Vinicius de Moraes: dez atitudes que provam que o Poetinha tinha alma rock ‘n’ roll

foto em preto e branco de Vinicius de Moraes tocando violãoNesta quinta-feira, 9 de julho, estamos exatos 40 anos à frente do dia em que Vinicius de Moraes nos deixou. Qualquer pessoa que esteja lendo este texto sabe de quem estou falando, pudera, foi um dos músicos e poetas brasileiros mais importantes do século XX.

Associado à Bossa Nova e à MPB em geral, Vinicius tem parcerias memoráveis com nomes do naipe de Tom Jobim, Toquinho, Dorival Caymmi e Baden Powell. Mas a alma do “Poetinha”, como ficou conhecido, era mesmo rock ‘n’ roll e eu vou provar neste post, que foi escrito com base principalmente em informações retiradas de dois livros sobre o mestre: Vinicius Portenho: As Inesquecíveis Temporadas de Vinicius de Moraes na Argentina e no Uruguai, de Liana Wenner (2012); e sua breve biografia escrita por Geraldo Carneiro (1984). Ambos constam na bibliografia do blog. Já conferiu? 😉

1: Ele era boêmio. Muito boêmio
Vinicius era tão conhecido pela obra artística quanto pela boemia. Abusou do álcool como se não houvesse amanhã – quase que literalmente, uma vez que perdeu a vida relativamente cedo, porém consciente de que poderia tê-la prolongado. Suas bebedeiras deixavam muitas lendas do rock setentista no chinelo.

A boemia quase virou negócio no último ano de sua vida, quando criou um bar (convenientemente chamado de “Cirrose”) juntamente aos sócios argentinos Héctor Peyrú e Martín Molinari (Vinicius apresentou-se inúmeras vezes na Argentina e no Uruguai e criou laços com ambos os países vizinhos). O local foi projetado por Paulo Jobim (filho de Tom) e sua esposa, Elaine Jobim.

Infelizmente, a empreitada não foi muito para frente: Vinicius morreu nove meses após a inauguração da casa e os sócios estrangeiros simplesmente sumiram, deixando as dívidas do local para a família de Moraes.

2: Era tão boêmio que os militares o demitiram por isso, e não por motivos políticos
A boemia de Vinicius era tão desregrada que, quando a ditadura militar brasileira baixou o temível Ato Institucional Nº5 (AI 5), a demissão – ou “aposentadoria compulsória” – do poeta foi quase imediata. Após mais de 20 anos de serviços diplomáticos, Vinicius era forçado a deixar o Itamaraty. E os oficiais do governo não se preocuparam com firulas: o memorando dizia, simplesmente: “demita-se esse vagabundo”. Não foram citados possíveis posicionamentos políticos de Vinicius em momento algum. E como se não bastasse, os militares até enalteceram a sua obra.

Existe uma discussão entre pesquisadores sobre Vinicius ter sido demitido pela bebedeira ou pela falta de assiduidade. Mas fato é que, pelo menos oficialmente, não se tratou de perseguição política. Haja moral e bons costumes…

3: E falando nos militares… ele não apoiou a ditadura
O uso desmedido de álcool e cigarro podem ter comprometido sua saúde, mas não parecem ter afetado seus neurônios; assim, ele era contra a ditadura, como grande parte da classe artística, o que obviamente inclui o rock. Contudo, diferente de colegas como Chico Buarque, seu ativismo era mais discreto. O pau comia solto, mas ele seguia cantando sobre amor, levando-o a questionar o sentido de sua própria obra em meio àquele caos. Nunca fez nada que motivasse um exílio, embora tenha considerado esta possibilidade – ele se apresentava em Portugal no momento em que o AI-5 era baixado.

Vinicius foi indiretamente atingido pelo regime em 1976, quando seu amigo, o pianista Tenório Cerqueira Jr., foi sequestrado pelos militares da Argentina em Buenos Aires para nunca mais ser visto. Sabe-se que ele morreu em poder dos agentes, talvez só argentinos, talvez argentinos e brasileiros.

Um ataque mais direto, porém menos doloroso veio antes, em 1974, quando os censores lhe impuseram uma suspensão de 30 dias longe dos palcos por conta da música “Valsa do Bordel”, que ele ousou cantar antes da aprovação das autoridades “competentes”. Ao fazê-lo, atacou “a moral da nação”, segundo os militares, que também apontaram uso de “humor vulgar” em apresentações em Belém e Brasília.

Vinicius obviamente se defendeu, dizendo que os versos em questão eram uma homenagem a Pablo Neruda, poeta chileno morto no ano anterior, e um gesto de repúdio a 1973 como um todo, por ter levado ainda outros dois grandes Pablos: Casals (violoncelista) e Picasso (pintor), ambos da Espanha.

4: Ele odiava o sol
Vinicius odiava o sol – pura e simplesmente. Era um homem da Lua. Como todo bom metalhead, era uma criatura das trevas. Bwahaha. Brincadeiras à parte, ele era um verdadeiro animal de hábitos noturnos. É à noite que a boemia atinge seu ápice, então faz todo sentido.

5: E falando na noite… era nela que ele gostava de gravar

Sendo um homem noturno, é natural que Vinicius preferisse realizar suas sessões de gravações de álbuns à noite. Por exemplo, em uma de suas temporadas em Buenos Aires, surgiu a oportunidade de registrar uma das apresentações em disco. Como a acústica da casa de eventos não era das melhores, o show teve de ser simulado em estúdio. Para imitar uma plateia, o produtor Alfredo I. Radoszynski chamou cerca de 30 pessoas, que se fingiram de público. A brincadeira durou duas noites e as gravações só se encerravam na manhã seguinte, às 8h. Assim foi criado o bem-sucedido Vinicius de Moraes Grabado en Buenos Aires con Maria Creuza y Toquinho: com “sangue, suor e sêmen”.

6: “Sangue, suor e sêmen” era com o que ele escrevia poesia
Quando já era consagrado, Vinicius manifestava desinteresse pela geração mais nova de poetas brasileiros porque não escreviam com “sangue, suor e sêmen”. Para ele, poesia feita com base em coisas fantasiosas e inatingíveis era menos nobre que aquela feita para as coisas da vida: amigos, mulheres, prazeres e afins. Ou ao menos as coisas que ele vivia. A poesia de Vinicius nada mais era que o seu cotidiano (d)escrito em versos.

Nas próprias palavras do carioca, ele se desiludiu com a incapacidade de seus colegas “para fecundá-la, para manchá-la de sangue, suor e sêmen, para banhá-la de lágrimas de amor, para cobri-la da saliva grossa de beijos apaixonados”.

Convite à reflexão: dos seus artistas de rock/metal favoritos, quais falam de assuntos fantasiosos? Quais trazem elementos do dia-a-dia para suas letras?

7: Sabia que ia morrer e seguiu vivendo intensamente
Numa atitude que deixaria Lemmy com inveja, Vinicius ignorava solenemente recomendações médicas e exames que alertavam para a óbvia deterioração de sua saúde.

Um momento emblemático disso foi o jantar que teve com seu médico num restaurante em Montevidéu. À mesa, entregou ao doutor os resultados de uma bateria de exames. Quando seu pedido, uma farta paella, chegou, Vinicius olhou para ela, olhou para o doutor visivelmente consternado com o que os exames lhe diziam, e procedeu ao desjejum sem freios, poupando sua companhia de desperdiçar saliva com sermões. Nas palavras do próprio médico, estava se suicidando.

8: Teve muitas, muitas mulheres
Vinicius era um galanteador nato e isso se traduziu no impressionante número de nove casamentos ao longo da vida. Hoje, alguns de seus poemas são considerados machistas (“Formosa” e “Minha Namorada”, por exemplo), mas na época ele era pegador até dizer chega. Não naquele estilo glam metal em que você come mais mulheres do que refeições por dia, mas se tinha algo que ele compreendia bem mais do que a média dos homens, era o coração feminino.

9: Até cocô era objeto de estima para ele
Quando Vinicius dava a descarga, nem sempre era um momento fácil. Às vezes, quando a peça era de seu agrado, ele sentia sua perda conforme ela ia embora para o esquecimento do esgoto. Ele chegou até a estabelecer uma tipologia do cocô, dando nomes aos diversos formatos que os excrementos humanos assumem.

10: Seus shows eram prosa pura

Numa atitude talvez nem tão rock ‘n’ roll, Vinicius acostumou-se a se apresentar ao vivo em meio a longos discursos ao público, proferindo extensas reflexões sobre os temas das músicas que cantava. Num show típico de rock/metal, isso provavelmente renderia uma chuva de objetos arremessados contra os músicos, mas o clima intimista que era característico aos shows do Poetinha eram terreno mui propício para essa quase-verborragia. Sem falar, claro, que meia hora de Vinicius falando ainda entretém mais que cinco minutos de boa parte da música nacional atual.

Ao som de: Deveria ser Vinicius, mas na verdade era Gamma Ray.

Em defesa da antiga Turma da Mônica

Vários personagens da Turma da Mônica

Se você esqueceu o nome de algum personagem, corra para a banca mais próxima de você.

Não sei quanto a vocês, mas eu, apesar de já ter barba na cara, ainda leio revistinhas da Turma da Mônica. E não é só no banheiro ou no consultório do dentista. Ora, e daria para evitar? Passei minha infância toda lendo as historinhas.

Contudo, isso tem mudado ultimamente. Não estou mais conseguindo achar tanta graça nas historinhas mais recentes. A princípio, achei que o cruel senhor chamado tempo havia feito-me crescer e amadurecer, mas, ao ler os gibis antigos, percebi que não era isso. Algo aconteceu com a famosa dentucinha e seus amigos.

Nesses mais de 50 anos de existência, o universo criado pelo ex-repórter policial Mauricio de Sousa sofreu um processo de mudanças, tanto em estilo quanto em conteúdo. As primeiras histórias eram mais focadas em sequências de gags (piadas) baseadas em trabalhadas, tropeços, quedas e ideias de jerico, formando cenas de humor no estilo pastelão. De vez em quando, umas mensagens bonitinhas, de teor ambientalista ou pacifista. Com o tempo, esse tipo de humor foi dando mais espaço para comentários engraçadinhos, trocadilhos, inocência, etc. Nem por isso os gibis ficaram menos engraçados. Só que as cenas clássicas, como a do Cascão brincando no meio do lixo e encontrando objetos interessantes, ou da Magali devorando comida para dez pessoas em um quadrinho, ou mesmo de qualquer personagem enganando ou enlouquecendo bandidos armados com revólveres…todas elas estão quase em extinção.

É assim que o conceito de politicamente correto tem sido tortuosamente aplicado onde é conveniente. Ele não deixa as criancinhas lerem livros do Monteiro Lobato, mas permite que o Big Brother Brasil chegue à 11ª edição. Da mesma forma, ele não deixa mais o Cascão brincar com lixo, nem permite que crianças cozinhem ou mexam com furadeiras e veta armas de fogo nas mãos de bandidos e policiais.

Estive acompanhando a Turma da Mônica – Coleção Histórica, que traz as primeiras revistinhas da Mônica, do Cebolinha, do Cascão, da Magali e do Chico Bento. Já está na 21ª edição. As historinhas são intercaladas com comentários do roteirista Paulo Beck, que contextualizam o enredo, explicam piadas e comentários anacrônicos para nós, apontam erros de impressão e às vezes creditam o roteiro. Por outro lado, eles vem sempre recheados de colocações infelizes como “Vejam só! Crianças mexendo com martelos!! Que absurdo!! Naquele tempo isso até era aceito, mas hoje em dia??? Jamais!!!”.

Caramba, alguém aqui começou a comer compulsivamente porque viu a Magali fazer igual? Alguma garota começou a correr atrás de quem lhe incomoda com um bichinho de pelúcia, como faz a Mônica? Alguém deixou de tomar banho inspirado no Cascão? Em caso afirmativo, espero que os pais tenham se encarregado da nobre missão de educá-los para discernir o real do imaginário. Os meus, pelo menos, o fizeram.

Concluo este post com um questionamento bem simples e direto: será que não temos problemas maiores para nos preocupar? A Turma da Mônica é um motivo para ter orgulho de ser brasileiro. Desejo profundamente que ninguém estrague isso.

Ao som de Dream Theater.

Resenha de “Viagens com o Presidente”, de Eduardo Scolese e Leonencio Nossa

Reprodução da capa do livro (© Editora Record)


Quando ligamos a televisão, abrimos os jornais, acessamos os sites de notícias e sintonizamos os rádios, ficamos sabendo das últimas ações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula disse isso, Lula anunciou aquilo. Lula fez isso, Lula inaugurou aquilo. Mas e as partes que as câmeras, gravadores, microfones e bloquinhos de anotação não registram, ou, se registram, ficam guardadas para os jornalistas apenas? Mostrar os bastidores da imprensa, das viagens do petista, das suas comitivas, os comentários que não foram divulgados na mídia – a isso se propõe a obra Viagens com o Presidente – Dois repórteres no encalço de Lula do Planalto ao exterior, de Eduardo Scolese e Leonencio Nossa, repórteres das sucursais de Brasília da Folha de S.Paulo e d’O Estado de S. Paulo, respectivamente.

Escrito com anotações que vão desde a posse de Lula em 2003 até abril de 2006, meses depois do escândalo do Mensalão, o livro mostra o nosso presidente durante o seu primeiro mandato de um jeito que poucos viram. Balanceia o lado humano e pessoal do ex-operário com o seu lado formal e político, o mais destacado pela mídia. Revela comentários e desabafos que não foram parar nas páginas dos jornais, como quando chegou ao Palácio da Alvorada e lamentou o clima frio do local, em oposição ao calor das greves e manifestações operárias dos seus tempos de metalúrgico, ou quando disse à então ministra do Meio Ambiente Marina Silva que “essa coisa de meio ambiente é igual a um exame de próstata: não dá pra ficar virgem toda a vida. Uma hora eles vão ter que enfiar o dedo no cú da gente. Então, companheira, se é pra enfiar, é melhor que enfiem logo”.

Como o nome sugere, a trajetória de Lula fora de Brasília foi o enfoque do trabalho dos dois repórteres. Há registros de viagens de Lula pelo território nacional, para inaugurar obras e aproximar-se da população, e ao exterior, por um sem-número de países com os quais o Brasil mantém relações bilaterais. As visitas constantes a países africanos, algo deixado de lado em governos anteriores, ganhou destaque no livro.

Os bastidores do governo também não foram ignorados. Até os codinomes utilizados pelo time de segurança do presidente foram registrados na obra. Os militares que protegem Lula referem-se a ele como “Tigre”, “Leão”, “Pantera”, “Saturno” e até “Eclipse”. Já a primeira-dama Marisa Letícia é chamada de “Estrela” ou “Damasco”. Para os profissionais da imprensa, sobrou a alcunha de “Besouros” ou outros insetos e animais pequenos. As páginas mostram comentários informais e até broncas do presidente dirigidas a funcionários em geral, como assessores e ajudantes de ordens.

Para ilustrar o livro, várias fotos do presidente em suas incontáveis viagens foram intercaladas com os textos. Além disso, há gráficos e mapas mostrando quando e quantas vezes Lula viajou para os estados do Brasil e os países do mundo. Curiosamente, até as últimas anotações do livro, Lula só não havia visitado o estado de Roraima. Este só foi receber o presidente pela primeira vez em setembro de 2009.

PS: Essa resenha será publicada em janeiro de 2011 na edição 69 do Contraponto, jornal laboratorial do curso de jornalismo da PUC-SP. Essa edição, como toda edição de fim de ano, será especial porque trata de um único tema (O Brasil pós-Lula, no caso) e vem com mais páginas que as comuns. O jornal é distribuído por toda a PUC e também por outras faculdades de São Paulo e algumas redações da grande imprensa. Em breve, ele terá uma versão online. Aguardem!