Resenha: Aftermath – Acyl

Breve histórico: Acyl é um ainda pouco conhecido quinteto argelino-francês de metal oriental com elementos de death e progressivo. Fazem o que chamam de “metal étnico”, aliando o peso das guitarras com a beleza dos sons do norte da África.

Reprodução da capa do álbum (© Acyl)

Reprodução da capa do álbum (© Acyl)

Após um surpreendente mas pouco repercutido álbum de estreia, o Acyl surpreendeu a seus ainda poucos fãs com um segundo trabalho lançado sem muito alarde e sem muita divulgação prévia. Independente, o disco não foi acompanhado de comunicados para a imprensa, nem entrevistas e resenhas nos principais veículos especializados, nem sequer um vídeo promocional. Mas tem aquilo que mais interessa: música de alto nível.

A capa, que traz parte do rosto de um argelino qualquer coberto por uma máscara, simboliza, segundo a banda, “o peso das eras de história, tradição, valores, medos, conquistas, dúvidas e certezas. Uma máscara que o protege e o confina ao mesmo tempo”. As letras contam a história da Argélia a partir do ponto de vista de nove personagens históricos. Assim, a proposta de Aftermath é ser um grito de autoafirmação para uma nação que se viu inserida recentemente no contexto da Primavera Árabe, ainda que não tenha sofrido desdobramentos equivalentes aos da Líbia ou do Egito, por exemplo.

Musicalmente falando, Aftermath entrega uma lista de dez faixas que, em sua maioria, começam com passagens de música árabe e tribal em língua nativa e desembocam em death metal progressivo cantado em inglês, com riffs martelantes beirando o djent e guturais rasgados.

As exceções mais marcantes ficam por conta das duas últimas: “Equanimity”, lenta, sem percussão, sem elementos de metal, praticamente constituída somente de sopros e voz; e “Pride”, também acústica, mas mais acelerada e rica em densidade.

A banda poderia ter investido em uma variação estrutural maior, isto é, não fazer com que todas as faixas comecem acústicas e virem metal. Aplicar um pouco da ordem inversa não faria mal algum. Mas isto não compromete a qualidade geral do disco. Se você gosta de metal exótico, mergulhe sem medo no mundo do Acyl.

Nota = 8,5. Uma clara evolução quanto ao seu álbum anterior, Aftermath vale uma ouvida por headbangers em geral, independentemente da vertente favorita. A mistura bem definida de elementos árabes e africanos com heavy metal coloca o Acyl no mesmo patamar do Myrath, do Amaseffer e de outros nomes fortes do gênero.

Abaixo, a faixa “Gibraltar”:

Resenha: Metal Resistance – Babymetal

Breve histórico: sem dúvidas, um dos grupos mais improváveis que você vai conhecer em sua vida. Misturando power/death metal com música pop japonesa, mais especificamente a música dos típicos idol groups nipônicos, o Babymetal junta um trio de cantoras e dançarinas adolescentes com uma excelente banda de apoio.

Reprodução da capa do álbum (© Amuse Inc.)

Reprodução da capa do álbum (© Amuse Inc.)

O estrondoso sucesso comercial e de crítica do álbum de estreia autointitulado das Babymetal (resenhado neste blog), bem como o das subsequentes turnês, o que se soma ainda à aceitação que elas tiveram entre muitos headbangers e até entre grandes representantes do gênero cravaram o nome delas definitivamente na história do heavy metal.

Mas as meninas, que provavelmente estão fazendo o dono da agência delas sorrir de orelha a orelha, ainda haveriam de passar por uma prova mais: a da continuação. Seria um segundo lançamento capaz de manter o nível do primeiro? Ou ele patinaria numa tentativa de reproduzir uma fórmula já usada anteriormente? Nem uma coisa nem outra. Metal Resistance não está no mesmo nível de Babymetal, ele simplesmente está acima. Ele tampouco tenta copiar seu antecessor. As fórmulas se mantiveram, mas o disco claramente abraça novas influências sem medo de ser feliz.

A abertura “Road of Resistance” já “chega chegando” com a participação de dois músicos experientes na arte de driblar o choro dos tr00 666 from hell: Herman Li e Sam Totman, os guitarristas do sexteto britânico de power metal extremo DragonForce, cuja música quase-caricata é alvo de críticas dos maidendependentes. A mistura de duas das bandas mais inusitadas da atualidade deu mais certo do que poderia ser previsto.

A sequência “Karate” parece um recado pros haters. Tem uma clara influência metalcore – e o álbum vai além, explorando a variante electronicore de forma brilhante em “From Dusk Til Dawn”, com influências que nos remetem até aos momentos mais chatos do Coldplay, só que justamente sem a chatice.

“Awadama Fever” e “Yava!” recuperam o lado mais pop da banda, com riffs menos agressivos. A primeira parece até uma continuação de “Gimme Choko!!”, do trabalho anterior. “Amore” poderia servir de abertura para um anime qualquer, não fosse a instrumentação fritada à la DragonForce.

A surpreendente “Meta Taro” parece saída de um disco qualquer do Korpiklaani, com seus riffs galopantes, atmosfera viking e a bem-vinda inclusão de um acordeão na instrumentação. E aí (depois da já comentada “From Dusk Til Dawn”), vem “GJ!”, surpreendendo novamente com riffs metalcore/progressivos reminiscentes de Asking Alexandria, Circus Maximus e Leprous. O “mi-mi-mi-mi” proferido aos 26 segundos parece até uma indireta aos haters brasileiros.

“Sis. Anger” é uma das mais agressivas lançadas por elas, com riffs rápidos de thrash e blast beats bem nervosas intercaladas com passagens mais lentas e poderosas. Tudo isso logo antes de “No Rain, No Rainbow”, aquela baladinha básica para desacelerar um pouco o ritmo. Este tipo de música, quando feita por artistas japoneses, ganha um charme em particular, que só quem escuta B’z, GLAY e L’arc~en~ciel entende.

Fechando o álbum com chave de ouro, as surpreendentes “Tales of the Destinies” e “The One”. Progressivas e técnicas, a primeira mistura essas bandas novas da cena progressiva (Haken, Leprous, Withem, Prospekt, etc.); enquanto que a segunda parece saída do Images and Words, do quinteto estadunidense de metal progressivo Dream Theater. Um trabalho impecável na guitarra quase nos faz consultar o encarte à procura de John Petrucci na lista de convidados.

Por um lado, abandonar um pouco o lado pop tornou a música da banda mais acessível à comunidade do metal, mas ao mesmo tempo quase deu fim naquilo que as tornou tão distintas. Quase. Metal Resistance não tem mais aquele elemento de choque do Babymetal, ainda que tenha suas surpresas. Ele é mais um álbum de evolução, para mostrar que as meninas eram bem mais do que uma jogada de marketing (embora ainda o sejam). Elas amadureceram e abraçaram novas influências, diversificando seu som.

Nota = 9. Se o seu amigo hater não começar a gostar delas ouvindo este lançamento, não começará nunca mais. E digo mais: as Babymetal mostraram definitivamente que são um projeto “sério”, capaz de se comportar como uma banda “de verdade”, que evolui e busca a própria superação, apesar de todo o aspecto publicitário envolvido.

Abaixo, o vídeo de “Karate”:

Resenha: Babymetal – Babymetal

Breve histórico: sem dúvidas, um dos grupos mais improváveis que você vai conhecer em sua vida. Misturando power/death metal com música pop japonesa (J-Pop), mais especificamente a música dos típicos idol groups nipônicos, o Babymetal é um trio formado por garotas de seus 14 e 16 anos. Contando com uma banda de apoio de bastante peso, elas vêm conquistando fãs e shows lotados nos últimos meses. Parte disso se deve, é claro, ao fato de as integrantes já serem experientes no ramo da música e estarem sob as asas de uma grande agência de talentos. Mas é inegável que a qualidade e a excentricidade do som também ajudaram o trio a ascender rapidamente.

Reprodução da capa do álbum (© Toy's Factory)

Reprodução da capa do álbum (© Toy’s Factory)

Após quase dois anos com vários singles lançados, o trio Babymetal conquistou seu espaço e decidiu que era hora de lançar um álbum. Infelizmente para os fãs, o trabalho não traz quase nenhuma novidade. À exceção de três faixas inéditas, o disco é composto por singles e lados-B já lançados anteriormente. De qualquer forma, é importante do ponto de vista do marketing reunir os trabalhos todos em um único lançamento em vez de ficar só lançando músicas de vez em quando.

Poucos dias atrás, este que vos escreve resenhou o álbum mais recente do van Canto e teve o mesmo sentimento: “muitos vão xingar sem ouvir, porque foge do óbvio”. É fato que as Babymetal tiveram também uma recepção fria por parte de fãs que veem o metal como uma raça pura que não deve sofrer miscigenações. E o lançamento deste álbum não vai ajudar nada neste sentido. Ele existe por pura questão mercadológica, uma vez que quase todas as faixas já foram lançadas. Por que resenhar isto então? Porque it’s the music, stupid.

O álbum abre com “Babymetal Death” – introdução quase perfeita, não fosse pelo fato de o diferencial do grupo – o seu lado J-pop – estar quase totalmente ausente. As coisas ficam mais genuínas na sequência “Megitsune”, uma das melhores do grupo não só pela qualidade em si mas também por ser um perfeito cartão de visitas, onde os elementos de metal e pop estão igualmente divididos.

Em “Do・Ki・Do・Ki☆Morning”, ao contrário da abertura, a banda não se preocupou muito em mostrar seu lado metal, e a faixa acaba sendo um J-pop radiofônico como qualquer outro, com a adição de uns riffs mais pesados aqui e ali, só para justificar o nome do disco e do grupo. Já em “Ii ne!”, que nos primeiros dois minutos parecia seguir o mesmo caminho, o grupo faz uma espécie de “death breakdown” bem no estilo I See Stars que contrabalanceia os gêneros. Tão aí duas faixas perfeitas para abrir um anime qualquer que ouse abraçar riffs de metal. Outra faixa, aliás, que traz esses mesmos toques de I See Stars é “U.ki.U.ki★Midnight”, que também seria um ótimo cartão de visitas para o grupo.

“Benitsuki -Akatsuki-” poderia ser facilmente confundida com um cover de alguma música desconhecida de Helloween, Edguy ou Stratovarius. É praticamente uma música de power metal qualquer, mas na voz de uma japonesa de 15 anos.

“Onedari Daisakusen” é um ponto alto do disco com riffs meio progressivos aliados a sons típicos do Japão. “Catch Me If You Can” não traz os mesmos sons japoneses, mas o jogo de vocais, guturais e guitarras lembra algumas das melhores bandas daquele país, como Dir en grey e o finado guitarrista hide.

Fechando o disco, “Headbangeeeeerrrrr!!!!!” (sim, com todos os “es”, “erres” e pontos de exclamação), que poderia ser uma música metalinguística, mas na verdade parece falar do momento em que um garota faz 15 anos; e “Ijime, Dame, Zettai”, outra que poderia ser confundida com um cover de qualquer grande banda de power metal, e cuja letra fala de bullying. A mensagem é clichê e genérica, mas seria uma maneira interessante – e musicalmente positiva – de tratar do assunto em escolas. Apenas uma sugestão.

Quanto às três inéditas, temos “Gimme Choko!!”, uma das mais infantilizadas; “4 no Uta”, focada no instrumental e dona de alguns dos melhores riffs do álbum, com as vocalistas cantando pouco e sem muita variação de notas; e “Akumu no Rinbukyoku”, que faz as vezes de balada.

Este álbum causará impacto, pois, conforme dito acima, é uma combinação estranha e nova. A maioria dos metaleiros não está pronta para ouvir isso, muito menos para aprovar. Mas o grupo não está mais esperando pela aprovação deles, porque já está lotando shows, vendendo bem e figurando em paradas. De novo, não apenas por ter uma grande agência por trás, mas por ter realmente algo a mostrar.

Nota = 8,5. Excelente “estreia” (entre aspas, pois a maior parte das faixas já era conhecida) de um grupo realmente jovem. O único risco que corre é o de se tornar refém das lógicas de mercado, o que pode mudar seu som para pior ou então simplesmente por fim no grupo se seus empresários assim julgarem necessário. De qualquer forma, encerro aqui a resenha com uma verdade inconveniente para alguns: as Babymetal são mais headbangers que metade das bandas que temos por aí hoje.

Abaixo, o vídeo de “Megitsune”: