Resenha: Infections of a Different Kind – Step 1 – AURORA

capa do álbum 'Infections of a Different Kind - Step 1'; trata-se de uma foto da cantora em posição fetal, vista de frente e com as mãos entre os peitos e o pescoço, de olhos fechados, com listras laranjas pelo corpo e uma espécie de juba preta, contra um fundo marrom claro

Reprodução da capa do álbum (© Decca Records Recording / Universal Music Operations Limited)

Aderindo a uma moda recente da indústria musical, a popstar norueguesa AURORA, querida especialmente no Brasil (“aaaare you goooing to Scaaarborough faaair…”), lançou, de surpresa, seu segundo álbum, Infections of a Different Kind – Step 1.

Com apenas oito faixas e pouco mais de meia hora de música, o sucessor de All My Demons Greeting Me as a Friend está no limiar abaixo do qual já estaríamos falando de um EP. Contudo, sabe-se (como o próprio título já indica) que uma continuação virá – em 2019 ou 2020, espera-se. É basicamente um lançamento em dois tempos.

O disco já dá sua largada com seu ponto alto: “Queendom”, generosamente temperada com toques de Coldplay recente e outros nomes mais genéricos do pop e inspirada pelo feminismo e a luta contra a homofobia. Porém, confesso que fiquei bastante envergonhado ao descobrir, numa entrevista da cantora ao The Independent, que ela criou a canção após visitar o Brasil e outro lugares em que “o status político do amor entre pessoas do mesmo sexo estava muito ruim”. Braaasil-sil-sil-sil…

Voltando ao álbum, ele é bastante eletrônico, um tantinho a mais que seu antecessor. Isso é constatado logo após a abertura, com “Forgotten Love” e “Gentle Earthquakes”, que ficam devendo à obra como um todo – as duas chegam a soar como versões alternativas delas mesmas.

“All Is Soft Inside” e “It Happened Quiet”, por outro lado, fazem outro par, bem mais interessante, como se o disco renascesse em si mesmo. São trabalhos que resgatam um pouco de organicidade, sem deixar de soarem artificiais (palavra aplicada aqui sem intenções pejorativas). A primeira nos faz lembrar de Deep Forest, enquanto que a segunda evoca uma mistura de Enya e Kate Bush.

“Churchyard” faz uma ponte entre o lado orgânico e eletrônico de Infections of a Different Kind – Step 1, com uma performance vocal de AURORA acima da média já alta do álbum e um instrumental com ênfase na percussão e arranjos inicialmente minimalistas e progressivamente densos. E “Soft Universe”, como o nome sugere, é um dos momentos mais serenos, embora tenha atmosfera relativamente densa.

E enfim chegamos à faixa título, a música mais importante que a norueguesa já escreveu, conforme declaração da própria ao Live in Limbo. Se por um lado ela não supera a beleza de “Queendom” e “It Happened Quiet”, é nítida a entrega da cantora nesta canção em particular, confirmando a declaração feita na entrevista.

Dentro da falsa diversidade comercializada pela indústria pop atual, AURORA desfila em direção à autenticidade ao cantar seu mundo de maneira mais espontânea e menos inocente que sua estreia de dois anos atrás.

Nota = 4/5.

Abaixo, o vídeo de “Queendom Come”:

Resenha: Malina – Leprous

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

Embora comumente associado ao metal progressivo, o quinteto norueguês Leprous desde sempre fugiu ao manual do gênero, priorizando faixas curtas ou médias sem obsessão por longas passagens instrumentais, solos fritados e riffagem complexa. O termos “experimental”, “avant-guarde” e “alternativo” vêm a calhar na falta de um rótulo mais fácil.

E em seu quinto álbum de estúdio, Malina, o grupo atinge o ápice da fuga do progressivo típico. Não é um problema por si só, mas o disco joga o mesmo jogo perigoso de seu antecessor The Congregation (resenhado neste blog), ou seja, precisa de muitas audições para conquistar de fato o ouvinte, especialmente se for alguém que acaba de descobrir os rapazes.

Não que isso o torne ruim. Estamos falando do Leprous, que não é pouca bosta. Mas várias faixas de Malina demoram a mostrar a que vieram. Outras precisam de várias audições mesmo para ficarem encantadoras. Nada de anormal para uma banda de som de lenta digestão, mas são poucos destaques verdadeiros aqui.

O fã não tem nada a temer: se gosta do que o grupo faz desde seu nascimento, vai gostar deste quinto lançamento e sentir-se-á em casa com faixas como “Stuck”, “Illuminate” e “The Weight of Disaster”. Já o não-fã, talvez prefira pegar momentos mais inspirados da discografia dos escandinavos para conhecer sua obra: Tall Poppy Syndrome, Coal e o já mencionado The Congregation.

E para ambos, recomendo os destaques “Illuminate”, que combina com maestria um ritmo difícil com um instrumental quase minimalista; e “The Last Milestone”, onde a tocante voz de Einar Solberg se vira apenas com as melancólicas cordas de Raphael Weinroth-Browne. Destaque também para o trabalho geral do baterista Baard Kolstad, que toca freneticamente sem soar excessivo.

Nota = 3/5. Fortalecendo a tendência a ser um grupo “ame-o ou deixe-o”, Malina requer absorção lenta e isso privará os mais impacientes de boas faixas. No mais, o fã pode cair de cabeça.

Abaixo, o vídeo de “Illuminate”: