -, o grupo fica cada vez mais sujeito a este tipo de comparação.

Não poderia deixar de mencionar ainda que a banda se arrisca em dois importantes ineditismos: um que deu errado e outro que deu certo. O primeiro é a faixa “Weird Sisters”, cantada totalmente em inglês – macarrônico, no caso de Sérgio. E não fica claro em momento algum por que ela foi a “chosen one”. No caso do acerto, falo da primeira música de estúdio com vocais do guitarrista Tony Bellotto: “Canção da Vingança”. Após a saída de Paulo, ele já vinha ganhando intimidade com o microfone ao vivo em “Pra Dizer Adeus”.

Doze Flores Amarelas mostra um Titãs mais vivo e antenado do que nunca, saindo de cabeça erguida da sexta prova do “um membro a menos”, embora Mario Fabre e Beto Lee estejam mais incorporados do que nunca. A formação enxuta está espremendo os músicos envolvidos e extraindo o melhor possível deles. O ambicioso projeto não causa o impacto de um Tommy da vida, mas se nem eles prometeram isso, quem sou eu para cobrar…

Nota= 4/5.

Abaixo, o lyric video de “Nada Nos Basta”:

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Resenha: Memórias do Fogo – El Efecto

Reprodução da capa do álbum (© Sagitta Records)

Desde 2012, quando o El Efecto lançou o ótimo Pedras e Sonhos, o Brasil vem passando por turbulências políticas e sociais como há muito não se via. Para uma das bandas mais politizadas do rock nacional recente (e uma banda que, diferente da grande maioria das outras desse tipo, não se furta a dar nome aos bois em suas críticas (vide “Cabrais”)), surpreende que Memórias do Fogo, lançado este mês e disponível para download no site do grupo, seja tão sóbrio e atemporal.

Em vez de músicas sobre o golpe de 2016, os protestos de 2013 ou o tenebroso cenário político que se desenha para outubro deste ano, temos faixas que poderiam ter sido escritas 10, 20 anos atrás. Temas como racismo, capitalismo e a ditadura militar preenchem do começo ao fim o disco que marca a estreia dos guitarristas e vocalistas Tomás Tróia e Cristine Ariel, sendo esta última a primeira integrante feminina do agora sexteto.

E por que um conjunto de apenas sete canções está sendo chamado de disco, e não de EP? Porque o El Efecto criou sete universos, cada qual bastante particular em si mesmo e dono de uma mensagem forte, tanto na letra quanto no instrumental. É uma mistura da criatividade do Pink Floyd com a variedade da música brasileira, como se isso fosse possível. As guitarras pesadas se alternam com batucadas sinistras de um jeito que levaria Caetano Veloso a ser linchado, e não apenas vaiado no TUCA em 1968. Podemos então dedicar um parágrafo a cada faixa.

A abertura “Café”, se é que podemos chamar de “abertura” um trabalho de mais de oito minutos, já é um bom exemplo do que falamos no parágrafo anterior, com suas mudanças abruptas de andamento, camadas de sopros e variações de intensidades, com destaque para os acordes de cavaquinho ao final, que parecem imitar o movimento de um cafeicultor peneirando grãos.

“O Drama da Humana Manada” mergulha mais fundo nessa mistura de sons, alternando riffagens heavy metal com passagens de samba e outros ritmos nacionais a ponto de deixar talvez até o Angra admirado. Ela faz uma (necessária) crítica à glorificação desenfreada do trabalho e à falácia do “quem luta, alcança”. Céus, eu poderia fazer um post inteiro só sobre isso.

“O Monge e o Executivo” é uma daquelas faixas épicas que o grupo carioca costuma fazer, desta vez narrando a jornada dum personagem não muito raro no folclore corporativo: o executivo “zen”, que busca a paz interior enquanto lucra com a exploração dos outros. Convenientemente, a banda opta aqui por um instrumental essencialmente sereno, com frases típicas orientais para ambientação, ao mesmo tempo em que recorre ao rap da convidada Helen Nzinga para tecer suas críticas sociais de forma mais direta.

“Trovoada” é, talvez, uma das mais marcantes do disco. Seguindo com a mistura de ritmos, revela-se uma das mais progressivas, com direito a andamentos intrincados e tudo. Na letra, temas como o racismo e a escravidão brotam nesse terreno musicalmente fértil.

Além dessas quatro “épicas”, temos três curtas: “Carlos e Tereza”, uma mistura de carimbó, samba e rock em homenagem aos irmãos Marighella, expoentes da luta contra a ditadura militar; “Chama Negra”, que destoa um tanto do resto do disco, por ser toda acústica e relativamente simples, embora tal fato possivelmente se explique na força de sua letra, expressa na penetrante voz da convidada Rachel Barros; e o enceramento “Incêndios”, que acelera as coisas com aromas de punk, rockabilly e, de novo, rock progressivo.

Não chega a ser uma novidade o El Efecto criar canções tão ricas em suas individualidades, mas Memórias do Fogo leva isso a um patamar novo. E isso se deve em grande parte ao sem-número de músicos de apoio que ajudaram a engrandecer a densidade musical do disco.

Temos aqui, senhoras e senhores, um forte candidato a constar nas listas de melhores do ano, embora 2018 talvez não chegue a terminar, como diria Zuenir Ventura a respeito de 1968.

Nota = 5/5

Abaixo, o vídeo de “O Drama da Humana Manada”:

Resenha: Songs of Experience – U2

Reprodução da capa do álbum (© Interscope/Island Records)

Demorou três anos, mas finalmente o lendário quarteto irlandês U2 apresentou ao mundo o “irmão” de Songs of Innocence (resenhado neste blog), Songs of Experience. Álbuns irmãos geralmente vêm no mesmo ano (vide os Universal Migrator do Ayreon; Mezmerize/Hypnotize do System of a Down; Justice/Guilty do GLAY, etc.), mas muita coisa aconteceu no último triênio – e o conjunto de eventos acabou atrasando o lançamento do trabalho, que virou quase uma colcha de retalhos.

Extensas turnês mundiais, um acidente de bicicleta que deixou Bono temporariamente de molho, a escalada conservadora pelo mundo e a incapacidade dos próprios membros de ficarem plenamente satisfeitos com o produto: tudo isso foi fundamental para o disco ficar com essa cara.

As turnês forçaram a banda a escrevê-lo aos poucos, entre um show e outro – fórmula que já se tornou bastante comum atualmente. Ao mesmo tempo, o acidente de Bono deu ao vocalista bastante tempo para criar música nova. Por outro lado, os novos paradigmas sociopolíticos fizeram o grupo refletir se o álbum como ele estava em 2016 passava a mensagem que eles realmente gostariam de expressar como resposta às mudanças. Por fim, a produção frankensteiniana viu os membros gravarem suas partes separadamente, sendo que eles preferiam preparar o disco juntos. Assim, os quatro decidiram refazer quase tudo.

E no que deu tudo isso? Bem, a abertura “Love Is All We Have Left” empolga tanto quanto uma chuva de meteoros num dia nublado, mas a coisa começa a melhorar logo depois. “Lights of Home”, que reaparece numa interessante versão em cordas entre as faixas bônus da edição de luxo, é um trabalho de mais atitude, mais condizente com o que a banda é hoje.

Ao longo do disco, especialmente na primeira metade, veremos várias canções que, em maior ou menor grau, mantêm a essência do U2 ao mesmo tempo em que incorporam elementos modernos. Com “essência”, refiro-me às linhas marchantes de Larry Mullen Jr., o baixo proeminente de Adam Clayton, os acordes e licks rústicos de The Edge e o interessante diálogo que os dois instrumentos travam há quatro décadas. E com “elementos modernos” quero dizer, por exemplo, camadas de teclados valorizadas na mixagem e batidas eletrônicas.

Esse lado do álbum se manifesta em “You’re the Best Thing About Me” (cuja remixagem do DJ norueguês KYGO é legal por si só, mas graças a Lemmy, aparece apenas como bônus da edição de luxo em CD), “The Showman (Little More Better)”, “Red Flag Day”, “The Blackout” (que também foi remixado numa faixa bônus, desta vez por Jacknife Lee, e cujo resultado ficou chatíssimo) e a interessante faixa bônus “Book of Your Heart”, cuja roupagem rústica lhe confere um jeitão de demo.

Outros possíveis exemplos são “Get out of Your Own Way” e “American Soul”, que se distinguem das outras por serem emendadas por um breve discurso do rapper Kendrick Lamar, queridinho da crítica mainstream. “American Soul”, especificamente, é de uma crueza notável, descrevendo o país como um conceito, em vez de um pedaço de terra.

Mas Songs of Experience também tem seus patinhos feios. “The Little Things That Give You Away” e “Landlady”, que apresentam sintomas de coldplayzação; a balada de rock moderninho “Love Is Bigger Than Anything in Its Way”; o insosso remix de “Ordinary Love”, que pouco mudou a homenagem em vida a Nelson Mandela; e “Summer of Love”, pop rock meio praiano com a tímida (imperceptível?) participação de Lady Gaga. Aliás, são vários os vocalistas que aparecem mais no encarte que nas próprias músicas das quais participam.

“13 (There Is a Light)” parece um dos “vilões” do disco, com seu instrumental minimalista e sua percussão excessivamente abafada, mas sua delicadeza, sua letra verdadeiramente inspirada e sua vocação para ser a acendedora oficial de celulares e isqueiros nas próximas turnês do grupo a tornam, na verdade, um dos destaques.

Um dos maiores méritos de Songs of Experience é permitir, na maior parte das vezes, que o quarteto todo soe nítido a despeito dos produtores, tecladistas e programadores envolvidos, que formam um time mais numeroso – bem diferente do que vem ocorrendo com o Coldplay e o Linkin Park, por exemplo, que se deixaram soterrar por camadas e mais camadas eletrônicas.

Por outro lado, o álbum patina em modernices dispensáveis e sofre para se manter coeso, talvez devido à produção feita aos trancos e barrancos e por várias pessoas diferentes. A inconstância não é exatamente uma novidade para este grupo que nunca fez um disco cheio de músicas iguais, mas as faixas diferentonas às vezes destoam tanto que dão a ele uma carinha de coletânea. Ouço uma banda querendo soar fiel ao seu passado, mas constantemente seduzida pelas tentações do presente.

Nota= 3/5. O décimo quarto lançamento de estúdio do U2 não chega a ser ruim porque, oras bolas, é o U2. Mas está abaixo dos melhores momentos do catálogo do quarteto. Todo fã vai querer ter o CD na sua estante, mas possivelmente ele acabará acumulando poeira.

Abaixo, o vídeo de “You’re the Best Thing About Me”: