Resenha: Songs of Experience – U2

Reprodução da capa do álbum (© Interscope/Island Records)

Demorou três anos, mas finalmente o lendário quarteto irlandês U2 apresentou ao mundo o “irmão” de Songs of Innocence (resenhado neste blog), Songs of Experience. Álbuns irmãos geralmente vêm no mesmo ano (vide os Universal Migrator do Ayreon; Mezmerize/Hypnotize do System of a Down; Justice/Guilty do GLAY, etc.), mas muita coisa aconteceu no último triênio – e o conjunto de eventos acabou atrasando o lançamento do trabalho, que virou quase uma colcha de retalhos.

Extensas turnês mundiais, um acidente de bicicleta que deixou Bono temporariamente de molho, a escalada conservadora pelo mundo e a incapacidade dos próprios membros de ficarem plenamente satisfeitos com o produto: tudo isso foi fundamental para o disco ficar com essa cara.

As turnês forçaram a banda a escrevê-lo aos poucos, entre um show e outro – fórmula que já se tornou bastante comum atualmente. Ao mesmo tempo, o acidente de Bono deu ao vocalista bastante tempo para criar música nova. Por outro lado, os novos paradigmas sociopolíticos fizeram o grupo refletir se o álbum como ele estava em 2016 passava a mensagem que eles realmente gostariam de expressar como resposta às mudanças. Por fim, a produção frankensteiniana viu os membros gravarem suas partes separadamente, sendo que eles preferiam preparar o disco juntos. Assim, os quatro decidiram refazer quase tudo.

E no que deu tudo isso? Bem, a abertura “Love Is All We Have Left” empolga tanto quanto uma chuva de meteoros num dia nublado, mas a coisa começa a melhorar logo depois. “Lights of Home”, que reaparece numa interessante versão em cordas entre as faixas bônus da edição de luxo, é um trabalho de mais atitude, mais condizente com o que a banda é hoje.

Ao longo do disco, especialmente na primeira metade, veremos várias canções que, em maior ou menor grau, mantêm a essência do U2 ao mesmo tempo em que incorporam elementos modernos. Com “essência”, refiro-me às linhas marchantes de Larry Mullen Jr., o baixo proeminente de Adam Clayton, os acordes e licks rústicos de The Edge e o interessante diálogo que os dois instrumentos travam há quatro décadas. E com “elementos modernos” quero dizer, por exemplo, camadas de teclados valorizadas na mixagem e batidas eletrônicas.

Esse lado do álbum se manifesta em “You’re the Best Thing About Me” (cuja remixagem do DJ norueguês KYGO é legal por si só, mas graças a Lemmy, aparece apenas como bônus da edição de luxo em CD), “The Showman (Little More Better)”, “Red Flag Day”, “The Blackout” (que também foi remixado numa faixa bônus, desta vez por Jacknife Lee, e cujo resultado ficou chatíssimo) e a interessante faixa bônus “Book of Your Heart”, cuja roupagem rústica lhe confere um jeitão de demo.

Outros possíveis exemplos são “Get out of Your Own Way” e “American Soul”, que se distinguem das outras por serem emendadas por um breve discurso do rapper Kendrick Lamar, queridinho da crítica mainstream. “American Soul”, especificamente, é de uma crueza notável, descrevendo o país como um conceito, em vez de um pedaço de terra.

Mas Songs of Experience também tem seus patinhos feios. “The Little Things That Give You Away” e “Landlady”, que apresentam sintomas de coldplayzação; a balada de rock moderninho “Love Is Bigger Than Anything in Its Way”; o insosso remix de “Ordinary Love”, que pouco mudou a homenagem em vida a Nelson Mandela; e “Summer of Love”, pop rock meio praiano com a tímida (imperceptível?) participação de Lady Gaga. Aliás, são vários os vocalistas que aparecem mais no encarte que nas próprias músicas das quais participam.

“13 (There Is a Light)” parece um dos “vilões” do disco, com seu instrumental minimalista e sua percussão excessivamente abafada, mas sua delicadeza, sua letra verdadeiramente inspirada e sua vocação para ser a acendedora oficial de celulares e isqueiros nas próximas turnês do grupo a tornam, na verdade, um dos destaques.

Um dos maiores méritos de Songs of Experience é permitir, na maior parte das vezes, que o quarteto todo soe nítido a despeito dos produtores, tecladistas e programadores envolvidos, que formam um time mais numeroso – bem diferente do que vem ocorrendo com o Coldplay e o Linkin Park, por exemplo, que se deixaram soterrar por camadas e mais camadas eletrônicas.

Por outro lado, o álbum patina em modernices dispensáveis e sofre para se manter coeso, talvez devido à produção feita aos trancos e barrancos e por várias pessoas diferentes. A inconstância não é exatamente uma novidade para este grupo que nunca fez um disco cheio de músicas iguais, mas as faixas diferentonas às vezes destoam tanto que dão a ele uma carinha de coletânea. Ouço uma banda querendo soar fiel ao seu passado, mas constantemente seduzida pelas tentações do presente.

Nota= 3/5. O décimo quarto lançamento de estúdio do U2 não chega a ser ruim porque, oras bolas, é o U2. Mas está abaixo dos melhores momentos do catálogo do quarteto. Todo fã vai querer ter o CD na sua estante, mas possivelmente ele acabará acumulando poeira.

Abaixo, o vídeo de “You’re the Best Thing About Me”:

Resenha: Songs of Innocence – U2

Breve histórico: U2 dispensa apresentações. Apenas para não deixar este parágrafo quase em branco, limitar-me-ei a dizer que o quarteto setentista é o suprassumo do rock irlandês e chegou a um ponto da carreira que pouquíssimas bandas alcançam.

Reprodução da capa do álbum (© Island Records)

Reprodução da capa do álbum (© Island Records)

Analisar um álbum do U2 nunca é tarefa fácil, dada a particularidade do seu som. Quando a banda faz um lançamento surpresa então, nem se fala, pois o pobre crítico nem pode se preparar psicologicamente e pesquisar sobre o disco. Mas é preciso reconhecer a criatividade da manobra – apesar de esta não ter sido a primeira vez que um grande nome da música lança um álbum sem aviso prévio.

O disco foi gratuita e automaticamente colocado no iCloud de usuários do iTunes e, com isso, a banda acredita estar tornando o álbum imediatamente acessível a 500 milhões de pessoas, pouco mais que 7% da população mundial. É invasivo e exclusivista (quem não tiver nenhum aparelho da Apple, só vai achar o álbum baixando por aí mesmo), mas ao mesmo tempo simpático: “Ei, somos uma das maiores bandas do mundo, toma aí 11 faixas novas de graça. Abraços!”

Só o tempo dirá se foi um bom golpe de marketing. Até agora, sabe-se que, financeiramente, valeu a pena: pelo direito autoral das músicas, a Apple pagou a pechincha de US$ 100 milhões ao quarteto irlandês. Por outro lado, a ousadia em lançar o álbum desta maneira custará possíveis indicações ao Grammy e aparições na The Billboard 200 – pelo menos enquanto o álbum não for lançado comercialmente em outubro, uma vez que ambas as entidades não reconhecerão algo distribuído gratuitamente por aí na web.

Vamos à música. O disco foi divulgado como um trabalho “pessoal”, que aborda temas como experiências da infância e juventude dos membros (daí o nome, que pode ser traduzido como “canções de inocência”). São letras altamente reflexivas e introspectivas, mas que parecem dialogar diretamente com os fãs, sem fechar a banda para um mundo só dela. Musicalmente, o disco é interessante, para dizer o mínimo. Aquelas velhas marcas registradas do U2 estão todas aí: a guitarra quase falante de The Edge, os ritmos marchantes de Adam Clayton e Larry Mullen, Jr. e os vocais tocantes de Bono.

Das cativantes “The Miracle (of Joey Ramone)” (faixa de abertura) e “Volcano” às lentas “Song for Someone” e “Iris (Hold Me Close)” (homenagem à mãe de Bono), a banda passa por vários humores no disco. Nenhuma das músicas tem aromas de que vai se revelar um grande destaque, um candidato a clássico do nível de “Sunday Bloody Sunday”, mas existe uma coesão muito nítida que torna o disco como um todo um trabalho com potencial para virar artigo de destaque na discografia da banda.

Bono rejeitou o rótulo de álbum conceitual para Songs of Innocence, mas admite que há uma ligação entre as letras. Musicalmente, esta ligação também existe. Não que uma faixa emende na outra, mas este álbum parece ter sido preparado em uma única tarde de ensaios da banda, fruto de uma única onda de inspiração. Não importa que “Sleep Like a Baby Tonight”, por exemplo, seja sonolenta e pareça ter saído do último álbum do Coldplay (resenhado neste blog). Há um raciocínio instrumental proposto logo nos primeiros acordes e mantido no decorrer do álbum, com raras e bem-vindas quebras.

Uma curiosidade do álbum é que as músicas às vezes remetem a clássicos anteriores. A introdução de “Every Breaking Wave”, por exemplo, apresenta uma melodia simples, serena e de pouca variação ao fundo que lembra a mesma melodia no início do hit “With or Without You”. “Volcano” tem todo um clima e uma estrutura que a faz parecer uma “Vertigo – Part II”. É como se a banda tivesse ouvido seus trabalhos antigos antes de fazer este – não para recriar alguma coisa, mas apenas para se inspirar.

Nota= 8,5/10. As vendas do disco anterior, No Line on the Horizon, foram tão fracas que fizeram a banda refletir sobre sua própria relevância – e não estamos falando de uma banda qualquer. Com Songs of Innocence, os irlandeses parecem colocar fim a estas indagações. Resta saber agora qual será o legado deste trabalho: será lembrado apenas como “aquele álbum que o U2 deu de graça na net, tá ligado?” ou “aquele puta álbum bom do U2 que saiu de graça na net”? Pela qualidade apresentada (e nem poderíamos esperar menos, depois de um intervalo de cinco anos), dá para dizer que sim, o disco é mais que um mero golpe de marketing: é o lançamento que recoloca o U2 na parte mais alta da pirâmide do rock mundial – se é que um dia saíram de lá.

Abaixo, o vídeo de “The Miracle (of Joey Ramone)” sendo apresentada ao vivo no evento da Apple: