Resenha: The Knife – Goldfinger

Reprodução da capa do álbum (© Rise Records)

Após quase uma década, o quarteto californiano Goldfinger finalmente lançou seu aguardado sétimo álbum, que vinha sendo prometido há anos. E as novidades são proporcionais à demora. O vocalista, guitarrista e líder John Feldmann se separou do restante da banda, que consistia em membros bastante antigos. Para substitui-los, John não mirou baixo e acabou montando praticamente um supergrupo: Philip Sneed (Story of the Year) na outra guitarra, Mike Herrera (MxPx, Tumbledown) no baixo e Travis Barker (blink-182) na bateria.

O resultado, como não poderia deixar de ser, é um retorno fenomenal. É perfeitamente compreensível que fãs torçam o nariz para uma mudança tão grande num time que já vinha dando certo há décadas, mas não dá para não se empolgar com este simpático disco que recebeu o não tão simpático nome The Knife e no qual o cinquentão Feldmann esbanja uma notável jovialidade.

A abertura “A Million Miles” é uma afirmação. “Voltamos” – é o que ela parece nos dizer a despeito da letra autorreflexiva. A sequência “Get What I Need” traz algo que se repetirá algumas vezes no transcorrer das faixas: uma participação especial. No caso desta peça mais alegre, quem aparece é o guitarrista Nate Albert, ex-integrante dos Mighty Mighty Bosstones.

E assim o disco vai passeando entre as diversas facetas que o ska punk tem a oferecer. Quem gosta de manifestos adolescentes para cantar bem alto nos shows vai gostar de “Am I Deaf”, “Put the Knife Away” e “Say It Out Loud”. Já quem prefere aquela aura praieira do ska vai se apaixonar por “Tijuana Sunrise”, “Don’t Let me Go” (que tem a participação do japonês Takahiro Moriuchi, do ONE OK ROCK) e “Liftoff”, que também traz suas participações especiais: Nick Hexum (311) nos vocais e o surfista Makua Rothman no ukeke.

A declaração de amor “Milla”, “See You Around” (com Mark Hoppus do blink-182) e “Who’s Laughing Now” são outros destaques. E, ao final da audição, o fã constatará que não há nenhuma faixa descartável em The Knife. Aliás, não há nenhuma canção que provoque menos do que uma síndrome da perna inquieta.

Nota = 5/5. The Knife é uma lufada de energia para o ska punk e um retorno revigorante para esta banda quintessencial que marcou a infância de muita gente com a inclusão de seus sucessos em games diversos. Pode comprar sem medo.

Abaixo, o lyric video de “Put the Knife Away”:

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Dez músicas para ouvir a caminho de uma manifestação

Manifestantes reunidos no Largo da Batata, em São Paulo, no histórico 17/6.

Manifestantes reunidos no Largo da Batata, em São Paulo, no histórico 17/6.


Em comemoração ao dia 13 de julho, Dia Mundial do Rock, e ainda embalado pelas recentes manifestações que chacoalharam o Brasil, o Sinfonia de Ideias (cujo blogueiro acompanhou alguns atos de perto) selecionou dez músicas (de rock/metal, é claro) que devem constar na playlist de todo manifestante que se prepara para encarar uma saraivada de balas de borracha, uma névoa de gás lacrimogêneo e um simpático jato de spray de pimenta na cara.

Lembrando que as músicas abaixo são sugestões apenas, isto não é uma lista top 10. Elas estão listadas em ordem alfabética, exceto a 6ª canção, antecipada propositalmente, conforme explicado abaixo.

1 – “Calma pueblo”, do Calle 13
Calle 13, dupla porto-riquenha de reggaeton/hip-hop/música urbana/música latina num post sobre rock/metal? Parece heresia, mas não é. Eles já flertaram com o rock várias vezes, e “Calma Pueblo” é talvez o melhor exemplo: não por um acaso, o guitarrista Omar Rodríguez-López (ex-The Mars Volta) faz uma participação especial aqui na guitarra. A música não fala exatamente de manifestações, mas a letra é tão ácida e o ritmo é tão agressivo (para os padrões do Calle 13) que, se a guitarra fosse mais distorcida e o idioma fosse o inglês, daria pra confundir com Rage Against the Machine. O clipe da música também não prima pela delicadeza: tanto que é censurado no YouTube, por isso, foi preciso recorrer ao vimeo. Uma outra faixa até mais apropriada para esta lista seria “Vamo’ a portarnos mal”. Porém, como ela não traz nada de rock, ficou de fora. Mas fica a recomendação para quem não for um tr00zão mui macho que só ouve material 666 from hell.

CALLE 13 CALMA PUEBLO from PACOAGUAYO on Vimeo.

2 – “Deer Dance”, do System of a Down
Parte da track-list de Toxicity, o segundo álbum deste quarteto armênio-estadunidense. Pode haver certa discórdia quanto ao real significado de “deer dance” (“dança dos cervos”). Talvez eles se refiram à dança tradicional dos Yaquis, povo nativo do norte do México e sul dos Estados Unidos, fazendo uma comparação dela com a movimentação de manifestantes e policiais durante os embates com tropas de choque. Enfim, a faixa retrata a brutalidade policial característica das opressões a manifestações, algo comum não só no Brasil como em quase todo o mundo.

3 – “Estado violência”, dos Titãs
Uma das várias faixas ácidas de “Cabeça Dinossauro”, o álbum mais importante da carreira deste quarteto paulistano que, na época do lançamento, era um octeto. A escolha mais óbvia, para alguns, seria “Polícia”, que critica diretamente a corporação. Mas esta faixa aqui tem o mérito de não criticar a polícia isoladamente, mas sim todos os excessos de que o Estado se utiliza para atender aos seus próprios interesses. Algo que o guitarrista Tony Bellotto e o vocalista Arnaldo Antunes sentiram na pele ao serem presos, respectivamente, por porte e tráfico de heroína. Este episódio seria determinante para a direção musical que o grupo tomou a partir de então.

4 – “Get Up”, do Goldfinger
Letras críticas não são predominantes na discografia deste quarteto californiano de ska punk, mas quando eles resolvem atacar, fazem-no com bastante inteligência. Aqui, eles convocam as pessoas para as ruas. A pauta não é clara, a mensagem é meio genérica. Mas encaixaria perfeitamente nas manifestações do Brasil.

5 – “O meu país”, do Zé Ramalho
Você pode até achar que este sexagenário paraibano é só um trovador de MPB e forró, mas saiba que ele pode sim ser considerado um bom exemplo de rock nacional – “Made in PB”, “O rei do rock”, “Indo com o tempo” e os discos-tributo que já fez para os Beatles, Raul Seixas e Bob Dylan são provas mais do que suficientes. Esta faixa especificamente não é lá um rock ‘n’ roll. Na verdade, é tocada apenas por ele em um violão. Poderíamos chamar de rock acústico. Mas a letra é bastante significativa, enumerando diversos problemas crônicos do Brasil. Interessante para lembrar alguns dos motivos pelos quais não podemos ficar parados. O vídeo abaixo, não-oficial, é meio clichê e até apelativo em alguns momentos, mas era mais dinâmico e interessante do que uma imagem estática da capa de Nação Nordestina, álbum em que a canção foi lançada.

6 – “Que país é este”, do Legião Urbana
A banda que marcou uma geração e que figura na playlist de nove entre dez revoltados brasileiros não poderia deixar de aparecer aqui. Difícil é escolher só uma música. Por isso, fiquemos com a emblemática “Que país é este” – ouví-la logo após “O meu país” maximiza, digamos, a indignação. Por isso, o blog tomou a liberdade de mudar um pouquinho a ordem das músicas aqui.

7 – “Outcry”, do Dream Theater
Esta faixa caiu como uma luva no disco A Dramatic Turn of Events (resenhado neste blog). Poderia até ter sido lançada como segundo single. Conforme o guitarrista John Petrucci havia afirmado em entrevista ao The Ticket, o álbum trata das mudanças abruptas que ocorriam em 2011 (daí o título). E “Outcry” trata especificamente do que ocorreu na Líbia, quando a população se levantou contra Muammar Gaddafi. E se tem outra coisa que cai como uma luva, é a letra da música no contexto das revoltas brasileiras, ainda que aqui os levantes tenham causas, demandas e consequências distintas.

8 – “Revolution Calling”, do Queensrÿche
Foi difícil decidir entre esta e “Resistance”, as duas tem letras bem significativas. Como esta tem um clipe, ficaria melhor neste post. Além disso, é precedida por duas introduções: “I Remember Now”, sem música de facto, e “Anarchy-X”, um belo e curto instrumental, tornando-a musicalmente mais interessante (o clipe, contudo, não traz as aberturas). “Revolution Calling” tem ainda o mérito de atacar também a mídia, que teve papel determinante durante as manifestações, as quais tachou inicialmente de “um monte de vândalos maconheiros baderneiros sem causa”, para depois reconhecer a importância da mobilização popular – principalmente após um festival de reclamações nas redes sociais contra a cobertura altamente tendenciosa da imprensa brasileira.

9 – “Stand My Ground”, do Stratovarius
A faixa mais recente desta lista, lançada no início do ano com o álbum Nemesis (resenhado neste blog). O Stratovarius é especialista em fazer letras do tipo “eu tenho minha opinião-tenha respeito por ela-não vou te ouvir se eu não quiser-dane-se o seu deus” e coisas assim, uma tradição que persistiu mesmo após a saída de Timo Tolkki, principal letrista do quinteto finlandês. Conquanto isso já tenha quase virado um clichê na discografia deles, as faixas com esta temática sempre estiveram entre as melhores de cada álbum: “Find Your Own Voice”, “Forever Free”, “Blind”, etc. Com “Stand My Ground”, não foi diferente.

10 – “White Riot”, do The Clash
Não poderia faltar um punk aqui, não é mesmo? Quer dizer, o Goldfinger também é punk, mas já é algo mais puxado pro pop e ska. The Clash é uma banda mais “clássica”, aliás, uma das maiores lendas do gênero. Esta faixa, especificamente, causou polêmica na época, pois alguns entenderam que sua letra incentivava uma guerra racial. Na verdade, o autor Joe Strummer estava conclamando “os brancos” a encontrarem uma causa para protestar, algo que “os negros” já estavam fazendo. É discutível essa visão bipolarizada de que sociedade está dividida em duas raças, mas a mensagem é mais ou menos esta: “Vocês, da classe média, arranjem uma causa e levantem-se!”. É interessante também notar estes versos: “are you taking over or are you taking orders?” (“Você está tomando o controle ou está recebendo ordens?”). Durante as manifestações, muito se discutiu sobre os reais objetivos dos revoltosos. No início, as alas mais conservadoras vieram com suas teorias patéticas de que as manifestações eram compostas por pessoas compradas pelo PCO e pelo PSTU (partidos que não têm dinheiro nem sequer para fazer uma propaganda eleitoral decente). Depois que os protestos ganharam dimensão nacional e projeção internacional, foi a vez da esquerda, frustrada por ter perdido o controle da pauta, delirar e taxar os manifestantes que pediam o fim da corrupção de “massas manipuladas pelo PSDB e pela grande mídia”. Mas isto já seria tema para um outro post.

Sentiu falta de alguma música? Os comentários estão aí pra isso! =)