Resenha: Unlikely – Far from Alaska

Reprodução da capa do álbum (© Elemess)

É uma introdução clichê, mas… não dá pra não começar este texto dizendo que “muita coisa aconteceu” desde o último álbum do Far from Alaska, o ótimo modeHuman (resenhado neste blog). O quinteto potiguar baseado em São Paulo tocou em festivais grandes, fez parcerias com outras potências emergentes do rock nacional, foi elogiado por músicos e jornalistas estrangeiros e multiplicou sua população de fãs numa velocidade chinesa, sacramentando o que eu já previra ao encerrar a resenha de sua estreia.

A banda não tinha atmosfera melhor para começar a bolar seu segundo trabalho de estúdio. Por meio de uma campanha de financiamento coletivo, viajaram aos EUA e sentaram com a gabaritada Sylvia Massy (System of a Down, Red Hot Chili Peppers, Johnny Cash, Tool, entre outros) para preparar Unlikely, cujo título dialoga com o fato de serem um grupo de rock de Natal conhecida até lá fora.

O álbum começa com tudo (ou com o “pé na porta”, como eles tão bem descreveram) com o single “Cobra”, que manda sem anestesia e com meros 15 segundos de aviso prévio o refrão e o riff mais agressivos do disco. Nada na discografia deles merece mais o adjetivo “visceral”.

Mas Unlikely não é só pancada seca. Logo depois da abertura, “Bear” já chega com riffs robustos como o animal que lhe dá nome e bem mais elementos eletrônicos. Até a última faixa, esses elementos serão incorporados em maior ou menor grau – notoriamente em “Monkey” e “Coruja”. E “Elephant”, apesar do animal que lhe dá nome, pode ser considerada a balada do disco, talvez?

Em “Pig”, temos um trabalho de Cris Botarelli na lap steel guitar que a torna uma espécie de irmã de “Politiks”, do modeHuman. Mas o que mais chama atenção é como os primeiros versos parecem uma mistura de “All I Really Want”, da Alanis Morissette, com “Just Like That”, do Squidd – canção que só conhece quem jogou 1080º Avalanche para Game Cube. O sempre bem-vindo lap steel reaparecerá na excelente “Armadillo”, que evoca um clima tão desértico quanto o cenário do clipe de “Dino vs. Dino”, do lançamento anterior.

O bom humor que sempre foi característico do quinteto se manifesta em Unlikely bem mais do que em modeHuman. Exemplos são faixas como “Pizza” e sua letra absolutamente despretensiosa; a meta-canção “Rhino”, que pega o gritado e emotivo refrão de “I Will Always Love You” e o transforma em algo tenso combinado a riffs marchantes que nos fazem visualizar o animal do título se aproximando; e a divertida mensagem subliminar ao final de “Slug”. Some isso ao trabalho visual todo transado e colorido e entenda por que esta obra é realmente a cara deles.

Aliás, é isso que o grupo tem defendido em entrevistas. Que Unlikely é mais “solto” que modeHuman. Pelos motivos mencionados acima, ele é muito mais condizente com a imagem que o Far from Alaska passa ao vivo e em suas redes sociais. As piadinhas, as fotos de divulgação descontraídas, a linguagem jovial, nada disso combinava com a seriedade do debut deles – em que pese ser um discão, e em que pese eu desejar que eles um dia voltem a fazer algo mais complexo e “cabeça”.

Por fim, vale ressaltar que o álbum não tem todo esse equilíbrio entre pop e rock que tem sido alardeado aos quatro ventos. É rock do começo ao fim, ditado pelas guitarras cruas de Rafael Brasil, a explosão rítmica de Edu Filgueira e Lauro Kirsch e os vocais firmes de Emmily Barreto. Os teclados de Cris (que passaram por curiosos experimentalismos nas mãos de Sylvia, com os cabos passando por salsichas, lâmpadas e furadeiras) são um charme indispensável, é verdade, mas qualquer toque de pop é apenas isso – um toque. Um tempero. Sem o qual a banda não seria o que é.

Nota = 5/5. Criatividade na composição, perícia na produção e na execução, coragem para continuar ousando… Tudo isso ajuda a fazer de Unlikely um dos melhores lançamentos nacionais do ano. E agora podemos até usar o manjado adjetivo “honesto” para classificá-lo, por se tratar da obra que transmite devidamente em música o que eles manifestam visualmente.

Abaixo, o vídeo de “Cobra”:

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Resenha: Step into Light – Fastball

Reprodução da capa do álbum (© 33 1/3 Records)

No Brasil, o simpático trio estadunidense de rock Fastball é bem pouco conhecido, apesar de seus hits “The Way” e “Out of My Head” terem figurado em rádios na última virada de século. Foram até regravados pelos cariocas do LS Jack numa versão aportuguesada da primeira faixa supracitada, mas fato é que a banda goza de um lamentável anonimato por aqui.

Satisfeitos porém com o sucesso no Texas, seu estado natal, os rapazes retornam em 2017 oito anos depois de seu último álbum, o bom Little White Lies. Mais recentemente, em 2013, para “enganar o estômago”, tivemos o lançamento de My Favorite Year (resenhado neste blog), ótima estreia solo do vocalista, baixista, tecladista e guitarrista Tony Scalzo.

Step into Light talvez não agrade de imediato, mas bastam poucas ouvidas para (re)conquistar o fã. A abertura “We’re on Our Way” resgata um peso que não se ouvia desde a estreia do trio, o punk Make Your Mamma Proud, de 1996. Tal clima punk será ressuscitado novamente na nona faixa, “Secret Agent Love”. Mas não, não é um álbum que volta às raízes.

É mais uma atualização do som mesmo. “Best Friend”, o divertido single “I Will Never Let You Down” e a faixa título, com seu compasso ternário-baladístico, são exemplos disso. São, indiscutivelmente, Fastball. Só que um Fastball dos anos 2010. Mas não se preocupe, saudosista: as ótimas “Just Another Dream” e “Hung Up” resgatam aquele “quê” particularíssimo do grupo.

As influências às vezes gritam. O dedilhado blackbirdístico dos Beatles dá as caras em “Behind the Sun” enquanto que o trio parece incorporar o popular quinteto escocês indie Franz Ferdinand no instrumental “Tanzania”.

E há ainda um bom pedaço do álbum formado por faixas que destoam bastante do som típico dos tiozões, evidenciando uma busca por uma música mais variada. Neste grupo, entram “Love Comes in Waves”, single divulgado lá atrás, em 2013, e com um forte apelo indie; “Lilian Gish” e sua sofisticada roupagem alternativa; e a pianística “Frenchy and the Punk”.

Além da afiada química musical dos membros e do talento para escrever coisas bem bacanas, o Fastball tem como marca registrada a maravilhosa harmonização vocal de Tony com o guitarrista Miles Zuniga. Arrisco dizer que os texanos perderiam quase metade de seu charme se não houvesse esse trabalho com as vozes. E, graças a Dio, tudo isso está bem condensadinho aqui, nos pouco mais de 30 minutos de Step into Light.

Nota = 4/5. A mescla bem calculada de trabalhos típicos, trabalhos diferentes e trabalhos que incorporam o novo ao tradicional resultam num ótimo laçamento desta pequena grande banda texana, mantendo o bom nível de seus lançamentos anteriores.

Abaixo, o vídeo de “I Will Never Let You Down”:

Resenha: O Pulso Ainda Pulsa – Vários Artistas

Reprodução da capa do álbum (© Crush em Hi-Fi/Hits Perdidos)

Sem muito alarde, uma vasta carteira de bandas novas brasileiras decidiu se reunir em 2016 sob a batuta de João Pedro Ramos (Crush em Hi-Fi) e Rafael Chioccarello (Hits Perdidos) para gravar um grande CD de tributos à maior banda do rock nacional em atividade: os Titãs. E esta última frase não foi copiada de nenhum comunicado de imprensa enviado pela assessoria da coletânea: os Titãs são, realmente, o maior grupo do rock brasileiro que ainda está gravando e se apresentando ao vivo.

Um tributo a uma banda deste calibre precisa ser muito bem bolado, urgindo um repertório bom e uma carteira de artistas que deem conta do recado. O resultado final atende a essas requisitos, mas não na totalidade da obra.

Eu dividiria as 33 faixas em três grupos: as que ganharam uma roupagem bacana e diferente, as que mudaram muito pouco e as que foram distorcidas além do que eu consideraria aceitável.

A abertura “Diversão”, por exemplo, ganhou uma roupagem meio hard rock bem gostosa de ouvir nas mãos do Thrill and the Chase. “Polícia”, por sua vez, aparece aqui numa interessante versão com elementos de punk e eletrônico criada pelo FingerFingerr. “Insensível” foi transformada numa melancólica balada grunge pelo Mundo Alto, enquanto que, com Cigana, “Deus e o Diabo” virou uma deliciosa peça de rock meio alternativo, meio funk. O clássico “Epitáfio” ganhou uma versão country nas mãos d’O Bardo e o Banjo, mantendo seu tom nostálgico e melancólico.

Coube ao tal do Danger City fazer a versão da faixa título, resultando em uma misteriosa canção que lista uma série de outras doenças, como que atualizando o sucesso. Não Há Mais Volta (com a participação de Badauí, do CPM 22) e Pedroluts mostraram mais ou menos (ou exatamente, no caso do segundo) como ficariam as faixas “Homem Primata” e “Não Vou Me Adaptar”, respectivamente, caso fossem regravadas pelo Matanza. “Disneylândia” ficou ainda mais pesada na regravação da banda Penhasco, embora o vocal não imponha o mesmo respeito. A versão de “Comida”, por BBGG, ficou um tanto peculiar, mas… a própria versão original deste sucesso não era lá muito convencional.

Você pode até achar que a versão de “Domingo” ganhou um tom um tanto deprê (mesmo para a letra melancólica da faixa), mas o resultado final ficou deveras satisfatório – parabéns aos Subcelebs. “Desordem”, cuja letra aparentemente nunca será obsoleta no Brasil, foi transformada num simpático trabalho de rock agitado pela banda que atende pelo sugestivo nome de The Bombers. “Medo” virou um rock alternativo na voz feminina de Camila Garófalo. NÃDA fez uma interessante versão instrumental violada de “Os Cegos do Castelo” sobre o riff principal de “Eu Não Aguento”. “Nome aos Bois” foi adaptada para uma peça alternativa pesada, que abre com um breve discurso do abominável deputado Jair Bolsonaro. A regravação é dos Giallos. O mesmo ocorreu com “Televisão”, de The Hangovern. Os resultados não chegam a ser ruins.

“Isso Para Mim É Perfume” perdeu toda a sua agressividade nas mãos do Porno Massacre, mas neste caso não foi uma decisão tão infeliz porque o repaginação deu uma cara ainda condizente a esta que é a letra mais escatológica da história dos paulistas. “Clitóris”, que também não é nada limpa, ganhou mais peso numa versão com elementos grunge de Sky Down. Assim como “Babi Índio”, na versão de Ostra Brains.

Agora, como dito anteriormente, tivemos em O Pulso Ainda Pulsa alguns exemplos de interpretações que descaracterizaram as originais de tal forma que as novas versões parecem trabalhos autorais que meramente se inspiraram em obras dos Titãs.

“Será Que É Isso Que Eu Necessito?”, notório petardo de Titanomaquia, o disco mais agressivo da banda, ganhou uma versão risivelmente leve, com as frases “ninguém fez nada de mais, filha da puta” sendo proferidas por uma doce voz pertencente à vocalista do S.E.T.I. Erraram até o nome da faixa, que aparece grafada como “Será Que é Isso o Que Eu Necessito”. “Flores para Ela” também acabou ficando um tanto estranha cantada na voz de uma mulher que parece mais amedrontada por uma barata no teto do estúdio que pelo abusador abordado na letra – e olha que estamos falando de Paula Cavalciuk, um interessante novo nome da nossa música. “Taxidermia” e “Nem Sempre Se Pode Ser Deus”, outros pesos-pesados de Titanomaquia, foram também tornados mais leves e combinadas no pout-pourri de clima gótico-eletrônico do Horror Deluxe. “Lugar Nenhum”, que recebeu várias versões diferentes ao longo da discografia dos próprios Titãs, foi transformada numa chata peça eletrônica por Subburbia, o que também ocorreu em “Estado Violência” de Gomalakka – ambas perderam sua imponência com isso.

“Tô Cansado” ganhou uma versão condizente até demais com seu título: os Moblins parecem ter sido obrigados a criar a versão após cinco dias de privação de sono. E isto não foi um elogio. “Flores” perdeu seu encanto na versão de Ruca Souza, que tentou enfeitá-la com uns versos nada a ver em seu encerramento – um esforço em vão. Os vocais de “Go Back”, a faixa que mais apanhou, parecem ter sido gravados apressadamente por áudio de Whatsapp e jogados no meio da salada instrumental bem amadora da banda All Acaso.

E houve as poucas faixas cujas versões não trouxeram grandes mudanças: “Corações e Mentes”, do Der Baum; “Flat – Cemitério – Apartamento”, do Aletrix; “Enquanto Houver Sol”, do Jéf; “Vossa Excelência”, do Color for Shane; “Hereditário”, dos Videocassetes; e “Bichos Escrotos”, dos Abacates Valvulados.

Se a escolha das bandas não foi 100% feliz, podemos elogiar bastante a montagem do repertório. Os Titãs já lançaram mais de 200 músicas diferentes e muitas delas foram sucessos radiofônicos – mesmo assim, a seleção não privilegiou os hits e deu espaço para algumas joias que só os fãs verdadeiros conhecem.

Nota= 4/5. Sendo um disco tributo de vários artistas, o trabalho de cada banda e músico aqui deve ser analisado isoladamente; como um todo, o tributo é bom e faz jus ao maior grupo de rock que nosso país tem a oferecer hoje.

Abaixo, o vídeo da banda Cigana regravando “Deus e o Diabo”: