Resenha: Space Police – Defenders of the Crown – Edguy

Breve histórico: banda-chave no heavy metal alemão, o quinteto Edguy já tem uma carreira de mais de 20 anos com álbuns melódicos e rápidos, lentos e agressivos, modernos e bem-humorados. Seu líder, vocalista e principal compositor Tobias Sammet tornou-se uma celebridade no mundo do metal e é conhecido também por seu projeto paralelo Avantasia, a metal opera mais bem-sucedida da história.

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Desde o final de 2013, os fãs que seguem Tobias Sammet no Twitter tiveram suas linhas do tempo inundadas por dois tipos de mensagens do músico: cornetadas em favor de seu time do coração, Bayern de Munique, e muitas exaltações ao som do então futuro álbum do Edguy. Já é de praxe as bandas dizerem sempre que o seu próximo trabalho será o melhor de todos, mas Tobias bateu tanto nesta tecla que era necessário lhe dar um voto de confiança.

A volta às raízes do Edguy não foi tão abrupta quanto parece. Desde o Rocket Ride, talvez o mais “pop” da banda, o grupo vem fazendo uma sequência de álbuns que vão ficando mais pesados e densos. Mas enfim, a boa notícia é que Tobias não estava fazendo mera propaganda enganosa.

A faixa de abertura “Sabre & Torch” poderia ser considerada uma porrada na cara, mas o bom fã do Tobias logo se frustra ao perceber que o riff foi descaradamente chupado de “Invoke the Machine”, canção presente em The Mystery of Time, o álbum mais recente do Avantasia (resenhado neste blog). Curiosamente, Tobias aborda justamente as diferenças entre suas duas bandas ao falar desta faixa no encarte do disco.

A criatividade aumenta na primeira faixa-título, “Space Police” (apesar de que o bom fã do Tobias entrará em ação novamente e associará o riff de teclado inicial com o riff de abertura de “King of Fools”, do clássico Hellfire Club). A faixa, aliás, foi feita para criticar aqueles que querem limitar o heavy metal – no gênero, assim como no espaço sideral, não deveria haver regras. Inclusive, a gravadora não queria que este termo fosse usado no título, por achar que não combinaria com o gênero musical. Mas a banda resolveu aplicar o “foda-se” e combinou os dois termos para formar um título inusitado. No disco 2 da edição limitada, em meio a várias versões instrumentais de algumas faixas (incluindo esta), há uma versão progressiva de “Space Police”. As diferenças entre ambas são bem pequenas, contudo.

A outra faixa-título, “Defenders of the Crown”, é talvez a melhor do disco. Remete imediatamente aos álbuns clássicos do Edguy, com direito a uma talk box no estilo Bon Jovi. A letra é meio metalinguística e fala do próprio metal – em entrevista ao site francês RockNLive.org, Tobias explicou que “Defenders of the Crown” (Defensores da Coroa) significa que o Edguy é o verdadeiro defensor da coroa do heavy metal.

“Love Tyger”, que ganhou um vídeo com animações dos membros da banda, é uma faixa bem glam/hard rock, mostrando que Tobias não pretende mais deixar o estilo de lado, para desgosto de alguns fãs mais conservadores.

“Rock Me Amadeus”, do finado cantor austríaco Falco, é a última música que você esperaria ouvir regravada por uma banda de heavy metal. Se bem que, depois de o Children of Bodom regravar “Oops!… I Did It Again”, podemos esperar qualquer coisa. Enfim, é interessante ouvir Tobias cantando em alemão (mesmo que com sotaque vienense), mas a verdade é que a faixa “sobra” na edição regular e quebra uma linha coesa de raciocínio musical. Ficaria bem melhor como faixa bônus. A própria gravadora, prevendo reações hostis dos fãs, sugeriu que a banda deixasse o cover de fora, mas o grupo se recusou a fazê-lo. E o preço pode sair um pouquinho caro.

Fechando o disco, a ótima e épica “The Eternal Wayfarer”, disputando o título de melhor do disco com “Defenders of the Crown”. Talvez a presença de riffs com toques progressivos, glam e hard, misturados a um brilhante trabalho de órgão (provavelmente tocado por Michael Rodenberg (a.k.a. Miro), que aparece no encarte como responsável pelas partes mais “desafiantes” nos teclados) e solos muito bem executados por Jens Ludwig ajudem a definir quem de fato levou a melhor aqui.

O álbum inclui ainda as pesadas “The Realms of Baba Yaga” e “Shadow Eaters” e a pop “Do Me Like a Cavemen” (as duas últimas escritas por Jens). Vale a pena comprar o disco ou baixá-lo via iTunes para conferir os comentários faixa-a-faixa escritos por Tobias.

Como faixas bônus, Tobias nos presenteou com “England”, um divertido ode ao país europeu, com direito a referências ao Iron Maiden e aos Beatles; e “Aychim in Hysteria”, uma letra-tributo ao engenheiro de som ao vivo da banda ao mesmo tempo em que homenageia os britânicos do Def Leppard musicalmente (especificamente o álbum Hysteria); além de várias versões instrumentais de faixas regulares, conforme já mencionado.

Nota = 8. Voltas às raízes são sempre arriscadas e nem sempre o artista entrega o que o fã espera – vide o Pariah’s Child, do Sonata Arctica (resenhado neste blog). No caso do Edguy, a banda acertou na maior parte, mas alguns elementos “estranhos” como “Love Tyger” e “Rock Me Amadeus” comprometem a consistência do disco. De qualquer forma, não deixa de ser um bom trabalho, e provavelmente figurará na lista de clássicos da banda no futuro. E nem se atreva a fazer Tobias pensar o contrário – ele tem usado seu Twitter para esculachar fãs dissidentes, já que o maior time de futebol da Alemanha parece não ocupar suficientemente o seu tempo.

Abaixo, o lyric video de “Sabre & Torch”:

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Diverso, Age of the Joker mostra criatividade do Edguy

Breve histórico: Edguy é um dos muitos grupos alemães de power metal que ajudaram a difundir o gênero, pegando carona no sucesso de Helloween, Blind Guardian e Stratovarius. O vocalista e ex-baixista Tobias Sammet é o mais notável membro do grupo, não só pelo talento, mas também pelo projeto paralelo que lidera, o Avantasia, e também por participações em outros trabalhos.

Reprodução da capa do álbum (© Nuclear Blast)

Age of the Joker é sem dúvidas um trabalho bem produzido. Mistura a modernidade e a diversidade do último disco, Tinnitus Sanctus, com o peso de Mandrake e Hellfire Club, mas sem nenhuma grande mudança no som da banda. Os riffs, a batida e as melodias continuam inconfundíveis. Mesmo assim, há algumas pequenas novidades, a maioria trazida pelo tecladista convidado, Eddy Wrapiprou.

A faixa de abertura, “Robin Hood”, é aquela na qual a banda mais investiu: é a segunda mais longa do disco e a primeira a receber um vídeo, baseado nas aventuras do personagem que roubava dos ricos e dava aos pobres. Pena que é uma das mais fracas do álbum. “Nobody’s Hero”, a segunda, tem o dobro do peso e da energia.

“Rock of Cashel” traz o grupo dividindo espaço com uma gaita de foles, algo que a banda só faz raramente, como em “Jerusalem”, do Mandrake. Em seguida, vem a pesada “Pandora’s Box”, que fica no limite entre o heavy metal e o hard rock, com um toque curioso de música country estadunidense.

“Breathe” e “Two Out of Seven” são bem parecidas, marcadas por riffs eletrônicos no teclado que lembram de longe “Crestfallen”, do Avantasia. A lenta “Faces in the Darkness” apresenta contrastes entre passagens leves e pesadas, seguida pela rápida “The Arcane Guild”, na qual Eddy mostra seu talento no órgão, instrumento cujo potencial ainda é pouco explorado no power metal. A poderosa “Fire on the Downline” vem em seguida.

“Behind the Gates to Midnight World” é a mais longa do álbum, com quase nove minutos, que foram muito bem aproveitados pelo grupo. Novamente, Eddy faz um bom trabalho no órgão, e também no piano. Para fechar o álbum, a surpresa do Age of the Joker: “Every Night Without You”. Como o nome sugere, é uma balada. É como se a banda tivesse economizado quase 100% dos elementos de hard rock que mostravam nos álbuns anteriores para soltar tudo na faixa de encerramento, cuja emoção lembra as baladas do Bon Jovi, do Aerosmith e do Kiss.

Age of the Joker foi composto com criatividade: o ritmo e a base de cada música não traz nada de muito diferente com relação aos álbuns anteriores, mas quase todas as faixas apresentam alguma coisa que as torna únicas, e parte dessa inovação se deve ao trabalho do tecladista.

Nota = 8,5. Junto com Mandrake, Hellfire Club, Tinnitus Sanctus e Theatre of Salvation, será provavelmente considerado no futuro um dos melhores do Edguy.

Abaixo, a faixa “Behind the Gates to Midnight World”, uma das melhores do álbum: