Resenha: A Gente Mora no Agora – Paulo Miklos

Reprodução da capa do álbum (© Deckdisc/Natura Music)

O primeiro disco após a saída dos Titãs é tão importante para o cantor Paulo Miklos que ele o considera seu primeiro álbum solo de fato, embora tenha lançado outros dois enquanto membro do grupo paulistano (Paulo Miklos em 1994 e Vou Ser Feliz e Já Volto em 2003). E a responsabilidade é grande mesmo, especialmente porque os dois outros vocalistas que saíram da banda (Arnaldo Antunes e Nando Reis) desenvolveram sólidas carreiras individuais. Poderíamos usar até Ciro Pessoa como exemplo, embora sua passagem pela banda tenha sido brevíssima.

O álbum, que recebeu o título de A Gente Mora no Agora, pede três palavras-chave: “parcerias”, “brasilidade” e “superação”. Nos dois primeiros casos, a explicação é óbvia: todas as 13 faixas são escritas ou coescritas por uma seleção de músicos das mais diversas gerações e vertentes, da jovem Mallu Magalhães ao septuagenário Erasmo Carlos; dos rappers Emicida e Lurdez da Luz aos também ex-Titãs Arnaldo Antunes e Nando Reis.

Buscar contribuições de gêneros tão distintos não poderia resultar em algo diferente de um lançamento de música brasileira moderna e diversificada. Mas, graças ao senso apurado de Marcus Preto, Pupillo e Apollo Nove (diretor artístico e produtores, respectivamente), o que poderia ter saído como uma coletânea caótica de peças musicalmente dessintonizadas acabou virando um álbum coeso, uma montanha russa que alça voos altos e dá mergulhos profundos sem perder o referencial.

Já a palavra “superação” vem para descrever o clima geral do trabalho. Tantas tragédias pessoais – Paulo perdeu os pais e a esposa no espaço de dois anos – somadas ao tenebroso cenário político nacional – o qual ele nunca se furtou a comentar – poderiam ter rendido uma música bem sombria. Mas é exatamente o contrário.

“A começar pela capa, eu digo que é um disco solar”, declarou Paulo ao jornal baiano A Tarde. Com efeito, A Gente Mora no Agora não se deixa abater pelo lado ruim da vida. Como o título sugere, vive-se o presente. O passado é uma fonte de referência e aprendizado, não um depósito de mágoas. O futuro é uma página em branco para ser preenchida com o que a vida tiver a oferecer, não para enchermos de ansiedades. Esta é a mensagem que o cantor parece querer transmitir.

A faixa de abertura e primeiro single divulgado, “A Lei Desse Troço”, faz companhia a “Todo Grande Amor”, “Estou Pronto” e “Eu Vou” como os cartões de visita que melhor resumem a obra.

O lado sambista do cantor (que, convém lembrar, interpretou o lendário Adoniran Barbosa num curta) aflora em “Vigia”, “Não Posso Mais” e na novosbaianística “Samba Bomba”, coassinada por Tim Bernardes, d’O Terno.

Rock, em última análise, não deu sinal de vida aqui. Mas peças como a cativante “Risco Azul” (que leva a coassinatura de Pupillo e Céu) e a divertida “País Elétrico”, crítica social com o “jeitão” erasmítico de seu coautor, trazem uma pegada rock que, se não nos permite rotulá-las como tal, ao menos nos lembram que Paulo fez seu nome por meio do gênero.

Outros destaques são “Afeto Manifesto”, escrita em parceria com a rapper Lurdez da Luz, que entregou uma letra inteligente e tão sincera que você até esquece que não é ela quem está cantando; e “Deixar de Ser Alguém”, surpreendente frevo coescrito por seu ex-colega de Titãs Arnaldo Antunes.

A radiofônica “Vou te Encontrar” (não por um acaso, escrita por Nando Reis, um dos maiores arrecadadores do ECAD) e “Princípio Ativo” são os momentos mais sonolentos do disco, a despeito de terem conquistado corações por aí.

Do time convidado para ser a base do som, destaca-se o tecladista Maurício Fleury, cujos acordes cirúrgicos colocam as notas certas nos momentos certos na melhor escola Tom Jobim de arranjos pianísticos.

Passadas algumas audições, percebe-se que Paulo conseguiu, talvez até involuntariamente, um feito: pegar a historinha do carpem diem, do “viva o agora”, enfim, todo esse papo batido de como devemos aproveitar a vida enquanto podemos e fazer uma verdadeira reciclagem para ressignificar a ideia.

Nota = 4/5. É perfeitamente compreensível o motivo de Paulo considerar este como o primeiro solo: os dois lançamentos anteriores soam amadores perto deste gostoso trabalho. A diferença entre Infernal e A Letra A (respectivamente, último e primeiro discos de Nando Reis antes e após sua saída dos Titãs) não é tão grande, por exemplo. Honesto, vivo, seguro, alegre… são vários os adjetivos que podemos atribuir a A Gente Mora no Agora. Mas podemos ficar com o “solar” sugerido pelo próprio artista.

Abaixo, a faixa “A Lei Desse Troço”:

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Resenha: Jardim-Pomar – Nando Reis

Reprodução da capa do álbum (© Relicário)

Reprodução da capa do álbum (© Relicário)

Se um dia montassem uma lista de artistas brasileiros que se autossabotam, Nando Reis estaria no top 10. Depois que saiu dos Titãs em 2001, sua carreira solo ficou marcada por baladinhas românticas ou, se muito, parcerias com Cássia Eller. Mas, caramba, ele é TÃO mais que isso… Seria bom se os tr00 666 from hell ouvissem além das rádios antes de desqualificá-lo. E olha que muitas das tais baladinhas românticas são de tirar o chapéu.

A versatilidade do paulistano fica escancarada como nunca em Jardim-Pomar, seu oitavo trabalho de estúdio. As faixas passam por diversas influências e temáticas, sendo que tal variabilidade é resultado da ação de dois produtores diferentes trabalhando no mesmo disco: Jack Endino (que já havia colaborado com Nando em Sei (resenhado neste blog)) e Barrett Martin, ambos dos Estados Unidos. Embora Nando não tenha ainda especificado exatamente quem produziu quais músicas, ele já deu a dica em entrevista para O Globo: “Sendo Barrett um baterista, muitas vezes a chave está na batida”.

A tríade de abertura, “Infinito Oito”, “Deus Meio” e “Inimitável”, é um dos momentos mais marcantes do álbum, e essa marca tem nome: Jack Endino, que toca guitarra em todas e, podemos deduzir, produziu-as também. Instrumentalmente, são de qualidade acima da média na carreira solo do barbudo e é impossível não querer ouvir o resto do disco depois delas.

As sempre presentes declarações de amor começam a mostrar a cara em “4 de Março”, onde Nando homenageia sua esposa Vânia de maneira íntima e elegante. “Só Posso Dizer”, que recebeu aqui duas versões (uma gravada em São Paulo e outra em Seattle, mais lenta), foi o single escolhido para divulgar Jardim-Pomar. Não chega a ser ruim, mas tinha tanta opção melhor…

“Concórdia” a única não inédita, é apenas uma regravação de uma canção que ele mesmo fez e que saiu em Vivo Feliz (2003), de Elza Soares. Sonolenta, ela ganha seu charme nas cordas do Fassbinder String Quartet, que reaparecem na igualmente monótona “Água Viva”.

“Azul de Presunto” traz, de uma vez só, seus ex-colegas de Titãs Arnaldo Antunes, Branco Mello, Sérgio Britto e Paulo Miklos; seus filhos Theo, Sebastião e Zoe; e as consagradas e modernas vozes femininas de Luiza Possi, Pitty e Tulipa Ruiz. Este impressionante time foi chamado apenas para fazer vocais de apoio. A harmonia funcionou legal e ela é uma das melhores, mas chamar tudo isso de gente só pra fazer eco? Que desperdício…

A peteca levantada pela faixa cheia de vocalistas é mantida no alto por “Lobo Preso em Renda” e “Pra Onde Foi?”, com instrumentações adultas e aquelas letras sem refrão típicas do ruivo. Temos aqui o segundo (e último) grande momento do lançamento.

A reta final perde um pouco o gás e nos entrega a simpática “Como Somos” (parceria com o indefectível Samuel Rosa e única que não é 100% assinada por Nando); a já mencionada “Água Viva”; a surpreendente “Pra Musa”, que se inicia tão leve quanto sua antecessora e acaba com a roupagem rock que marcou o início e o meio do disco; e a segunda versão de “Só Posso Dizer”.

Apesar do sucesso e da vasta experiência, Nando ainda não recebeu todo o reconhecimento que merece. Isto ocorre talvez porque a ênfase em hits radiofônicos ofusca o trabalho musical primoroso que é desenvolvido em seus álbuns, e que só tem crescido ao longo desses 20 anos solo. Um dia, mais pessoas compreenderão que ele é um mestre na arte de fazer música boa.

Nota = 4/5. As grandes canções de Jardim-Pomar fazem você desconsiderar aquelas poucas mais chatas. Nando Reis atinge aqui um ponto alto de sua carreira, com instrumentação admirável e letras direto das profundezas de um ser humano com todas as suas angústias e alegrias.

Abaixo, a faixa “Infinito Oito”:

Resenha: Nando Reis combinou seu lado romântico com o roqueiro em “Sei”

Breve histórico: Nando Reis é geralmente apontado na mídia musical como um “ex-titã”, mas, com a carreira que construiu longe da banda paulistana, ele já não precisa mais se apoiar no sucesso do grupo que ajudou a fundar mas deixou em 2002. Virou um nome independente na música nacional, dono de um espaço que já começou a ser conquistado antes mesmo da saída dos Titãs, que foi precedida pelo lançamento de três álbuns.

Reprodução da capa do álbum

Acompanhado pela banda Os Infernais, Nando Reis lança em 2012 seu sétimo disco de estúdio, Sei. Um nome curto e grosso, condizente com a sonoridade de algumas faixas do álbum, que estão mais cruas e diretas do que em lançamentos anteriores. A pegada está nitidamente mais rock ‘n’ roll. Só que essa pegada tem outro nome além de Nando Reis: Jack Endino. Isso mesmo. O renomado produtor em cujo currículo constam nomes como Soundgarden, Nirvana e os próprios Titãs recebeu em Seattle o cantor e compositor paulista para a gravação do álbum.

Há outro detalhe que não pode ficar de fora da resenha: o álbum é independente, e Nando tirou proveito de sua autonomia de forma ousada: disponibilizou Sei na íntegra em seu site oficial e ainda pediu para os próprios fãs determinarem um preço para a obra. O valor final será calculado com base no julgamento dos internautas.

Por meio da Rádio UOL, Nando lançou sete das quinze faixas que compõem o álbum, sendo uma por dia. A primeira foi “Sei”, faixa-título que assumiu o papel de single do disco. Era uma escolha óbvia, por ser uma das típicas baladinhas românticas do cantor, apesar de que “Coração Vago”, a penúltima a ser divulgada, e várias outras faixas também não soam muito diferente. Em “Pré-Sal”, a segunda a ser liberada, o rock fica mais evidente, e a letra, sem refrão, mais complexa e misteriosa. “Back in Vânia” (praticamente uma regravação de “Back in Bahia”, de Gilberto Gil) traz temperos de blues e várias referências a locais do estado de São Paulo e do mundo, inclusive Ubatuba, cidade litorânea onde Nando gravou seu disco Luau MTV em 2007.

O romantismo volta em “Pra Quem Não Vem”, mas desta vez acompanhado de uma instrumentalização bem mais poderosa e trabalhada. Em “Eu & a Bispa”, há uma crítica quase explícita à Igreja Universal, evidenciada pela ênfase na palavra “universal” na segunda estrofe. Também pode ser uma crítica à gravadora Universal, que não quis renovar o contrato com o cantor antes de ele optar pela independência. A letra traz um momento repentino de sujeira no verso “Nem a punheta fode pelo pau que não fode a buceta”, o lado “na lata” de Nando Reis, que já fora trabalhado em canções antigas como “Isso Para Mim é Perfume”, do disco titânico Tudo ao Mesmo Tempo Agora. A última música a ser divulgada, “Lamento Realengo”, traz um momento raro e brando de negatividade ao trabalho (a começar pelo título), mas é dotada de um trabalho instrumental que não nos deixa esquecer das propriedades roqueiras do disco. Aqui, a banda conseguiu combinar com sabedoria o blues e o reggae, dois estilos que aparentemente resultariam em uma mistura heterogênea.

Se as faixas lançadas na UOL tinham como objetivo abrir o apetite musical dos fãs, elas conseguiram. Para matar a fome auditiva, as outras oito faixas estão aí, e podem ser divididas em dois grupos: O primeiro é o das baladinhas, formado por “PERSxPECTIVA”, “Luz Antiga”, “O Que Eu Só Vejo em Você” e “Declaração de Amor”, embora esta última seja bem menos melosa que suas colegas, talvez devido à emoção trazida pela sua pegada mais forte ao final. O outro grupo, formado por “Ternura & Afeto”, “Praça da Árvore” e “Sem Arrefecer”, traz letras mais complexas, profundas e trabalhadas. “Zer∅ Muit∅”, composta originalmente para o disco Não Tente Compreender, da cantora Mart’nália, tem alguns paralelos do amor com a matemática (“o amor não tem razão, sua raiz é uma nação sem ser lugar”), e faz ainda algumas possíveis referências à bissexualidade do cantor (“você não curte o que eu curto, o mesmo sexo, outro prazer”).

A presença de Jack Endino se faz evidente em alguns momentos e imperceptível em outras, o que é mais um ponto positivo para Sei, um trabalho nitidamente marcado por seu produtor, mas sem sombra de dúvidas fruto do trabalho de seu autor.

Nota = 8,5. Num disco que agradará a todos (românticos e roqueiros), Nando Reis deixou clara sua maturidade musical e os benefícios que um nome como Jack Endino podem trazer para o trabalho de um artista. Assim como Zé Ramalho, que lançou há pouco tempo seu mais recente álbum (resenhado neste blog), Nando mostrou também que tornar-se independente pode trazer certa liberdade ao músico, permitindo a ele lançar mão de recursos impensáveis dentro de uma gravadora, como pedir que os fãs determinem o preço do disco. Um bom lançamento de um músico bom.

Abaixo, uma versão da faixa “Ternura & Afeto” tocada no estúdio pela banda: