Resenha: Phases – Next to None

Reprodução da capa do álbum (© Inside Out Music)

A quantidade e a importância das mudanças pelas quais uma pessoa normalmente passa ao longo de dois anos dentro da adolescência são gigantemente superiores àquelas que vivemos no mesmo período na idade adulta. O que diabos isto tem a ver com o texto?

Bom, falamos aqui de uma banda de jovens: o Next to None, cujo baterista é Max Portnoy (sim, filho do lendário Mike Portnoy). Mas é injusto reduzir a banda a isto, dada a qualidade dos demais integrantes. O parágrafo introdutório? Uma rasa filosofada para comentar a “guinada” que este álbum traz.

Se a estreia do quarteto, A Light in the Dark (resenhado neste blog), foi marcada por um metal progressivo “típico” e muito bem executado para um grupo de garotos, o sucessor Phases adota um tom bem mais puxado para o metalcore.

A abertura “Answer Me”, precedida pela introdução “13”, deixa clara essa guinada, embora ainda mantenha elementos progressivos. O single “Apple”, por sua vez, chocou alguns fãs – para o bem e para o mal. Aqui sim, temos um metalcore bem típico. Ao menos ela impõe mais respeito. Assim como “Beg”, uma das mais pesadas e com vocal mais convincente.

O progressivo finalmente chega numa sequência de 20 minutos divididos quase igualitariamente entre “Alone” e “Kek”. E chega muito bem! No caso da primeira, temos uma ótima peça do gênero, com tudo que pede o manual: um começo sereno, um peso que vai sendo construído aos poucos, variações de andamento e muitos solos. O metalcore ainda está presente na forma de guturais e acordes staccatos, mas somente como coadjuvante. A segunda é menos ortodoxa e não impressiona tanto, mas mantém a peteca lá no alto.

De “Clarity” a “Mr. Mime”, passando por “Pause”, temos uma espécie de “desaquecimento” do progressivo de volta para o metalcore, com as faixas lentamente encurtando de duração e ficando com aquela cara mais “moderninha”. Vem então o breve interlúdio instrumental “Isolation” para emendar em mais uma boa peça progressiva, “Denial”.

E chegamos ao fim nos quase 20 minutos de “The Wanderer”. É admirável o esforço dos meninos em preenchê-los de forma entusiasmante, mas a verdade é que a faixa é uma espécie de “Empire of the Clouds”, ou seja, ou seja, foi esticada para parecer superlonga. Uma boa produção teria aparado-a um pouco para caber talvez em 15 minutos. Falando em produção, o pai de Max desocupou esta função no disco e a própria banda a assumiu, o que ajuda a explicar o rejuvenescimento do som.

Posso comentar aqui sobre cada um dos membros individualmente, a começar por Max. Ao mesmo tempo em que sua habilidade mostra clara evolução e ele dá mais sinais de ter herdado a destreza do pai, percebemos uma configuração nas caixas que se aproxima daquilo que Lars Ulrich, do Metallica, fez em St. Anger e que até hoje é motivo de debate. Prevejo debates aqui também, mas em nível bem menor, proporcional à relevância da banda.

Thomas Cuce impôs muito mais respeito com seus guturais do que com sua voz limpa. Resta saber se conseguirá reproduzi-los decentemente ao vivo. E já que ele comanda satisfatoriamente os teclados, não seria o caso de chamar um vocalista para cada um focar em uma função?

E o estreante Derrick Schneider, que entra no lugar de Ryland Holland por recomendação de ninguém menos que Ron “Bumblefoot” Thal (que fez uma participação em A Light in the Dark e hoje integra o supergrupo Sons of Apollo com Mike Portnoy)? Ele sem dúvida é um dos responsáveis diretos pela mudança no direcionamento da banda, sendo sua guitarra a nave-mãe desse novo som que a banda apresenta, e ele ficou totalmente à altura da nova responsabilidade.

Nota = 4/5. Apostar no metalcore se mostrará uma faca de dois gumes: por um lado, afastará headbangers mais conservadores, que desprezam a vertente como coisa de adolescente. Por outro lado, faz a banda surfar na onda do gênero, que tem se mostrado muito popular nos Estados Unidos, criando uma possibilidade para aproximar esse público do progressivo. De qualquer forma, do ponto de vista estritamente musical, o álbum é quase impecável. E o bom de ser uma banda tão jovem é que ainda tem muito, mas muito espaço para evoluir.

Abaixo, o lyric video de “Apple”:

Resenha: A Light in the Dark – Next to None

Breve histórico: Integrado por ninguém menos que Max Portnoy, filho da lenda das baquetas Mike Portnoy, Next to None é um quarteto estadunidense de metal progressivo formado ainda por Thomas Cuce (vocais e teclados), Ryland Holland (guitarras) e Kris Rank (baixo), com Max no mesmo instrumento em que seu pai se consagrou.

Reprodução da capa do álbum (© Century Media)

Reprodução da capa do álbum (© Century Media)

Confesso que já comprei o álbum de estreia deles (A Light in the Dark) cheio de preconceitos. “Bah, um grupo adolescente de metal progressivo assessorado pelo papai de um deles. Vai ser mais um daqueles trabalhos entediantes, cheios de riffs nada a ver e solos sem inspiração”. Bom, no fim, foi uma das minhas maiores quebradas de cara desde que fundei o blog. Se lembrarmos que o Next to None é formado por garotos em torno dos 16 anos de idade, aí sim é que o disco fica impressionante. Porque muita banda adulta não consegue fazer o que os meninos fizeram aqui.

A começar pelo instrumental, que está no caminho certo. Digo “no caminho” porque eles ainda têm uma longa estrada e muito o que evoluir. Os solos são relativamente simples, inflados por arpejos, e há poucas daquelas longas demonstrações de virtuosismo que marcam os trabalhos progressivos. Em alguns momentos, há o que se chama de “overplaying”, que é quando você coloca mais notas do que a música está pedindo. São características naturais de um trabalho de músicos em desenvolvimento. O que há, de sobra, é criatividade para compor e versatilidade para não deixar as músicas entediarem, especialmente as mais compridas.

Embora seja um álbum nitidamente progressivo, notam-se influências de outros gêneros. Incluo aí os riffs de heavy metal tradicional e os vocais guturais em “You Are Not Me” e o riff eletrônico na introdução de “Lost”, aparentemente inspirado por “Na Gruta do Rei da Montanha”, de Edvard Grieg.

As letras não têm lá aquela profundidade típica do metal progressivo, chegam a ser até previsíveis em alguns momentos. Mas não custa lembrar que trata-se de uma banda de meninos.

A música do quarteto soa bem trabalhada – pudera, é o próprio Mike quem assina a produção. Essa parte é sempre fundamental, mas no metal progressivo ela ganha importância ainda maior, pois um som mal gravado pode comprometer a melhor das composições. O dedo de Mike também pode ser percebido no próprio filho, Max – honestamente, o garoto já faz, com menos de 18 anos, mais do que o pai provavelmente fazia na mesma idade.

Seja no interlúdio instrumental a la Dream Theater/Haken em “Blood on My Hands”, na balada “A Lonely Walk” ou nos vocais rasgados de “You Are Not Me”; se você é fã de metal progressivo bem executado, provavelmente adicionará esta banda à sua lista de favoritos. E se for uma pessoa paciente e com capacidade de julgar trabalhos de acordo com o contexto em que se encontram, saberá que esta estreia é apenas uma amostra do que está por vir no futuro.

Nota = 9,0. A não ser que os membros do Next to None fossem as reencarnações de Beethoven, Bach, Mozart e Chopin, que já compunham complexas peças na infância, ninguém poderia esperar que eles lançassem logo de cara um trabalho para rivalizar com Symphony X. Assim, A Light in the Dark é uma estreia convincente de uma banda nova com um futuro bastante promissor, bastando continuar com seu aprendizado musical e saber trabalhar seu som de modo a ficar cada vez mais profissional e maduro.

Abaixo, o lyric video de “Blood on My Hands”: